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Administração Pública

DANIEL LIMA - 06/11/2017

Jornalismo com compromisso social não vive da desgraça alheia, podem acreditar, mas também detesta triunfalismos seguidos de silêncio. Quando não de aplausos interesseiros. O ex-prefeito de São Bernardo Luiz Marinho bateu para valer no atual prefeito Orlando Morando. Quem estaria com a razão? O petista ou o tucano? 

A ótica avaliativa depende de quem é azulado ou de quem veste a camisa vermelha. Mas há também a possibilidade de alguém meter o bedelho supostamente qualificado, por não ser nem de um time nem de outro. É o que vou fazer. 

Luiz Marinho foi entrevistado na plataforma televisiva do jornal Repórter Diário que, diga-se de passagem, tem investido muito ao ouvir protagonistas da região. Em termos de matéria-prima informativa, nada melhor. Reflexão fazemos por aqui. 

Vamos aos pontos principais da reportagem com Luiz Marinho, em forma de notícia retirada da entrevista. O título da reportagem é forte, provocativo e provavelmente terá respostas de Orlando Morando: “Marinho classifica gestão de Morando como irresponsável”. 

Como disse que vou meter meu bedelho, trato de dizer que não concordo com Marinho. Orlando Morando faz gestão marqueteira, essencialmente marqueteira, impelido por assessores que caricaturizam a atuação do prefeito paulistano João Doria. Iniciativa que também se espalha entre tucanos de municípios paulistas. É uma praga a ser combatida pelo jornalismo de interesse público. Defino a linha de atuação dos tucanos como o uso de uma espécie de manual de conduta supostamente gerencial.  

Trecho da reportagem do Repórter Diário 

 Marinho alfinetou Morando ao declarar que o atual governo não apresentou propostas novas para a cidade e que se beneficia de projetos deixados por ele. “Basta andar pela cidade e ouvir comentários para perceber se estão com saudades do governo Marinho ou satisfeitos com o governo Morando. Não consiga fazer compras no mercado e ouço o pessoal pedindo para eu voltar e que fizeram a escolha errada”, pontou:

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O que difere Marinho de Morando é o perfil administrativo. Ao petista foram fluviais as propostas de governo assim que assumiu em janeiro de 2009, assessorado o tempo todo após a vitória e antes da posse pela ministra Miriam Belchior, uma das executivas de ponta do governo de Celso Daniel, em Santo André. Orlando Morando prefere o discurso e a prática de quinquilharias administrativas. Gasta saliva e tempo demais com varejismos, principalmente no campo de zeladoria. Marinho é suficientemente esperto para propagar saudade dos eleitores à gestão de oito anos. Faz parte do show. Apenas se esquece que se excedeu em propostas, contando com dinheiros federais, e deixou São Bernardo repleta de obras inacabadas e projetos que não saíram do papel. Administrar é estabelecer prioridades, diz uma antiga regra de gerenciamento. Marinho criou um vendaval. Morando cultiva um deserto.  

Trecho da reportagem do Repórter Diário 

 Sobre a reclamação do tucano quanto às obras paradas, Marinho disparou contra o atual prefeito, acusando-o de atrasar os empreendimentos para depois entregá-los como dele. “Havia obras que com mais de 30 de trabalho, terminam. E ele terminou agora para dizer que é dele. É uma bobagem e uma irresponsabilidade com a cidade”, criticou. Se há obras paradas, a obrigação do gestor é colocá-las em andamento. Também assumi obras paradas do (ex-prefeito William) Dib. Na Avenida Nelson Mandela (Vila São Pedro), havia uma obra sem projeto que poderia ocasionar alagamentos. O engenheiro me disse que era uma obra eleitoral. “As obras da (do rebaixamento da Avenida) Lions também estavam paradas e retomei”, completou. 

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Ganhar tempo entre o fim do mandato de um adversário político que deixa um legado de obras a ser completado é uma estratégia usual na administração pública. Mas não a torna eticamente saudável. É disso que Luiz Marinho reclama. Ao prefeito Orlando Morando compete detalhamento da atuação nos primeiros 10 meses de mandato.

Trecho de reportagem do Repórter Diário 

 Iniciadas em dezembro de 2013, as obras do Piscinão do Paço de São Bernardo passam por uma auditoria realizada pelo IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) contratado pelo valor de R$ 3,7 milhões ao erário. A assinatura do convênio ocorreu em maio, e Morando justificou a medida por não saber o que foi feito e o que foi pago para dar sequência dentro do cronograma de execução orçamentária junto ao Consórcio Centro Seco. Marinho, por sua vez, classificou a medida do tucano como gasto desnecessário de dinheiro público. O petista alegou que a razão do atraso da entrega do Piscinão do Paço foram os problemas de repasses financeiros do Ministério das Cidades ao governo municipal. Entretanto, o ex-prefeito afirmou que ainda assim, o empreendimento teve continuidade, mesmo que em ritmo lento. “As obras do Centro Seco andavam devagar, mas andavam”. Aí ele (Morando) mandou parar e auditar um contrato que já foi auditado pelo TCU (Tribunal de Contas da União), TCE-SP (Tribunal de Contas do Estado de São Paulo) e pela Caixa Econômica Federal. Ele gasta dinheiro público por uma auditoria desnecessária. Isso não é governo, e sim desgoverno, considerou.

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Mais uma vez o ex-prefeito de São Bernardo ataca Orlando Morando com cruzados e diretos que precisariam necessariamente de réplicas. Até porque os argumentos de Luiz Marinho parecem sólidos. Orlando Morando precisaria explicar as razões que o levaram a bater na porta do IPT. 

Trecho da reportagem do Repórter Diário 

 Assinada em 2012, a PPP (Parceria Pública-Privada) com o Consórcio SBC Valorização de Resíduos Revita e Lara, empresa de limpeza urbana, foi rescindido por Morando em julho. O convênio previa R$ 4,3 bilhões em 30 anos e a construção de uma usina de incineração, no Grande Alvarenga, que converteria o lixo em energia. O empreendimento, porém, não teve a licença da Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo) e, portanto, não saiu do papel. “Ele pega uma PPP, que era exemplo para o Brasil, e rompe com um argumento esdrúxulo, porque o órgão de licenciamento ambiental (Cetesb) não licenciou a usina. Mas ele é próximo ao governo do PSDB de São Paulo (Geraldo Alckmin), poderia ir atrás dessa liberação. Aí ele interrompe o contrato para colocar seus apadrinhados. Há muitos comentários em relação a isso”, criticou. 

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De novo Luiz Marinho acerta um direto no queixo de credibilidade do discurso de Orlando Morando. Entretanto, o que o petista prefere omitir é que o processo que culminou na definição do consórcio que atuaria na construção da usina de incineração contem pecados capitais que poderiam facilmente contaminar a suposta legalidade dos termos. Mais que isso: as características técnicas do empreendimento são controversas quando se coloca no horizonte próximo o meio ambiente. 

Trecho da reportagem do Repórter Diário 

 Logo no primeiro mês do governo, Morando detectou dívida de R$ 196 milhões em restos a pagar com fornecedores. Marinho não negou o passivo, embora reclame que o tucano olha ao “retrovisor”. “Evidentemente sempre haverá contas a pagar, porque senão a cidade para 60 dias antes. Pergunta se o governo não teve condições de honrar seus compromissos. Então é balela, conversa fiada, conversa para boi dormir, conversa de incompetente”, rebateu.

Meus comentários 

De novo o petista Luiz Marinho tem razão. As condições financeiras deixadas a Orlando Morando, conforme escrevemos ainda outro dia com base no Índice Firjan de Gestão Fiscal, coloca São Bernardo em primeiro lugar na região e em terceiro no G-22, o grupo dos 20 municípios mais importantes do Estado, fora a Capital do Estado, acrescentado de Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra, que completam o time da região.

Trecho da reportagem do Repórter Diário  

 Outro ponto abordado pelo petista foi a economia de R$ 100 milhões nos 100 dias de gestão anunciado pelo governo tucano. “O prefeito Orlando Morando disse que economizou R$ 1 milhão por dia, R$ 100 milhões em 100 dias. Se você na sua casa deixa de comprar carne, feijão, arroz, quanto economiza? Foi o que o prefeito fez. Ele deixou de varrer a cidade, faltam remédios em UBSs (Unidades Básicas de Saúde). Aí você economiza”, provocou. O ex-prefeito lembrou dos dados do IEGM (Índice de Efetividade da Gestão Municipal), divulgados pelo TCE-SP, em relação ao exercício de 2016. “São Bernardo foi exemplo de gestão na Região Metropolitana. Portanto, o argumento da gestão Morando caiu por terra. Uma cidade que pede financiamento internacional e precise de aval da Secretaria do Tesouro Nacional e do Senado, precisa contar com a receita em dia, senão não tem aprovação. Ele acabou de ter aprovado o investimento da CAF (Confederação Andina de Fomento), projeto feito por mim”, avaliou.

Meus comentários

Lamentavelmente, Orlando Morando se especializou no primeiro ano de governo a gerar expectativa de que produz faxina financeira em São Bernardo, a ponto de se entender que a catástrofe do Rio de Janeiro seria fichinha. Não é nada disso e, nesse ponto, Luiz Marinho também tem razão.

Trecho da reportagem do Repórter Diário 

 Alvo de uma ação judicial movida pelo MP-SP (Ministério Público de São Paulo) sob suspeita de superfaturamento, o Museu do Trabalhador não tem irregularidades, segundo Marinho. No entanto, a Promotoria chegou a denunciá-lo, ao determinar o ressarcimento de R$ 5 milhões por danos morais e R$ 2 milhões por danos materiais. O petista, por sua vez, disse não temer em prestar esclarecimentos sobre o empreendimento. Por outro lado, Marinho revela um arrependimento em torno do Museu do Trabalhador. “Houve uma ‘bateção’ de cabeça do Ministério da Cultura, com as várias trocas de ministros, no qual tenho um arrependimento. Tive a sugestão do secretário de Governo para incluir as obras no Orçamento da cidade (para concluí-lo), mas queria fazer outras obras. Esse é o arrependimento que tenho”, disse. O ex-prefeito, porém, classificou como irresponsável a autorização obtida por Morando em transformar o equipamento em uma Fábrica de Cultura, programa do governo estadual. “É uma obra com planejamento de museu. Os convênios foram liberados para ser um museu. Estranha-me o ministro da Cultura (Sérgio Sá Leitão) permitir isso e espero que a União e o MP-SP façam algo, porque é desvio de função”, criticou.

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O Museu do Trabalho e do Trabalhador defendido pela Administração de Luiz Marinho é um quasímodo cultural que mostra bem a distância a separar o petista dos interesses mais caros de regionalidade. Escrevemos muito sobre o assunto. Um museu que contemple apenas uma face do capitalismo – os trabalhadores -- é uma bobagem contraproducente a um marketing saudável da trajetória ascendente da mobilidade social na região. Algo que se escafedeu nas duas últimas décadas de abertura econômica e de novas fronteiras de investimentos no País. Com tanta matéria-prima disponível em São Bernardo e na região sobre mais de um século de empreendedorismo privado com o suporte de trabalhadores não só de chão de fábrica, é incompreensível sob qualquer aspecto, menos pela idiotice de ima ideologia retrógrada, que se despreze um empreendimento cultural integrado à própria história do desenvolvimento econômico e social. A contraofensiva de Orlando Morando, de substituir o errado pelo equivocado, no caso uma fábrica cultural sem identidade específica com a região, leva o caso ao casamento do ridículo com o patético. 



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