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Nosso Século XXI (1ª Ed.)

Integração exige
mais que eficiência

PAULO EUGÊNIO PEREIRA JÚNIOR - 05/07/2001

Verificando nossa história política e econômica, percebemos que os planos macroeconômicos do País (ou sua falta) sempre se fizeram sentir de forma mais rápida e crônica no Grande ABC. O pioneirismo industrial do início do século XX foi provocado pela política nacional de imigração de europeus que por aqui instalaram as primeiras fábricas de cerâmica, móveis e pedras, entre outras, e também imprimiram a cultura operária na região.

O plano nacional de desenvolvimento do presidente Juscelino Kubitschek do início da década de 50 trouxe para a região sua marca registrada: a indústria automobilística, impingindo nossa vocação industrial e causando impulso econômico com grande oferta de emprego, disputando bons profissionais e oferecendo melhores salários. Deu-se início, então, ao terceiro maior mercado consumidor do País.

Até mesmo no Regime Militar a região beneficiou-se economicamente, através do Plano Nacional de Metas, que trouxe para Capuava o Pólo Petroquímico de São Paulo. Percebe-se que, certo ou errado, não é essa a discussão, o Brasil sempre apresentou um plano nacional de desenvolvimento econômico, desde o Império e até o período de ditadura militar, afetando o desenvolvimento do Grande ABC.

Impacto imediato 

Até mesmo na falta de um projeto nacional o impacto é sentido imediatamente pois, com a abertura econômica irresponsável iniciada na década de 90, a substituição de produtos nacionais por importados provocou enorme desemprego conjuntural e, pior ainda, o desemprego estrutural, porque a indústria nacional, para manter-se competitiva no mercado, teve que se ajustar tecnologicamente, investindo, formando joint-ventures ou vendendo-se para grupos estrangeiros.

Atualmente, a clara opção governamental pela política econômica monetarista, combinada com uma política tributária perversa para a produção e agravada pela falta de investimentos em infra-estrutura (energia elétrica, água, logística…), aumenta a instabilidade socioeconômica da região. O Grande ABC atingiu índice recorde de desemprego em agosto de 1999, com taxa de 23,1% da População Economicamente Ativa, perfazendo 272 mil pessoas. O equivalente a população de São Caetano, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra juntas. O Grande ABC tem três municípios inteiros desempregados.

Mesmo no período de crescimento econômico, nas décadas de 50 a 70, o Grande ABC sofreu o impacto da migração. Atraída por empregos com bons salários, uma imensa população foi ocupando desordenadamente nosso território. Essa ocupação urbana, sem planejamento nenhum, é a responsável pelo alto custo de manutenção das cidades enchentes, deslizamentos, congestionamentos, favelas e pela saturação dos serviços públicos nas áreas sociais de saúde, educação e saneamento básico.

Migração e identidade

A invasão migratória também provocou falta de identidade regional. A população nascida na região tornou-se minoria por três gerações e, justamente agora, neste período de instabilidade e de reconstrução, é que temos uma geração, na maioria, de nascidos na própria região. Esse fato pode ser a explicação para a falta de auto-estima de grande parte da população. A idéia de ganhar dinheiro e voltar para a terra natal quando se aposentar ainda está na cabeça de muita gente.

A falta de identidade também é provocada por uma acefalia regional. As grandes corporações são dirigidas, na maioria dos casos, por paulistanos que trabalham no Grande ABC, mas vivem em São Paulo. Possuímos pouquíssimos pesquisadores científicos e artistas culturais de expressão nacional. A mídia televisiva, diferentemente da Baixada Santista e das regiões do Interior do Estado, não tem programação própria e quando fala da região é para mostrar desgraças ou violências. O fato de apresentar a região no aspecto negativo reduz ainda mais a auto-estima dos moradores.

É nessa convulsão social que a região produz sua outra marca: a de trabalhadores que se organizam para protestar por melhores condições de trabalho, salário e por emprego e, mais tarde, através de um partido político, para exigir saneamento, saúde, educação e moradia. Enfim, melhores condições de vida.

Política aquém da economia 

Politicamente a região não acompanhou as rápidas transformações econômicas ocorridas na década de 90. Independentemente de partidos políticos, restam ainda caudilhos e populistas disputando o poder político como se estivessem no início do século passado, mandando matar adversários políticos, prometendo absurdos e comprando votos de eleitores sem consciência política, sem emprego e com fome.

Talvez por esse motivo é que exista enorme distância entre o poder econômico do Grande ABC e o poder político do Pequeno ABC. Nunca elegemos quantidade equivalente de deputados estaduais e federais e nunca disputamos eleição com um senador ou governador que fosse de nossa região, muito embora possamos eleger um presidente da República que reside em São Bernardo.

Embora politicamente atravessemos período de transição, em que conceitos e visões de mundo estão sendo reestudados e refeitos numa nova ordem mundial, o Grande ABC tenta reorganizar-se em busca do desenvolvimento regional através de planejamento estratégico. A tentativa inovadora no País decorre da falta de política promotora do desenvolvimento do governo central, da crise enfrentada pela região e da maturidade política dos principais atores. 

União com fragilidades 

Ainda recente, essa frágil regionalidade institucional está sendo construída com empenho e dedicação de uns e descaso e omissão de outros. Reconhecidos os problemas e as dificuldades a serem superados, é consensual que sua existência é necessária, embora não seja suficiente, para resolver os problemas.

A reunião dos municípios em um Consórcio de Prefeitos e na Agência de Desenvolvimento Econômico não garante nossa sobrevivência. Se todos os dinossauros se juntassem em um só, ainda assim seria um enorme dinossauro, e seria extinto da mesma forma. É preciso buscar eficiência, reconhecer as diferenças e definir a vocação regional a partir da potencialidade de cada Município, e tratar desigualmente os desiguais na hora de agir com agilidade.

É necessário rediscutir a agenda nacional, principalmente a política tributária e fiscal. Não tem mais direitos sociais um cidadão de São Caetano do que um cidadão de Rio Grande da Serra. A distribuição da riqueza do País e do Estado, arrecadada através de impostos, deve ser feita com base na população do Município, não pela produção. Essa distribuição por homem é socialmente mais justa e resolveria diversos problemas, como a migração e a guerra fiscal. Não adianta a região discutir soluções para os problemas sem debater sua causa. Caso contrário, os problemas nunca terão fim.

É estratégico imprimir sentimento de orgulho ao cidadão do Grande ABC. Produzir e valorizar lideranças políticas, empreendedoras e culturais, além de projetar imagem positiva, são ferramentas subjetivas que não podem ser menosprezadas. Da mesma forma que as questões objetivas (infra-estrutura, cadeias produtivas, problemas sociais) devem ser incluídas no planejamento estratégico. Ficou demonstrado que no século XX a política macroeconômica interferiu permanentemente na região. Está na hora de inverter essa lógica. O Grande ABC pode, se quiser, intervir no destino da Nação. Quem não acredita, é só lembrar das mãos dadas para escrever democracia. Lembram-se?



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