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Política

Atentado a Bolsonaro em cinco
assaltos de um debate digital

DANIEL LIMA - 10/09/2018

Estava em dúvida se escreveria sobre o atentado ao presidenciável Jair Bolsonaro entre outras razões porque levo a ferro e fogo o conceito de regionalidade da Província do Grande ABC. Entretanto, como tudo que se refere ao comando federal teria implicações locais, eis que decidi saltar do muro. 

E vou além: vou debater virtualmente com um colunista da Folha de S. Paulo, Celso Rocha de Barros. Tenho por ele admiração e restrição. Ele escreveu hoje sobre o assunto. Acho que deixou aberto um portal ao contraditório. Celso Rocha de Barros é servidor federal e doutor em sociologia pela Universidade de Oxford, Inglaterra.  

Vou transformar o artigo de Celso de Barros e meus contrapontos numa luta de boxe, por assim dizer. Serão cinco assaltos que se darão da seguinte forma: a cada trecho pinçado da Folha de S. Paulo, contraponho ideias. Acho que vai ser divertido. 

Vamos, então, a disputa? Antes, um esclarecimento: vou procurar usar quantidade semelhante de caracteres. Não me sentiria eticamente satisfeito se usasse critério diferente. O poder de síntese exigido pela Folha de S. Paulo a seus articulistas, em forma de pré-definição do espaço a ser preenchido, será obedecido por mim. Escrevo normalmente sem esse enquadramento neste espaço digital.

Primeiro assalto 

 A Bolsa de Valores subiu quando Bolsonaro levou uma facada. Não foi porque os investidores torcessem pela morte do candidato do PSL – as notícias iniciais eram de que o ferimento havia sido superficial. Na verdade, torciam para que a simpatia popular pela vítima ajudasse Bolsonaro a vencer a eleição. Estavam certos? A facada vai render votos a Bolsonaro? Não é possível cravar uma resposta definitiva, porque atentados a candidatos são raros, e é difícil isolar, em cada caso, o que nos resultados eleitorais foi ou não causado pelo atentado. Minhas suspeitas são as seguintes:

 A Bolsa de Valores, caro Celso de Barros, subiu porque quem entende de macroeconomia e dos humores da psicologia de massas sabe que acontecimentos políticos são rapidamente digeridos e metabolizados em forma de reações práticas. Avanços e recuos de cotações dependem da percepção geral. A facada em Bolsonaro vai render muitos votos ao candidato de forma imediata, com possibilidades de aprofundamento caso o marketing eleitoral da vítima não se perca numa linguagem de vitimismo piegas. O fator emoção não pode ser desconsiderado jamais numa disputa tão parelha. Minhas convicções são as seguintes.

Segundo assalto

 Em primeiro lugar, não vejo como uma onda de simpatia causada pelo atentado seja grande no caso de Bolsonaro, um candidato cuja rejeição é imensa. Acho difícil que um eleitor que responde “não votaria de jeito nenhum em Bolsonaro” de repente pense “opa, ele levou uma facada, seu programa econômico e sua atitude diante das mulheres subitamente me parece muito melhores”. Para isso acontecer, o eleitor terá que ter deixado que a emoção do momento seja muito mais forte do que o cálculo econômico/e ou o julgamento de valor que o haviam levado a rejeitar Bolsonaro anteriormente. Isso seria bastante surpreendente. O eleitor é racional. Uma eventual onda de simpatia pode, sim, levar Bolsonaro a ganhar alguns pontos nas pesquisas, mas não acho que vai levantar o teto imposto por sua taxa de rejeição.

 Bolsonaro já está no segundo turno. Essa é a síntese do pós-atentado. A avaliação de Celso de Barros não leva em conta (o que é um tremendo furo) pelo menos três vertentes de eleitores: os pouco convictos que só se decidem nas pesquisas após a apresentação do cartão com os nomes dos candidatos, os renitentes indecisos e os enfaticamente céticos. São três vetores que integram a grande maioria dos votos. O outro feixe é formado por eleitores convictos, que já decidiram e não mudam mesmo o voto – é somente a esses que Celso de Barros se refere. É o bloco triplamente sensível do que chamaria de posicionamentos mutáveis que dará a Bolsonaro uma vaga ao mata-mata eleitoral. Algo que não se tinha como garantia até o atentado. A taxa de rejeição ao candidato também deverá cair em números já detectados e também em números sob a ótica de perspectivas, o que é muito valioso em termos de projeção final. 

Terceiro assalto

 Em segundo lugar, não acredito que qualquer ganho de curto prazo gerado por empatia seja durável. A comoção do atentado não deve durar um mês. O argumento da empatia também foi enfraquecido pela atitude de extrema radicalização adotada pelo campo bolsonarista após o atentado. Mourão, Janaína Paschoal, Silas Malafaia e Magno Malta mentiram que o autor do atentado era petista. O presidente do PSL declarou que “agora é guerra”. E Mourão foi à GloboNews no dia seguinte ao atentado dizer que o presidente da República (cargo que pode ser de Bolsonaro, ou de Mourão) é quem decide sobre a conveniência de fechar as instituições democráticas (dar um “autogolpe”).

 O articulista da Folha de S. Paulo está equivocado sobre a temporalidade dos efeitos do atentado a Bolsonaro. Somente os próprios bolsonaristas comprometeriam um ganho excepcional de votos que o incidente proporciona. E não parece que o farão. Nem mesmo as reações imediatas pós-ataque, mencionadas pelo articulista, ganharam corpo a ponto de provocar estragos. Rapidamente os estrategistas da campanha de Bolsonaro aquietaram os ânimos. Deram o tom de indignação de modo estratégico, naturalmente indignado, porque o contrário seria uma passividade que tornaria o caso menos grave do que é de fato ou, no mínimo, de uma insensibilidade atroz. Quanto às declarações de Mourão, o articulista da Folha comete o crime da parcialidade informativa: o militar aposentado fez uma declaração cuja essência estava condicionada a uma situação de completo descontrole da institucionalidade democrática. Usar de meia verdade para construir suposta verdade implacável é desonestidade intelectual. 

Quarto assalto

 Em resumo, acho que empatia não vira muitos votos, os que virarem depois voltam, e qualquer efeito de empatia tende a ser compensado pelo efeito negativo do extremismo bolsonarista. Há, entretanto, um outro argumento que prevê vantagens para Bolsonaro no pós-atentado: até agora, quanto mais Bolsonaro foi exposto ao público (nos debates por exemplo), mais sua rejeição subiu. Hospitalizado, sua exposição será menor. Não poderá ser acusado de covardia por faltar aos debates. Esse argumento é bem melhor do que a tese da empatia. Mas também não acho que seja caso de apostar muito dinheiro nisso. 

 Se o próprio articulista não chega a uma conclusão segura da exposição de ideias, o que esperar do conjunto da obra do texto publicado na Folha de S. Paulo? Se ele não o fez, porque em dúvida, prefiro fazer, na certeza: a gestão da vantagem comparativa da campanha de Bolsonaro pós-atentado sugere que o efeito que o articulista chama de empatia, mas que prefiro denominar de solidariedade, será contínuo até o limite possível de captura da maioria relativa dos votos de indecisos, de céticos e dos menos convictos. Quanto à suposta desvantagem de Bolsonaro nos debates, trata-se de subjetividade interpretativa não confirmada nas pesquisas, tal o equilíbrio cênico e de conteúdo entre os presidenciáveis naquelas programações.  

Quinto assalto

 Bolsonaro sempre foi uma cortina de memes escondendo o autoritarismo de Mourão e o liberalismo extremo de Paulo Guedes. Agora vão os dois para o centro do palco. Sem o stand-up politicamente incorreto do cabeça de chapa, o mesmo fascismo parece bem menos atraente quando exposto claramente por Mourão. Fica bem mais claro que o jovem que votar em Bolsonaro pode perder o direito de dar sua opinião por 20 anos, como já aconteceu no Brasil. E se o mercado acha que as propostas de Guedes renderão votos, está explicado por que o PT sempre ganha esse negócio.

 A vertente ideológica está mais que evidenciada nesse trecho do artigo de Celso de Barros. Não que me surpreende, porque o leio sempre e nem por isso, por ter posicionamento diferente do meu, o desclassifico ou minimizo seus conhecimentos. Apenas os lamento, em determinadas situações. Como essa de projetar anos de chumbo por conta de deformações avaliativas de uma entrevista. Mais que isso: o acadêmico comete o erro de analisar efeitos eleitorais sob a ótica do academicismo, me permitam a redundância, enquanto a grande maioria dos eleitores (e as pesquisas estão aí para confirmar) quer mesmo recuperação econômica e segurança pública. Aos eleitores não interessa a cor do gato ideológico, desde que cace o rato do desenvolvimento econômico e social. Algo que nem PSDB nem PT asseguraram nas últimas décadas, quando se confrontam nossos resultados com qualquer outro país.  



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