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Imprensa

Celso Daniel, Sérgio Gomes,
Monstro e a Pajero: como foi?

DANIEL LIMA - 09/02/2018

Vou contar, depois do Carnaval, um dos pontos mais polêmicos – e sobretudo fantasioso – do sequestro do prefeito Celso Daniel, na noite de 18 de janeiro de 2002 no chamado Três Tombos, na Capital. Já escrevi sobre o assunto ao longo dos anos como maior especialista do caso no jornalismo brasileiro (não é empáfia essa definição, mas a garantia de que os leitores não vão comprar gato de especulações por lebre de realidade dos fatos), mas agora vou ser muito mais didático, mais profundo, mais detalhista e mais contextualizador. 

Quem entende que esse novo capítulo é apenas um requentamento supostamente oportunista do caso Celso Daniel cai do cavalo da afoiteza. Além dos aspectos que destrincho logo abaixo, há em operação uma nova investigação do Ministério Público Estadual. O procurador de Justiça Edilson Mougenot Bonfim solicitou em novembro de 2016 (portanto há mais de um ano) a reabertura da investigação. A expectativa de identificar supostos novos mandantes do crime vai dar com os burros nágua. 

O surgimento de novas provas, como adiantou o representante do MPE com base em informações de terceiros, está ligado ao quadro de corrupção na Prefeitura de Santo André. O procurador vai descobrir o que a Polícia Civil e a Polícia Federal constataram há muito tempo: não existe conexão entre uma coisa e outra, ou seja, morte do prefeito e gestão do prefeito não se misturaram jamais. 

Decidi voltar ao caso Celso Daniel porque um amigo me levou a isso. Estávamos almoçando e, de repente, o assunto Celso Daniel veio à mesa. Não por mim, claro. Já estou cansado desse temário, mas dele. De vez em quando algum interlocutor circunstancial fala do caso Celso Daniel com a certeza de informações da mídia em geral que, sei muito bem, é o que prevalece na imaginação da maioria. 

Na maioria dos casos deixo o assunto para lá, sobretudo quando estou atarefado. Mas num almoço, mesmo que o assunto proposto fosse outro, não dá para perder a oportunidade. Como não pude dizer tudo que precisa ser dito (até porque me surgiu a ideia de detalhar ainda mais o que tenho em mãos) resolvi juntar novo texto aos mais de dois milhões de caracteres que já redigi sobre o assunto. 

Muito mais detalhamento

E a melhor maneira de mostrar que nem tudo que reluz de invencionice é ouro de credibilidade se apresenta na forma que vou utilizar após o Carnaval. E justamente para não parecer repetitivo, decidi ir mais à fundo. Vou escrever muita coisa que não escrevi antes. Sei que é muito pouco provável que vou abalar a convicção dos convictos, com perdão da redundância. 

Mas vou me divertir um bocado como jornalista muito bem informado sobre o caso (e não vejam nisso, pelo amor de Deus, nenhum ranço de arrogância) porque, por mais que ideias, concepções e sentenças estejam consolidadas por camadas e camadas de informações distorcidas, sempre deixarei entre eles uma porta entreaberta a eventuais reflexões. 

Talvez esteja a pregar no deserto, mas não custa nada tentar. Ainda mais com o capital de integridade ideológica que precisa ser avaliado antes de qualquer leitura: não tenho partido político e muito menos sou refém de idolatrias de direita e esquerda. 

Como saiu do veículo? 

Um dos pontos mais efervescentes do caso Celso Daniel, entre dezenas, é a afirmação categórica daqueles que foram levados no bico pela mídia sobre a atuação do primeiro-amigo Sérgio Gomes da Silva. Inventaram de tudo para colocá-lo como vilão. A versão mais veiculada e incrustrada na mente dos leitores é que Sérgio Gomes, ode expiatório do Ministério Público Estadual para transformar crime comum em crime administrativo, expulsou Celso Daniel a pontapés do banco de acompanhante, entregando-o aos sequestradores. 

É exatamente sobre esse ponto do sequestro que iremos à fundo. Detalhadamente. Independentemente de pressões. Trabalhei muito para recuperar informações e documentos que desvendassem o crime. Ouvi todas as partes. Por isso jamais escondemos ou dissimulamos uma avaliação que vai muito além do meramente formal do jornalismo enganador. 

Assumimos posição editorial, então à frente da revista LivreMercado. Mesmo sabendo que contrariaríamos muita gente que se agarrou às alquimias massificadas pelo Ministério Público durante quatro anos, enquanto as revelações da Polícia Civil foram vetadas à Imprensa pela Secretaria de Segurança Pública do Estado. A demonização martelada sem parar e sem contraditório é a estrada da perdição da verdade.

Reflexões, reflexões

Sugiro uma atitude: libertem-se dos grilhões ideológicos, joguem às traças convicções conectadas a relatos viciados, ateiem fogo na confiança de que recebeu uma carga de informações suficiente para não ler mais nada sobre o caso. Lançam-se com humildade à leitura do que oferecemos com a segurança de quem, repito, ouviu todos os lados das investigações. 

Principalmente os chefes policiais do governo do Estado sob o controle do PSDB de Geraldo Alckmin. Esse adendo (PSDB de Geraldo Alckmin) é essencial a um destaque especial à seriedade das investigações. A força-tarefa da Polícia Civil de São Paulo foi impedida de apresentar contrapontos à narrativa fantasmagórica da força-tarefa do Ministério Público, especificamente escalada para atuar no caso sem parceria com a Polícia Civil ou a Polícia Federal, como é o caso da Operação Lava Jato. Mais que isso: em oposição escandalosa às forças policiais, especializadas em investigação. 

O mais engraçado em todo o caso Celso Daniel (o engraçado entra aí como força de expressão, claro, sem qualquer sentido de sarcasmo com um assunto bastante traumático) é que, embora não tenham faltado protagonistas e coadjuvantes ao grande ensaio geral para tornar o crime político-administrativo, não se consegue fechar o cerco. Simplesmente porque não há cerco a ser fechado se prevalecer a verdade tão sufocada por interesses que sempre ultrapassaram a linha de fundo do bom senso. 



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