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Imprensa

Entenda como demissão mudou
rumo do Diário do Grande ABC

DANIEL LIMA - 03/08/2018

Fui demitido do Diário do Grande ABC em abril de 2005, quando mal completava nove meses à frente da redação, embora o contrato verbal estabelecesse cinco anos para a recuperação da publicação que chegaria à respeitabilidade editorial da revista LivreMercado, que criei em 1990. Depois, mais tarde, agora como consultor do Diário, em 2014, solicitei demissão. Mas não é sobre essa terceira e última passagem pelo jornal mais tradicional da região que pretendo escrever hoje. A primeira e longa passagem, entre 1970 e 1985, foi como repórter de esportes, editor de esportes, editor de economia e coordenador de produção de redação. 

É sobre aqueles nove meses, entre 2004 e 2005, que pretendo fazer uma abordagem que, entre outros aspectos, retirará qualquer dúvida sobre os motivos que determinaram minha demissão. Mais que isso. Aliás, é o “mais que isso” que de fato interessa na exploração desse passado específico. O “mais que isso” revela como o mundo da política e do jornalismo se misturam nesta região – e no País como um todo. Duro mesmo (e nesse ponto me sinto privilegiado, porque jamais o carreirismo me seduziu a interferir nos horizontes que tracei para a minha vida profissional) seria se me deixassem levar pelas circunstâncias que agredissem o que chamaria de meu sistema de controle ético. 

News Letter esclarecedora 

Para sintetizar as razões que me ejetaram da redação do Diário do Grande ABC, quebro a cronologia apresentada no balanço daquele período (a série que dá transparência à newsletter Capital Digital Online, encaminhada a todos os colaboradores do jornal, além de diretores e acionistas) ao reproduzir na sequência alguns parágrafos relevantes para o entendimento do conjunto da obra. 

Foi na edição de número 12 daquele boletim eletrônico que fiz desabafo mais forte e providencial. Era 8 de setembro de 2004. Vivíamos um ambiente de eleições municipais. O jornal era pressionado sobretudo em Santo André pela chamada Frente Andreense. Eram batalhas sobre batalhas. A candidatura a prefeito de Newton Brandão impedia com séquito de advogados a divulgação de pesquisas no jornal. Acionava-se a Justiça Eleitoral sempre que se anunciava a divulgação de novos resultados. A Frente Andreense suspeitava do jornal e da empresa contratada para medir o apetite do eleitorado.  

Todo o mundo sabia e sabe que não tenho compromisso político-partidário com ou candidato. Tenho resistido bravamente às abordagens até hoje. Poderia virar consultor na área, após dar transparência à decisão, entre outras decisões. Estar no centro de uma arena entendida pelos políticos como algo a ser controlado, quando não domesticado. Estou me referindo claramente e sem rodeios à redação do Diário do Grande ABC. 

Meteram-me numa enrascada. Teria de enfrentar com a equipe de redação caciques políticos de Santo André que ao longo da história do jornal sempre foram bem tratados. Entendam bem tratados como algo que não os hostilizava no sentido jornalístico da expressão. Que sentido é esse? A prática de jornalismo crítico, claro! Os personagens principais daquela empreitada truculenta conviveram durante muito tempo com acionistas que deixaram e também com alguns que permaneceram na empresa. Eles se sentiam, portanto, herdeiros de uma tradição de tratamento especial. 

Exibindo a realidade 

Repito que os trechos do texto que repassarei em seguida são apenas um fragmento daquela edição da newsletter de 8 de setembro de 2004. Por mais que se corram riscos de pinçar determinados parágrafos num conjunto de análises, porque a descontextualização poderia causar embaraços e até mesmo pouca compreensão, me parece que vou me dar bem nesta empreitada. 

Primeiro porque os enunciados são claros e objetivos. Segundo porque não quebrarão a sinergia cronológica de reprodução daquelas edições da publicação digital iniciada já há 14 anos. 

Vamos então em frente? Vejam, então, porque estava cavando minha sepultura de emprego (mas mantendo a plataforma de respeitabilidade profissional, que está acima de tudo): 

 A atitude da Frente Andreense colocou em xeque mais que a liberdade de Imprensa que todo veículo de comunicação deve perseguir incansavelmente. O que o grupo incentivado por Duílio Pisaneschi e Newton Brandão fez -- e que nem todos têm capacidade ou interesse em avaliar -- não foi senão a tentativa de desmoralizar o jornal. São bobalhões, como se sabe, porque não seria com este diretor de Redação à frente do Diário -- e jamais o será, podem acreditar -- que se consumaria o rastejamento editorial. (...) Os usurpadores do Diário do Grande ABC não terão vez. Anotem o que estou escrevendo. Aliás, toda newsletter que redijo vai para meus arquivos, porque amanhã vai se transformar em insumo de novos livros. Repito: quem pretende nos botar uma canga, que perca a esperança. Não fico um minuto na empresa no momento em que uma ordem qualquer, de onde vier, tentar repetir o que se passou aqui durante muitos anos. Somente um grande estúpido trabalharia 18 horas por dia para se submeter a ordens indecentes. O jornal Diário do Grande ABC que imagino no futuro não muito distante está longe do que temos hoje -- essa é uma constatação que não posso jamais me furtar em repetir, porque estaria agredindo o bom senso. Entretanto, o Diário que já temos hoje, com a carta de alforria de desmandos, esse estará inviolável enquanto eu estiver à frente da equipe. Podemos perder tudo, menos a dignidade profissional. Principalmente para políticos de carreira pessimamente assessorados. Enganam-se eles e todos aqueles que eventualmente lhe fizerem coro.

Cuidado, apressadinhos

É possível que alguns apressadinhos, sobretudo os apressadinhos compulsórios de redes sociais (apressadinhos que leem sem raciocinar, sem refletir), entendam este artigo como autobajulativo. Bobagem. Isso é história do jornalismo, da política e da região como um todo. Ou você negaria que o que se passou a cada dia (e mesmo o que se passa nestes dias em que o jornal já não tem a mesma abrangência de formador de opinião de antes) contribuiu de alguma forma, ou de várias formas, para amoldar um processo cultural que ajuda a explicar por que somos o que somos hoje, uma Província?

Voltar ao passado (mesmo a um passado em que fui demitido, por exemplo) é muito mais que supostamente ter vocação a cheirar naftalina informativa. Como também é o caso do amigo e indispensável Ademir Medici, à frente da memória regional no mesmo Diário do Grande ABC. Compreender fatos vividos pessoalmente por terceiros constitui a montagem de um mosaico temporal infindável.  

Os protagonistas atuais da vida regional em vários setores e segmentos correspondem exatamente a tudo que fizeram e deixaram de fazer ao longo dos anos, bem como aos legados que encontraram. Não existe mágica no mundo real. O que a maioria dessas lideranças deixará a gerações que começam a se estabelecer será algo como terra arrasada em institucionalidade, em regionalismo e em compromissos com a sociedade. 

E isso tem tudo a ver também com a maneira com que foram tratados pela mídia.  A festança típica de colunismo social em páginas de política, principalmente, e a omissão dos valores econômicos, de empreendedores locais que serviriam de modelos, são estradas antagônicas que levam ao mesmo destino: a derrocada contínua da comunidade regional. 



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