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Política

Pesquisas distorcem resultados
de rejeições e do segundo turno

DANIEL LIMA - 21/09/2018

Os leitores vão ter a oportunidade de acompanhar este artigo e provavelmente sairão satisfeitos das águas críticas que vou derramar no pantanoso terreno de especulações e de conceitos mambembes das pesquisas eleitorais. Certamente em nenhum momento e em endereço algum do jornalismo houve abordagem semelhante. A contestação explícita no título deste artigo não é um jogo de palavras e muito menos uma tentativa de chamar a atenção para alavancar a audiência. É realidade nua e crua. Tecnicamente provada. 

A diretora técnica do Ibope Inteligência, Márcia Cavallari, é até certo ponto enfática nas intervenções que relativizam dados estatísticos retirados dos resultados de primeiro turno da corrida presidencial quando transpostos ao segundo turno. Ela afirma sem rodeios e com outras palavras o que traduzo sem risco de interpretação equivocada: as projeções de resultados prováveis para o segundo turno e, antes disso, o nível de rejeição a cada um dos concorrentes, poderão sofrer sérias mudanças, quando não se tornarem números mortos, a depender do remelexo das correntes que moverão os dois finalistas. 

Márcia Cavallari disse quase tudo. Só faltou afirmar muito mais. Mas, como ninguém da bancada da GloboNews, e mesmo jornalistas esparsos, enxergam pesquisas eleitorais além das obviedades cantadas como espécie de clichês, vou à luta. Terei de ser o mais didático possível. Os leitores em geral precisam entender os mecanismos metodológicos que abastecem resultados de cada rodada das pesquisas, sobretudo dos mais prestigiados Datafolha e do Ibope. Mas a avaliação também cabe aos demais institutos de pesquisas. Usam-se ferramentas diferentes para calcular o batalhão de rejeições e os resultados presumíveis de primeiro e de segundo turno. 

Ponto-chave desprezado  

O ponto-chave para invalidar qualquer incursão que determine o grau de rejeição a um determinado candidato presidencial tanto no primeiro turno quanto no segundo é a margem de erro, usualmente de dois pontos percentuais, ou de 95% de precisão. Há um limite mínimo de entrevistas que assegura a consistência de um resultado final. Quanto menor o número de amostras, mais cresce a margem de erro. 

Dois pontos percentuais significam que um candidato com 20% de indicações pode contar com 22% ou 18% do eleitorado. A margem de erro vale para cima e para baixo. Um outro candidato com 18% dos votos pode ter 20% ou 16%. No confronto entre eles, quem tem vantagem numérica de dois pontos sobre o segundo colocado pode tanto estar em situação de empate técnico (18% contra 18%) ou, no limite máximo, somar oito pontos de vantagem (24% a 16%). 

Não foi à toa que há muito escrevi um artigo em que questionava a expressão correta, se margem de erro ou margem de manobra. A elasticidade permite aos institutos de pesquisas afirmarem, urnas apuradas, que acertaram determinado naco de resultados. Há uma legitimidade de argumentação caso a disputa seja decidida por margem mínima de votos, ou caso se alargue a oito pontos percentuais, caso do exemplo acima. Convenhamos que temos um cenário de conforto às pesquisas. 

Destino principal é sólido

Voltando ao que interessa (ao conceito de margem de erro e a relação íntima com o total de entrevistas realizadas), os resultados finais de uma sondagem eleitoral valem sobremodo parta as questões relativas ao destino principal do voto do entrevistado. Qualquer recorte fora disso carrega um caminhão de impropriedades e, portanto, pode sugerir, quando não garantir, distorções nos resultados. Seria melhor dizer “provocam distorções nos resultados” em vez de “podem provocar distorções nos resultados”. Tanto que, insisto, a diretora técnico do Ibope Inteligência afirma categoricamente que tudo (ou seja, as simulações para o segundo turno) não passaria de descartável. 

Vamos agora à etapa seguinte, para saber qual é o montante percentual de rejeição a um determinado concorrente. O raciocínio vale para todos, claro. 

Quando os pesquisadores aferem no voto estimulado (diante de um cartão com o nome de todos os concorrentes) em quem o entrevistado não votaria de jeito nenhum, oferece-se multiplicidade de alternativas. Ou seja: o eleitor não escolhe necessariamente um determinado candidato à suposta lista negra, mas vários deles. Tanto que é que a soma dos percentuais ultrapassa em muito os 100%. 

É aí que começa o processo de distorção, verbalizado sem constrangimento pela diretora do Ibope Inteligência, embora, insisto, ela se tenha limitado a dizer que os remanejamentos dos eleitores diante dos dois finalistas sempre gera alterações no resultado final diante da movimentação oficiais dos mandachuvas partidários, em termos de alianças, e do arbítrio dos próprios eleitores. Ou seja: quando se trata do arbítrio dos próprios eleitores, se confirma a deficiência inicial da pesquisa, de não mensurar o quanto cada candidato da lista negra pesa na valoração da rejeição. 

Exemplo emblemático 

Vou tentar traduzir isso de modo também didático: alguém que tenha votado em Geraldo Alckmin no primeiro turno e apontado que não votaria de jeito nenhum em Jair Bolsonaro, em Fernando Haddad e em Ciro Gomes pode perfeitamente bandear-se para o eleitorado do capitão reformado do Exército ao constatar que o petista Fernando Haddad se classificou ao mata-mata final. Ou optar pelo petista. 

Dezenas de exemplos similares, contando com outros personagens e outras preferencias finais, poderiam ser mencionados para consolidar o equívoco dos institutos de pesquisa. Traduzindo: quando os eleitores pesquisados pela DataFolha e pelo Ibope (e insisto em dizer que a afirmativa vale para os demais institutos de pesquisa) apontam os candidatos nos quais não votariam de jeito nenhum, não existe o que chamaria de valoração dessa decisão. Se houvesse, estaríamos mais próximos de um quadro de rejeição inicial que estabeleceria determinadas conjecturais mais consistentes, embora longe de definitivas. 

Portanto, não existe uma escala de valores do quanto cada um dos candidatos pesa no critério de rejeição do eleitor. O eleitor de Geraldo Alckmin que apontou Jair Bolsonaro, Ciro Gomes e Fernando Haddad como concorrentes fora da qualquer perspectiva de receber seu voto em segundo turno votaria em quem nesse mesmo segundo turno ante a mais que provável ausência do tucano na disputa final? Uma pesquisa que levasse em conta muito mais que o apontamento dos candidatos em que o eleitor não votaria de jeito nenhum seria menos frágil, portanto. 

Metodologia corrompida 

Sugiro ao leitor que tome um fôlego, repasse a leitura, e prossiga com calma porque ainda tem muito chão. Quem achar que explicar as razões das fraudes estatísticas nas pesquisas tanto para o primeiro quanto para o segundo turno é fácil certamente adora a simplificação sem sustentação. 

Como está mais que evidenciado que a projeção de rejeição no primeiro turno é deficiente na estrutura técnica, pela multiplicidade de apontamentos e de ausência de valoração, vamos partir para uma nova etapa. E essa nova etapa é muito mais importante e arrasadora que qualquer outra, porque está relacionada ao segundo turno. 

Lembram-se que comecei este texto mencionando a margem de erro. Margem de erro comum dos institutos de dois pontos percentuais para cima e para baixo. Pois essa margem de erro vale com até 95% de certeza ante um determinado número de entrevistas. Se substituírem 1.000 entrevistas por apenas 100 entrevistas, o resultado estará seriamente comprometido. Mais que isso: não terá validade técnica nenhum. A pesquisa se transforma em enquete, que não tem valor cientifico. 

Perguntaria o leitor a razão de mencionar 100 entrevistas em vez de mil contratadas e levadas a campo pelos pesquisadores. Explico sem hesitação e, mais que isso, coloco a situação como prática dos institutos de pesquisa. 

Chegamos a escassas 100 entrevistas de um universo mínimo supostamente de mil quando decompomos, por exemplo, os eleitores de Ciro Gomes. Basta imaginar que entre os mil entrevistados, 10% tenham apontado o ex-governador do Ceará como preferido. São 100 das mil entrevistas nas quais Ciro Gomes teve o apoio popular. 

Equívocos monumentais

Na rodada seguinte da pesquisa, para aferir o grau de rejeição dos candidatos, 50% dos eleitores de Ciro Gomes apontam Jair Bolsonaro como concorrente sumariamente rejeitado. Chegamos, portanto, aos 50 entrevistados que têm horror a Jair Bolsonaro. Qual seria a margem de erro desse miniuniverso constatado?

 Resultado: indecifrável, porque completamente fora dos padrões de investigação. Para que se obtivesse com margem de apenas dois pontos percentuais o universo de eleitores de Ciro Gomes que detestariam Jair Bolsonaro, seriam necessárias mil entrevistas. O conceito vale para todos os concorrentes e variáveis. O resultado final é um forrobodó inexplicável porque se infringiu o coração metodológico de qualquer pesquisa. 

Recapitulando a lição, há, portanto, dois equívocos monumentais a destruir a reputação dos institutos de pesquisas quando se trata de projeção de rejeições e, por consequência, os percentuais de preferência do eleitorado num segundo turno. Primeiro, a uniformidade insensível e metricamente impossível de definição dos candidatos potencialmente mais rejeitados tanto para a disputa do primeiro quanto do segundo turno. Segundo, a flacidez metodológica, com consequente trambolho numérico, dos resultados que não seguiriam o padrão mínimo de quantidade de eleitores ouvidos para determinadas questões.  

Manipulando emoções 

Creio que esgotei as possibilidades de fazer-me compreender. Como tenho, mesmo sem detalhismos, a confissão tácita da diretora do Ibope, somente os cegos de paixão insistiriam em levar a sério as pesquisas de rejeição no primeiro turno e de rejeição e dos próprios resultados no segundo turno. Sim, os resultados de segundo turno, apressados, são corroídos pela lógica da ausência de valores comparativos dos níveis de rejeição e do confesso descarte que os remelexos provocarão na tendência de votos dos dois finalistas, após conhecidos os resultados do primeiro turno.  

Para completar: por que então os institutos de pesquisas exploram tanto os níveis de rejeição e apontam resultados do segundo turno contando, nesse caso, com um prato feito sem que se tenha os ingredientes necessários? Simples: os alquimistas acreditam que têm poder imenso de influenciarem resultados e de conduzirem bovinamente os eleitores ao que mais lhes interessariam. 

O problema é que faltou combinar com os russos, no caso os milhões de eleitores que fazem uso de múltiplas plataformas tecnológicas, com influência cada vez maior (embora ainda fora da zona de predomínio da televisão e do rádio) junto ao eleitorado.  Sem contar a diversidade de pesquisas a provocar entrechoques e dúvidas, mesmo igualmente descuidadas na medição de rejeições nos dois turnos, além dos resultados finais. 

Para completar de vez -- e por mais repetitivo que pareça --, não custa repetir mil vezes se preciso: se a responsável pelas pesquisas do Ibope Inteligência descarta resultados e rejeições do primeiro turno como matéria-prima saudável ao segundo turno, embora não conte em detalhes o que estamos contando, o leitor tem alguma dúvida sobre a sincronia deste texto com os pressupostos metodológicos que levam em conta uma série de quesitos como nível de escolaridade, renda, faixa etária, sexo e tudo o mais?  



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