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Sociedade

O que pensam os vereadores
sobre a situação da região?

DANIEL LIMA - 26/06/2018

Gostaria imensamente de saber o que pensam (se pensam, claro) os vereadores sobre três vetores da região. Somente uma enquete poderia me dar a resposta, mas não tenho tempo, paciência e muito menos disposição para tanto. Ainda mais que não costumo repetir frustração. Em janeiro de 1999 (portanto há 19 anos) fizemos três perguntas-chaves aos legisladores municipais. Eram 145 vereadores. O material foi publicado na revista LivreMercado.  Apenas 30 deles responderam. 

Trata-se de resultado nada decepcionante, porque esperado. Tentativas de organizar os vereadores para reivindicar representação no Clube dos Prefeitos, sempre deram com os burros nágua. O então vereador Vanderlei Siraque esforçou-se numa empreitada dessa bitola. Eles, em grande maioria, não estão nem aí. Praticam, com exceções que confirmam a regra, um jogo de clientelismo com vistas às eleições seguintes. 

A visão municipal e regional dos vereadores se esgota no reduto eleitoral que os elegeu. Na prática, distritaliza-se o voto. Qualquer mapa eleitoral prova isso. Os vereadores são em larga escala correias de transmissão do Poder Executivo muito antes do processo eleitoral propriamente dito. Nada diferente do que se vê nas Assembleias Legislativas, na Câmara Federal e também no Senador Federal. João Doria não ocupou manchetes de jornais locais sugerindo a candidatura de Carla Morando, mulher do prefeito de São Bernardo, por conta de bom-samaritanismo político. Tudo é calculado milimetricamente. 

Questões-chaves 

Se o leitor está curioso em saber o que se deu há 19 anos quando 30 dos 145 vereadores responderam à enquete de LivreMercado, também estou. Reproduzo as perguntas-chaves e as respectivas alternativas de respostas. Cada vereador deveria escolher um dos cenários por questão apresentada.  Acompanhem:  

1) Sobre o desenvolvimento econômico do Grande ABC: 

a) O Grande ABC é um reduto econômico imbatível. Não precisamos nos preocupar com os chamados efeitos da globalização porque temos autonomia suficiente, como região fortemente industrializada, para nos manter a salvo de eventuais problemas. Nossa legislação de uso e ocupação do solo é antiga, mas muito atual.

b) O Grande ABC deve se preocupar, sim, com os efeitos da globalização, atualizando-se legislativamente, por exemplo, no conjunto de leis sobre uso e ocupação do solo, de modo a oferecer novas alternativas de investimentos nos setores de comércio e serviços, além de favorecer a produção industrial principalmente de pequenas e médias empresas. 

c) O Grande ABC chegou a tal estado de desindustrialização e de canibalização comercial e de serviços que de nada vai adiantar qualquer alteração municipal e regional da legislação de uso e ocupação do solo. Já perdemos essa parada. Agora é rezar. 

2) Sobre o crescimento do setor comercial no Grande ABC: 

a) Os investimentos que tivemos nos últimos anos no setor comercial da região foram importantes para fortalecer nossa economia. Sem as grandes redes continuaríamos a ser uma região muito pobre em termos de oferta de produtos e serviços. Grandes negócios sempre serão bem-vindos aqui. 

b) Sempre serão bem-vindos investimentos no setor de comércio da região, como supermercados e shoppings, porque significam a possibilidade de melhor atendimento aos consumidores. Entretanto, faltou por parte dos Executivos e dos Legislativos do Grande ABC maior cuidado com vistas à instalação desses empreendimentos, já que vários deles acabaram por condenar os pequenos ao regime de simples subsistência, pela impossibilidade de competição. 

c) Abriram demais as porteiras para investimentos comerciais na região e o que temos hoje é uma falência quase generalizada dos micro e pequenos negócios, que não têm como competir com grandes organizações. Acredito que os Executivos e os Legislativos do Grande ABC se descuidaram ao permitir instalações sem comedimento de regras.  

3) Sobre as novas entidades do Grande ABC: 

a) Confio sobremaneira na força institucional e na integração regional do Grande ABC. Câmara Regional, Consórcio Intermunicipal, Fórum da Cidadania, Agência de Desenvolvimento Econômico, tudo isso vai dar samba. Vamos melhorar nossa performance econômica, sem dúvida. 

b) Estamos melhorando nossa capacidade de somar esforços para resolver os problemas econômicos e sociais do Grande ABC por meio da Câmara Regional, do Consórcio Intermunicipal dos Prefeitos, do Fórum da Cidadania e da Agência de Desenvolvimento Econômico. Esse é mesmo o caminho. 

c) Não passam de pura bobagem tantas organizações para tratar do futuro do Grande ABC. Aliás, acho que Câmara Regional, Fórum da Cidadania, Consórcio dos Prefeitos e Agência de Desenvolvimento Econômico são organismos demais. Estamos sobrepondo esforços e desperdiçando munição.

Cenários diferentes  

Repararam os leitores que, para cada pergunta-chave, há respostas que correspondem a três cenários diferentes. As alternativas “a” significam um céu de brigadeiro que se abria às respostas; as alternativas “b” trafegavam em sentido de confiança com cautela e as alternativas “c” se davam num campo minado de desesperança.  

Chamamos aquele trabalho de “Pesquisa LM”. Lógico que não se tratava de pesquisa propriamente dita, a obedecer ritual metodológico implícito na modalidade. Estava caracterizada de fato como enquete. Mas tinha sua validade para tomar o pulso dos respectivos leitores. Dos 30 vereadores que responderam à enquete, a quase totalidade preferiu as alternativas “b”. Nada menos que 73 das 83 respostas autorizadas pelos vereadores registraram enunciado mais moderado.  Ou 88% das respostas. Apenas nove das respostas tiveram a preferência das alternativas “a”. E um único “c” apareceu entre os vereadores. Vejam a relação dos vereadores que responderam ao trabalho e as respectivas respostas entre parênteses.  

Amilton José dos Santos (b, b, b), Antônio Leite da Silva (b, a, b), Basílio Vido (b, b, b), Carlos Augusto Alves dos Santos (b, b, b), Carlos Caviuna (b, a, b), Dinah Zekcer (b, b, b), Donizete Braga (b, b, b), Edson Savietto (b, b, b), Eduardo Agostini (não divulgar), Eliete Menezes (b, a, b), Francisco Bezerra Cavalcante (b, b, b), Franco Masiero (b, a, b), Geraldo Juliano (b, b, b), Gerson Moisés Constantino (b, b, a), Ivete Garcia (b, b, b), João Vianney (b, b, b), Joaquim dos Santos (b, b, b), José Alberto Gomes (b, b, b), José Montoro Filho (b, a, a), José Nelson de Barros (b, a, b), José Queiroz Neto (b, b, b), José Walter Tavares (b, a, b), Mara Ribeiro de Moraes (b, b, b), Neide Figueiredo (b, a, b), Ramon Velasques (b, b, b), Ricardo Alvarez (b, c, na), Saulo Benevides dos Santos (b, b, b), Vicente Carvalho (não divulgar), Virgílio do Prado (b, b, b) e Wagner Rubinelli (b, b, b).  

O que mudou  

Pergunto a mim mesmo o que haveria de diferenças entre as respostas daquele 1999 e eventualmente deste 2018 se o mesmo questionário fosse enviado aos legisladores eleitos em 2016. Ouso dizer que prevaleceriam as respostas moderadamente otimistas, no caso as alternativas “b”; entretanto, sem o predomínio quase completo de então. A deterioração do ambiente regional, acrescida de desdobramentos da Operação Lava Jato e do quadro econômico, provavelmente provocaria dois efeitos complementares: mais vereadores estariam dispostos a botar a cara nas respostas (mesmo que solicitassem a não divulgação das escolhas) e grande parte não se faria de politicamente correta a ponto de refutar as alternativas “c”. 



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