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Política

Quem consegue decifrar
a cara eleitoral da região?

DANIEL LIMA - 05/11/2018

Vou fazer um teste com os leitores. Quem arriscaria desenhar o perfil do eleitorado da região com base nos resultados de 28 de outubro que elegeram Jair Bolsonaro presidente da República na disputa com petista Fernando Haddad? Melhor dizendo: se fosse comparar o resultado final da região com outros territórios paulistas, em qual deles a soma de votos a Jair Bolsonaro teria proximidade? Estamos acertados? 

Pois então vamos às alternativas que listei depois vasculhar meus arquivos das eleições especificamente com esse propósito, ou seja, de buscar irmãos siameses eleitorais. 

Antes, uma explicação. Tratar os resultados individuais dos municípios da região e compará-los internamente, ou seja, entre si, tem valor definidor das diferenças locais. Já fizemos isso muitas vezes para provar que a região é uma colcha de retalhos sociais, com nuances culturais sedimentadas ao longo de décadas de intervenções demográficas e econômicas. 

Olhar para a região e acreditar que somos um conjunto de municípios semelhantes é uma aberração que provoca muitos estragos a empreendedores mal-orientados. Como já se provou fartamente. 

Distinções internas 

Diadema é tão distinta de São Caetano como Santo André de Rio Grande da Serra. São Bernardo e Mauá guardam diferenças também. Santo André e São Bernardo são parecidas apenas na superfície socioeconômica. Quando se desce ao entranhamento político-partidário, o que parece certo é enganoso. No fundo, cada território municipal da região conta com micro espelhos e macro espelhos na própria região, mas nem por isso são um macrocosmo uniforme. 

O que coloca os municípios da região em pontos separados é a proporcionalidade no universo local. Exemplo?  Santo André tem uma porção de bairros típicos de São Caetano em termos de classe média e média alta, mas é menos expressiva no conjunto da população. Já se comparar a participação da classe média de Santo André com Diadema, a constatação será a mesma, favorável a Santo André.  

Dito isso, vamos ao questionamento: com que o conjunto de votos destinados a Jair Bolsonaro e a Fernando Haddad nas últimas eleições presidenciais nos sete municípios da região se parece? 

 Osasco, na Grande São Paulo.

 Barueri, na Grande São Paulo.

 Bairro Perdizes em São Paulo

 Bairro Pinheiros, em São Paulo. 

 Bairro Ipiranga, em São Paulo.

 Todas essas alternativas.

 Nenhuma dessas alternativas. 

Vou dar alguns segundos de tolerância para o leitor e eleitor raciocinar. Olhem bem para a lista. Perdizes, Pinheiros e Ipiranga são bairros de classe média, média alta da Capital. Principalmente Perdizes e Pinheiros. Já os dois municípios da Grande São Paulo têm predominância do setor de serviços e de comércio sobre a área de transformação industrial. Diferentemente, portanto, desta região de sete municípios.

Não seria nada diferente 

Pensaram bem. Têm certeza da resposta? Pois então vamos revelá-la: todos os endereços mencionados contam com números semelhantes aos da região na vitória de Jair Bolsonaro. Exatamente todos. Minha intuição diz que a maioria apostou na alternativa “nenhuma dessas localidades”, ou no máximo enveredaram por Osasco e Barueri. Eu o faria, se não esmiuçasse pessoalmente os dados. 

Na edição de amanhã, terça-feira, vou fazer recortes municipais dos resultados na região, comparando-os a outras localidades. Os leitores vão ver o quanto discrepante é o tecido socioeconômico da região, tipificado na multiplicação de espelhos eleitorais.  

No caso do retrato da região como um todo, a aferição correu por uma vereda simples, mas inquestionável: do total de votos presidenciais na região em 28 de outubro (1.353.868), 62,12% (900.448) foram destinados a Jair Bolsonaro e 549.074 (37,88%) a Fernando Haddad. 

Entre os 20 maiores municípios do Estado de São Paulo em poderio econômico que integram o G-22 estudados por esta revista digital (Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra completam a lista por pertencer à região), apenas Barueri e Osasco chegaram a números próximos: Osasco registrou vitória de Bolsonaro com 63,14% dos votos válidos e Barueri 62,95%. Lembre-se que na região o número final foi 62,12%. 

Também os três distritos eleitorais da Capital apresentaram números semelhantes aos da região: Bolsonaro somou 62,53% dos votos válidos em Perdizes, 63,21% em Pinheiros e 63,26 no Ipiranga. Os demais distritos da Capital romperam o limite de dois pontos percentuais para mais ou para menos. Na maioria dos casos os resultados foram largamente acima dos dois pontos de margem de erro, por assim dizer. 

Complexidade analítica 

É muito complexo e arriscado tentar destrinchar correlações entre a preferência do eleitorado da região e dos demais endereços mencionados. Os resultados das urnas não oferecem nada além dos próprios números. Não há segurança teórica alguma em tentar estabelecer vínculos com a garantia de que não se está comprando gato de especulação por lebre de ciência. 

Pesquisas eleitorais fatiam preferências e rejeições aos candidatos com base em sexo, idade, região, escolaridade, renda e tudo o mais, mas não as transportam às urnas em forma de votos concretizados. Os números que saltam das urnas, insisto, são pedras brutas e pedras brutas continuarão a ser. Podem ser amoldados ao gosto do freguês, sem a garantia de que não se está invadindo área inapropriada. 

Pesquisas eleitorais abrem o caminho morfológico a avaliações espaciais, mas não dão sustentação a resultados posteriores cotejados com outros endereços. Resultados dentro da mesma bitola de preferência guardam armadilhas. 

Caminhos tortuosos 

Resultados semelhantes aos da região na vitória de Jair Bolsonaro podem desdobrar-se em variáveis sem conexão entre si. Exemplo: como pode uma região de assalariados predominantemente industriais (em relação aos demais pesquisados) no volume de massa monetária ir às urnas e oferecer como resultado eleitoral um perfil bruto de bairros prestadores de serviços de alto valor agregado da Capital? 

Tento estabelecer conexões, mas acho arriscado. Da mesma forma que colocar Barueri e Osasco no mesmo saco desafiador de uma explicação que pareceria inconsistente. Os dois municípios também têm predominância de mercado de trabalho bem menos industrializado que o da região. Como os distritos da Capital, não obedeceram ao fluxo ocupacional e demográfico da região. O que une a todos é o ambiente político e institucional próprio de regiões metropolitanas. 

Confesso publicamente que me sinto paradoxalmente impotente e empoderado ao não avançar o sinal explicativo de resultados assemelhados em territórios distintos.

Impotência e empoderamento

O sentimento de impotência é basicamente por conta de faltarem dados detalhados dos eleitores que compareceram às urnas nessas localidades. O segredo do voto, claro, não pode ser violado. Diferentemente, portanto, de pesquisas, que contam como a anuência dos pesquisados.  Daí os analistas dos institutos de pesquisas exporem explicações mais detalhadas sobre o provável destino dos votos, obedecendo ritual da planilha social, econômica e educacional. 

Já o sentimento de empoderamento advém da humildade de reconhecer-me incapaz a uma empreitada que, executada, poderia me levar ao descrédito. 

Ambiente metropolitano? 

No fundo, no fundo, e reforçando o que tangenciei anteriormente, o que acho no sentido especulativo da expressão é que o ambiente metropolitano (não se pode esquecer que as localidades estão na Grande São Paulo) tem a ver com os números.  

Se isso tem algum fundamento, e parece que tem, por que então outras localidades da Grande São Paulo (em quantidade muito maior) apresentaram resultados que ultrapassaram ou ficaram aquém dos números desse bloco? 

Faço esse autoquestionamento e juro que a resposta é um desafio. Diria que a possível melhor explicação a essa dicotomia envolvendo resultados eleitorais é que certamente há especificidades distintas no campo econômico e social a encaminhar dados descolados da margem de erro. Ou mais simplificadamente: fatores socioeconômicos e socioculturais pesam mais ou pesam menos na aproximação e no distanciamento de espaços distintos. 

Complicado? Pois é: confrontar numericamente os resultados eleitorais da região com aqueles cinco endereços talvez seja a melhor maneira de dizer que se trata de um labirinto perigosíssimo. 

Por isso uma abordagem municipal, como faremos amanhã, tenha elementos menos difusos. E mais próximos de uma interpretação menos marcada pelo comedimento de quem não gosta de frequentar ambiente interpretativo hostil à sensatez.  



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