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Administração Pública

Peça-chave do escândalo em São
Bernardo tem nome de profeta

DANIEL LIMA - 08/11/2017

Não tenho nada a ver com isso. O profeta homenageado no batismo cartorial é outro. Chama-se Isaías o principal intermediador de vantagens ilícitas. Ele poderá entregar em delação premiada a rapadura inteira de malandragens do escândalo desvendado pela força-tarefa do Ministério Público de São Bernardo (mais especificamente o Gaeco) e Polícia Civil. 

Um escândalo que impacta a Administração de Orlando Morando. É impossível dar conotação diferente quando se sabe que a investida das autoridades policiais e ministeriais colheu o secretário Mário de Abreu e integrantes da equipe responsável pelo controle de emissão de licenças ambientais. 

Toda vez que o leitor der de cara com a expressão “licenças ambientais” o melhor é decodificar mentalmente: trata-se do mercado imobiliário velho de guerra. Tão velho de guerra que não lhe falta representante hostil a quem ousa denunciar ataques aos pobres e indefesos compradores de um produto que faz parte da cesta básica de cidadania. 

A prisão decretada pelo meritíssimo de Santo André porque escrevi verdades inconvenientes sobre o Clube dos Construtores então dirigido pelo famigerado empresário Milton Bigucci é um atentado ao jornalismo e ao interesse público, além de comprovado desconhecimento da vida regional.  O escândalo em São Bernardo vai comprovar o que tenho repetidamente informado. Independentemente dos nomes que emergirão como delinquentes.  

Ramificações demolidoras 

Conto com informações reservadas de várias fontes. Exatamente por conta dessas ramificações faço um diagnóstico e também uma mineração cuidadosos para filtrar eventuais dissidências e conflitos. Só dou sustentação a conjecturas que possam ajudar o leitor a entender o que se passa no Paço de São Bernardo e entorno. Procuro minimizar o quando posso as possibilidades de fraturas expostas de credibilidade. As informações precisam se encaixar como mosaico desenhado nas investigações, não necessariamente nos desejos.

Sei que sei porque assim tem de ser que o escândalo imobiliário em São Bernardo pode alcançar proporções inimagináveis e colher em delito gente graduadíssima da política e do empresariado. Há possibilidades até de que o modelo de evasão de recursos financeiros ilícitos a paraísos fiscais e a metrópoles internacionais assemelhe-se ao enredo delitivo do ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, preso na Operação Lava Jato. 

Sei também que a força-tarefa tem uma missão ética, além de técnica. Seria um pacto de honra: provar que no âmbito municipal é possível contar com autoridades policiais e ministeriais que nada ficariam a dever à independência da Operação Lava Jato. 

Traduzindo: o que se pretende com o aprofundamento das investigações é provar que São Bernardo conta com gente qualificadíssima para escarafunchar as entranhas dos poderosos de plantão e também dos poderosos de sempre. Os mandachuvas e os mandachuvinhas, se é que me entendem. 

Profeta mandachuvão 

O profeta Isaías de São Bernardo seria um mandachuvinha com força de atuação de mandachuva. Melhor dizendo: como é um mandachuvinha coladíssimo aos mandachuvas econômicos e políticos, Isaías seria mesmo um mandachuva. Chega-se ao ponto de muitos o considerarem um mandachuvão, com o argumento respeitável de que, quando a dependência dos mandachuvas a ponto de estarem todos com o rabo preso ao mandachuvinha, não há como deixar de reconhecer que se trata mesmo de um mandachuvão.

Embaralhei de propósito o que chamaria de hierarquia da pilantragem em instâncias públicas e empresariais. Por mais paradoxal que possa parecer, a suposta dificuldade de traduzir os parágrafos anteriores está tão na cara ao entendimento dos leitores que talvez nem precise dizer que Isaías é uma espécie de pau para toda obra de gente graduadíssima que não pode botar a cara e que confia plenamente na terceirização monitorada.  

O nome completo de Isaías é importante para que não se faça suposta caça às bruxas em São Bernardo? Esse argumento esgrimi ao interlocutor, mas não esperei pela resposta diante da pressão do tempo à edição deste artigo. O preposto dos bandidos sociais que atuam no mercado imobiliário e em repartições públicas de São Bernardo seria tão conhecido nos bastidores que bastaria enunciar sua identidade pela metade que tudo estaria resolvido. Isaías, garantem todos, coloca fogo no Paço Municipal e no mercado imobiliário. 



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