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Imprensa

Só quem já foi ombudsman
sabe o que é ser ombudsman

DANIEL LIMA - 09/06/2017

Há rebuliço dos infernos entre jornalistas que já atuaram como ombudsman, depois que o New York Times anunciou na semana passada o fim do cargo de “public editor”. O ombudsman do maior jornal norte-americano foi trocado pela direção porque incorporaria uma função que pode ser feita pelos leitores e o monitoramento de comentários nas redes sociais. Nada mais imbecilizado. 

Só sabe o que é ser ombudsman quem já foi ombudsman e segue sendo ombudsman. Palavra de quem já foi ombudsman não autorizado dos jornais da região e ombudsman autorizado do Diário do Grande ABC. 

Como deixei tanto um cargo quanto outro, voltei a ser um jornalista interessadíssimo em entender o andar da carruagem dos jornais e revistas, mas reconheço que não posso mais me auto intitular ombudsman ou ombudsman não autorizado porque correria o risco de pisar no tomate de imprecisões. Tudo porque não tenho lido jornais e revistas com a aplicação técnica e exaustiva de ombudsman.

Talvez quem não seja jornalista e mesmo quem é jornalista encontrarão dificuldades para entender o que pretendo dizer, mas vou dizer de forma a mais didática possível para sustentar audiência produtiva. 

Complexidade desafiadora 

A função de ombudsman segundo a ótica de quem já foi ombudsman é tão complexa quanto desafiadora. Não seriam internautas e tampouco jornalistas que não se prepararam para mergulhar na especificidade que saberiam defini-la. Quanto mais distante da Redação melhor se exerce a missão de ombudsman. O corpo a corpo com os jornalistas é contraproducente à liberdade de atuação. Tanto quanto exigir que setoristas de equipes de futebol sejam analistas de rendimento do grupo. Haverá indisposições e hostilidades mutuamente desagregadoras. 

Parto do princípio que poderia parecer arrogante mas é direto e reto: ombudsman que dá trela demais à maioria dos leitores é ombudsman a caminho do cadafalso crítico. São raríssimos os leitores que se manifestam com a compreensão multifacetada de analisar edições de uma publicação. O viés ideológico, principalmente, falsifica o conteúdo. Grupos organizados, geralmente de agremiações políticas, agem coordenadamente para influenciar noticiários e colunistas. Eles se mobilizam em profissão de fé. Pena que não entendam patavina de jornalismo -- que é bem diferente de entender de política ou de qualquer outra área.  

Espumas de marketing 

O New York Times produz espumas de marketing para ficar de bem com os leitores. Retirar de cena o equivalente a ombudsman é um tiro no pé, sobretudo diante das alegações que estimularam a iniciativa. 

Ombudsman de verdade tem permanentes desafios a superar, os quais devem se concentrar nos insumos da publicação sob sua guarda. Também o entorno das demais publicações concorrentes economicamente ou paradigmáticas editoriais é campo em permanente observação. Não existe ombudsman produtivo sem dedicação total. 

Vou mais longe: ombudsman qualificado tem de contar com ficha profissional da qual constem funções diversas como jornalista. Quem jamais foi repórter não tem a ideia das especificidades que o jornalismo reserva. Também é preciso ter passado por chefia departamental, as chamadas editorias. Melhor ainda se alçou voos mais elevados como analista de informações. Trocando em miúdos: ombudsman exige conhecimento amplo. 

Por melhor que qualquer jornalista possa ser jamais exercitará a função de ombudsman se não estiver doutrinado a isso e exercite permanentemente a atividade. Quero dizer com isso que o olhar crítico de jornalista sem compromisso com a função de ombudsman, ou seja, que se comporta apenas como leitor comum, esse olhar jamais contemplará o feixe desafiador exigido de ombudsman. 

Conselhos diferentes 

Lembro que o Diário do Grande ABC, muito antes deste jornalista ali ancorar como ombudsman, fez experiência em meados dos anos 1990 com o chamado “Conselho do Leitor”. A ideia era excelente porque traria para o interior da Redação leitores de alta escolaridade como observadores da cena regional. 

Entretanto, o resultado saiu do controle de eficiência pretendida porque o mundo jornalístico não é para qualquer um, por melhor que qualquer um seja. Sem contar que o quadro de jornalistas se sentiu desprestigiado com o que consideraram intromissões indevidas. O ambiente ficou carregadíssimo. O azeitamento de um Conselho do Leitor que tenha agregado de valor ao conjunto do produto final demanda série de medidas, entre as quais o domínio conceitual do plano de fortalecimento do produto. 

Ainda recorrendo ao Diário do Grande ABC (por onde passei 16 de 52 anos de minha carreira), quando ali estive como diretor de Redação em 2004/2005 levei debaixo do braço o Plano Estratégico Editorial que assegurava a formação de um Conselho Editorial. Criamos um grupo com exatamente 101 representantes da sociedade regional, das mais diversas especialidades. Eles tomarem posse num Teatro Municipal de Santo André lotadíssimo. 

A experiência foi maravilhosa. Dividimos em duas caminhadas igualmente fortalecedoras de laços da publicação com os representantes dos leitores. Primeiro, colocamos todos eles como articulistas em potencial, além de consultores. Segundo, semanalmente convidávamos um deles a acompanhar a reunião de pauta, no final da tarde. O encontro que definia o que o jornal levaria ao público na manhã seguinte.  Uma pena que tudo tenha durado apenas nove meses. Na sequência, a nova direção de redação extinguiu o projeto que primava pela transparência combinada com a técnica-informativa. 

Recuperando a história

A propósito disso, sinto-me na obrigação de reproduzir trechos do Planejamento Estratégico Editorial proposto há 13 anos, no capítulo relativo ao Conselho Editorial. Leiam: 

 Já a introdução do Conselho Editorial significará grande salto de qualidade do jornal rumo à comunidade. Diferentemente do Conselho do Leitor, que vive à caça de descuidos léxicos e analisa superficialmente os assuntos sobre os quais o jornal se dedica a levantar, o Conselho Editorial será integrado por profissionais residentes e atuantes na região. Serão especialistas em diversas áreas. Caberá a esses membros, juntamente com alguns jornalistas da equipe de redação, a tarefa de construir coletivamente um novo perfil de produção do jornal, absolutamente sintonizado com o macroplanejamento editorial. 

 Caberá ao Conselho Editorial não a procura de escorregões da língua pátria, obrigação técnica de quem está na redação, mas a introdução de conhecimentos específicos na linha editorial do jornal. Os membros do Conselho Editorial que fazem parte da comunidade trarão experiências vividas para o interior do jornal, sempre em encontro coordenado pelo diretor editorial e pelos editores-chefes do Diário do Grande ABC e de LivreMercado. Especialistas em educação, marketing, urbanismo, transporte, segurança, meio ambiente, legislação, economia, entre tantas outras áreas, vão integrar-se à redação como cérebros complementares. Serão espécies de consultores a quem poderemos reservar, também, espaços editoriais como colunistas fixos ou eventuais. 

 Formularemos um código específico de atuação dos membros do Conselho Editorial. Estabeleceremos algumas condições que darão ao organismo caráter de compromisso exclusivo, evidentemente sem remuneração, mas nem por isso excluído de eventuais programas de compartilhamento de marketing que trataremos de definir na sequência de nossos trabalhos. 

 Haveremos de tornar o Conselho Editorial tão respeitado que suas repercussões em muito colaborarão para o fortalecimento editorial do jornal e o aperfeiçoamento da linha editorial da revista. Os integrantes do Conselho Editorial serão convidados pelo diretor de redação porque cada peça requisitada fará parte de uma engrenagem de complementaridade temática que não se esgotará nos conhecimentos individuais específicos. Avançará inexoravelmente em direção aos macropressupostos de reorganização da companhia na área editorial.

Conselho mais numeroso 

Não posso esquecer também que durante quase duas décadas à frente da revista LivreMercado introduzi o Conselho Editorial que chegou a contar com duas centenas e meia de participantes. As principais tarefas dos conselheiros, todos com atuação na região, consistiam em analisar e atribuir notas aos cases que concorriam ao Prêmio Desempenho, evento que realizamos durante 15 anos seguidos e que distribuiu sempre fundamentado em meritocracia nada menos que 1.718 troféus a personagens e organizações coletivas da região. 

O Conselho Editorial de LivreMercado não desfrutava de influência direta e formal na estrutura doutrinária da publicação. Entretanto, meus radares estavam permanentemente ligados para captar mudanças no cenário econômico e social da região. 

LivreMercado não se pautou pelo tratamento crítico a tudo que se referia à Província do Grande ABC apenas por obra e graça do perfil editorial concebido por este jornalista e demais profissionais da redação. Também foi resultado de consultas geralmente informais e também de entrevistas providenciais publicadas ao longo dos tempos. 

Província exemplar 

Depois de escrever tudo isso, o que quero dizer como resumo da ópera para deixar claro minha oposição à troca de ombudsman por internautas é que o New York Times talvez não tenha experimentado o que implementamos nesta Província. 

Aliás, nenhuma publicação brasileira o fez porque há um sentimento de onipotência das redações que se traduz não só na execração da função de ombudsman (tanto que só a Folha de S. Paulo mantêm o cargo) como também no raríssimo interesse de compartilhar funções com representantes da sociedade. Naturalmente, sem que isso possibilite improvisos e amadorismos no tratamento da informação. Quando se juntam jornalistas e especialistas em diferentes fronteiras humanas, o resultado é sempre positivo. Isso é bem diferente do terreno minado da Internet, onde preciosidades de competências descontaminadas de vieses ideológicos são agulhas em palheiro. 



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