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Administração Pública

DANIEL LIMA - 01/11/2017

O primeiro escândalo da Administração Orlando Morando, em São Bernardo, pertence a um jogo intrincado de conjecturas nem sempre impressas e expressas das quais não fujo porque é de minha natureza não fugir da raia em situações análogas. Sobretudo quando não caio na besteira de me manifestar sem conhecimento específico. O mercado imobiliário é uma de minhas praias. 

Há três vertentes a observar nesse momento. Todas intestinamente desafiadoras e inquietantes ao tucano. Além de extraordinariamente pedagógicas. Resta saber se o prefeito do Município mais importante da região vai acordar. 

A primeira questão é que seria suposta ingenuidade acreditar que um secretário tão importante na escala hierárquica da Prefeitura de São Bernardo, com antecedentes densos de relações com o prefeito, seria um ente à parte dentro de eventual jogo de falcatruas no mercado imobiliário mais que consagrado como covil de corruptores. 

A segunda questão é que seria suposta maledicência acreditar que, exatamente por ter relações muito próximas ao prefeito ao longo dos últimos anos, o esquema de propinas na Secretaria de Meio Ambiente teria fatalmente as digitais do comandante do Paço Municipal.

A terceira questão é que justamente para não ferir a ética jornalística, e também no intuito de evitar o repasse de um atestado de imunidade, o caminho mais indicado numa situação como essa é uma postura cética, de quem flutua entre a possibilidade de uma coisa e de outra coisa, ou seja, da primeira ou da segunda versão, excludentes entre si. 

Trocando em miúdos: até prova em contrário, até ou principalmente por razões que vou expor logo em seguida, o escândalo na Prefeitura de São Bernardo que o Ministério Público Estadual e a Polícia Civil desvendaram e botaram para quebrar com iniciativa jamais vista na região, requer muita cautela para não canonizar nem demonizar o prefeito Orlando Morando. Vou expor três motivos básicos que me levaram a essas conclusões. 

Primeiro motivo 

O prefeito Orlando Morando teria construído capital de ética e moralidade que o afastaria em larga escala dos respingos não publicados, mas patentes na opinião pública bem informada, se houvesse seguido a sugestão deste jornalista. Bastava ter criado uma Corregedoria-Geral independente na medida do possível, não a que o antecessor Luiz Marinho mantinha para enganar o distinto público. Aliás, o petista não fez nada diferente da maioria dos chefes de Executivo de municípios brasileiros. Com a conivência da imprensa que enaltece o oficialismo protetivo das chamadas ouvidorias, penduricalho na cadeia de embromação de falsa atividade democrática. 

Segundo motivo 

O prefeito Orlando Morando teria dado ouvidos a este jornalista que há mais de dois anos fez uma proposta inédita no jornalismo nacional e internacional. Trata-se do que chamei de Reportagem Premiada, que consistiria em compensar os veículos de comunicação com parte dos recursos financeiros recuperados por conta de reportagens denunciatórias de falcatruas com o dinheiro público. Como prefeito dos prefeitos do Clube dos Prefeitos o prefeito Orlando Morando poderia ter tomado iniciativa inédita. Pena que seus marqueteiros sejam tão pobres de ideias e redundantes, correndo na mesma raia miúda do impagável João Doria e suas projeções miraculosas que jamais se confirmam. 

Terceiro motivo 

O prefeito Orlando Morando não teria dado atenção à formalidade conservadora do cargo e achar que só porque recebeu um convite de entrega de chaves de um condomínio residencial e comercial deveria estar presente como destaque no descerramento da placa – e construísse frases consagradoras ao suposto modelo de empreendedorismo dos anfitriões. Fosse um empreendimento isento de sequelas, nada deveria obstá-lo. Entretanto, Orlando Morando sabia de tudo sobre o condomínio em questão. Lógico que estou me referindo ao Marco Zero da Vergonha, da MBigucci, construído em área que pertencia à municipalidade. Aquele terreno então público foi surrupiado durante um leilão fraudulento, denunciado por este jornalista. Jamais fui levado às barras de tribunais por fazer a denúncia fartamente recheada de provas e encaminhada a um Ministério Público Estadual que simplesmente não investigou nada. A presença de Orlando Morando na festa dos Biguccis foi um aval deliberado ou subliminar à continuidade da farra imobiliária em São Bernardo.

Ação surpreendente 

Não vou meter minha mão na cumbuca de especulações em torno das origens e dos eventuais desdobramentos do caso revelado ontem e que está limitado a publicação em alguns jornais da região. O noticiário dá conta de que a ação policial reforçada pelo Ministério Público sugere que o espírito da Lava Jato permeou as investigações. Estou estupefato com o estouro desse caso. 

Diante de tudo que já publiquei nos últimos anos e dos resultados pálidos que se deram, cheguei a um estágio de desencanto que só não me levou a abandonar qualquer matéria assemelhada porque sou teimoso. Mais que isso: como o Judiciário de Santo André me presenteou com uma condenação descabida, inacreditável e ignorante em matéria de liberdade de imprensa, decidi seguir na luta. Mesmo sem contar com qualquer apoio da Imprensa controlada direta ou indiretamente pelos mercadores imobiliários. 

O que sei é que o mercado imobiliário deveria ser alvo prioritário e permanente de ações policiais e do Ministério Público, quando não da Polícia Federal. Quem sabe assim tudo se encaminhe a novos tempos. 

E o Clube dos Construtores? 

Por exemplo: é inconcebível que o Clube dos Construtores presidido pelo jovem Marcus Santaguita não mova uma palhinha sequer para acompanhar e posicionar-se sobre esse escândalo. O silêncio seria um péssimo exemplo à classe, cuja maioria de pequenos e médios empresários é constantemente solapada em seus interesses por perderem de goleada para os grandes conglomerados sempre muito próximos aos mandachuvas e mandachuvinhas públicos. 

O que me resta preliminarmente após o estouro do escândalo em São Bernardo (uma bombinha de São João quando comparado ao escândalo do Semasa, em Santo André, que o Ministério Público Estadual foi incapaz de reproduzir com objetividade e precisão na denúncia que só pegou os bandidos sociais do setor público) é esperar para ver o que as revelações sob segredo de Justiça vão apontar. 

Tentáculos mantidos? 

Quais seriam as empresas beneficiárias de malandragens? Se o próprio prefeito Orlando Morando disse ao Diário do Grande ABC que as investigações vêm do passado, durante a gestão de Luiz Marinho, tudo é possível. Inclusive que os mesmos tentáculos de permissividade tenham sido preservados. 

Entre a singeleza da ingenuidade e a rudeza da desconfiança, o ceticismo  parece o melhor e mais sensato dos sentimentos também nesse caso. Ninguém vive tanto tempo sem perder a inocência ou sem entender que sempre é possível que o que parece de pior não seja tão ruim assim. O ceticismo nos dá a vantagem territorial-ética de permitir que a maledicência e a ingenuidade não fugirão das possibilidades factíveis. É um meio de caminho cautelar que deve ser adotado quando faltam detalhes públicos consistentes das investigações. 



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