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Economia

Como a Tomé Engenharia está tão
enrolada na Operação Lava Jato?

DANIEL LIMA - 22/01/2015

A resposta provavelmente o presidente da Tome Engenharia, de São Bernardo, Carlos Alberto de Oliveira e Silva, já tenha começado a explicitar à força-tarefa mobilizada em Curitiba para desvendar tudo o que se passou com a maior estatal brasileira durante o governo do PT. A Tomé Engenharia multiplicou crescimento durante esse período. O que mais se pergunta é se a direção da empresa era tão extraordinariamente competente a ponto de o salto quântico pós-chegada do PT a Brasília não passar de simples coincidência ou se há digitais de terceiros que supostamente a Policia Federal já detectou.

 

A Tomé Engenharia consta da lista negra da Petrobras – de ruptura de negócios com aquela companhia. E só entrou na lista negra porque a Petrobras não tinha outra saída, depois de a Tomé ter sido descoberta como integrante ativa do Clube das Empreiteiras que se associou a diretores da estatal em negócios sujos para irrigar bolsos privados e campanhas eleitorais. Essa é, afinal, a tessitura do escândalo da Petrobras.

 

O que mais se fala nos bastidores da Província do Grande ABC é que os petistas locais perderam um grande naco de colaboração às próximas eleições municipais. E que particularmente alguns petistas sentem que a casa caiu também para eles. Nacos do pessoal do Festeja Grande ABC e do Assalta Grande ABC estariam conectados aos negócios da Tomé Engenharia. Gente que não perde a oportunidade de se locupletar de empresas bem postadas no mercado.

 

Liberdade recompensada?

 

Sobram versões sobre o fato de o presidente da Tomé Engenharia não estar entre os trancafiados em Curitiba. Sugere-se que perto dos peixes grandes ali encarcerados, e que representam boa parte das maiores companhias de infraestrutura do País, Carlos Alberto de Oliveira e Silva não passa de coadjuvante. Há indicativos que dão conta também de que o empresário goza de liberdade mesmo após as provas já recolhidas pela Polícia Federal, analisadas pelo Ministério Público Federal e também pelo juiz Sérgio Moro, porque já teria colaborado com informações preciosas. Entre essas colaborações constaria uma relação de parceiros de negócios paralelos na Província do Grande ABC.

 

Quem apostar todas as fichas na idoneidade da Tomé Engenharia nesse jogo bastante intrincado da Operação Lava Jato poderá dar com os burros nágua. É muito pouco provável que as investigações que constataram participação efetiva da empresa no Clube das Empreiteiras que assaltou a Petrobras não sejam praticamente uma sentença condenatória à espera de homologação formal.

 

Carlos Alberto de Oliveira e Silva disse ainda outro dia ao jornal Valor Econômico que a Tomé Engenharia está se preparando para encerrar atividades. Trabalhadores em Alagoas estão assustadíssimos. Quase tanto quanto os parceiros de negócios na região. Um dos principais contratos da Tomé é a fabricação de módulos para os FPSOs replicantes da Petrobras, que serão utilizados no pré-sal. As obras estão sendo feitas em Maceió, onde a empresa fez grandes investimentos em infraestrutura para montar as unidades.

 

A Tomé Engenharia venceu a licitação para explorar o porto de Maceió porque a resolução da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) permitiu que atuasse em todo o território nacional. A alemã Ferrostaal é parceira da Tomé Engenharia em Alagoas. Detém 45% do contrato. A Tomé pleiteia pagamento de custos extras não previstos inicialmente no contrato. A Petrobras, escaldada com o escândalo, resolveu mostrar força e não reconhece a dívida.

 

O presidente Carlos Alberto de Oliveira e Silva disse ao Valor Econômico que a Tomé Engenharia está encalacrada. Teria um valor significativo a receber da estatal por obras já executadas mas não consegue mais acessar crédito no mercado.

 

Complicações demais

 

A situação da empresa de São Bernardo é tão crítica que acabou por vender participação no contrato com a Refinaria Presidente Vargas, em Cubatão. A parceira Technip agora é detentora integral do contrato. Carlos Alberto disse ao jornal que o valor da transação foi irrisório. A falta de caixa teria levado a empresa a situação insustentável.

 

Outro contrato que dá dores de cabeça à Tomé Engenharia refere-se a fornecimento de materiais, equipamentos e outros serviços na unidade de gasolina da Refinaria Landulpho Alves de Mataripe (RLAM), na Bahia. Vários milhões em aditivos ainda não foram aprovados pela Petrobras. A Tomé conta com parceria da Alumini (ex-Alusa) e Galvão Engenharia, empresas igualmente integrantes do Clube das Empreiteiras e vetadas a novos negócios com a Petrobras.

 

Quem afirmar que a situação da Tomé Engenharia é desesperadora provavelmente só se equivocará sobre a intensidade dos estragos econômicos e financeiros se desprezar os efeitos criminais que a envolvem como integrante do cartel que se associou a dirigentes da Petrobras no abastecimento da rede de corrupção política que beneficiou PT, PP e PMDB. Desde que a Operação Lava Jato explodiu e com a decisão da Petrobras de cortar a empresa do cadastro de fornecedores, a Tomé Engenharia passou a receber mais cobranças de fornecedores e ainda menos respostas dos bancos. As dificuldades de acesso a crédito se tornaram intransponíveis.

 

Carlos Alberto de Oliveira e Silva negou na entrevista ao jornal Valor Econômico que tenha participado de combinações para conquistar contratos, diferentemente do que disseram em depoimentos às autoridades Julio Camargo (do grupo Toyo), Augusto Mendonça (grupo Setal), Paulo Roberto Costa (ex-diretor da Petrobras) e Alberto Youssef (doleiro). Carlos Alberto se utilizou de um argumento aparentemente simplório demais para se justificar, ao citar o caso de uma outra empresa da lista que contestou na Justiça uma licitação vencida pela Tomé. “Se agimos em cartel, por que ela contestaria o resultado?”, questionou.

 

Falhas de projetos?

 

Os custos extras, vistos como elementos notórios do sistema de corrupção na Petrobras, são explicados pelo empresário como resultado de falhas de projetos. Ele explica que a situação é apontada por todas as empreiteiras que vêm tendo problemas com a Petrobras, muitas das quais sem o fôlego das gigantes e que por isso mesmo quebraram ou entraram em recuperação judicial nos últimos anos, principalmente após a mudança na forma de avaliar os aditivos dentro da estatal a partir de 2012 pela presidente Graça Foster.

 

Segundo a reportagem publicada no Valor Econômico de 16 de janeiro, a Tomé Engenharia tem mais de 40 anos de atuação e abriu suas portas fazendo o transporte de equipamentos industriais pesados e aluguel de guindastes. Há cerca de 15 anos resolveu expandir os negócios e atuar também em engenharia e construção. Há cinco anos começou a disputar as obras da Petrobras. Em 2003, quando Lula da Silva assumiu a presidência da República, o faturamento da Tomé Engenharia não passou de R$ 62 milhões. Já em 2013 saltou para R$ 900 milhões. 



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