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Imprensa

Veja como encontrei o Diário que
Ronan Pinto comprou em 2004 (17)

DANIEL LIMA - 18/12/2018

A edição de número 16 da newsletter OmbudsmanDiário, instrumento que criei para analisar o jornal que pouco tempo depois seria dirigido editorialmente por mim, mostra a preocupação com a formação de talentos. Faço breve menção à origem da proposta que integrava o Planejamento Editorial Estratégico que organizei para o jornal contar com um farol a iluminar o futuro de uma reestruturação que se tornava urgente.

Quase duas décadas antes, no mesmo Diário do Grande ABC, criei uma improvisada, mas produtiva, escolinha de profissionais recém-formados principalmente na Metodista de São Bernardo. Pretendia repetir a empreitada agora, naquele 2004 que parece distante quando se observa do hoje.

Veja o que escrevi sobre o projeto de formação profissional naquele 28 de junho de 2004. Lembramos que os capítulos da newsletter do primeiro e único ombudsman da história do Diário do Grande ABC comportaram 32 edições. Depois, veio a direção do jornal. Por 11 meses.

Edição número 16 

A exemplo do que organizamos entre 1982 e 1983, quando ocupamos posto equivalente ao de chefe de redação, embora a nomenclatura fosse de coordenador de produção, vamos introduzir um mecanismo de seleção e preparação de recém-formados para, mediante necessidades, contratá-los para substituir ou eventualmente reforçar nosso quadro de redação.

Naquela época chamamos de escolinha o que veio a se consolidar como virtuosíssimo modelo de reposição e contratação de jovens valores. A importância dessa iniciativa vai muito além do que alguns supõem restrita a interesses financeiros. Aliás, o viés financeiro é apenas uma fração do conjunto de vantagens da introdução desse processo de depuração e uniformização de recursos humanos da área editorial.

Pesa muito mais em qualquer equação que se desenhe a perspectiva de que essa turma de jovens poderá ter acesso aos quadros de redação sem sofrer impactos emocionais e técnicos que tanto comprometem a qualidade do produto final, isto é, da informação consumida pelos leitores.

É enorme a diferença entre o rendimento de um jovem recém-formado e contratado para atuar numa redação sem referenciais da cultura editorial da publicação e um jovem recrutado tendo como base a preparação numa espécie de vestibular. Produtividade é o verbete que, no fim da linha de avaliação, definirá a diferença entre um modelo e outro.

Afastar qualquer possibilidade de ruídos no circuito de informações que devem chegar aos leitores é o pressuposto de, também na seleção e no aproveitamento de jovens talentos, atingir respeitabilidade editorial.

A preparação permanente, sistemática e programática de jovens que ocuparão parte do universo da redação é condição imprescindível à estabilidade do departamento. Não se pode descartar a oxigenação da juventude em qualquer ambiente corporativo, sob o risco de enferrujar a engrenagem. Entretanto, a simples escalação de recém-formados sem o devido preparo técnico, emocional e cultural se revestiria de tiro no próprio pé.

 Afinal, a contratação pura e simples de novos valores, atirados às feras de um produto que desconhecem, eleva as possibilidades de destruição da autoestima pessoal e, principalmente, submete o profissional recém-chegado a uma sequência de improdutividades que desarticulam o produto final.

E, nesse ponto, mais uma vez, vale a pena enfatizar: o consumidor de informação não pode ser apanhado no contrapé pelo efeito-tobogã de abordagens editoriais desconectados dos valores exaustivamente enfatizados.

Não se pode nem ao menos conjecturar que jovens eventualmente talentosos sejam escalados para produzir em nome de um jornal quase cinquentenário sem que estejam adequadamente entronizados nos conceitos técnicos e culturais da publicação. 

O produto que vai às bancas e aos endereços domiciliares e empresariais tem de ser observado sob o mesmo rigor de algo como um laticínio de marca respeitável exposto cuidadosamente na gôndola de um supermercado, de um veículo zero quilômetro que ajuda a compor o ambiente de uma concessionária, de um elenco de estrelas que se confunde com a logomarca de uma empresa de comunicação.

Uma publicação que comete erros grosseiros ou omissões incontornáveis sofre fortes arranhões de credibilidade.



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