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Economia

Ibope Inteligência confirma
desastre dos shoppings center

DANIEL LIMA - 07/05/2018

Não custa repetir a obviedade de que somente eu, euizinho de lima, sabe quanto custa desafiar os bandoleiros sociais da região (que estão em toda parte) quando me oponho ao ufanismo interesseiro e especulativo que teve, no mercado imobiliário, durante mais de duas décadas, um representante digno dos piores territórios. A notícia do Ibope Inteligência, publicada na edição de domingo do Estadão, de que a há 12 mil lojas vazias nos shoppings brasileiros, as quais só estariam ocupadas em quatro anos, confirma integralmente tudo o que escrevemos há vários anos sobre a onda de investimentos do setor na região. Textos que mobilizaram bandidos sociais contra uma voz dissonante na casa de massagens da vigarice institucionalizada para enganar o distinto público consumidor.  

Aquela onda de investimentos supostamente redentores da economia da região foi levada à série de manchetíssima e manchetes de veículos locais sem sensibilidade e conhecimento. Reitero essa interpretação porque há gente que tenta misturar alhos com bugalhos do mundo informativo da Internet, colocando todos num mesmo pacote de incompetências. Mais de 50 anos de jornalismo – 80% dos quais no jornalismo impresso -- são um diferencial e tanto em qualquer plataforma de informação e análise.   

De que adianta um jornal impresso como fonte de informação se quem preenche suas páginas em larga escala são jornalistas jovens, imaturos, e, em muitos casos, sem um orientador experiente? Nada contra os jovens, que fique claro. No Diário do Grande ABC, no começo dos anos 1980, introduzi o que chamavam popularmente de “escolinha”, com critérios sobre os quais um dia desses exponho. Mais tarde, somente mais tarde, os grandes jornais da Capital ousaram preparar mão de obra para o setor.  Cansei de ensinar a jovens jornalistas na região. E de recusar jornalistas velhos sem perspectiva de recuperação. Portanto, não me carimbem de oponente à juventude. Até porque tenho exemplares familiares.  

Manipulação de dados  

Mais interessante até que a notícia do Estadão sobre o buraco profundo em que se meteram os pobres coitados que acreditaram que bastariam comprar uma loja em shopping para a vida melhorar (conheço vários casos na região, de gente desiludida, que perdeu todas as economias amealhadas em longos anos de trabalho) é o desmascaramento de uma entidade que representa o mercado imobiliário. O Estadão não fez referência crítica ao conflito de fontes de informações, mas, como aprendi a ler as entrelinhas para entender o jogo de manipulações, revelo aos leitores.  

A reportagem do Estadão ouviu o Ibope Inteligência, fonte principal dos dados que desnudam o estrondo da bolha de shoppings no Brasil, após a ilusão de viver um crescimento que não passava de precário, movido a gastos fiscais incontroláveis e receitas temporárias com a febre das commodities. Repasso alguns trechos da reportagem do Estadão para que os leitores possam entender ainda melhor o contexto desta análise: 

 Apesar de a economia brasileira ter voltado ao azul, a crise deixou marcas profundas no setor de shoppings. Há hoje cerca de um milhão de metros quadrados vagos nos 522 shoppings espalhados pelo País. São 12,5 mil lojas desocupadas. Se nenhum novo empreendimento fosse construído ou ampliado, seriam necessários pelo menos quatro anos para que todo o espaço fosse ocupado. (...) a situação é bem mais crítica nos shoppings novos, afirma Marcia Sola, diretora executiva do Shopping, Varejo e Mercado Imobiliário do Ibope. (...) Entre 2012 e 2016, foram abertos 128 empreendimentos, lembra o presidente da Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce), Glauco Humai. “Com a crise, ocorreu uma tempestade perfeita que fez com que os shoppings novos tivessem maior dificuldade de amadurecimento. Mas isso não aconteceu com todos”.  

Situação dramática  

O que a reportagem do Estadão esclarece é que a Abrasce não monitora a vacância dos shoppings novos separadamente dos consolidados. Nas contas da entidade, a taxa média de vacância do setor como um todo gira em torno de 5,7% em números de lojas. É justamente nesse ponto que está a pegadinha da informação imprecisa da entidade de classe. Não fosse o Ibope Inteligência ninguém saberia que o índice de vacância dos shoppings inaugurados entre 2013 e 2017 (isto é, em pleno período de fantasia de crescimento) é superior a 40%. Confiar em entidade de classe é um risco enorme. O Clube dos Construtores do Grande ABC não fez o que fez por aqui porque é único, embora tenha sido abusadíssimo. Está na cara que a Abrasce manipula dados. É impossível chegar à vacância média de apenas 5,7% quando os novos empreendimentos, segundo critérios do Ibope Inteligência, superam a 40%.  

Voltando à Província do Grande ABC, não há números consolidados sobre os estragos do derretimento econômico dos últimos anos no setor de shopping center. A situação é muito pior do que parece. Mesmo lojas supostamente ocupadas não passam de arremedos. De um faz de conta de lojistas supostamente instalados. São lojas apenas expositivas de produtos de feira livre, quando não um braço improvisado de marketing do próprio empreendimento. O que a reportagem do Estadão também comenta, ocorre de forma exacerbada por estas bandas: administradores de shopping abrem mão de aluguel e de outras taxas para evitar novas debandadas.  

Logo abaixo, em forma de link, sugiro aos leitores breve volta ao passado para consultar alguns dos textos que produzimos sobre o que se desenhava no mercado de shopping center na região. Vou poupar os demais veículos de Imprensa da região do vexame de puxar links do que publicaram no mesmo período. Todos caminharam pela mesma trilha de torcida organizada. 

O senso crítico que manda confrontar informações oficiais com um agregado de contrapontos não existe para valer e constantemente na Imprensa da região, e das regiões brasileiras de maneira geral. E, também, em muitos casos, na chamada Grande Imprensa. Basta ver o que publicaram nos últimos anos sobre o mercado imobiliário de forma abrangente ou específica, como no caso dos shoppings. Há uma confraria vinculada a interesses que vão muito além do jornalismo analítico, cuja intersecção com mecanismos publicitários extrapola o bom senso e o juízo, entre outras coisas.  

É por essas e por outras que, quando se pretende centralizar, quando não unificar, os perigos destes dias no consumo de informações, atribuindo exclusivamente às mídias sociais as desastrosas avalanches de notícias falsas, muitos pretendem mesmo é camuflar as fundas deficiências da imprensa impressa.  

Minha cultura de jornalismo impresso repassada ao jornalismo digital é um antídoto que acredito perfeito à sacralização do primeiro e à demonização do segundo. Mas há gente que pretende ludibriar a boa-fé dos consumidores de informações. A crise dos shoppings é mais um ativo imensurável desta revista digital. E se faço disso, também disso, um portal de marketing de credibilidade, a razão é simples e única: há muita gente ainda que cai no arrastão de acreditar que tudo que é digital precisa ser cuidadosamente verificado e questionado. O propósito, repito, também é o de manter o jornalismo impresso distante de medidas reconstrutoras. O lixo comum das mídias sociais quando se trata de jornalismo precisa ser cuidadosamente verificado. Geralmente conta com vieses que negam a própria essência do jornalismo. O lixo impresso não foge à mesma constatação. 

Fiquem na sequência com algumas sugestões de textos das caçapas cantadas do jornalismo digital com cultura impressa. E cuidado com tudo que é impresso que se pretende inviolável a questionamentos pela única razão de ser impresso, como se o impresso fosse a prova definitiva e inviolável da competência. 

05/04/2017 - Caçapa cantada: temos três shoppings fantasmas na região 

27/01/2017 - Minishopping de beleza vira torre residencial. Cuidado! 

07/04/2016 - Shoppings na pindaíba. O que falar agora, cara secretária? 

21/08/2014 - Atrium Shopping segue à deriva; leilão do Domo é grande fracasso 

15/04/2014 - Cinemas não têm potencial para salvar shoppings Atrium e Golden 

22/01/2014 - Está faltando um rolezinho para dar mais vida ao Golden Square 

28/11/2013 - Um mês depois, apenas 14% do Atrium Shopping estão ocupados 

31/10/2013 - Inauguração de shopping em obras é abuso com aval do prefeito Grana 

30/10/2013 - Atrium também chega com muita festa mas repleto de desfalques 

24/10/2013 - Um shopping apressado demais para receber os consumidores 

23/10/2013 - Shoppings chegam à Província com olhos estatísticos vendados 

12/12/2012 - Quantos shoppings cabem na Província do Grande ABC? 

11/12/2012 - Domo é um mico que contamina shopping e mercado imobiliário 

27/06/2012 - Diário atropela e sugere que cabem mais 150 shoppings na Província 



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