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Administração Pública

Morando reage a Sem-Teto
com populismo de assédio

DANIEL LIMA - 05/10/2017

O prefeito Orlando Morando está colocando São Bernardo no mapa sucupirense de Odorico Paraguaçu. Pressionado durante todo setembro negro pela invasão do movimento dos Sem-Teto que levaram a Capital Econômica da região às manchetes da grande mídia nacional, o tucano reagiu neste começo de outubro rosa com um projeto de lei aprovado a toque de caixa. Nada supera uma democracia em que a maioria encabrestada agiliza soluções -- mas também perpetua sandices. 

Os assediadores em espaços públicos de São Bernardo que se cuidem. Além de responderem à Justiça, agora terão de arcar com multa aos cofres municipais. Orlando Morando tem a síndrome de comerciante que é. Suas decisões sugerem que dinheiro precisa entrar na caixa registradora a todo o momento.

Orlando Morando não é o prefeito que esperava que fosse para uma cidade em estado econômico degenerativo há pelo menos duas décadas. Tampouco é o prefeito dos prefeitos do Clube dos Prefeitos que algum dia imaginei que seria. Tenho saudade de Celso Daniel. Do jeito que a banda está tocando até de Luiz Marinho acabarei por lamentar ausência, vejam só. 

Do pesadelo ao populismo 

O prefeito de São Bernardo deixou por algumas horas de sonho o congelamento midiático imposto pelos Sem-Teto em forma de encurralamento decisório e plantou os pés num projeto populista. Age como um legislador de luxo, como o foi tanto na Câmara de São Bernardo quanto na Assembleia Legislativa juntamente com parceiros de jornada que só tocam o que manda o Executivo de plantão. Legislativo sob controle é isso, não é mesmo Michel Temer? 

Orlando Morando parece ter parentesco funcional com motoristas de Uber: está sempre preparado para uma corridinha rumo a um destino pontual. Chamá-lo, portanto, de Prefeito-Uber não seria exagero como simbologia à frente de um dos municípios mais importantes do Estado de São Paulo. O futuro de Orlando Morando como administrador é o dia seguinte das manchetes de jornais. 

A pressa e o convencimento que o levaram a aprovar o projeto de lei em defesa de mulheres que, principalmente, se utilizam do transporte público em São Bernardo, não têm correspondência com o desprezo que o mantém distante de qualquer iniciativa para dar à própria gestão a segurança de que está preparado para instaurar a moralidade. 

Reportagem Premiada é esquecida 

Fosse diferente, já teria providenciado estudos mais que factíveis à aplicação de proposta deste jornalista, feita há mais de dois anos, de criar o que chamei de Reportagem Premiada. Trata-se de medida extraordinária de combate à corrupção. As publicações locais que vivem à mingua publicitária -- como todas as publicações do País -- receberiam uma parcela dos recursos públicos recuperados nos casos investigados, publicados, denunciados e comprovados de desvios de dinheiros municipais. 

Esse é só um exemplo do que poderia empreender o prefeito de São Bernardo. Garanto por todos os santos que teria muito mais repercussão nos jornais e revistas que tratam jornalismo como atividade a salvo de oportunismos.

Ainda não joguei a toalha do desconforto profissional de acreditar em Orlando Morando como novidade no cenário político da região, embora, confesso, essa porção de confiança jamais tenha ultrapassado o terreno da cautela. Afinal, seria tremenda burrice lançar-me de corpo, alma e mente à aposta de um novo modelo de gestor público quando o passado de deputado estadual sugeria atenção. 

Jamais apreciei a máxima que instalava Orlando Morando como espécie de penduricalho político, supostamente na condição de “papagaio de pirata” por, insistentemente, aparecer como afoito coadjuvante nos flagrantes em que, principalmente o governador do Estado, Geraldo Alckmin, era o protagonista. 

Agora sou obrigado a rever meus conceitos não necessariamente para perfilar juntamente com os críticos que lhe impuseram aquela imagem depreciativa. Se supostamente era papagaio de pirata como deputado estadual, Orlando Morando passou à condição do próprio pirata como prefeito e autointitulado candidato a governador do Estado. Pirata no sentido metafórico de rastrear todas as possibilidades de tornar-se figura obrigatória de primeira linha diante de fatos que se apresentem como adaptáveis a seu desempenho.

Rastilho provinciano? 

Vamos saber nos próximos dias qual o grau de superficialidade política dos parceiros de Orlando Morando no Clube dos Prefeitos. Tomara que contrariem o histórico de atuação dos legisladores em geral, que copiam projetos de lei de parceiros de outros municípios, e não saiam por aí a anunciar medida semelhante à alardeada agora.

Duvido que a maioria o faça. O senso crítico dos formadores de opinião que enquadram a ação do prefeito de São Bernardo num compartimento específico de oportunismo prevalecerá. Seriam lamentáveis demais projetos siameses. Talvez não escapemos do infortúnio porque, ao invés de os prefeitos dos demais municípios da região, seriam os vereadores autores de projetos de lei para salvaguardar a honra de mulheres violadas. 

A sanha de Orlando Morando em busca de holofotes não seria ação coordenada por uma equipe de marqueteiros que o prefeito de São Bernardo disporia, como João Doria. O tucano regional não teria recursos financeiros para bancar a própria equipe de marketing como o tucano da Capital, mas, em contraposição, conta com o mesmo ímpeto midiático. E, como Doria, não daria muito ouvido às sugestões de terceiros. Orlando Morando seria o marqueteiro de si próprio. 

O projeto de lei contra avanços inapropriados em espaços públicos poderá gerar incidentes que a imaginação não alcança ainda. Já pensaram se, diante da repercussão da medida, houver uma febre de denuncismos e São Bernardo passe a ser conhecida como a Capital do Assedio?  Seria uma espécie de bumerangue da iniciativa moralista de um prefeito que deveria se preocupar com questões muito mais relevantes. Até porque, instituições de segurança estão aí à disposição de quem se sentir violentada. 

De qualquer forma, com elucubrações ou não sobre os desdobramentos da medida, as quais servem apenas para satirizar a iniciativa, o que se constata, lamentavelmente, é que o prefeito de São Bernardo dá mostra clara, mais uma vez, de que não tem limites na corrida para a visibilidade na mídia da Capital, já que na região é automático o repasse de devaneios e decisões. Salvo exceções à regra, aqui tudo é feito de forma compulsória, quando não combinada. 

O gataborralheirismo marquetológico da Administração Orlando Morando pede insistentemente que se mirem os jornais, as revistas e as emissoras de rádio e televisão da Capital. A Cindelerela não pode ser ocupada apenas por João Doria. O genérico da região também merece um lugarzinho ao sol. 

Estou esperando a próxima iniciativa do prefeito de São Bernardo, agora que despertou do pesadelo da invasão dos Sem-Teto que estão na cara do gol da Anchieta de passeatas trabalhistas, prontos para reagir à desocupação por forças de segurança e de legalidade.



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