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Regionalidade

Agendão está completo; agora é
só esperar resultados até 2028

DANIEL LIMA - 13/06/2018

Depois de recuperar a Reportagem de Capa da revista LivreMercado de dezembro de 2013 (portanto há quase 15 anos, ou uma década e meia) e, mais que isso, atualizar os 30 enunciados de modo a situar os leitores sobre a realidade da região, decidimos preparar o que chamamos de agendão. Trata-se da consolidação em arquivo único de todas as questões abordadas.  

Mais que isso: desafiamos tanto a geração contemporânea daquele texto como seus herdeiros a alterarem o rumo do desencanto constatado.  

Nossa resposta a essa proposição (e esperamos estar aqui em junho de 2028 para enfrentar a ousadia do que se segue) é que continuaremos a perder tempo e paciência. Mais que isso: todos os traços, vísceras e ranços do provincianismo regional, do Complexo de Gata Borralheira, da Síndrome de Estocolmo, dos bandidos sociais, dos mandachuvas e mandachuvinhas, tudo isso provavelmente deverá estar ainda mais recrudescido.  

Trocando em miúdos: diferentemente de 2003, quando produzimos um diagnóstico regional à espera de transformações e, quando o futuro chegou em 2018, confirmamos a inércia, a vagabundagem, o sanguessuguismo e tudo de ruim que se oferece como menu social e econômico, não seremos pegos no contrapé quando 2028 chegar. Estamos escaldados. Não temos o direito de nos enganar.  

Vou ficar de olho permanente nos 30 enunciados que repetimos nesta nova edição, na esperança de uma atualização satisfatória diante de eventual mudança de rota. Ou seja: não esperaremos 2028 chegar para oferecer aos leitores eventuais e pontuais resultados positivos. Dedicaremos brindes comemorativos imediatamente após a consolidação de mudanças. Mas, sinceramente, não cremos nessa possibilidade.  

A região perdeu-se nas brumas dos tempos. Consolidamos vocação de espaço suburbano no pior sentido do termo. Nem mesmo as novas plataformas de comunicação nos salvarão, exceto algo extraordinário que não consta de qualquer projeto atual, por mais audacioso que seja.  

Sabem por que também as redes sociais não nos salvarão com ferramenta de reestruturação cultural? Porque nosso cinderelismo é tão arraigado e nossas promiscuidades com os podres poderes dos poderosos de plantão são tão intestinas que os aplicativos dificilmente extrapolarão os limites atuais de comportamento, ou seja: de preservação dos interesses individuais e mobilização coletiva apenas quando a individualidade estiver em risco. Foi assim, por exemplo, com a rebeldia contra a gulodice do prefeito Paulinho Serra, de Santo André, na fracassada tributação do IPTU. 

 Evitar tratamento festivo a eventos e propostas que não ultrapassam o terreno de conjecturas. 

Exemplo: os infinitos acordos formulados pela Câmara Regional não passam, na maioria dos casos, de cartas de intenção. Entretanto, o que exala do noticiário é o mau cheiro de um propagandismo manipulador que agride o bom senso e a perversa situação socioeconômica do Grande ABC. Prova contundente de que o Grande ABC de papel não corresponde ao Grande ABC de fato está na própria cronologia contrastante dos últimos 10 anos, quando pontificaram bajulações à institucionalidade regional interrompida e trôpega, enquanto a riqueza industrial evaporava.

Resultado: a Câmara Regional já se foi faz tempo e o proselitismo político continua a frequentar o ambiente institucional da região, uma terra de fantasias. Se todas as promessas fossem transformadas em realidade seriamos o paraíso. Mas como a vida é pau puro, as marcas das omissões coletivas estão bem visíveis. Mas mesmo assim há sempre ilusionistas de plantão para engabelar trouxas travestidos de otimistas.

 Exigir a disseminação de conceitos e práticas de empreendedorismo entre os estabelecimentos de ensino público e privado para possibilitar salto em direção à solidez dos negócios, principalmente de pequeno porte. 

Exemplo: ainda é muito larga a distância que separa a academia e o empreendedorismo de pequeno porte no Grande ABC. Cases de sucesso genuinamente regional, em meio ao turbilhão macroeconômico, são valiosíssimos materiais de estudos. Uma pena que universidades, faculdades e escolas de Segundo Grau ainda não tenham percebido a importância de valorizar o empreendedorismo local como plataforma de estudos, principalmente para despertar nos alunos a consciência prática de que, à falta de empregos, só restará a alternativa do negócio próprio. Uma boa maneira de romper a tradição do Grande ABC da manufatura para o Grande ABC de cérebros.

Resultado: o distanciamento não se alterou. E se agravaram os problemas. Os negócios familiares na região são uma imensa massa de anônimos cujos métodos permanecem desconhecidos. Não há sinergia efetiva que possa contribuir para a incursão por atalhos seguros. 

 Incentivar mecanismos de preparação e de proteção aos empreendedores de pequeno porte dos setores comercial e de serviços para o enfrentamento dos grandes conglomerados nacionais e internacionais. 

Exemplo: a cronologia de investimentos dos grandes conglomerados comerciais e de serviços que aportaram na região em paralelo ao esvaziamento industrial não difere da desídia que se deu no Brasil e na América Latina. Somos vítimas de uma acachapante falta de planejamento espacial e setorial. Amenizar o drama do desemprego renitente que sobreveio com a fragilização do setor industrial descentralizado e evadido é um desafio que precisa ser enfrentado.

Resultado: Os gestores públicos seguem a comemorar investimentos de grandes corporações e ignoram dramas dos pequenos e médios. Mais que isso: oferecem mundos e fundos de vantagens fiscais e de infraestrutura a novos desembarques de grandes conglomerados do setor de varejo e desprezam as agruras dos pequenos negócios do setor. O gataborralheirismo explícito se manifesta principalmente nas redes sociais, palco de divulgação de notícias que só confirmam a discriminação aos empreendedores locais. 

 Estimular ações que coloquem academia, governos municipais e sociedade num mesmo e amplo compartimento de amarração dos dispositivos de regionalidade. 

Exemplo: não tem passado de pura falácia a integração regional em nível exclusivamente político-institucional. Quando, então, se avança para estágio superior, com a sensibilização de entidades de classe empresarial, sociais e não-governamentais, o vexame é ainda maior. Câmara Regional, Consórcio de Prefeitos, Agência de Desenvolvimento Econômico e o desfalecido Fórum da Cidadania dançam muito mal e sob ritmos variados e muitas vezes antagônicos. As instituições de ensino são um mundo à parte. Apenas ensaiam participar, com idas e vindas que mais comprometem do que enaltecem o setor. 

Resultado: tudo segue do mesmo jeito. Daí para pior. O Clube dos Prefeitos, que seria o espaço adequado a iniciativas colaborativas em nível regional, segue como reduto exclusivo dos chefes de Executivo que, descuidados como sempre, relegam o regionalismo a quinto plano. 

 Exigir representantes do mercado e da comunidade como agentes de decisão nas instâncias públicas de cunho municipal e regional. 

Exemplo: A Agência de Desenvolvimento Econômico e o Consórcio de Prefeitos são fortalezas praticamente inexpugnáveis à participação da comunidade. A Câmara Regional, ficção que alguns tentam vender como realidade, nem merece ser mencionada. Falta sociedade nos dispositivos institucionais que se criaram na região. Prevalece uma institucionalidade manquitola, em que o peso dos governos municipais é quase que monopolizador e, como tal, sujeito a vieses que não necessariamente interessam ao conjunto da comunidade. 

Resultado: nada se alterou, entre outras razões porque a própria sociedade viveu nessa última década e meio período de retração reivindicatória que não só assusta como desestimula eventuais interessados em reagir à incúria dos poderosos de plantão. Há na região sentimento coletivo de apatia generalizada. Os mandachuvas e mandachuvinhas comandam as ações sem praticamente oposição organizada como representação da sociedade. A reação de contribuintes de Santo André à sanha fiscal do prefeito Paulinho Serra, que pretendeu transformar o IPTU em casa da moeda, é exceção à regra de desencanto e que tem como explicação central o vetor monetário, não propriamente de cidadania no sentido mais amplo do conceito.

 Defender a ocupação dos mananciais por meio de combinação de desenvolvimento econômico e sustentabilidade ambiental. 

Exemplo: Não existe incompatibilidade entre economia e meio ambiente a ponto de tornar os debates sobre o uso das áreas de mananciais espécie de Fla-Flu insuperável. Enquanto prevalece esse viés arraigadamente conservador e mistificador, porque os mananciais têm sido vitimados há décadas não por ocupação econômico-produtiva, mas por invasões demográficas especulativas, as condições de sustentabilidade se agravam. 

Resultado: planos mirabolantes não faltaram. Assim como ações efetivas. A última anedota lançada com estardalhaço próprio de quem quer virar manchete de jornal a qualquer custo foi anunciada nesta semana. O prefeito dos prefeitos Orlando Morando, titular do Clube dos Prefeitos, anunciou a pretensão de contratar os serviços de um helicóptero para vigiar as ocupações irregulares na Represa Billings. Há quem tenha levado a sério uma proposta que, no fundo, mesmo executada, não passaria de um grão de areia para resolver um problema que se arrasta impunemente há décadas. Sobretudo porque o Poder Público é negligente. 

 Exigir das entidades empresariais ações que ultrapassem interesses exclusivamente corporativos, principalmente no sentido de dar maior competitividade à região. 

Exemplo: é histórico o fracasso das entidades empresariais do Grande ABC no campo institucional. Exceto em algumas ocasiões, quando interesses corporativos se mesclaram com possível despertar comunitário, entidades ligadas ao empresariado jamais se mobilizaram de fato para alterar o rumo dos acontecimentos, num procedimento que, aliás, é lugar-comum no País. Compartimentadas por municípios, as entidades empresariais ignoram conceitos de regionalidade estratégica. 

Resultado: um quadro absolutamente intocável, mas que recomenda emenda explicativa no sentido de atenuar a responsabilidade dos dirigentes: a mídia regional, de maneira geral, não dá a menor bola aos interesses dos empresários, sobretudo de pequeno e médio porte. O noticiário está centralizado no sindicalismo, sobretudo dos metalúrgicos de São Bernardo, e nas montadoras de veículos. As pequenas indústrias estão atiradas no lixo. No campo comercial, das associações de classe, a situação é diferente: faltam mesmo iniciativas e propostas.  

 Exigir das entidades sindicais reflexão permanente sobre as repercussões sociais de reivindicações e conquistas trabalhistas. 

Exemplo: omissos ao longo da história nas questões que fogem ao interesse de sua própria geografia institucional, os sindicatos de trabalhadores precisam exercer novo modelo de capital social. As reivindicações trabalhistas são tão legítimas na concertação dos benefícios à classe como a extroversão rumo ao equilíbrio socioeconômico da região. Ou seja: o Grande ABC continuará ferido de morte no campo trabalhista se não associar aos ganhos reivindicatórios dos sindicatos mais atuantes a contra face de movimentos conjugados que visem a dar maior equilíbrio ao jogo do mercado. 

Resultado: os sindicalistas fecham os ouvidos à sociedade. Só ouvem as próprias vozes. O sindicalismo cidadão anunciado pelo então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, Luiz Marinho, mais tarde duplamente ministro do governo Lula da Silva e também prefeito de São Bernardo, não passou de jogo de cena, de bandeira desfralda para enganar os ingênuos. Os sindicalistas seguem rezando pela cartilha do embate contra o capitalismo, embora usufruam de todas as benesses do sistema, sobretudo nas montadoras de veículos e no entorno, de autopeças. 

 Exigir mecanismos institucionais para retirar a economia do Grande ABC da dependência estrutural dos setores automotivo e petroquímico. 

Exemplo: esse é o grande nó górdio do desenvolvimento econômico sustentável do Grande ABC. A dependência de duas atividades globalmente competitivas, casos das petroquímicas e das automotivas, transformou a região em campo minado. Basta recorrer aos números da última década, quando 100 mil empregos industriais com carteira assinada desapareceram das fábricas da região, para decifrar o tamanho da encrenca. A grandiloquência com que se costumam referir os triunfalistas ao parque automotivo da região esconde nosso calcanhar-de-aquiles: nos tornamos vulneráveis demais no jogo bruto da concorrência internacional automotiva. Pior ainda: quanto mais nos aproximamos dos níveis de competitividade, menos emprego e geração de renda exibiremos. 

Resultado: vivemos no setor automotivo o que chamo de Doença Holandesa associada à Síndrome de Estocolmo. Estamos encurralados. No setor petroquímico, Mauá e Santo André acomodaram-se com a mesadona do ICMS da atividade e se esqueceram de criar novos recursos. 

 Exigir de entidades sociais mobilizações além dos interesses corporativos de seus associados. 

Exemplo: o fracasso do Fórum da Cidadania é sintomático da falta de enraizamento e entrelaçamento das entidades sociais do Grande ABC. Há evidente dispersão de forças e mesmo antagonismos, além da atávica viseira de enxergar apenas o próprio umbigo corporativo e os limites territoriais. A consensualidade decisória propagada pelo Fórum da Cidadania se mostrou ineficaz depois do chamamento das entidades. O que sobrou tem mais a ver com omissão do que o indispensável contraditório. 

Resultado: com o desaparecimento do Fórum da Cidadania e novas levas de perdas de riqueza, a região virou uma massa amorfa de entidades sociais, que pensam que representam alguma coisa quando pouco significam diante do isolacionismo generalizado. 

 Estimular permanentemente a integração regional nos aspectos econômico, social, cultural e político por meio de várias instâncias de representações. 

Exemplo: essa resolução passa necessariamente pela articulação multilateral dos organismos locais e regionais que precisam observar o Grande ABC como amplo laboratório cuja importância e força de pressão decorrerão da capacidade de seus agentes estabelecerem diagnósticos sobre os quais concentrarão as baterias de evoluções. A compartimentação temática das organizações, presas à camisa de força do corporativismo, destrói conexões que caracterizam sistemas integracionistas.

Resultado: o esfacelamento do Clube dos Prefeitos, com deserções consumadas e outras a consumar por conta de idiossincrasias disseminadas a partir do autoritarismo do prefeito Orlando Morando, de São Bernardo, também prefeito dos prefeitos, colocou tudo a perder quase definitivamente. 

 Desqualificar políticas públicas voltadas à disseminação de medidas microeconômicas que comprometam o todo regional. 

Exemplo: as eventuais vocações econômicas individuais dos municípios do Grande ABC não podem servir de pretexto para a aplicação de políticas públicas e privadas de desenvolvimento isolado. A iniciativa se mostrará sempre irracional, na medida em que a genética regional será contrariada no aspecto mais importante destes tempos de transformação: competitividade em relação a outros territórios próximos ou distantes. Está estatisticamente provado que o modelo de guerra fiscal adotado pelas prefeituras da região como salvação coletiva dos municípios é um fracasso absoluto porque se insere no campo de efeito e não de causa do esvaziamento econômico. 

Resultado: está sendo fatal o distanciamento entre as prefeituras locais no campo prático de uma agenda que as unisse em torno de um objetivo em comum, de competitividade ante concorrentes principalmente do Interior, mas também do outro lado do lado da Região Metropolitana de São Paulo. Estudos que realizei com base em dados oficiais mostram o quanto ficamos para trás em diferentes indicadores econômicos com efeitos sociais preocupantes. Estamos perdendo de goleada o jogo da competitividade na Região Metropolitana de São Paulo. O que dizer das metrópoles de Campinas, São José dos Campos e Sorocaba?

 Incentivar a utilização de recursos provenientes de impostos, taxas e contribuições municipais para o aparelhamento técnico-operacional da economia regional. 

Exemplo: a recuperação do setor comercial dos municípios do Grande ABC, com série de decisões que determinarão nova realidade na infraestrutura física e também na área de marketing compartilhado, poderia ser fortemente enfatizada com a criação de fundos municipais criados com receitas pré-definidas de tributos próprios das prefeituras, especialmente do IPTU. Já há experiências internacionais com esse desenho e cujos resultados têm sido extraordinariamente positivos. Nesse sentido, é preciso que, ao mesmo tempo em que haja ousadia do Executivo, as demais representações da sociedade participem do processo. 

Resultado: nem em sonho os Executivos públicos da região botaram a mão na massa, mesmo em seus municípios, para oferecer um cardápio semelhante ao sugerido. A mesmice tomou conta do barraco institucional da região. Vivemos em estado vegetativo de criatividade e ações. Os administradores municipais da região, ao longo dos últimos 15 anos, perderam-se na névoa do microcosmo partidário e político. 

 Estabelecer referências de efetividade e produtividade regionais aos deputados estaduais e federais eleitos predominantemente ou significativamente com votos no Grande ABC. 

Exemplo: à falta de uma pauta de prioridades que contemplem as demandas específicas de cada Município e do Grande ABC como um todo, o que se verifica historicamente na relação dos parlamentares eleitos fortemente ou não com votos regionais é que eles praticamente nada conseguem de substantivo. É preciso dar às ações pontuais a importância residual que de fato comportam, substituindo-as por manobras transformadoras. Na situação em que se encontra, apenas um macroplanejamento econômico e social, com participação efetiva dos governos do Estado e federal, além do mercado e da comunidade, poderá reinstalar o Grande ABC na rota do desenvolvimento sustentável.

Resultado: outra grande decepção de desprezo à regionalidade como ferramenta de aproximação e racionalidade de imperativos desenvolvimentistas. Para os legisladores da região que ocupam postos estaduais e federais prevalece o paroquialismo. Ainda recentemente o deputado federal Vicentinho Paulo da Silva mandou exibir nos principais entroncamentos do sistema viário da região outdoors que explicitam o quanto a região está atrasada. O texto curto e grosso, além de provinciano, registrava os valores que o petista teria canalizado para a região durante determinado período. É assim que se faz política na região. Vicentinho jamais teve participação efetiva e pretensamente reformista, exceto, num passado não muito distante, quando ocupou jornais com promessas de investimentos industriais que jamais se consumaram. 

 Incentivar medidas restritivas de gastos com o funcionalismo público com base em dados disponíveis em instituições independentes de avaliação dos custos do poder público. 

Exemplo: as despesas do funcionalismo público dos municípios do Grande ABC, tanto do Executivo quanto do Legislativo, deveriam ser parametrizadas com os dispêndios menores que saltam de estatísticas do ranking dos principais municípios paulistas. A perversidade administrativa dos dispêndios salariais e de despesas gerais do Executivo e do Legislativo com base na Lei de Responsabilidade Fiscal é um equívoco a ser corrigido. Boa parte do montante da redução de custos poderia ser aplicada em programas de desenvolvimento econômico, com efeitos muito mais expressivos no dinamismo social. 

Resultado: nem pensar na possibilidade de execução da proposta. Os governos municipais não são diferentes dos governos estaduais e federal num País em que os recursos públicos direcionam-se cada vez mais à manutenção de uma estrutura de servidores recheadíssimos de direitos. O peso relativo dos servidores ativos e fora das quatro linhas de atuação, como aposentados e pensionistas, cresce na exata medida em que minguam investimentos em infraestrutura física e social. 

 Exigir dos agentes públicos, privados e sociais permanente pressão por medidas preventivas de profundo alcance para desestimular a transformação do Grande ABC em endereço preferencial da incidência criminal. 

Exemplo: o Grande ABC como um todo e a quase totalidade de seus municípios, individualmente, ocupam os últimos postos no ranking dos principais territórios paulistas de incidência criminal. No caso específico de furtos e roubos de veículos, o que se tem no Grande ABC é um encavalamento de registros policiais que se perpetua ano após ano, sem que absolutamente nada de consistente minimize a situação. Um dos resultados mais desalentadores da fragilidade das estruturas policiais na região é o exagerado ônus a que os proprietários de veículos são submetidos, com as apólices de seguro alcançando custos só comparáveis aos da Baixada Fluminense. 

Resultado: como em todo o Estado de São Paulo, e em grau semelhante, a região reduziu drasticamente o número de homicídios a partir de 2003, mas ainda segue entre os primeiros em incidência de roubos e furtos de veículos, embora também com indicadores menos tóxicos. Esse resultado deve ser contabilizado em favor do governo do Estado. Mesmo com restrições sobre a quebra da criminalidade, atribuindo-se parte dos resultados à suposta leniência com o crime organizado. 

 Cobrar das autoridades públicas diagnóstico e ações para combater as carências de infraestrutura material que atravancam o desenvolvimento econômico regional. 

Exemplo: é mais do que evidente o encalacramento logístico do Grande ABC, apertado numa Grande São Paulo que cresce em direção oposta à Serra do Mar, onde estão os sete municípios locais. Obras viárias e ferroviárias estão no horizonte regional como resposta ao sitiamento, mas a dinâmica econômica não permite que a vagarosidade seja companheira da competitividade. É preciso que verdadeiras operações de sensibilização das esferas estadual e federal sejam encetadas para o caráter de urgência do Grande ABC.  

Resultado: a única novidade no front regional no período foi a construção do trecho sul do Rodoanel, que chegou depois do trecho Oeste, na Grande Osasco, e carrega mais ônus que bônus. Afinal, com apenas três acessos tangenciais às áreas urbanas da região, o Rodoanel mais retira do que gera riqueza industrial. A Grande Osasco cresceu muito acima da região em referências como o PIB porque, entre outras razões, fez do Rodoanel um aliado, com 13 pontos de acessibilidade. A mobilidade urbana da região deteriorou-se na intensidade do desprezo dos Executivos municipais. Mas jamais faltaram manchetes de jornais como plataforma de marqueteiros sem compromisso com o amanhã.

 Exigir das autoridades públicas a qualificação de estudos técnicos para dar sustentação às necessidades da infraestrutura social. 

Exemplo: no vácuo da descentralização da indústria automotiva, combinada com a deserção empresarial, sobrou ao Grande ABC um acúmulo imenso de obrigações para amenizar a depauperação do quadro social. A proporção de recursos tributários amealhados pelo Estado e pela União é infinitamente maior que o retorno. A sensibilização do governo do Estado e do governo federal para contrabalançar a disforme via dupla de recursos retirados e recursos repassados deve ser tomar como base estudos tecnicamente irrebatíveis. 

Resultado: apenas durante o período do petista Luiz Marinho à frente da Prefeitura de São Bernardo e do Clube dos Prefeitos houve aprovação e aplicação de investimentos federais na região. Afinal, a ordem era prestigiar o petista, de olho nas eleições ao governo do Estado. Mas a maioria dos investimentos não foi concluída porque o governo de Dilma Rousseff errou na mão fiscal e levou o País a um desequilíbrio econômico que culminou inclusive no impeachment. 

 Combater informações de agentes públicos, sociais e empresariais que, à falta de compromisso com a regionalidade, optarem pelo espetaculoso sem fundamentação. 

Exemplo: a perniciosa e improdutiva onda de triunfalismo não pode mais vicejar no Grande ABC, sob pena de transgredir o bom senso e assaltar eticamente os descalabros sociais. A implementação de políticas públicas e mesmo privadas de recuperação institucional, econômica e social do Grande ABC dispensa ufanismos interesseiros. Por isso não se pode delegar a profissionais de conduta duvidosa a condição de porta-vozes de entidades, outorgando-lhes por omissão ou sugestão a senha para mistificações que já se provaram desmoralizadoras e inibidoras de reações produtivas. 

Resultado: o gataboralheirismo da região agravou-se na exata medida de recrudescimento dos descompassos sociais e econômicos. O esporte preferido da maioria dos agentes públicos da região é vender ao distinto público uma cidade ou uma região que só existe na imaginação de quem acredita que é possível mentir sem sofrer consequências. 

 Exigir transparência de dados orçamentários das instituições públicas, inclusive com transposição das informações para o campo virtual, na rede mundial de computadores. 

Exemplo: os valores gastos por organismos públicos não podem ser propriedade de poucos diretamente relacionados à estrutura dirigente. A Agência de Desenvolvimento Econômico vive situação de quase mendicância financeira que ajuda a explicar as dificuldades para executar planejamentos técnicos. Enquanto isso, o Consórcio de Prefeitos propaga disponibilidade de caixa cujo destino seria mais bem aplicado em planejamento estratégico preparado por especialistas em unir teoria e prática. 

Resultado: o setor público tem horror à transparência. Permanecem trancadas a sete chaves informações preciosas que poderiam contribuir para abrir caminhos a diagnósticos mais interessantes. Sempre que houver pretensas transparências, o melhor é colocar as barbas de molho: pode ser uma tentativa de enganar o distinto público. 

 Cobrar dos estabelecimentos de ensino mantidos com recursos públicos maior empenho e comprometimento com questões municipais e regionais. 

Exemplo: Tanto na Agência de Desenvolvimento Econômico quanto no Consórcio de Prefeitos, a presença de representantes de academias públicas da região está em desacordo com a importância do momento econômico e social do Grande ABC. Um novo modelo de intersecção dessas instituições poderia se tornar porta de entrada para a superação histórica do distanciamento entre as partes. Há uma reserva de mão-de-obra universitária muito mal explorada pelos organismos públicos da região. Bolsistas, por exemplo, poderiam retribuir a generosidade dos municípios com ações comunitárias no campo social e econômico. 

Resultado: nada de inovador ou mesmo de conservador nesse quesito. A Universidade Federal do Grande ABC chegou em 2006 e acrescentou à região uma porção de insatisfação por jamais se ter lançado à regionalidade em qualquer aspecto relevante, sobretudo na Economia. 

 Incentivar a inserção de instituições assistenciais entre as preocupações de responsabilidade social de organizações privadas, públicas e não governamentais. 

Exemplo: o convênio entre o Sebrae e Nossas Madres Terezas para a aplicação de cursos técnicos de gestão de entidades sociais é simbolicamente a comprovação de que bastam incentivo e boa-vontade para que ao voluntarismo se acrescente metodologia. Mais que nunca, a situação social da região exige que exemplos como o do Sebrae e Nossas Madres tenham ramificações e se convertam em importantes paradigmas de responsabilidade social. Inserir essa e outras eventuais experiências pode ganhar contornos de sinergia que em muito colaboraria para alterar nossa regionalidade. 

Resultado: aquele foi um exemplo isolado do próprio Sebrae. A ordem unida é que cada um fique na sua. 

 Exigir dos governos estadual e federal participação permanente de interlocutores oficiais. 

Exemplo: a falta de um interlocutor oficial do governo Lula da Silva no Grande ABC e mesmo a pouco expressiva diplomacia preparada pelo governador Geraldo Alckmin ajudam a explicar por que a região não consegue poder de convencimento para as prioridades sociais e econômicas. Contar efetivamente, no dia a dia, com representantes do governo federal e do governo estadual concretamente, com assento nas mesas de decisões, pode parecer privilégio ao qual o Grande ABC pretende se dar ao luxo, mas não passa mesmo de decisões indispensáveis depois de uma década de tormentas.  

Resultado: todo o pouco que se fez nesse sentido, inclusive nestes dias no Clube dos Prefeitos, não conta com a efetividade necessária. As ações circunstanciais têm cunho mais político do que operacional. 

 Defender a constituição de um fundo de recursos financeiros oriundos de orçamentos municipais ou de doação de empresas privadas para a contratação de especialistas que atuariam no assessoramento das instituições de cunho regional e dos parlamentares conceituados como representantes do Grande ABC. 

Exemplo: os quadros técnicos de que dispõem as prefeituras e que atuam tanto na Agência de Desenvolvimento Econômico quanto no Consórcio de Prefeitos não têm, na maioria dos casos, visão negocial do espaço regional. Não são especialistas em competitividade. Essa qualificação é própria de consultorias especializadas, cujos profissionais, exatamente por não estarem vinculados política e administrativamente a interesses específicos das administrações locais, poderiam implementar medidas tecnicamente mais produtivas. 

Resultado: mais que desprezar essa alavanca desenvolvimentista, o atual presidente do Clube dos Prefeitos, Orlando Morando, decidiu politizar a entidade com medidas que contrariam inteiramente a construção de um modelo atualizado de fortalecimento econômico. A criação da Casa do Grande ABC em Brasília, cujo diretor-executivo não se segurou no cargo mais que três meses, é uma bobagem em amplas dimensões, tanto por falta de recursos federais como, principalmente, por não carregar no bojo de ações um Plano Estratégico Regional. 

 Exigir das instituições regionais calendário permanente de intercâmbio com organizações internacionais vocacionadas ao temário metropolitano. 

Exemplo: as temáticas regionalidade e metropolização são cruciais para que o Grande ABC ultrapasse definitivamente as fronteiras do provincianismo gerencial e administrativo que o fere de morte desde que se dividiu em sete pedaços. Por isso, nada mais interessante que oxigenar as veias municipais e regional com insumos de conhecimentos e experiências internacionais. Pioneiro no debate de regionalidade, tendo à frente o prefeito assassinado Celso Daniel, o Grande ABC dormiu nos próprios louros e acabou ultrapassado por outros municípios que agiram individual ou coletivamente. 

Resultado: incapaz de formular em âmbito municipal propostas e ações sobretudo no campo econômico, o que esperar de algo assemelhado à proposta? Regionalidade é um bicho do mato que não frequenta para valer os corredores dos poderosos de plantão na região.  Nesta temporada o Clube dos Prefeitos decidiu anunciar intercâmbio em mobilidade urbana com Turim, Itália. Nada que possa reduzir o déficit de atenção contínua com a regionalidade. 

 Considerar como membros das bancadas de deputados do Grande ABC na Assembleia Legislativa e em Brasília, todos os eleitos domiciliados na região, bem como tantos quantos tenham alcançado número de sufrágios decisivos a se instalarem acima da linha de corte. 

Exemplo: A definição do que eventualmente venha a se justificar como bancadas regionais na Assembleia Legislativa e em Brasília é o primeiro obstáculo a ser superado para que se definam os caminhos para avaliar o desempenho de cada parlamentar. Estabelecido o quadro de representantes, o monitoramento de suas atividades individuais e coletivas passará a ser submetido aos princípios de regionalidade e de metropolização, deslocando-se para o quarto de despejo questões pontuais que tanto mistificam a qualidade dos mandatos.  

Resultado: sobretudo porque a chamada Bancada do ABC tanto na Assembleia Legislativa como no Congresso Nacional não passou de balela, porque jamais houve sinergia entre os representantes locais, a mídia parece ter jogado na lata do lixo uma expressão que sugeria o contrário da realidade dos fatos. Seguimos com deputados que olham para o próprio umbigo e exercitam políticas clientelistas para agradar redutos eleitorais. Os grandes temas da região não passam por seus gabinetes. 

 Cobrar das autoridades públicas, das entidades de classe empresarial e dos agentes comunitários empenho e determinação que tornem mais factível e suportável o financiamento de pequenas e médias empresas. 

Exemplo: o restabelecimento mesmo que parcial da força econômica do Grande ABC passa pela desativação de armadilhas preparadas ao longo dos anos pelos mais diversos agentes políticos e privados. Por isso, não é possível escapar da degola da mortalidade empresarial sem que se manifeste a massa crítica dos diversos atores da sociedade. Somente uma força-tarefa que se diferencie de tudo o que se encontra no modelo ultrapassado de lobbies permitirá que os pequenos negócios sejam reenquadrados nas linhas de financiamento. A ideia conservadora de que problemas empresariais devem ser resolvidos apenas pelos agentes empresariais é tão cômoda como entender que políticas públicas são responsabilidade exclusiva dos governos. A regra segue a mesma em termos de realidade dos fatos. Os pequenos negócios sofrem as durezas da escalonada quebra de vitalidade econômica e financeira que as colocam sempre distantes dos mecanismos de financiamento. 

 Defesa de um fundo metropolitano da Grande São Paulo para aplicação em políticas públicas direcionadas à competitividade econômica e social da região metropolitana. 

Exemplo: por mais que a geografia exclusivamente regional deva ser o núcleo das iniciativas para recolocar o Grande ABC na trilha do desenvolvimento, as características da Região Metropolitana de São Paulo são extremamente peculiares e sinérgicas para o bem e para o mal e recomendam, portanto, medidas integracionistas. A composição mesmo que informal de uma instância metropolitana gerida com a sociedade e representantes do mercado se coloca como ramal decisivo ao estancamento do quadro de atomização da qualidade de vida, seguido de políticas de recuperação. 

Resultado: não existe no ambiente político-partidário que permeia tanto o governo do Estado quanto as prefeituras metropolitanas, nada que permita acreditar que uma ação coletiva e, portanto, multipartidária, seria levada adiante. O ambiente político-institucional dos últimos anos levou a classe política à insônia com os desdobramentos da Operação Lava Jato. Mas o mal maior e que transcende todos os demais é que não existe vocação desenvolvimentista coletiva na alça de mira dos agentes públicos sempre em busca de votos. 

 Formação de um grupo multidisciplinar de profissionais reconhecidamente especialistas em Grande ABC para atuar informalmente como assessores de programas voltados à valorização da imagem institucional da região. 

Exemplo: experiências já consumadas quando o assunto marketing regional saiu da teoria para a prática mostraram que o desconhecimento sobre a matéria, geralmente confundida como apêndice de triunfalistas de plantão, tornou a emenda da mistificação pior que o soneto do rebaixamento da qualidade de vida. Entregar a imagem institucional do Grande ABC exclusivamente a publicitários ou profissionais de marketing tem efeito semelhante à guarda de galinhas por raposas. Importantes na formulação de campanhas de autoestima institucional, tanto os publicitários quanto os profissionais de marketing devem contar com parceiros como economistas, jornalistas, educadores e sociólogos, entre outros. 

Resultado: essa também é uma pauta onírica, porque seria consequência de uma união de esforços pró-regionalidade que ficou no passado durante o período em que o prefeito Celso Daniel acredita na empreitada. 

 Engrossar, com mobilizações permanentes, a corrente de apoio aos representantes municipais e regionais de atividades esportivas e culturais com maior potencial de divulgação doméstica, estadual e nacional, quando não internacional. 

Exemplo: as campanhas de nossas equipes de futebol profissional e das companhias ou individualidades no vasto campo da cultura devem merecer prioridade absoluta, numa espécie de corrente de propagação da regionalidade por meio de atividades mais apropriadas à sensibilização da comunidade, abrindo, portanto, alas para a massificação de outros temários menos populares. Uma comunidade orgulhosa de seus representantes artísticos está mais próxima da cidadania nas demais áreas, como contribuinte, consumidora e geradora de riquezas. 

Resultado: a permanente perda da identidade regional agrava-se na medida em que as redes sociais chegaram para valer e se dispersa em pautas prevalecentemente nacionais, sobretudo por conta dos efeitos da Lava Jato. Os agrupamentos de redes sociais locais centram fogo, também, em questões que lhes dizem mais respeito, tanto nas batalhas partidárias quanto nas demandas domésticas que mais os afligem diretamente. Raramente se observam interações que coloquem a regionalidade como prioridade. 



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