IMPRIMIR

Administração Pública

DANIEL LIMA - 21/11/2017

Nenhum administrador público da região obteve inicialmente tamanha confiança deste jornalista como Luiz Marinho, quando assumiu ou mesmo antes de assumir o Paço de São Bernardo em janeiro de 2009. E também nenhum administrador público da região mereceu tantas restrições. Não tenho compromisso com erros. Daí ter desembarcado da canoa furada de Luiz Marinho da mesma forma que embarquei: com senso crítico independente. 

Agora o noticiário dá conta de que Luiz Marinho está enroscadíssimo com filhotes da Operação Lava Jato, especificamente no caso envolvendo o chamado Museu do Trabalho e do Trabalhador. Luiz Marinho enredado é caçapa cantada aqui. Cantada em prosa e verso.

Diferentemente de muitos que estão agora a espinafrar o prefeito que administrou São Bernardo durante oito anos, tendo como nenhum outro na história da região o respaldo programado, articulado, resplandecedor e prospectivo do governo federal, também petista, fui combativo o tempo todo ao analisar os fatos, as perspectivas, o passado, essas coisas que formam uma grande constelação de avaliações.

Por isso tudo, poderia pinçar dezenas de artigos para atestar a distância crítica que me manteve a salvo da gestão do petista, da mesma forma que dos demais administradores municipais. A título de curiosidade e de comprovação destas letras, seleciono alguns trechos do artigo que escrevi para a edição de fevereiro de 20013 (portanto há quase cinco anos) sob o título “Administração Luiz Marinho é corrupta? Desconfio que sim”. 

Vamos então destrinchar a prova (o artigo de fevereiro de 2003) de que ninguém está a salvo do escrutínio deste jornalista, embora reconheça que o caminho da parceria interesseira seja muito mais leve, suave e rentável, mas de custo letal, porque a credibilidade vai para o saco: 

 Ainda outro dia, por conta de denúncias (ao que parece já esquecidas) do Diário do Grande ABC contra a Administração Luiz Marinho, fiz uma indagação: seria o prefeito petista um foco de corrupção? Se querem saber, desconfio que sim. Desconfio que sim não necessariamente por conta do que o Diário do Grande ABC andou publicando e andou deixando de publicar, porque é do DNA do Diário do Grande ABC essas idas e vindas que poucos entendem, mas muito se explica. A desconfiança tem matriz própria: uma Administração Pública minimamente decente e responsável não deixa em aberto um escândalo do tamanho do Marco Zero da Vergonha.

Mais crítica a Luiz Marinho

 O que se passa na Administração Marinho sobre o assunto, que estamos desvendando em minúcias em vários capítulos, é um acinte aos contribuintes. Sem entrar em detalhes sobre o caso propriamente dito, fartamente explorado e a ser explorado nesta revista digital, o que causa indignação é que um prefeito que assumiu discurso de moralidade, ética e impedimento a malfeitos simplesmente se cala às consolidadas provas. Afinal, onde se meteu o Procurador-Geral do Município, José Roberto Silva, que dizem ter sido substituído, ao não levar adiante a promessa feita a este jornalista, de viva voz, ante os documentos que lhe mostrei, de que puniria servidores públicos que participaram da patifaria que culminou na arrematação fraudulenta de um terreno nobre em São Bernardo e que, em seguida, remeteria a papelada ao Ministério Público Estadual para a esperada formalização de denúncia à Justiça?

Mais crítica a Luiz Marinho 

 Que forças estranhas estão relacionadas ao protecionismo descarado que se dá ao empresário Milton Bigucci, cuja maioria de empreendedores simplesmente dá de ombros quando se trata de relacioná-lo entre aqueles que merecem respeito institucional da categoria? Milton Bigucci esmera-se cada vez mais em tentar calar este jornalista, mas mantém o modus-operandi de sempre para se consolidar como mercador imobiliário de mão e bolsos cheios. Tudo com as benesses de autoridades públicas. Dizem pessoas muito próximas a Milton Bigucci que ele conta com costas largas até de ministro do Supremo Tribunal Federal, gente ligada ao ex-presidente Lula da Silva. Tenho cá minhas dúvidas sobre essa versão porque Milton Bigucci é especialista em propagar o que lhe interessa para domesticar o distinto público.

Mais crítica a Luiz Marinho  

 (...) O que faz a Administração Luiz Marinho diante das provas documentais e testemunhais já disponíveis para acabar com a farra daquela fraude e anular o leilão, medida que permitiria a devolução do terreno onde está previsto o Marco Zero da Vergonha? Não faz nada, nada vezes nada. Será que já fez tudo, tudo vezes tudo? Para quem, nos primeiros tempos de Administração, dizia a todos que Milton Bigucci era uma pedra no calcanhar da responsabilidade social que tanto pretendia implementar à frente da Prefeitura, a omissão é no mínimo suspeita. Teria Luiz Marinho caído na gandaia geral e irrestrita dos mercadores da construção civil? O que levaria Luiz Marinho a fechar olhos e ouvidos, quando não também as narinas, às aventuras de ilegalidades de Milton Bigucci que a Justiça paulistana já julgou e confirmou? Nada, nada vezes nada.  

Mais um exemplo 

Para não dizerem que fiz uma escolha seletiva, lanço mão de outro texto, agora do ano seguinte, 2014, publicado nesta revista digital na edição de 1º de julho. Os principais trechos sob o título “Fábrica de caças em São Bernardo é ótimo negócio só para alguns”:

 A fábrica de asas (e também de outros componentes sem grande valor tecnológico) que São Bernardo deverá sediar no projeto de caças suecos que vão abastecer a Força Aérea Brasileira é um grande negócio para alguns empresários bem próximos da Administração petista de Luiz Marinho e também do governo federal. A unidade fabril do caça Gripen da Saab está prevista como centro de montagem preliminar de um aglomerado de fornecedores. O regime condominial terá extensão complementar a gente que não entende bulhufas de defesa aérea. Mas dá show de bola em matéria de outras matérias. Se é que me entendem. Tudo está sendo organizado de modo que pareça a síntese do sucesso do empreendedorismo privado associado ao brilho da gestão pública. O sonho de unir capital e governo num empreendimento prometido como desbravador de novas matrizes industriais em São Bernardo bate de frente com a ideologia discricionária desse mesmo governo municipal.

Mais crítica a Luiz Marinho  

 (...) A fábrica de caças suecos e a constelação pretendida de empresas satélites que dividiriam espaços produtivos inserem-se no projeto de suposta redenção econômica da região. Tudo bobagem. Uma andorinha não faz verão. Principalmente uma andorinha de cartas marcadas, de baixa geração de empregos e principalmente de bases tecnológicas primárias. As partes nobres de montagem final e de equipamentos e acessórios tecnologicamente modernos ficarão com o Vale do Paraíba, especialmente em São José dos Campos. Devem ter percebido os leitores que tenho evitado aprofundar informações sobre a identidade dos empresários que se lançarão numa área privilegiada nas proximidades do trecho sul do Rodoanel, em São Bernardo. Cautela faz parte da sobrevivência profissional. São múltiplas as modalidades de compadrismos políticos, associativismos empresariais, poder de sedução no arremate de terras, entre outras variáveis que torna o obscuro deletério dissimuladamente transparente e ético. 

Mais crítica a Luiz Marinho

 Sabe-se que o modelo do empreendimento a ser implantado nas proximidades do Rodoanel admite possibilidades de romper a barreira de acesso àquele traçado mais que cuidadoso com o meio ambiente. O que se planeja para os negócios ali sediados é um novo impulso logístico a impulsionar o valor dos investimentos. Não se deve esperar pouca coisa de um prefeito que tem a petulância de insistir na lorota de que construirá um aeroporto internacional de grande porte nos mananciais de São Bernardo. Uma agressão que atingiria 12 milhões de metros quadrados. O que seria, para Luiz Marinho, uma aberturazinha seletiva no traçado do Rodoanel?  Sabe-se que nem tudo que reluzirá de desprendimento dos empresários escolhidos a dedo para se associarem à empreitada de dar um verniz de diversidade econômica à administração municipal terá o menor parentesco com ouro. Os ideais sindicalistas que durante décadas tornaram Luiz Marinho e parceiros corporativos pontas de lança ideológicas a hostilizar empreendedores privados de todos os portes viraram poeira. Pena que o radicalismo de um socialismo retrógrado tenha sido substituído pelo oportunismo e pelo exclusivismo capitalista. Nunca o dinheiro dos endinheirados foi tão inebriante à antiga capital sindical da região.  

Mais crítica a Luiz Marinho 

 O complexo industrial e de serviços com que se sonha como fonte de riqueza da indústria de defesa de São Bernardo terá, se levado adiante, um novo ensaio de aproximação entre capitalistas e dirigentes públicos de origem esquerdista. O modelo é inovador. Não ficaria restrito a abordagens sazonais de financiamentos eleitorais. Será estruturalmente extraordinário como alavanca sistemática de um novo perfil de negócios com amplas repercussões no modo de fazer política partidária. Talvez os leitores continuem com dificuldades em entender aonde quero chegar. Não sejam impiedosos. O que interessa mesmo é que Luiz Marinho e sua turma, se não forem portadores de paranoias, sabem exatamente o que quero dizer com estas linhas. Eles sabem o que sei sobre a fábrica de componentes básicos e quase rudimentares de caças suecos, um dos projetos que ainda sobram do espectro de alianças com o governo federal, sempre tendo uma ala petista na articulação de iniciativas macroespaciais. O polo de petróleo tão fartamente divulgado pela gestão Marinho durante anos derrapou após sucessivos escândalos na Petrobrás. Interlocutores agora dinamitados pelos desatinos desapareceram da geografia regional. Eles eram porta-vozes dos poderosos da estatal. 

Mais crítica a Luiz Marinho  

 O polo da indústria de defesa que se planeja para São Bernardo é uma das grandes operações capitalistas da Prefeitura de São Bernardo. Uma prova de que não existe contradição entre sonegar da identidade do Museu do Trabalho e do Trabalhador uma expressão que simbolizasse os representantes do capital e os malabarismos de engenhosidade empreendedora na preparação da fábrica de asas e outros componentes. Sugerir ao público que continua fiel à história de representantes dos trabalhadores, com a supressão do capital na marca oficial do museu, é apenas marketing de enganação. A gestão petista de São Bernardo é pragmática até demais ao vislumbrar oportunidades que o capitalismo oferece. Pensando bem, talvez não exista novidade alguma nessa avaliação. O sindicalismo é uma universidade na formação de capitalistas disfarçados de justiceiros sociais. 

Coito e estupro 

Para completar, se fosse retirar apenas alguns trechos, como os acima, para retratar os despautérios administrativos de Luiz Marinho, provavelmente o volume físico teria uma extensão tão quilométrica que chegaria a exaustão.  Podem acreditar que não exercito vaidade alguma ao reproduzir textos que me dão completa razão e obrigatoriamente me distinguem da selva de oportunistas que beijam a mão dos poderosos de plantão. 

Preferiria, mil vezes, ter-me referido ao então prefeito de São Bernardo com certo entusiasmo de que poderia, em situação muito mais favorável e mesmo com perfil individual completamente diferente, ter se equivalido a Celso Daniel nos anos 1990. 

Infelizmente, a experiência de Luiz Marinho à frente da Prefeitura de São Bernardo, e com as costas largas de Lula da Silva, se converteu em coito interrompido na área de administração e em estupro econômico. 

Coito interrompido porque o planejamento em parceria com o governo federal deu com os burros nágua diante do caos fiscal seguido de desmonte ético da gestão petista em Brasília, com ramificações por todo o Brasil. 

Estupro econômico porque a derrocada do PIB a partir do primeiro trimestre de 2014 confirmou dolorosamente a Doença Holandesa Automotiva de São Bernardo a ponto de Luiz Marinho deixar a estrutura de empregos formais aquém dos números vexatórios do governo Fernando Henrique Cardoso, em dezembro de 2002. 



IMPRIMIR