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Administração Pública

DANIEL LIMA - 06/12/2017

Ora, ora, daí que o bicho vai pegar. E vai pegar para valer. Uma série de reportagens sobre as trapaças do então secretário de Meio Ambiente de São Bernardo, Mário de Abreu, cuidadosamente editadas no jornal da TV Globo, não deixa margem a dúvidas: desta vez é mais que certo, é certíssimo, que malandragens imobiliárias não ficarão impunes. Os empreendedores do setor que são sistematicamente prejudicados agradeceriam de joelhos. 

Uma tradição de vassalagem, de esconde-esconde, de compadrios, de tudo que o leitor imaginar desqualifica o conceito de concorrência e de meritocracia, estaria ruindo. Já dera a informação havia alguns dias de que as investigações seriam rigorosas. Espero que não seja uma chuva de verão. Que a tempestade seja permanente. 

O pessoal da Globo anuncia que tem à mão calhamaço de 1,5 mil páginas da denúncia da força-tarefa do Ministério Público Estadual, que atuou em conjunto com a Polícia Civil para desbaratar a quadrilha montada poucos andares abaixo do gabinete do prefeito Orlando Morando.  

Tarefa a cumprir 

O mesmo prefeito Orlando Morando poderia deixar mais evidenciado, com atos, aversão a roubalheiras. Basta entregar à mesma força-tarefa ministerial e policial o processo que outorgou à Construtora MBigucci o título de vencedora de um leilão fajuto da área pública transformada em condomínio misto defronte ao Fórum, na Avenida Kennedy. Atos do então prefeito Luiz Marinho. 

Sei não até onde vão os desdobramentos do caso do então secretário Mário de Abreu. O volume de informações aumenta a cada dia. Os detalhes chegam a ser sórdidos. O também advogado foi pego com a boca na botija de uma operação delituosa, segundo a denúncia do MP.  

Em pleno período de efeitos da Operação Lava Jato, mesmo que a Lava Jato já não tenha a força de antes, a desassombrosa atuação do então secretário e assessores diretos configura mescla de destemor e ingenuidade. 

O então secretário e auxiliares não teriam dado a menor bola ao quadro anticorrupção no País, como se São Bernardo fosse território à parte. Convenhamos que se trataria de besteira sem tamanho, porque, se perdeu muito do respeito econômico com a descentralização automotiva, São Bernardo ganhou musculatura política extraordinária por sediar o domicílio do grande líder petista, o ex-presidente Lula da Silva. 

Cidadela emblemática 

Reconquistar a cidadela perdida no ano passado na esteira da Lava Jato é o objetivo central do PT paulista nas próximas eleições municipais. Em última instância, isso significa que a Administração Orlando Morando estaria monitorada com lupa.   

Os jornais da região têm sido econômicos na divulgação do escândalo. Nos primeiros dias pós-ação policial e ministerial foram publicadas matérias básicas. Depois, até parece que nada se passou na gestão do tucano Orlando Morando. Não diria que seria uma tentativa de abafar o caso, algo comum na imprensa quando há interesses difusos em jogo. 

Se houve alguma orquestração silenciosa para deixar a bola rolar longe da área de interesses próximos, a atuação da TV Globo estragou tudo. A repercussão é estrondosa nas redes sociais. Massifica-se o escândalo. Especulam-se. O prefeito Orlando Morando age com clareza ao retirar esse monstro do próprio quintal, ou seja, da chefia do Executivo. 

Contaminação automática 

Entretanto, depois de três anos de Operação Lava Jato, a disseminação de respostas de denunciados em escândalos, sobretudo de gente engaiolada na Papuda, em Curitiba, em Benfica e em Bangu, descredencia a credibilidade das declarações. Mesmo fora das investigações, Orlando Morando paga o preço da desconfiança generalizada que paira sobre os políticos no País. Mário de Abreu não foi instalado no cargo, acredita-se, sem prévia seleção que tenha levado em conta vetores diversos quando à ausência de risco ético e moral da gestão pública. 

O que fazer diante da contaminação de imagem? Os marqueteiros de Morando não encaixaram até agora uma resposta apropriada. Gestões junto à força-tarefa do tipo utilizado pelos heróis nacionais instalados em Curitiba (sim, heróis nacionais, embora alguns jornalistas ideológicos e paritários procurem desqualificar todos eles em favor da velhíssima guarda da política nacional que industrializa escândalos) poderiam reduzir os danos colaterais. 

Talvez o prefeito Orlando Morando comece a entender que os marqueteiros a quem dá abrigo, inspirado em João Doria e tantos outros políticos que se autointitulam jovens, não entendem patavina de crise de imagem. Só de eventualmente lerem este artigo e afirmarem que não há complicações, eles mereceriam um chute nos fundilhos. 

Pesquisa qualitativa 

Querem um desafio? Que a gestão de Orlando Morando promova pesquisa qualitativa e, entre as questões formuladas, esteja algo como o entendimento de cada um sobre as ramificações públicas que teriam levado o então secretário Mário de Abreu a atuar com tanta desenvoltura. Façam isso e ouvirão o que gente no Paço Municipal de São Bernardo se recusa a admitir. 

Se Orlando Morando tem algum método de controle de medidas positivas, regulares e negativas com as quais convive diariamente para superar obstáculos, certamente o escândalo do então secretário está na pastinha vermelha. Pastinha vermelha? Haveria cor mais apropriada? 

Os petistas de São Bernardo estão se divertindo com os rescaldos e possíveis novas complicações do caso. Eles sabem que a Lava Jato foi o melhor cabo eleitoral de Orlando Morando nas eleições de outubro do ano passado. E que, desde então, o processo de empastelamento interpartidário tem aproximado as demais agremiações do petista, conforme revelam pesquisas recentes. Com o jogo entre tucanos e petistas praticamente empatado em depauperação de credibilidade, o futuro eleitoral será carnificina verborrágica. Entre mortos e feridos sobrarão poucos de ambos os lados. Melhor para os petistas, soterrados em outubro passado.  



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