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Administração Pública

Clube, mulher e saúde, as pedras
no caminho de Orlando Morando

DANIEL LIMA - 13/07/2018

Os metafísicos diriam que o prefeito Orlando Morando está vivendo um inferno astral. Os maledicentes garantiriam que o prefeito Orlando Morando cavou a própria cova de desafios a superar. Os correligionários enalteceriam a capacidade do prefeito Orlando Morando em estar sempre ativo e pronto para dar a volta por cima em situações aparentemente embaraçosas. Os indiferentes querem que o prefeito Orlando Morando se exploda, porque estão cheios dos políticos. 

Como não me encaixo em nenhuma das quatro alternativas, prefiro destrinchar ou tentar destrinchar todas as questões que se apresentam ao prefeito da Capital Econômica da região. Questões visíveis, por assim dizer. Sobre questões menos explícitas, é outra história.

Quais são as três pedras no caminho do tucano Orlando Morando nesta altura do campeonato de um ano e meio de mandato pós-petismo de Luiz Marinho?

1. A candidatura de Carla Morando à Assembleia Legislativa de São Paulo. Carla Morando é mulher de Orlando Morando. Uma mulher simpática. Os detratores dizem que é bem mais agradável que o marido. Não se deve levar muito a sério o que dizem os idiossincráticos quando há mulher no meio. A generosidade masculina tem parentesco com o politicamente correto. Quero ouvir das mulheres se Carla Morando é tudo isso mesmo. Se for, o marido tem muita sorte. Mesmo que não seja tão simpático assim.  

2. O quadro de desmantelamento continuado do Clube dos Prefeitos, do qual Orlando Morando é o titular. O estágio atual pode ser remetido àquele casal que, em plena lua de mel, quebrou tudo no apartamento emprestado por um amigo ingênuo e incapaz de prever que o pau ia mesmo cantar porque os nubentes já viviam às turras de boletins de ocorrência antes que o padre aparecesse entre eles com aquela cantilena que continua a emocionar gente de todas as idades e de pouco juízo.  

3. Os rumos de estragos investigativos na Fundação do ABC, o Clube de Saúde da região, mantido pelas prefeituras de Santo André, São Bernardo e São Caetano. O único exemplar de regionalidade que deu e continua a dar certo na região por conta dos acertos extracampo. Morando botou a mão nessa cumbuca nestes tempos lavajatenses. 

Candidatura de risco

Não acho que Orlando Morando tem alguma coisa a ganhar com a candidatura de Carla Morando. A obrigatoriedade de torná-la deputada não é o único risco. Mesmo a vitória poderá ser derrota. Haverá comparações em relação aos votos de Morando nas eleições municipais de 2016, por mais distintos que sejam os pleitos. E também com Orlando Morando nas campanhas vitoriosas à Assembleia Legislativa. 

Carla Morando terá de, necessariamente, ser a mais votada em São Bernardo. Nenhuma outra candidatura poderá superar os votos de quem teria o apoio entusiástico do Paço Municipal. Atender ao pedido do ex-prefeito e candidato ao governo do Estado, João Doria, pode ser um presente de grego. 

Talvez o anúncio não tenha passado de marketing, uma especialidade da gestão Morando, aluno de João Doria no uso e abuso de redes sociais. Um marketing que sempre tem algum valor no mercado político numa Província. Sobretudo tendo partido de quem partiu, um João Doria com prestígio na classe média. Muito menos que antes da renúncia à Prefeitura de São Paulo, mas ainda teimosamente prestigiado como se fosse a fina flor de gestão pública. 

Fosse a votação o único problema, tudo seria menos grave. Dar preferência a Carla Morando no remelexo de conquista de votos significará estremecimento das relações com tucanos locais que pretendem, também, chegar à Assembleia. Casos específicos de Pery Cartola e Alex Mognon. 

Já há um ambiente de inconformismo com a possibilidade de Carla Morando ter a compulsória preferência do marido prefeito, ou do prefeito marido. Acenar com a possibilidade de elegerem-se os três de uma só tacada é flertar com a imprevidência. São Bernardo não comporta tantos votos para tantos tucanos. O que vier de fora nestes tempos de financiamento eleitoral vigiadíssimo e reduzidíssimo será quase inexpressivo.  

Coveiro da regionalidade 

O Clube dos Prefeitos foi desmantelado pelo prefeito dos prefeitos, Orlando Morando. Está em estado terminal. A mais recente reunião do organismo foi deplorável: apenas o próprio Morando, entre os prefeitos locais, participou. A ausência dos demais não é apenas física. Estende-se também às contribuições monetárias obrigatórias. A inadimplência de um passado de desleixos se soma à inadimplência de agora. Por mais que tenha sido rebaixada a alíquota contributiva, referenciada pela Receita Tributária Líquida. 

Morando errou grotescamente na direção do Clube dos Prefeitos. Era hora de incrementar o regionalismo num mundo cada vez mais distritalizado. Ele preferiu o municipalismo autárquico em gestão econômica e múltiplo em política partidária. Um absurdo irreparável. 

Orlando Morando vai passar à história como o prefeito da região que enterrou de vez o Clube dos Prefeitos. Antes dele, exceto o período de Celso Daniel, tivemos titulares que deixaram buracos imensos a preencher, mas não abriram mão de ambiente de suposta normalidade. Por mais que as prefeituras nem pagassem mensalidades. 

Faltou a Orlando Morando seguir o jogo de disfarce para não ser coroado coveiro histórico. Como também acabou com a Agência de Desenvolvimento Econômico, igualmente desprestigiada pelos associados, no caso prefeituras e agentes econômicos privados e sindicatos, completou-se a derrocada. 

Com o mandato próximo de se encerrar, e tendo passivo também de relacionamento, com vários municípios desligando-se oficial ou oficiosamente da entidade, Orlando Morando parece não ter saída senão assinar um atestado de óbito administrativo regional. 

Instituição criminalizada 

Completando o quadro, a Fundação do ABC está à deriva. A iniciativa de instalar na presidência o reconhecido médico David Uip deu com os burros nágua. Oficialmente se afirma que houve obstáculos legais à confirmação da medida. 

David Uip teria de estar ligado oficialmente à Prefeitura de São Bernardo, conforme determinaria o estatuto da Fundação do ABC, mas não teria aceitado renunciar ao cargo de diretor da Faculdade de Medicina do ABC. Rolam também versões que correlacionam o cargo de presidente da Fundação à cadeira elétrica criminal. A instituição estaria no olho do furacão de investigações federais. Já enrolado com a CPI da Assembleia Legislativa sobre as Organizações Sociais na área de saúde, caso da Fundação do ABC, David Uip não teria tido disposição de enfrentar duas batalhas entrecruzadas. 

Talvez tenha exagerado quanto aos temores da CPI porque até prova em contrário é pouco provável que políticos de esquerda à frente do movimento tenham vocação ao genocídio multipartidário de cutucar a onça da Fundação do ABC com a vara curta de suposta moralidade. Não sobraria pedra sobre pedra a qualquer agremiação. Desconsiderando-se a intromissão da Polícia Federal, não parece que a Fundação do ABC terá, algum dia, um grupo de dirigentes incomodados com visitas pouco agradáveis às seis horas da manhã por conta de medidas tangidas por políticos inconformados.

O ambiente que se respira nos corredores da Fundação do ABC guarda similaridade com os longínquos anos 1970, quando assisti O Exorcista pela primeira vez, num cinema em São Bernardo. A diferença é que eu era jovem e acreditava em tudo que guardasse alguma porção de verossimilhança enquanto na Fundação os já calejados dirigentes e assessores sussurram pelos cantos versões cada vez mais tenebrosos sobre o futuro da companhia. 

A retirada de David Uip (é assim que a posse frustrada é tratada) só aumentou o desespero geral. A presidente-interina, indicação de São Caetano para ocupar a diretoria, tem feito das tripas coração para ajeitar a situação, enquanto Orlando Morando, que não abre mão de alguém que lhe seja próximo, já indicou o procurador-geral de São Bernardo para assumir o cargo. Não há embaraços legais à posse. Mas quem disse que é isso que agora mais importa? 

O passivo de irregularidades e escândalos na Fundação do ABC é uma roleta russa à espera de alguém que use o gatilho. Uma roleta russa invertida no sentido histórico: haveria balas em todos os recipientes do tambor, menos em um. 



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