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Nosso Século XXI (1ª Ed.)

ANA CLAUDIA MARQUES GOVATTO - 18/07/2001

Crise de identidade pode ser uma consequência, e também um motivo, de estagnação. O Grande ABC tem se deparado com inúmeros desafios e problemas, mas nada é tão voraz e perturbador quanto conviver com a baixa auto-estima. Esse estado da alma que afeta o físico, amplamente estudado pela medicina moderna, é o responsável por inúmeros males como a inércia, o entrave, a dificuldade de evoluir e se desenvolver e, por que não dizer, o responsável pelo atraso e o retrocesso. Pode-se utilizar esse macroentendimento da auto-estima dos seres humanos para analisar a auto-estima de uma localidade como o Grande ABC.

A técnica de comunicar, que também é arte e ciência, dispõe de metodologia de planejamento que se inicia com o diagnóstico, cujo objetivo é detectar problemas e oportunidades de uma marca quanto ao seu posicionamento de mercado. O Grande ABC pode ser visto (e valorizado) como uma marca, assim como os produtos e serviços que possui. Iniciando-se por um diagnóstico, que prevê a busca de informações do ponto de vista dos públicos internos (governos, classe empresarial, entidades representativas e habitantes), definem-se os objetivos a alcançar e as estratégias necessárias para atingi-los. São regras básicas de qualquer planejamento estratégico que contempla uma posição para determinada marca tornar-se competitiva.

O diagnóstico regional já foi amplamente elaborado, discutido e revisto. Atores diversos, líderes empresariais, políticos e sociais participaram e participam da discussão. Consultores de renome já se debruçaram sobre os problemas e apontaram possíveis soluções. 

Falta visão coletiva 

O que não nos falta é gente para opinar. Estamos carentes de uma visão realmente coletiva que nos aponte o melhor modelo de gestão para o composto institucional da região. A baixa auto-estima regional como consequência da perda de identidade ao longo dos anos 90 pode estar intimamente atrelada a uma história recheada de episódios desenvolvimentistas, porém caracterizados pela natural habilidade brasileira de aceitar o presente sem questionar o futuro, e a nossa realidade atual cercada por interesses individualistas.

A história do Grande ABC sinaliza características de sua identidade. Registros do governo do Estado de São Paulo dão conta de que a região foi habitada por oferecer geografia plana, por estar localizada próxima ao Oceano Atlântico e à Capital. Corredor de passagem do café no final do século XIX, os municípios do Grande ABC passaram a ser percebidos e habitados por empreendedores europeus. No começo do século XX, a história da indústria automobilística brasileira se confunde com a história regional, evidência sintetizada por uma frase de Henry Ford: O automóvel está destinado a fazer do Brasil uma grande nação”.

Holofotes na região 

As primeiras linhas de montagem e escritórios foram instalados na Capital do Estado e a partir da década de 30, aproximadamente, o Grande ABC passou a ser o depositário do parque industrial automotivo nacional. Localizada entre a Capital e o Litoral, a região passou a ser bom local para instalar unidade fabril. Com isso, os holofotes voltaram-se para cá. São Bernardo e São Caetano receberam destaque nacional, graças à instalação da Volkswagen e da General Motors.

Viramos o ABC Paulista. Estávamos na ponteira do desenvolvimento. O automóvel era, até então, a mola que impulsionava a economia nacional. Éramos importantes, à frente de nosso tempo, iniciando nossa vocação industrial. Resultante desse quadro desenvolvimentista, instalou-se o senso comum de região próspera, detentora do poder econômico com consequente poder político. Acontece que essa foi a miopia que não pudemos evitar. Descer do pedestal e começar de novo nem sempre é tarefa fácil.

Passamos toda nossa história deitados no berço esplêndido da industrialização e nos esquecemos de olhar um pouco mais adiante, na era pós-industrial, onde a informação é passaporte para o conhecimento. Mas, não é fácil praticar a futurição. Afinal, o futuro a Deus pertence, dizem os mais acomodados. Então, o ABC passou de potência a problema. A pobreza cresce, as diferenças sociais aumentam, a violência idem, o desemprego é desenfreado e a sociedade administra mais e mais problemas sem perspectiva de solução. Continuamos entre a Capital e o Litoral, só que agora, ao invés de oferecermos condições para geração de riquezas, oferecemos extensa paisagem de favelas.

Descida pouco animadora 

A descida ao Litoral proporciona aos viajantes um cenário urbano pouco animador. Por alguns quilômetros da Via Anchieta e da Rodovia dos Imigrantes é possível avistar uma pequena parcela de nosso empobrecimento também muito potencializado pela vinda de imigrantes — agora não mais empreendedores europeus — que ainda acham que viver na grande cidade é melhor do que enfrentar a seca do Nordeste. E é. Ainda damos esperanças àqueles que sofrem mais que os moradores de centros urbanos, como é o nosso caso.

Essa contribuição importada de outras cidades só reforça as diferenças sociais e aumenta a violência, uma realidade dura que tem preocupado e mobilizado, mesmo que timidamente, lideranças regionais e formadores de opinião. Os protagonistas regionais ainda parecem poucos para resolver essa equação. Há necessidade de mobilização a fim de arrebanhar a grande massa populacional que se encontra excluída da discussão. A essa parte dos moradores hoje cabe, apenas, reclamar daquilo que tem sofrido nos últimos anos ou mobilizar-se em pequenos grupos que dão ou recebem ajuda dos mais solidários e conscientes.

Ainda não conseguimos resolver a equação comunicacional que consiste em como alcançar eficientemente todos os públicos com eficácia e rapidez. Temos poucos meios convencionais de comunicação, basicamente os veículos impressos, que atingem pequena parcela da classe média. Se revolucionar só é possível se houver mobilização das diversas esferas sociais, então há de se buscar mecanismos que facilitem o processo de comunicação, entendendo que a comunicação é ferramenta imprescindível de obtenção de comprometimento, engajamento, consentimento e aceitação de proposta de resgate da auto-estima do Grande ABC.

Esforço redobrado 

Não se pode desprezar, tampouco negar, que há um cenário expondo todos os tipos de problemas e que a mobilização regional, inicialmente protagonizada por iniciativas como Fórum da Cidadania, Consórcio Intermunicipal, Câmara Regional e Agência de Desenvolvimento, tem exigido esforço redobrado da sociedade. Não se trata de um caso típico da instalação premeditada do caos, mas sim de situação insustentável, pelo menos para aqueles que ainda acreditam que as coisas podem ser mudadas — ou até que façamos como os pássaros que no tenebroso inverno migram para regiões mais quentes.

O Grande ABC precisa se reposicionar, encontrar seu novo espaço no País — e por que não dizer no mundo –, entendendo que a economia mundial e as relações humanas sofreram alterações radicais e significativas ao longo dos últimos anos. É imprescindível envolver o público interno que está agrupado em diversas esferas, a fim de elevar a auto-estima coletiva. Daí partir para a busca da aceitação do público externo — formado por investidores, turistas, empreendedores e tantos outros que nos são interessantes — é uma consequência natural do planejamento estratégico.

Todo planejamento é um exercício de possibilidades, o que o torna algo bastante incerto. O grande desafio da região está em abandonar os interesses diversos e individualistas e planejar conjunto de ações sociais, econômicas e políticas que sirvam como alavanca de desenvolvimento. Ao contrário de uma empresa que possui hierarquia e sistemas de gestão, uma região depende mais de consenso do que de normatização. Elaborar, implementar e controlar um planejamento estratégico regional requer perseverança e visão dos atores do Poder Público, da iniciativa privada, das entidades representativas e da sociedade civil.

Caminho a ser trilhado 

O planejamento, tendo como premissa o diagnóstico, permitirá à região tomar decisões quanto ao tipo e origem de investimentos que se almeja, que públicos devem ser estimulados, o que deve ser mantido e o que deve ser abandonado. Enfim, qual o caminho a ser trilhado. Até esse ponto trata-se única e exclusivamente do ajuste do produto regional, de seus valores tangíveis e canais de escoamento.

A auto-estima regional depende desse planejamento para sair do coma em que está. Tão necessário quanto isso é o reposicionamento da imagem da região, interna e externamente, para que se possa agregar valores intangíveis, porém imprescindíveis para se obter resposta favorável da opinião pública.

No caminho inverso, temos hoje espaço garantido nos meios de comunicação, muitas vezes exercendo o papel de algozes da identidade regional, que repercutem para todos os cantos do País nossos pontos mais negativos. Represa poluída, terras contaminadas por lixo tóxico, desemprego, favelas que parecem maiores do que os municípios que as abrigam, enfim, estamos expondo o que temos de pior. Nós mesmos estamos sendo contaminados pelo nosso vírus destruidor. 

Administração da imagem 

A imagem é um determinante básico da forma como os cidadãos e os negócios reagem a um lugar. Consequentemente, a região precisa administrar sua imagem, o que requer gestão estratégica que priorize quatro pontos fundamentais: 

 O que determinará a imagem será a soma de crenças, idéias e impressões que as pessoas têm sobre a região. As imagens apresentam-se como simplificação de várias associações e informações ligadas ao Grande ABC. São produtos de uma mente que tenta processar e extrair a essência de uma série de dados sobre a região. É necessário considerar as diferenças que existem entre uma imagem e um estereótipo. Um estereótipo sugere uma imagem amplamente difundida que é bastante distorcida e simplista e que pode provocar atitude favorável ou desfavorável em relação ao Grande ABC. Uma imagem, por sua vez, é uma opinião que varia de indivíduo para indivíduo e que pode ser construída desde que de maneira responsável. Um bom exemplo disso é a forma como se referem à região na região e como se referem fora da região. Somos o G-R-A-N-D-E ABC para o Grande ABC — talvez a palavra grande como sinônimo de forte — e para outras localidades e públicos somos o ABC Paulista, talvez Paulista como sinônimo de mero membro do Estado. Se o nome adotado internamente é Grande ABC, por que a região ainda é chamada de ABC Paulista? Longe de ser um simples nome, a forma como a região é chamada pode ser indício de uma imagem construída no passado que continua viva no presente. 

 Para medir a imagem da região deve-se selecionar os públicos cujas percepções sejam de interesse para o desenvolvimento das sete cidades, que de uma maneira genérica podem ser classificados como moradores, visitantes, empresas, empreendedores, investidores e compradores. Procurar ouvir o que eles pensam é fundamental nessa fase. 

Imagem da realidade 

Alguns caminhos precisam ser percorridos na elaboração de uma imagem e obter algum efeito: a imagem deve refletir necessariamente a realidade. Não há produto ruim que se sustente por muito tempo apenas apoiando-se na comunicação. 

 Dedicar tempo adequado para o convencimento dos públicos, sedimentar o conceito de credibilidade, além dos conceitos de venda. 

 Sugerir que se goste da região pelo que ela é (valorização do sentimento pela terra). 

 Diferenciar sua imagem de qualquer outra cidade ou região como resultado de uma postura assertiva. Condutora da imagem regional, a comunicação possui diversas ferramentas que estão disponíveis, bastando a compreensão de que por si só não produzirão resultados satisfatórios nem tampouco válidos. Há de se criar, também, outros canais de comunicação, principalmente populares, com capacidade de cobertura mais ampla. A maioria da população tem muito mais acesso às informações sobre a Capital do Estado do que do Grande ABC. 

 Criação de atendimento personalizado — definição do porta-voz e distribuidor de demanda, inclusive o emprego de pessoas altamente capacitadas para esse fim. É importante dar autonomia para que o órgão de representação regional possa assumir seu caráter empreendedor e articulador.

Planejamento de comunicação 

Com certeza, o planejamento de comunicação regional será instrumento de suma importância no processo de transmissão dos princípios e filosofia para os públicos. Comunicação social é uma atividade que se depara com diversas situações subjetivas. A própria constituição de uma imagem regional é um grande desafio, já que nessa área lida-se com impressões, sensações, sentimentos e outros fatores puramente emocionais.

Quando estabelecemos que o princípio da atividade regional é a postura unificada dos municípios, alguns questionamentos, próprios da atividade de comunicação social, começam a ganhar respostas. O importante é ter princípios e objetivos bem definidos que visem a comunicação coesa entre as partes envolvidas e, mais do isso, que possam direcionar toda e qualquer atividade do Grande ABC, reservando a cada Município sua autonomia.

No campo econômico algumas são as vantagens da construção de uma marca regional: 

 Incremento da competitividade — há crescente valorização das cidades e regiões que se comprometem socialmente visando a melhoria da qualidade de vida da população. Qualidade de vida é, antes de tudo, fator de grande competitividade de qualquer lugar. Atender às necessidades e expectativas do público interno sempre deve vir antes do atendimento às necessidades e expectativas do público externo. O público interno é vendedor potencial da região. Para isso, precisa ser valorizado, muito valorizado em suas qualidades. 

 Exposição positiva das características naturais e de infra-estrutura — a opinião pública tende a prestigiar localidades fazendo turismo de lazer ou negócios. 

 Fortalecimento do desempenho financeiro — o aumento da aceitação de marca contribui diretamente para a elevação da arrecadação de impostos oriundos da instalação de novas empresas. 

 Maior resistência às mudanças econômicas — enfrentamento das diversidades de maneira mais assertiva.

Entrave regional 

Alguns fatores inviabilizam o planejamento regional de comunicação, como a oferta de um produto ruim e pouco atrativo em seus aspectos físicos e a falta de união entre os municípios. Talvez esse último seja o maior entrave regional de hoje que precisa ser olhado de frente, sem cortinas de fumaça, egocentrismo ou cordialidade excessiva. O que foi apontado até aqui poderá nunca ser implementado caso se continue a insistir na manutenção de um falso sentimento coletivo e de uma equivocada unidade entre os municípios.

O Grande ABC não é unido como pensamos. Vislumbramos uma região, mas nossa atitude é municipalizada, interiorizada. Preserva-se exageradamente as fronteiras sob alegação de que a competitividade precisa ser mantida. Ora, competitividade é antes de tudo agregar valores tangíveis e intangíveis ao produto regional. Competitividade não é emperrar processos com o objetivo de atrasar o desenvolvimento de outros.

Dessa forma, a região não é e nunca será uma região propriamente dita. Confunde-se muito o que são questões públicas com o que são questões políticas e desenvolvimento econômico é público, assim como o desenvolvimento social. Não se pode achar que sozinhos, sob a falsa bandeira do coletivo, os municípios serão capazes de desenvolver-se competitivamente. Ou então, talvez fosse melhor assumirmos a individualidade abandonando de vez o aparente caráter regional de nossos atos.

Evidência de ABC Paulista 

É tão evidente que o Grande ABC não é uma região em sua essência que fora do limites dos municípios não há região do Grande ABC, há ABC Paulista que se resume a três cidades — Santo André, São Bernardo e São Caetano — o que deixa claro que não há percepção de união porque não há união. Reflexões estimuladas por essa evidente realidade regional podem levar a pontos que certamente irão exigir decisões firmes, mas com vistas para a transformação: 

 Uma proposta de regionalização seria saída viável para os problemas estruturais e institucionais do Grande ABC? E, se viável, há a possibilidade de real e concreta integração entre os sete municípios? 

 Supondo que a regionalização (verdadeira) não seja possível dada a necessidade de autonomia plena dos municípios, tanto econômica quanto política, não seria uma boa solução para todos assumir postura pró-ativa sem insistir na unidade? Entendendo que a individualidade existe e está mais forte do que nunca, os sete municípios não poderiam ser bons vizinhos sem a preocupação com a integração total? 

 A auto-estima do Grande ABC depende diretamente do que a região é de verdade, sem hipocrisias nem tampouco miopia. Só se preocupa com o futuro quem está comprometido com esse mesmo futuro. Quem está só de passagem, ou à margem dos acontecimentos, tem o privilégio de apenas observar. Se o Grande ABC escolheu o caminho da real regionalização, então necessita urgentemente de uma direção executiva capaz de conduzir o processo de desenvolvimento com competência administrativa, muito semelhante ao que vemos no setor empresarial. E que essa gestão corporativa seja capaz de criar sinergia entre políticas públicas, mercado e promoção social sem ter que se deparar a todo momento com entraves.

A região precisa de líderes com capacidade para assumir a tarefa de revolucionar a forma de ser do público interno e de enxergar o desenvolvimento que tanto necessitamos. E que seja urgente, porque ainda há tempo para fazer do ABC Paulista um Grande ABC.



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