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Economia

Não há mesmo mais
espaços para shopping

LARA FIDELIS - 05/02/1998

Ainda há espaço para novos shopping centers no Grande ABC? Na opinião de representantes dos principais centros de compras, a resposta é não. O argumento soa comum a todos: o número de estabelecimentos está adequado, ou mesmo superior, ao volume de habitantes. Ou seja, não há expansão demográfica nem crescimento de renda per capita que justifiquem novos investimentos no setor. Dirigentes também apontam como alternativa para sobrevivência dos pequenos shoppings, esvaziados em função do forte apelo dos grandes, sua transformação em espaços de conveniência, com alas especializadas em serviços e lojas voltadas ao atendimento da vizinhança, já que não podem competir em mix de produtos, muito menos em opções de alimentação e lazer. 

A polêmica do saturamento da região para novos estabelecimentos foi levantada por Henrique Falzoni, presidente da Abrasce (Associação Brasileira de Shopping Centers) e diretor da Emplanta, empresa responsável pela transformação do fantasma Center Shop, de São Bernardo, no Metrópole de hoje, que recebe de 30 mil a 35 mil pessoas/dia. Em entrevista publicada em LivreMercado de janeiro, ele afirma que o pequeno crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) e a instalação recente de três grandes centros de compras (o próprio Metrópole, Shopping ABC e ABC Plaza) não deixam potencial para novos empreendimentos, pelo menos temporariamente.  

Quem endossa essa afirmação é o gerente de Marketing do Shopping Santo André, Ricardo Fioravante, segundo quem o mercado regional não está saturado apenas para estabelecimentos de grande porte. Também o comércio de rua vive esse quadro. "O Grande ABC registrou inversão de demanda: empregados da indústria se tornaram comerciantes em função das demissões, espontâneas ou não, gerando aumento efetivo do número de endereços comerciais abertos sem crescimento correspondente da procura. Isso ocorreu simultaneamente à explosão dos shoppings, inchando a oferta" -- analisa. Uma opção que talvez encontrasse bom retorno, acredita, seria a abertura de shoppings temáticos. Mesmo assim, calcada em pesquisas de mercado.

Saturamento do mercado 

Também a gerente de Marketing do Shopping Metrópole, Laura Ranaldi, concorda com a tese de saturamento de mercado. "O número de shoppings na região está adequado à população. Novos estabelecimentos não vingariam nesse contexto, pois a oferta seria muito superior à procura" --  garante. Ela lembra que o antigo Center Shop somente foi ampliado após estudo das potencialidades da região, na época tão favoráveis que geraram a transformação do Mappin ABC em Shopping ABC e a abertura do ABC Plaza, ambos em Santo André. "Os principais prejudicados foram os menores, que não dispõem de estrutura e mix de lojas ideal. Segurança, estacionamento, serviços, alimentação e lazer são fatores fundamentais para o desenvolvimento de um centro de compras" -- completa Laura. 

"O potencial de consumo da região não é tão grande que suporte tantos shoppings, principalmente depois da evasão industrial e da mudança de perfil do consumidor médio, bastante diferente de três anos atrás" -- destaca o gerente de Marketing do Shopping São Caetano, Raul Marcondes Furlan. Ele acredita, porém, que a atual concorrência é positiva à medida que provoca melhorias na qualidade dos investimentos. O estabelecimento, por exemplo, aproveita fase de renovação de contratos para promover reestruturação com treinamento de lojistas e busca por empreendedores profissionais. O Mappin é um dos que se somará ao mix para funcionar como âncora. Negociações também ocorrem com a Ática, que há alguns meses promete inaugurar megastore no local. Raul vai além: "Existe forte tendência de redução do número de lojas dos shoppings e esse enxugamento será suprido por serviços, lazer e alimentação". 

Há população

Para o gerente de Marketing do Shopping ABC, Fernando Alvarez Rodriguez, a solução para que pequenos centros de compras não sejam totalmente esmagados pelos grandes seria a transformação em shoppings de conveniência, com serviços e produtos adequados ao bairro ou região onde estão situados. Embora enxergue o enfraquecimento dos menores, ele não observa falta de espaço para novos empreendimentos. "O mercado não está saturado, ao contrário do que muitos apregoam. Temos população semelhante às de Curitiba e Belo Horizonte e número de shoppings inferior ao dessas Capitais. Além disso, somos o terceiro potencial de consumo do País" -- sublinha. Fernando acredita que bom retorno teria o investidor que apostasse no público consumidor de Mauá e Diadema, na sua opinião ainda carentes de opções. 

Já o diretor da Associação dos Lojistas do Shopping Green Plaza, Lourival Cardoso, acredita que o Município não oferece mais brechas para novos centros de compras. "Mauá é cidade dormitório e, como as pessoas não trabalham aqui, não existe público durante o dia para shoppings, praça de alimentação e cinema" -- lamenta. Essa constatação norteou o perfil do estabelecimento: shopping de rua, sem estacionamento, direcionado ao público que utiliza ônibus e trem, passa pelo calçadão e recorre à região central quando vai às compras. Mesmo assim, o local ganha ainda este mês duas salas de projeção com capacidade para 213 pessoas cada. Uma terceira está prevista para a metade do ano e novidades estão sendo programadas para 99. Diadema, na opinião de Lourival, talvez fosse alternativa viável aos novos empreendedores, porque não possui shoppings e tem boa localização, com acesso fácil pela Rodovia dos Imigrantes. 

Só serviços

Se shoppings como Green Plaza, Santo André e São Caetano apostaram na vizinhança para atrair bons negócios, oferecendo produtos adequados aos frequentadores das regiões centrais das cidades onde estão instalados, o Best Shopping, de São Bernardo, parece ter descoberto essa possibilidade somente após esvaziamento dos consumidores e fechamento de número significativo de lojas. 

Após reduzir preços de aluguéis e luvas, o gerente administrativo Zenilson Gurgel agora estuda a criação de ala exclusiva para serviços a ser instalada em piso inteiro do centro de compras, numa iniciativa inédita no Grande ABC. "A região realmente está saturada para o comércio varejista. Grandes absorveram pequenos e a crise nacional tem afugentado o público consumidor" -- observa, confirmando a teoria de que luz no fim do túnel para os menores talvez exista no modelo dos chamados shoppings de conveniência.  

Ricardo Fioravante, do Shopping Santo André, concorda: "Terá destaque aquele que for capaz de aprimorar a conveniência, oferecendo praticidade, melhor prestação de serviços e apelo de vendas que alie qualidade e preço". Ele considera a conveniência e o perfil de atendimento à vizinhança as melhores ferramentas na conquista da clientela. Prova disso é a reduzida ociosidade de seu estabelecimento -- apenas 3% das 130 lojas estão fechadas, mas já em processo de negociação. O público também é expressivo, especialmente levando-se em conta que o local não possui área de lazer e há poucas opções de alimentação. São 42 mil pessoas aos sábados e 26 mil nos dias úteis, boa parte atraída junto aos 160 mil pedestres que passam diariamente no horário comercial pelo calçadão da Coronel Oliveira Lima.



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