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Regionalidade

O que fará Paulinho Serra
com esse presente de grego?

DANIEL LIMA - 29/03/2017

O prefeito Paulinho Serra precisa ser comedido e estratégico para não quebrar a cara como comandante da Agência de Desenvolvimento Econômico do Grande ABC. Ao assumir o cargo, o titular do Paço de Santo André desfilou o sorriso dos inocentes ou dos ignorantes, no sentido lato do verbete. Nada mais precipitado. Está-se deixando levar pelo marketing. 

Para mostrar um rosto de felicidade tendo-se em conta que acaba de pegar um dos maiores abacaxis da região, só existe mesmo uma explicação: Paulinho Serra acredita em Papai Noel ou não tem a menor ideia do que a próxima esquina da regionalidade lhe reserva. 

Talvez exista uma vertente que o salvaria: Paulinho Serra saberia o caminho das pedras que os antecessores jamais ousaram perscrutar. Tenho sérias dúvidas sobre isso. Paulinho Serra não é versado em regionalidade. 

A Agência de Desenvolvimento Econômico é um dos legados de regionalismo planejado por Celso Daniel. O outro é o Clube dos Prefeitos. Essas peças gêmeas do tabuleiro regional jamais alcançaram resultados desejados, mesmo com Celso Daniel. O municipalismo enraizado numa região de território único até meados do século passado é contraditória doença contagiosa. As cidadelas municipais são mais importantes que o resto – e o resto é o principal, no caso a Província do Grande ABC. 

Discurso e prática 

O discurso de integração regional da quase totalidade dos prefeitos que já passaram pelas duas entidades jamais ultrapassou os limites de mensagens ao público externo. Internamente, o que prevaleceu foi uma disputa surda pelos benefícios político-partidários da entidade. Celso Daniel foi sabotado o tempo todo. 

O que existe em comum entre os prefeitos da região ao longo de duas décadas de regionalidade formal é que eles preservam a classe. Não abrem o bico sobre desavenças que tomam o espaço do planejamento. Agora mesmo acabaram de abafar publicamente a anunciada retirada de Diadema do Clube dos Prefeitos. 

Há quem prefira protelar a ineficiência com o uso da diplomacia política a contrapor remexidas com o politicamente incorreto do confronto. Não há nada mais parecido que o Brasil do que os municípios que formam o Brasil. Os municípios são a incubadora de Brasília.

Acompanhamento histórico

Advirto os leitores mais apressados ou aqueles que, militantes partidários, não aceitam nada diferente do que constroem na imaginação, que esse preâmbulo todo sobre o que espera Paulinho Serra na Agência de Desenvolvimento Econômico está lastreado por 294 artigos que constam dessa revista digital, nos quais a entidade agora dirigida pelo prefeito de Santo André aparece como protagonista ou coadjuvante. 

Não é pouca coisa, claro. Ainda mais que não são textos convencionais. São análises, marca registrada deste endereço de comunicação. 

Quero deixar claro que ninguém torcerá mais para ser fragorosamente derrotado nas perspectivas traçadas do que eu mesmo. Ficaria imensamente feliz como uma reviravolta da Agência de Desenvolvimento Econômico. Mas as probabilidades de ser desmentido são ínfimas. 

Para começar, o primeiro chute no traseiro da regionalidade legada por Celso Daniel foi desferido pelo prefeito dos prefeitos da região, Orlando Morando, assim que assumiu o Clube dos Prefeitos: ele retirou toda a ajuda financeira das prefeituras à Agência. Nada menos que 49% dos recursos. 

A maioria dos outros dinheiros que deveriam entrar nos cofres da Agência – de organizações privadas, sindicatos e também entidades educacionais – tem a regularidade de depósitos semelhante à inadimplência dos infelizes que acreditaram num País consumista livre de trapalhadas governamentais. Ou seja: o buraco orçamentário da Agência de Desenvolvimento Econômico é uma prática tão costumeira que virou tradição. 

Cadê o dinheiro? 

Li no Diário do Grande ABC – cuja memória de regionalidade é escassa e longe de qualquer protagonismo crítico – que Paulinho Serra pretende buscar na iniciativa privada os filões de recursos financeiros surrupiados pelo Clube dos Prefeitos. Vai se dar mal. As instituições que listou como possíveis financiadoras (associação empresariais e outras) andam numa pindaíba de dar dó.

Quem vai colocar dinheiro numa organização público-privada jogada à escanteio pelos próprios prefeitos de plantão? Quem vai botar dinheiro numa entidade que, como o Clube dos Prefeitos, é incapaz de entender que mais que quantidade, a Província do Grande ABC exige planejamento estratégico enxuto, certeiro e centralizado no desenvolvimento econômico? 

Quando encerrar este artigo vou listar sugestões de leitura voltadas à Agência de Desenvolvimento Econômico. Será uma ação quase aleatória, de posse que estou de uma lista das quase 300 matérias sobre a entidade. Sugiro ao prefeito Paulinho Serra atenção a esse material. Certamente vai defrontar-se com uma realidade que provavelmente desconheça, considerando-se realidade não só o momento visto como uma fotografia, mas o conjunto de uma obra histórica, que remete à filmagem. 

Pauta acanhada 

Mantenho um dispositivo de segurança toda vez que um temário mais que pisado e repisado volta ao noticiário, como é o caso da Agência de Desenvolvimento Econômico. Os jornais digitais e impressos da região não acompanham a entidade com olhares críticos porque não temos nas publicações quem decifre as minúcias de nosso regionalismo. 

A pauta de regionalidade na Província do Grande ABC é bastante acanhada e só é atacada circunstancialmente. Por isso fica submetida a um jogo de interesses. O prefeito Paulino Serra caiu na arapuca de mostrar os dentes de felicidade ao assumir o comando da Agência. Fosse mais precavido, o discurso seria outro, menos autofágico. 

Diria Paulinho Serra que o cargo é um grande desafio à costura de um tecido puído e desprezado no desfile de necessidades da região. Paulinho Serra parece imaginar-se numa fashion week de regionalidade, quando, de fato, tanto a Agência de Desenvolvimento Econômico como o Clube dos Prefeitos não passam de uma passarela periférica de suposta modernidade nas relações entre capital, trabalho, sociedade e gestão pública. 

Pulo do gato 

Apesar de tudo isso, existe o pulo do gato para salva a malfadada projeção que impactaria o novo chefe da Agência de Desenvolvimento Econômico. Algo que contribuiria à reversão da imagem de uma instituição que se perdeu no gigantismo de agendas que caminhavam sempre em oposição à capacidade de dar respostas à sociedade. 

Não vou repetir o que já escrevi sobre esse pulo do gato. Que o prefeito Paulinho Serra e assessores tratem de ler nosso legado editorial com avidez. Não seria a sugestão nada extraordinária, claro, ainda mais que o dinheiro está cada vez mais curto na entidade, depois do golpe baixo do prefeito dos prefeitos. Mas seria suficiente para substituir gradualmente a escuridão pela luminosidade, inclusive com alguns resultados que vão ter o mesmo significado de relâmpagos no cenário regional, os quais, por mais breves que sejam, gerariam clarões suficientes para se traduzirem em iniciativas concretas. 

Filosofei de propósito. Há certas situações que recomendam menos rigor na avaliação da cena regional. A Agência de Desenvolvimento Econômico já me levou a frustrações demais. A vantagem que o histórico proporciona é que o que vier agora será lucro. Essa é a única razão de Paulinho Serra pegar essa bomba. Ele passa a dirigir um time que vem de seguidos rebaixamentos. Entretanto, não falta quem o considere bobo da corte, como já o fora no passado Celso Daniel. Nossos municipalismos seriam imbatíveis.  

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