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Sociedade

Operação Prato Feito é muito
diferente da Máfia da Merenda

DANIEL LIMA - 10/05/2018

É diferente, muito diferente, porque agora é a Polícia Federal que está na parada. O espirito da Lava Jato paira nas operações dos federais. Com isso, o pânico toma conta de gestores públicos e entornos nada republicanos. Está no relatório da PF com clareza: a operação Prato Feito é sim um desdobramento (retardatário e por isso muito mais incisivo) da Máfia da Merenda, cujos contraventores saíram praticamente ilesos. Há mais de duas décadas políticos, agentes públicos e empresários deitam e rolam com o dinheiro da Educação.

Além de ficarem ilesos, os contraventores também ficaram milionários. Nada lhes ocorreu em proporção correspondente às fortunas acumuladas, como o que estamos a assistir na Operação Lava Jato e derivativos. Tudo gente ligadíssima ao governo do Estado de São Paulo. 

Um Estado que jamais foi comandado pelo Partido dos Trabalhadores. O mesmo Partido dos Trabalhadores que se esbaldou nas estatais federais. Ou seja: tudo é questão de oportunidade no bordel da Administração Pública que os estúpidos ideológicos querem livre, leve e solta. Inclusive nos braços do que há de mais pernicioso do empresariado mercantilista.  

Leitura complementada  

Não adianta jornais impressos e digitais da região tentarem fazer mágica editorial. O balanço geral de uma leitura cautelosa revela as fuças dos envolvidos. Um jornal esconde alguém que precisa ser escondido, mas um outro jornal revela o bandido social do outro lado do balcão de interesses nem sempre republicanos, enquanto, claro, trata de camuflar quem lhe convém. É isso mesmo, um jogo de esconde-esconde que, paradoxalmente, tudo mostra. Ou mostra o essencial.  

Uma leitura cruzada, portanto, bota tudo a perder. É claro que a maioria dos leitores não tem essa flexibilidade de consulta e muito menos capacidade de interpretação. Acredita apenas na versão do jornal com o qual tem maior intimidade. 

A lavagem cerebral da mídia é uma das explicações para o Brasil ter chegado ao ponto que chegou. O que se vê nas redes sociais não é esoterismo. É resultado de uma cultura de mandraquismos dos veículos de comunicação e seus vieses sórdidos. A deformação da sociedade, portanto, não é obra do acaso. 

Quem aposta que mais uma vez a Máfia da Merenda restará impune deveria se precaver. As investigações federais são diferentes das domésticas. Assim como o Judiciário. O cerco está apertando. Será cada vez menos provável que a impunidade prevaleça. 

A sociedade não é lá essas coisas para decifrar meandros das intervenções federais, mas de alguma forma há sensibilização. Até porque, como está todo mundo no mesmo saco de gatos de malandragens, os combatentes mais intensos das redes sociais tratam de massificar seus bandidos preferidos. Esse não é um jogo de soma zero. Longe disso. Quanto mais se revelam os podres de adversários, mais os podres do todo emergem. Os sensatos fazem uma depuração sem esquizofrenia ideológica e partidária.  

Força aos federais 

Jamais escondi que frequento a fila de gargarejo dos federais. E igualmente o ecumenismo investigatório, denunciatório e punitório, como diria Odorico Paraguaçu, célebre personagem de televisão. 

Li boa parte do relatório da Policia Federal encaminhado ao Judiciário. Trata-se de trabalho meticuloso que, segundo consta, vai se aprofundar. Que se cuidem os espertalhões. A extensão das investigações deverá confirmar mais que suspeitas que não puderam, ainda, ser transformadas em prisões. 

Só fiquei encafifado com a ausência de ramificações do Grupo De Nadai na lista de delinquentes apontada pelos federais. Longe de mim desconfiar que haja uma falha grotesca nas investigações. Nada disso. É apenas curiosidade. Todo o mundo sabe que o Grupo De Nadai saiu de uma miserável cozinha industrial para um aparato empresarial fantástico embalado pelo governo tucano de São Paulo. E que também frequentou com prioridade todas as listras da Máfia da Merenda que não deu em nada, ou quase nada. 

Sabe-se também que o grupo passou por várias intervenções de dissimulação corporativa. Substituiu a identidade-mater para amenizar estragos das revelações. Criaram-se algumas empresas com novas denominações. Mas a essência de atividades no ramo de refeições coletivas permaneceu. Até porque é seu DNA, que também pode ser entendido como prontuário. 

Ainda recentemente uma empresa do grupo foi apeada da prestação de serviços na Prefeitura de São Bernardo, depois de estabelecer contrato durante a Administração de Luiz Marinho. A facilidade com que os empresários que giram em torno de dinheiro público trocam de parceiros políticos tem parentesco direto com aquela casa de prostituição de luxo na Capital cujo titular é um extravagante opositor do PT.  

Supersecretário na chefia 

O que mais me chamou a atenção na lista dos bandidos sociais apontados pela Polícia Federal é a atuação do supersecretário da Prefeitura de São Bernardo, Carlos Maciel. Esse agente público que ocupa altos postos no Paço de São Bernardo desde muito tempo foi um dos homens escolhidos pelo então recentemente eleito prefeito Orlando Morando como titularíssimo da equipe de transição de governo com o grupo de Luiz Marinho, ao final de 2016. Ou seja: Carlos Maciel não é um agente público qualquer. A Polícia Federal o coloca num dos núcleos de comando da bandidagem da Operação Prato Feito. 

Quem recorrer ao noticiário do ano passado vai observar que Carlos Maciel foi elogiadíssimo antes, durante e em seguida à posse como presidente da Fundação do ABC, o Clube da Saúde que há muito tempo exige operação específica da Polícia Federal. 

Falsidades democráticas 

O Clube da Saúde do ABC é o único exemplar de regionalidade que deu certo na Província do Grande ABC. E só deu e dá certo porque tem acertos. Acertos multipartidários. 

O orçamento milionário, de mais de R$ 1 bilhão, é de dinheiro federal, do Sistema Único de Saúde. Faça uma lista de 10 pecados capitais de uma organização pública e vai notar que, ao se tratar da Fundação do ABC, faltará meia dúzia de quesitos. 

E olhem que o organograma daquela instituição é a fina flor da democracia. Democracia de araque. E da representatividade. Representatividade de araque. 

Até porque, se não fosse nem uma coisa nem outra a Fundação do ABC seria muito diferente do que é. Mas só é o que é porque é assim que tem de ser para alimentar a fome pantagruélica dos políticos. 

Carlos Maciel, portanto, não fora escalado para mudar as regras do jogo. Longe disso. A julgar pelo relatório da Polícia Federal, Carlos Maciel foi colocado na Fundação do ABC justamente porque sabe como fazer o jogo que interessa a quem está no poder. No múltiplo poder daquela instituição até agora intocável. 



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