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Meias Verdades

Nova Vera Cruz, seis
anos de encenação

DANIEL LIMA - 01/04/2003

As instalações da Companhia Cinematográfica Vera Cruz, inaugurada em 1949 e falida em 1954, terão uma cidade cenográfica nos fundos dos estúdios principais (A e B). A informação é do coordenador de audiovisual da TV Cultura, Ivan Ísola, que prevê para o local a produção de filmes nacionais, programas de TV e, em períodos ociosos, a locação para companhias do exterior. Ao lado da Prefeitura de São Bernardo e do governo estadual, a TV Cultura forma a trinca de parceiros do projeto.

O governador Mário Covas, o prefeito de São Bernardo, Maurício Soares, e o presidente da Fundação Padre Anchieta (TV Cultura), Jorge da Cunha Lima, assinaram na noite de ontem o convênio que oficializa a parceria do Projeto Nova Vera Cruz. A cerimônia, nos pavilhões A e B da Cia. Vera Cruz, em São Bernardo, reuniu cerca de 2,5 mil pessoas. “Agora é luz, câmera e ação”, afirmou o governador.

A festa, ao melhor estilo anos 50, foi prestigiada por cineastas, produtores, atores, empresários e políticos. Na opinião de Cunha Lima, a presença dessas pessoas, “sobretudo os profissionais de cinema e televisão, significa um formidável voto de confiança no futuro do projeto”. “A Nova Vera Cruz é, sem dúvida, o fato mais importante do cinema brasileiro neste final de século”, concluiu.

O projeto Vera Cruz gerou mais uma reunião na tarde de ontem, na Prefeitura de São Bernardo. Além do prefeito Maurício Soares, estiveram presentes o secretário municipal de Educação e Cultura, Admir Ferro; o coordenador de audiovisual da Fundação Padre Anchieta (TV Cultura), Ivan Ísola; e o secretário estadual de Cultura, Marcos Mendonça.

Mendonça e Ísola estiveram na região para anunciar que o edital da concorrência que definirá as empresas responsáveis pela primeira fase de obras deverá estar pronto até o fim deste mês.

“Tenho certeza de que, quando os empresários se conscientizarem da importância do projeto e dos benefícios que suas empresas poderão ter por meio da Lei Rouanet, a participação será intensa”, declarou o representante da TV Cultura.

Firmado em novembro de 1997, o convênio que institui a Nova Vera Cruz já foi apresentado a representantes da Volkswagen.

Com a assinatura do contrato entre o consórcio vencedor da licitação e a Fundação Padre Anchieta para a reforma da Cia. Vera Cruz, em cerimônia realizada às 12h15 de ontem, em São Bernardo, fica superada a última etapa burocrática do projeto que prevê a retomada da produção cinematográfica, escola de formação de mão-de-obra e construção de um centro cultural de uso público.

Esqueça boa parte do que você conhece sobre cinema. Pelo menos de cinema brasileiro, que ainda improvisa imagens externas de imensos cenários, faz tomadas em galpões que nada lembram os fantásticos estúdios de Hollywood, usa canhões de luz que se assemelham a jurássicos holofotes e ainda empacota tudo em latas e latas de filmes. Esqueça sobretudo a pós-produção cinematográfica, com demoradas etapas de montagem, sonorização e copiagem feitas de forma isolada, muitas vezes em laboratórios distintos e com equipamentos nem sempre compatíveis. Particularmente na pós-produção, uma revolução está acontecendo a partir da tecnologia digital.

Guarde bem este nome: Babelsberg. É na experiência desse complexo cultural alemão, alicerçado como moderna linha de produção em série de tudo o que se faz hoje em som e imagem, que a Nova Vera Cruz pretende se mirar. Ao completar neste 4 de novembro 50 anos de fundação, a Companhia Cinematográfica Vera Cruz está rebatizada de Projeto Nova Vera Cruz com intuito de tirar a sétima arte nacional definitivamente do limbo e dar-lhe roupagem empresarial que siga modelo de eficiência. Isso significa grande escala de produção, o que otimiza custos e barateia preços, além de produtividade superlativa com adoção de tecnologias de vanguarda.

A produção audiovisual no mundo passa pela chamada revolução fototônica — assim definidas as transformações com a chegada de tecnologias digitais para captar, reproduzir e editar imagens e sons. Esse conceito também exprime a nova síntese que incorpora computador, telefone e TV como meios de difusão. Isso permite prever que em breve a imagem digitalizada poderá ser transmitida por satélite e ser vista em telas de cristal líquido de salas de cinema, do computador via Internet, da televisão de casa e — pasmem — do mostrador do tamanho de um relógio, entre outras janelas de veiculação.

Seria a versão 3001 de Uma Odisséia no Espaço? O futuro não está tão distante e o produto filme — cinematográfico ou televisivo — já se tornou commodity valorizadíssima. “A grande compactação dos equipamentos nos levou à revolução digital. É possível jogar todas as imagens em computadores e trabalhar infinidade de efeitos visuais e sonoros para um acabamento técnico perfeito. Pode-se multiplicar cenários e uma tomada com cinco mil figurantes, por exemplo, em uma cena com 50 mil pessoas. Depois, jogar tudo isso na hipermídia que se está criando com a junção de todos os meios de comunicação” — empolga-se o coordenador de audiovisual da TV Cultura, Ivan Ísola. A TV Cultura faz parte da Fundação Padre Anchieta, entidade de direito privado mantida pelo Estado de São Paulo e uma das pernas de apoio da Nova Vera Cruz ao lado da Prefeitura de São Bernardo e da Secretaria Estadual da Cultura.

Arte e lucro não são excludentes, pelo menos na indústria do audiovisual, afiança Ivan Ísola após conhecer recentemente a experiência que vem sendo testada há dois anos com a privatização do Studio Babelsberg e que coincide com a fórmula que se pretende pôr em prática na Nova Vera Cruz. A paixão pela arte na sua essência, que caracterizou o romantismo de produções muitas vezes perdulárias dos 18 longa-metragens rodados na fugaz história do maior estúdio de cinema da América do Sul, pode ser ressuscitada com uma utilidade também comercial. “A Nova Vera Cruz é projeto para dar lucro institucional e financeiro também” — afirma Ísola.

Será um espaço plural, idealizado a partir do avanço assombroso da tecnologia: produção própria ou em parceria de programas televisivos e de curtas e longas metragens, locação de espaços para filmagens, montagem própria ou terceirizada de documentários, filmes institucionais e publicitários, laboratórios de efeitos especiais com técnicas para remixagem de fitas, músicas e dublagem, colorização de fotos e imagens, estúdio para produção de histórias em quadrinhos, uma cidade cenográfica e um parque temático, além de centro cultural com teatro, cinema, área de convivência e para exposições culturais.

Pela experiência dos estúdios de Babelsberg, nada impede que um patrimônio cultural tenha atividade comercial e se torne ponto de atração de investimentos públicos e privados. Na paisagem da antiga Vera Cruz de São Bernardo não vão surgir apenas estúdios reformados, mas um complexo cultural que ofereça combinação de produtos que correspondam ao mercado. A idéia é mudar a mão de direção da clássica atitude de patrocinadora ou apoiadora cultural da iniciativa privada, para que assuma o papel de sócia-investidora. “Não quero ser visto como vendedor de incentivos fiscais para a cultura. Quero trazer parceiros que coloquem dinheiro aqui para uso próprio. Pode ser um operador multimídia que queira utilizar serviços de sonorização ou podem ser co-produtores dos audiovisuais que faremos. Quero empresas associadas aos projetos, que vão ganhar conforme a bilheteria dos cinemas e da venda para canais de TV e distribuidoras de vídeo” — expõe Ísola. Como o modelo de incentivo cultural no Brasil é limitado — e para muitas empresas está esgotado —, a Nova Vera Cruz vai partir para esquema gerencial, isto é, trazer organizações privadas para também administrar e usar os novos espaços.

“O Estado não precisa de uma locadora de equipamentos nem de um laboratório de revelação, copiagem e digitalização, que podem ser disponibilizados pela livre iniciativa” — exemplifica o coordenador da Nova Vera Cruz.

Como sensibilizar o empresário brasileiro numa parte tão sensível, o caixa, para dividir a conta de obras audiovisuais com o governo? Mostrando que produções culturais e artísticas são investimentos que voltam, e não meras despesas que podem ser abatidas no Imposto de Renda — responde Ivan Ísola. “Os asiáticos faturam US$ 1 bilhão só com desenhos do tipo Pokemon. Será que não podemos ter uma fatia disso?” — desafia ele sobre a possibilidade de a Nova Vera Cruz explorar vigorosamente o cinema de animação.

A dobradinha televisão-cinema, aliás, é o grande alicerce sobre o qual a Nova Vera Cruz pretende atuar em escala industrial. Na Europa, o crescimento da televisão é considerado a força motriz para a indústria cinematográfica, como mostra o Canal Plus, e é nisso que a TV Cultura-Vera Cruz aposta. A Cultura já passa por processo de digitalização da TV e implantação da TV de alta definição. A partir de 2000 terá câmaras digitais com resolução compatível com a do cinema. Isso permite transferir o produto digital para o filme quando este filme for distribuído para os cinemas convencionais. A televisão analógica tem data prevista para acabar: 2005.

Assim que concluídos, os dois galpões principais da Vera Cruz se transformarão nos estúdios da TV Cultura, que na parceria com a Prefeitura de São Bernardo ganhou o direito de explorar o local por 20 anos. Os equipamentos estão sendo dimensionados para que sejam realizados pelo menos 30 longas-metragens por ano, além de outros produtos que não filmes de ficção, como comerciais, institucionais, programas de TV, curtas e médias-metragens, entre outros, por meio de produção própria ou de locação de espaços para outras companhias. Ao fundo dos estúdios será montada uma cidade cenográfica para complementar a capacidade de produção de filmes. A área total soma 43 mil metros quadrados — onde estão dois estúdios de 2.720 metros quadrados e pé direito de 14 metros.

Além desse público cinéfilo por enquanto adormecido, Ivan Ísola tem os olhos postos sobre a movimentação de empregos e giro de riquezas que o complexo da Vera Cruz proporcionará. “Imagine o que poderemos mobilizar no Grande ABC em profissões como atores, iluminadores, figurinistas, marceneiros, motoristas e técnicos de informática, além de serviços de apoio como rede hoteleira, restaurantes e agentes de turismo?” — diz Ísola a favor da Nova Vera Cruz.

No perfil empresarial que se pretende dar à Nova Vera Cruz constam a instalação do Escritório de Cinema de São Paulo e a montagem do Ceac (Centro Experimental Alberto Cavalcanti), escola de cinema batizada com o nome do idealizador da estrutura técnica dos antigos estúdios. O Ceac vai formar e reciclar técnicos de imagem e som com base nas novas tecnologias do mundo audiovisual. E não apenas para consumo dos novos estúdios. Poderá inclusive vender cursos, produtos e sub-produtos de suas atividades ou prestar serviços. Já o Escritório de Cinema se espelha nas film-comissions existentes no Exterior, por intermédio das quais se divulga e se apóia a produção audiovisual. É uma espécie de comitê de empresários, governos, sindicatos e representantes de negócios voltados ao turismo e ao meio artístico que pode tanto captar recursos financeiros como facilitar a realização operacional das obras.

O Escritório de Cinema de São Paulo será constituído a partir de decreto governamental. Entre as hipóteses de trabalho consta montá-lo na sede da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado), que também seria convidada a entrar com R$ 5 milhões por ano na estrutura do PIC-TV. Já a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa), da Secretaria Estadual de Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico, vai ser contatada para auxiliar na montagem e consultoria da escola de cinema Alberto Cavalcanti. A Nova Vera Cruz também pretende buscar a experiência do Sebrae (Serviço de Apoio à Micro e Pequena Empresa) para dar mão forte às empresas de tecnologia e de suporte das atividades dos estúdios, segundo Ísola.

As reformas dos galpões da Vera Cruz estão orçadas em R$ 17,7 milhões. Outros R$ 15 milhões são previstos para equipar os estúdios A e B, onde serão produzidos filmes e séries televisivas. Para as obras civis, sob responsabilidade do consórcio construtor Triunfo-Necso-Construtécnica, o governo do Estado de São Paulo empenhou R$ 5 milhões e a Volkswagen do Brasil está entrando com R$ 500 mil na montagem do Centro Cultural, que ocupará o terceiro estúdio. Os R$ 12 milhões restantes estão aprovados por meio da Lei Rouanet, de incentivo à cultura.

As obras do centro cultural previsto no projeto Nova Vera Cruz serão retomadas em setembro, com previsão de conclusão em agosto de 2001. O Governo do Estado destinou verba de R$ 3,3 milhões do Tesouro Estadual para a conclusão das obras, completamente paralisadas há três meses. A verba será repassada em oito parcelas, completando assim os R$ 5 milhões previstos no orçamento.

 Trecho de matéria da Gazeta Mercantil de 24 de abril de 2001, “Novo estúdio da Vera Cruz retomará produção de cinema”:

As obras de revitalização do pavilhão Vera Cruz, que foram retomadas em novembro do ano passado, tiveram seu ritmo acelerado e devem estar concluídas até o final deste ano. A informação é do secretário de Educação e Cultura de São Bernardo, Admir Ferro.

Mesmo com as obras do centro cultural da Cia. Cinematográfica Vera Cruz em São Bernardo retomadas, a conclusão do projeto Nova Vera Cruz vive um impasse. O governo do Estado de São Paulo anunciou o fim do PIC-TV (Programa de Integração Cinema e Televisão) da Fundação Padre Anchieta (TV Cultura), ao qual estava subordinado o projeto de retomada da produção de cinema e TV na antiga companhia de cinema.

O Grupo Santander Banespa e a Scania Latin América têm interesse em contribuir com recursos para o projeto de revitalização do Pavilhão Vera Cruz, no Jardim do Mar, em São Bernardo. A afirmação é do prefeito Maurício Soares (PSDB), que, a convite do governador Geraldo Alckmin (PSDB), participou ontem de reunião com 13 empresários no Palácio dos Bandeirantes.

Executivos da Volkswagen, Mercedes-Benz, Eletropaulo e Unisys também foram ao Palácio, declarou o prefeito, que ainda precisa de R$ 21 milhões para completar a obra, orçada em R$ 26 milhões. Do total, Maurício declarou já ter obtido R$ 5 milhões do Estado e R$ 500 mil da Volks.

O projeto Nova Vera Cruz ganha uma injeção de ânimo com a entrada de R$ 3,5 milhões. O dinheiro virá do Banespa em contrapartida ao ganho da concorrência para gerenciar a movimentação financeira da Prefeitura de São Bernardo pelos próximos cinco anos. A verba será usada na conclusão do Centro Cultural, cujas obras estão paralisadas desde outubro do ano passado.

A Cia. Cinematográfica Vera Cruz pode terminar em mãos de produtores de cinema de Los Angeles em 2003. Já circula na Prefeitura de São Bernardo a hipótese e se retomar a posse do complexo de estúdios e dar um novo rumo ao projeto Nova Vera Cruz caso o convênio firmado com a Secretaria de Estado da Cultura e a Fundação Padre Anchieta chegue mesmo ao fim.

Uma nova Companhia Cinematográfica Vera Cruz pode ressurgir no Brasil com know-how vindo de Hollywood. Produtores e empresários do cinema norte-americano reunidos no fim de semana passado na AFM (American Film Market), em Los Angeles, ouviram uma explanação sobre a opção de filmar no país. O Brasil atrai pela relação cambial entre real e dólar, que atualmente resulta no barateamento da produção em quatro vezes, e pela diminuta burocracia para filmar.

A opção Brasil para Hollywood está sendo divulgada por Jay Bernstein, relações públicas, produtor de séries e filmes para a TV norte-americana e manager da carreira de estrelas como Farrah Fawcett e Suzanne Sommers. A marca Vera Cruz está com pedido de registro comunicado no INPI (Instituto Nacional da Propriedade Industrial) desde 10 de outubro do ano passado. Isso em nome do empresário Maurício Andreani, da Cash do Brasil, sediada em São Bernardo.

“Eles vieram até mim e fiquei impressionado com o projeto. Só estou esperando começar. Seria uma honra e um desafio excitante”, afirmou Bernstein em entrevista ao Diário, por telefone. Bernstein está empolgado com a possível parceria com os brasileiros: “No AFM, tive 65 encontros com produtores e empresários. Doze companhias, com roteiros prontos, já estão dispostas a filmar no Brasil. Nós podemos produzir melhor no Brasil do que em outros lugares”.

O projeto Nova Vera Cruz terminou. O governador Geraldo Alckmin não pretende dar continuidade ao convênio firmado em 1998 entre São Bernardo, Estado e Fundação Padre Anchieta para reconstruir os estúdios da Cia. Vera Cruz. Ele afirmou sua posição semanas atrás ao ex-prefeito de São Bernardo, Maurício Soares. “Alckmin disse que não compensa, fica muito caro, que o governo dele tem outras prioridades. Então, o convênio está para ser desfeito”, afirmou Soares.

Agora a Prefeitura aguarda a devolução da área onde estão os estúdios, cedida — conforme previsto no convênio — para uso do Estado. “O município retoma o imóvel e vai dar a ele uma destinação que ainda não sei qual será”, afirmou Soares. A principal proposta é a cessão da área a produtores de cinema e TV de Hollywood.

O antigo sítio de Francisco Cicilio Matarazzo Sobrinho, em São Bernardo, onde se criavam galinhas, continua fazendo muita história. Mesmo depois de viver cinco breves anos de glória, entre 1949 e 1954, a Vera Cruz insiste em manter-se nas manchetes. Ironicamente, transformou-se num drama. Ou não seria uma tragicomédia?

Os últimos cinco anos da Vera Cruz foram arrastados. A parceria tripartite que parecia retirar São Bernardo e o Grande ABC do estigmatizante gueto do operariado rebelde comandado por Lula da Silva, agora presidente da República, desvaneceu numa nota de rodapé de jornal.

Mas não é uma morte qualquer, dessas que basta cuidar dos sete palmos abaixo da terra para que tudo se resolva. A Vera Cruz grandiosamente anunciada há cinco anos e que fez o então governador do Estado, Mário Covas, estufar o peito e aclamar para a Imprensa um velho bordão cinematográfico — Luz, câmera, ação — essa já se foi na esteira da falta de patrocinadores, da escassez de dinheiro público e também da teimosa introspecção regional.

Agora, como se a Vera Cruz fosse fadada a viver eternamente a virtualidade de um novo ato, de uma nova trama, de um novo efeito especial, de um novo capítulo, surgem supostos produtores norte-americanos a deitar os olhos sobre suas estruturas antigas, quase em ruínas, exceto o centro cultural com obras paradas.

Fosse o Grande ABC diferente da imagem externa que o mantém distante da cosmopolita e vizinha Capital, a nova debacle da Companhia Vera Cruz não teria tratamento de enterro de quinta categoria. Afinal, a reconstituição da história, depois de meio século de orfandade, poderia significar muito mais que a retomada de uma marca internacionalmente famosa.

Ter a Vera Cruz de volta, nas condições técnico-operacionais planejadas, significaria a instalação do Grande ABC num patamar de referência intelectual que os braços dos operários jamais conseguiram. Mesmo dos revolucionários metalúrgicos de Lula da Silva.

Ter a Vera Cruz como espaço centralizador, difusor e irradiador de multiproduções culturais, como detalhou Ivan Ísola na Reportagem de Capa de LIVRE MERCADO, significaria sim a redenção da auto-estima regional para o público externo, principalmente. Sim, porque por mais que se tente dourar a pílula, o Grande ABC é conhecido no País como território inóspito à criatividade, à inteligência culta, à engenhosidade cerebral. Se não bastasse a rudeza do próprio movimento sindical a consolidar essa etiquetagem, a vitória eleitoral de Lula da Silva e os debates que cercam sua biografia de ex-metalúrgico sem diploma universitário realçam ainda mais a discriminação a uma região pródiga em apertar parafusos, segundo os conceitos mais atávicos que ainda não perceberam as transfusões tecnológicas nos chãos de fábricas.

A iniciativa do então prefeito Maurício Soares, também preocupado em acrescentar particularmente a São Bernardo a logomarca da inventividade e da modernidade, é uma parte do enredo que não pode ser confundida com o resultado final. O erro não está no diagnóstico nem nas receitas formuladas, mas na pretendida execução. Provavelmente a morte do governador Mário Covas e, antes disso, a retirada e posterior volta de Maurício Soares ao PSDB governista colaboraram intensamente para o atraso do cronograma e, na sequência, sua desativação.

Nem se pode dizer do prefeito Maurício Soares que tenha faltado empenho. Exemplo de que ele foi à luta e, como um produtor hollywoodiano, fez das tripas coração para mudar um enredo que parecia inexorável: arranjou parte do dinheiro necessário para financiar as obras do centro cultural cobrando espécie de pedágio à instituição financeira que ganhou a concorrência para trabalhar com os recursos da Prefeitura que, como se sabe, significam lucros certos na ciranda dos bancos.

A responsabilidade pelo fracasso da Nova Vera Cruz em São Bernardo está centralizada em algo praticamente esquecido durante toda a trajetória dos últimos cinco anos: a sociedade regional — sobretudo os formadores de opinião e os intelectuais mais proeminentes, se assim podem ser chamados os produtores de cultura — simplesmente não vestiu as cores locais. Da mesma forma que Cicilio Matarazzo resolveu transformar seu sítio de galinhas barulhentas em estúdios de cinema inaugurados com Tico Tico no Fubá e O Cangaceiro sem que tivesse qualquer inserção municipal ou regional, o projeto Nova Vera Cruz se desfez porque a massa crítica regional manteve-se solenemente à margem.

Provavelmente o sucesso da Nova Vera Cruz pudesse até induzir a idéia de que fervilha intelectualidade no Grande ABC. É possível que a imagem externa da região, sempre alinhada a parafusos, graxa e greves, sofresse importante reviravolta com a Nova Vera Cruz ilustrada por Ivan Ísola. Quem sabe até por causa de São Bernardo o Grande ABC periférico e gataborralheresco se transformasse, à luz reducionista dos críticos de arte, num novo centro de glamour do País. Tudo isso é possível, sim, quando a mídia tem por tradição tomar a parte pelo todo. Pelo menos até recentemente era possível vender um
Brasil de 10% de ricos como regra, não exceção.

Mesmo correndo o risco de ver São Bernardo — e por extensão o Grande ABC — irresponsavelmente confundido pelo público externo e, nessas condições, explorado despudoradamente pelos interesses locais de jogar para debaixo do tapete todas as mazelas sociais, mesmo assim, a desintegração do projeto Nova Vera Cruz é uma desavergonhadíssima derrota regional.

Sim, uma desavergonhadíssima derrota regional porque teria valido a pena a composição de um grupo representado por intelectuais locais que, divisões territoriais excomungadas, auxiliassem na sensibilização de financiamento das obras. Quando se sabe que governar é ato de gerenciar prioridades e que prioridades se estabelecem no ritmo de pressões, certamente o governo do Estado não teria coragem de tratar o projeto Nova Vera Cruz com o pragmatismo dos últimos anos sob o comando de Geraldo Alckmin.

Se não houve movimentação regional para dar densidade ao sonho do então prefeito Maurício Soares, os contragolpes não deixaram de chegar aos ouvidos do governador do Estado. No final de 2001, após a realização do 1º Encontro do Cinema Paulista e do 3º Congresso Brasileiro de Cinema, cineastas paulistas deixaram claro que temiam que a Nova Vera Cruz se transformasse em elefante branco, metáfora que mesmo os menos versados na zoologia do sarcasmo sabem tratar-se de obra desnecessária.

Na carta que os cineastas produziram, a Nova Vera Cruz foi execrada como obra que não corresponderia às necessidades do cinema paulista que, segundo eles, já contava com sofisticado parque tecnológico adequado à realização de atividade audiovisual. Chegou-se a propor, no documento, a imediata paralisação dos investimentos da Secretaria de Estado da Cultura e uma avaliação pública e transparente para o projeto e os recursos investidos nos últimos anos.

Se faltou à sociedade do Grande ABC a mobilização jamais liderada por qualquer agente público, social ou privado, as 10 entidades que representavam profissionais de cinema contrários ao projeto Nova Vera Cruz não economizaram artilharia pesada. “Não pode ser um projeto de um governo só. Não pode ser algo que saiu da cabeça de alguém. Precisa ser discutido com a sociedade”, afirmou Assunção Fernandes, presidente do Sindicato da Indústria Cinematográfica do Estado de São Paulo em entrevista ao Diário do Grande ABC em novembro de 2001. Reação regional? Absolutamente nenhuma.

“Por que tanto interesse nessa obra? Os valores são altos, mesmo se pagos por empresas, pois o Estado estaria renunciando ao recebimento de impostos por meio de leis de incentivo. Isso precisa ser discutido para que haja transparência”, completou Assunção, produtor da Raiz Filmes.

A carga pesada não terminou. Outro cineasta, André Klotzel, diretor de Memórias Póstumas, disse que a Vera Cruz viveu há 50 anos a experiência de um desastre que poderia se repetir: “Meu receio é que se torne um elefante branco. O espaço dos estúdios é importante, pois não existe algo assim em São Paulo, só no Rio. O resto é questionável”, afirmou.

Ainda segundo a reportagem do Diário do Grande ABC, Klotzel se referia, ao restante do questionável, à edição, finalização, efeitos, dublagem e técnicos treinados. “Existem empresas que têm tudo isso em São Paulo, onde está a maior parte da produção. O deslocamento para São Bernardo só se justificaria com um preço excepcionalmente barato. E como o Estado tem participação, alguém estaria pagando essa conta”, expôs.

Como se observa, o projeto Nova Vera Cruz atomizado pela precarização dos recursos financeiros do governo do Estado, pelo caixa fechado quase unânime de multinacionais que ocupam território em São Bernardo e pela desativação do PIC da Fundação Padre Anchieta não poderia mesmo viver um epílogo diferente quando nem lideranças culturais do Grande ABC compreenderam a múltipla importância que o caracterizava.

E, a julgar pelas informações de que a vizinha Capital é suficientemente apetrechada para dispensar o ressuscitamento da Vera Cruz, como acreditar que produtores norte-americanos estariam de olho na antiga área das galinhas do seu Cicilio Matarazzo?

Será mais um lance na mídia entre tantos de frustração ou, como num enredo típico das grandes produções, a Vera Cruz ressurgirá das cinzas? Novos Anselmo Duarte, Jardel Filho, Cacilda Becker, Tônia Carreiro e Mazzaropi voltariam a frequentar São Bernardo? Mais que isso, a julgar pela chegada de norte-americanos, teríamos fartura de Tom Cruise, Angelina Jones, Anthony Hopkins e tantos outros astros de Hollywood?

Será que não chegou a hora de enxergar a Nova Vera Cruz como breve brisa de luminosidade cinematográfica que passou por uma região que, por seus próprios defeitos, insiste em manter-se Gata Borralheira?



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