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Regionalidade

DANIEL LIMA - 05/12/2017

O Clube dos Prefeitos me remete à estória que povoa a imaginação de quem passou por bancos escolares. Lembram-se do moleque que insistia em simular afogamento e zombava dos adultos que corriam para salvá-lo, até que um dia o afogamento era de verdade e ninguém lhe deu bola? Pois o Clube dos Prefeitos é exatamente o moleque travesso que se dá mal. Acena com soluções que jamais ocorrem. A regionalidade da qual deveria ser o principal emulador, além de protetor, virou ponto de referência de algo irrecorrível. O Clube dos Prefeitos é mesmo o cemitério da regionalidade, como mencionei de passagem aqui outro dia. Hoje trato de explicar. 

Mais um ano se passa e o Clube dos Prefeitos não dá sinais de vitalidade. Viveu mais uma temporada de embromações. A chegada de novos prefeitos, sendo o prefeito dos prefeitos de plantão um especialista em marketing político, acrescentou toneladas de fantasias à trajetória da agremiação. 

Como nas temporadas anteriores desde que foi criado em 1990, um pouco depois da revista LivreMercado antecipar debates sobre integracionismo desta Província, o que vivemos neste 2017 não passou de penduricalhos. Não afirmo categoricamente que tudo tenha sido desenhado para ludibriar o distinto público, embora essa possibilidade também não seja descartável. O que pesou prevalecentemente foi mesmo a inexperiência. Morando acreditou que bastaria fabricar algumas manchetes para que o Clube dos Prefeitos, como num passe de mágica, ganhasse robustez. 

Até quando? 

Insisto sempre na mesma tecla não por falta de criatividade, mas exclusivamente por embasamento técnico: enquanto o Clube dos Prefeitos não construir uma agenda sistematizada que coloque como peça principal do tabuleiro de competitividade regional o reenquadramento do desenvolvimento econômico nos trilhos da modernidade, continuaremos andando em círculos. Teremos novas terras retiradas para um funeral indesejável, mas mais que provável: o próprio Clube dos Prefeitos sairá de cena definitivamente. 

Orlando Morando vendeu alguns adereços programáticos que não resistem às prioridades econômicas sempre ultrajadas. Vender não é necessariamente um problema, desde que se entregue. Entregar é o problema. 

A redução orçamentária em nome de suposta austeridade e racionalidade não convence porque sugere abundância de recursos financeiros compartilhados pelos sete municípios. Pura ilusão. A inadimplência era pronunciada. Se dinheiro havia mesmo assim, nada teria sido mais prático e frutífero que investir na contratação de consultoria especializada em competitividade. Há tantos exemplos nos mais diferentes campos de atividades humanas que poderiam sensibilizar a direção do Clube dos Prefeitos. 

Mudar ou perecer 

Até o Flamengo em extraordinária etapa de reestruturação lança mão de especialistas, inclusive internacionais, para recuperar o prestígio e a competitividade perdidos, como mostrou nesta semana a revista Época. Poderia citar muitos outros casos em que a velharia estrutural de entidades presas a teias de aranha de organização interna desabou. 

A Casa do Grande ABC em Brasília gerou manchetes histriônicas, mas não acrescenta nada ao regime de mudanças que o Clube dos Prefeitos exige. Contratou-se um profissional para fazer o meio de campo com congressistas e não demorou para ser demitido sem maiores explicações aos contribuintes. 

Viagens ao continente europeu para debater urbanismo também não levam a nada porque estão desconectadas das demandas específicas da região. Transplantar experiências de fronteiras tão distantes para os pouco mais de 800 quilômetros quadrados da região é uma operação que vem desde os tempos de Celso Daniel, incentivador dos sete mares da regionalidade. E o que se deu no período passou por ações intermitentes, inconclusas, quando não conflitantes.  

O desmonte da Agência de Desenvolvimento Econômico, primeiro irmão do Clube dos Prefeitos, agravou o quadro de desesperança. Quebrou-se uma perna de micropolíticas econômicas locais igualmente de baixa produtividade. A reformulação da Agência seria mais indicada, fundindo-se aos cromossomos do Clube dos Prefeitos sem que a iniciativa significasse absorção ou tutela. 

Qualquer organização que esquadrinhe competitividade como elemento-chave de políticas de desenvolvimento econômico saberia dar conta do recado. Desidratar a Agência até o último suspiro é de obviedade resolutiva tão estúpida quando insensata. 

Pedra no sapato 

Sei que sou uma pedra no sapato de todos que jogam o jogo do esquecimento e do desconhecimento na região. Jogo de esquecimento é o fenômeno de se repetirem manchetes do passado como novidades fresquinhas e ninguém se dar conta do golpe informativo. Jogo de desconhecimento é quase a mesma coisa, porque lida com consumidores de informações que por questão principalmente geracional nem sonham que publicações bombásticas de agora também o foram no passado de duas décadas ou mais e que não passaram de bombinhas de São João no decorrer do tempo. 

Toda vez que algum representante do Clube dos Prefeitos faz algum tipo de intervenção em que se coloca a regionalidade como tema positivista e, mais que isso, fadado ao sucesso, o que se está cometendo é mais um crime de lesa-região. A lista de propostas que não saíram do papel é imensa. Qualquer documento com a assinatura do Clube dos Prefeitos ganha narrativa suspeita, porque vai dar com os burros nágua. Prometeram-se tantas obras e intervenções na região que, metade fosse executada, viveríamos num paraíso. 

PIB vai chegando

Nos próximos dias vai sair o resultado do PIB dos Municípios. Estarão sendo desvendados os dados de 2015. O estrondo será gigantesco. Uma contraposição entre o que o Clube dos Prefeitos prometeu nos últimos cinco anos e o acumulado de perdas da região no período mostrará generosidade em tudo que escrevo sobre a agremiação. O prefeito Orlando Morando precisa deixar de se ofender com a denominação que atribuo à entidade e provar que tem vocação à regionalidade nos próximos 12 meses em que seguirá à frente daquela organização. 

O Clube dos Prefeitos é o cemitério da regionalidade porque cava a própria sepultura de incompetência quando propaga medidas que não se cumprem jamais e por não se cumprirem jamais expõem compulsoriamente as fragilidades da organização. 



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