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Imprensa

Queria ser a Polícia Federal do
magistrado que me condenou

DANIEL LIMA - 07/06/2017

Estou com inveja do calhamaço de perguntas que a Polícia Federal encaminhou ao moribundo presidente da República Michel Temer. Por isso ingressei num universo paralelo, no qual seria possível inquerir em audiência constitucionalmente legal, o magistrado que me condenou. Acho que o titular da 3ª Vara Criminal de Santo André, Jarbas Luiz dos Santos, ficaria em situação semelhante a do presidente da República, embora por razões diferentes. 

Michel Temer está metido numa encrenca da qual duvido que se desvencilhe. O meritíssimo de Santo André teria a oportunidade (sempre segundo o universo paralelo em que mergulhei) de penitenciar-se por produzir em forma de sentença aquele emaranhado de equívocos, imprecisões e inverdades, fiando-se como se fiou numa queixa-crime estapafúrdia. 

Quem tem acompanhado a série de matérias sobre a condenação deste jornalista, supostamente por difamar o Clube dos Construtores do Grande ABC (há alguma coisa mais risível, mais injusta, mais absurda e mais inacreditável do que essa?) sabe que existe alguma coisa fora do lugar. 

Não me compete revelar o que se passa. Entretanto, o que se passa, se passa, não passará. O Judiciário, em alguma instância, haverá assim de decidir. 

Nocaute lógico

Seria tudo resolvido na primeira instância se pudesse preparar e enviar uma batelada de perguntas ao meritíssimo que me condenou. Garanto que o levaria a nocaute. Como o tenho levado nas matérias. E nada seria por mérito deste jornalista, mas por deficiências daquele que deveria ser magistrado, não algoz. No mundo paralelo enfrento o juiz que me condenou contando com a inversão de sinais. Ele é que seria sabatinado.  

Não resisti à analogia fantasmagórica entre as perguntas formuladas pela Polícia Federal e a situação criminal me imposta. Nesta Província é crime revelar a verdade dos fatos ou mesmo antecipar-se à realidade conhecida nem sempre por todos. Não foi assim que decidiu o meritíssimo da 3ª Vara Criminal de Santo André?

Talvez um e outro malfeitor da subjetividade coloquem caraminholas na cabeça de terceiros ao inserir este texto num contexto de desrespeito ao Judiciário. Bobagem típica do famigerado empresário Milton Bigucci e de seu séquito de advogados, sempre à cata de entrelinhas maliciosas para desconsiderar a objetividade e à fundamentação das críticas. 

Presidente terminal 

No fundo, no fundo, não era sobre meu caso no Judiciário que pretendia escrever, mas não resisti. Quem conhece jornalista sabe que a gente não é exatamente aquilo que os normais gostariam que fôssemos. Até porque, se seguíssemos o que os normais gostariam que fôssemos, não seriamos jornalistas. Não é verdade, caro amigo Ademir Médici? Não é mesmo caro amigo Donizeti Raddi? 

A pauta que me impus é outra. É sobre a moribundez do presidente Michel Temer. As indagações da Polícia Federal são arrasadoras. Temer não tem saída. O que responder vai se transformar em bumerangue. O que não responder bumerangue será. 

Mais que perguntas, o que temos ali é um enredo previamente definido com base nas investigações já consolidadas e também nas investigações complementares que virão. Gostem ou não gostem os direitistas delinquenciais da realidade dos fatos. Para essa turma, só existe crime à esquerda do espectro ideológico. Vá lá que a esquerda é mais engenhosa, é mais sistêmica, mas tudo não passa de consequência natural. A esquerda é mesma mais engenhosa e mais sistêmica em tudo que faz. A direita é muita individualista nas roubalheiras. A esquerda é coletivista nas roubalheiras. 

Estava a ouvir ontem um trecho de um programa de rádio (Jovem Pan) e detectei mais uma vez, agora com novos coleguinhas -- bons por sinal, mas nem por isso infalíveis -- que há um grupo cada vez maior disposto a abafar ou minimizar a bandalheira nacional em defesa da estabilidade econômica. 

Tiro no próprio pé 

Chegou-se ao extremo da ousadia (jornalista tem todo direito de ser ousado, mas precisa arcar com as consequências de eventual perda de credibilidade, que é o castigo socialmente recomendado e necessário, não a criminalização da liberdade de opinião) de debochar de algumas das perguntas dos federais. 

Especificamente de uma questão os apresentadores do programa das 18h da Jovem Pan (repito, profissionais bastante qualificados) fizeram pilheria. Ridicularizaram o uso da expressão “estrita confiança” pelos federais. Qualificaram-na como obra dos federais, quando o autor é outro. Exatamente o presidente da República. 

A Folha de S. Paulo de hoje, que reproduziu integralmente as perguntas e analisou os pontos mais candentes, desqualifica as intervenções daqueles jornalistas. Trata-se da pergunta de número três, que é exatamente a seguinte: 

 Rodrigo da Rocha Loures é pessoa de estrita confiança de Vossa Excelência?

Num texto-apêndice, a reportagem da Folha de S. Paulo procura dissecar a razão da pergunta dos federais. Leiam: 

 A referência a “estrita confiança” foi feita por Temer em conversa gravada por Joesley. Se o presidente confirmar a relação privilegiada, a acusação de que Loures era “longa manus” de Temer, feita pelo PGR para pedir a prisão do ex-assessor, ficará reforçada.

Sem saída 

Michel Temer não tem saída. Se negar que Loures era de “estrita confiança”, não faltarão armadilhas mais adiante, em forma de novas perguntas, para desmascará-lo. Como se tudo isso e muito mais já não estivessem, pressupostamente, sob o controle documental e testemunhal dos federais. 

Os coleguinhas da Imprensa são apressados demais.  Parecem acreditar que lidam com policiais imaturos e inexperientes. E, mais que isso, parecem desprezar que a politica nacional, há toneladas de anos, é feita basicamente por marginais. 

Para terminar -- e voltando ao meu caso e ao meu mundo paralelo -- de supetão colocaria algumas perguntas para meu algoz responder numa sala de audiência na qual os papéis seriam, portanto, invertidos. Com muito mais diplomacia e humanismo do que me reservou no mundo de verdade em que nos encontramos em novembro de 2014, indagaria o seguinte: 

 Como o meritíssimo explicaria o erro gravíssimo de afirmar que este jornalista utilizou várias vezes expressão “bolivariana” se até a data da audiência eu escrevera apenas uma vez e, mesmo assim, o artigo não constava oficialmente do processo, porque fora editado algumas horas antes daquele encontro? 

 Como o meritíssimo pôde ignorar durante toda a audiência que o autor intelectual da queixa-crime contra este jornalista já era identificado como dirigente pernicioso ao mercado imobiliário ao constar de denúncia do Ministério Público do Consumidor de São Bernardo como campeão regional de abusos contra a clientela? Como alguém com esse perfil poderia liderar contra este jornalista uma queixa-crime por suposta difamação da entidade que presidia? 

 Como o meritíssimo poderia se apressar conclusão de que este jornalista desrespeitou o então presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo se não me deu a oportunidade de explicar o contexto em que afirmei ser o empresário Milton Bigucci espécie de Beijoqueiro do mercado imobiliário? 

Vou parar por aqui. Poderia, sem grande esforço, desfilar perto de 30 questões que colocariam o meritíssimo em posição de inglória defesa. Sem o açodamento e sem o desrespeito como que me tratou durante aquela audiência. 



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