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Imprensa

Regionalidade não resiste em
2018 a prefeitos pernas de pau

DANIEL LIMA - 20/12/2018

Não dá para tapar o sol da regionalidade em crise com a peneira do conformismo covarde: o ano que se está encerrando foi uma decepção completa para quem vive o Grande ABC com olhos no futuro. Passamos mais uma temporada a ver navios de perspectivas que jamais chegam ao porto seguro de realizações.

A marquetagem é geral, sobretudo das administrações públicas municipais, mas as ferramentas utilizadas são cada vez mais rudimentares e óbvias.

Estamos a léguas de distância de mudanças que tardam e falham. O resumo da ópera do desmantelamento do Clube dos Prefeitos, após dois anos de desgoverno do prefeito Orlando Morando, de São Bernardo, é inequívoco.

Podem me chamar do que bem entenderem. O veredito para esta temporada é até generoso, porque estamos em período pré-festas: os prefeitos da região deveriam promover uma cerimônia pública em frente ao Clube dos Prefeitos. Orlando Morando poderia encomendar e, mais que isso, posar para os fotógrafos como coveiro da regionalidade.

Perdendo o jogo

Uma lápide simbolizando os dois anos de mandato à frente de uma instituição que deveria ser prioridade das prioridades evocaria uma realidade indisfarçável. Estamos perdendo mais e mais terreno para o futuro. Pior ainda: estamos sendo goleados pelo passado. Não aprendemos nada com o que já se foi de bom e de ruim.

Aperfeiçoamos as piores coisas. Antes o Clube dos Prefeito não funcionava por falta de competência coletiva. Agora, de dois anos para cá, sobrepôs à inutilidade técnica a guerra partidária. Uma combinação desastrosa.

Neste último texto desta temporada não poderia jamais me omitir quanto a uma avaliação sumária, mas emblematicamente densa: o Grande ABC é cada vez mais uma província dominada pelo pior time de gestores regionais, no caso os sete prefeitos. Nunca se viu tantos pernas de pau juntos. Unidos nos desperdícios e nas omissões, quando não na fanfarronice da Casa de Brasília e de relações internacionais inócuas.

É claro que essa avaliação se restringe ao ecossistema regional. Ou seja: sem nenhuma conotação municipalista, da qual trataremos no momento certo. Como o peso da regionalidade ao que vem em forma de futuro é decisivo a uma geoeconomia vista e interpretada como megacidade de quase três milhões de habitantes, eventuais avanços municipais em políticas públicas perdem tônus transformador.

Não estamos tratando de um braço fraturado. O que está em jogo é um organismo em pandarecos. Não chega ao estágio de septicemia, claro, mas exige tratamento severo.  

Partidarismo demolidor

Como se viu nos últimos dias, acumulamos mais perda na criação de riqueza, referente ao ano de 2016, no PIB mais atualizado pelo IBGE (|Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). É possível que quando o IBGE soltar os dados do comportamento da economia regional em 2020, o resultado desta temporada que está chegando ao fim não repita a queda contínua do PIB. Mas nem isso é garantido.

O ambiente regional e nacional é de rescaldo da maior recessão da história, iniciada do segundo trimestre de 2014 e encerrada no último trimestre de 2017.

O mais frustrante para quem torce pelo Grande ABC é que diminuiu consideravelmente o número de adeptos para valer da regionalidade em favor de interesses localizados dos municipalistas. 

O maior pecado cometido pelo tucano Orlando Morando foi colocar o carro do partidarismo à frente dos bois do desenvolvimento econômico e da isonomia institucional daquela entidade.

Orlando Morando é um case especialíssimo de como demolir a casa da regionalidade. Assumiu o atestado de óbito gerencial de uma casa que caia, mas que precisava ser mantida de pé.

A retirada de cena de Diadema, Rio Grande da Serra e São Caetano não causa, portanto, surpresa alguma. O desgaste da politização exacerbada do Clube dos Prefeitos não poderia dar em outra coisa. O afastamento de um único Município dessa cadeia de institucionalidade já seria suficiente para quebrar a espinha dorsal de planejamentos que se fazem emergentes. Imaginem então a quebra da corrente mesmo que enferrujada em três pontos distintos?

Apenas esparadrapo

Tudo indica que o prefeito de Santo André, Paulinho Serra, igualmente tucano, será introduzido no organismo como espécie de esparadrapo político e organizacional. Pura perda de tempo. O que está rasurado permanecerá rasurado. Corre-se, inclusive, o risco de a emenda ficar pior que o soneto. Entre outras razões porque Paulinho Serra e Orlando Morando não são tucanos que se bicam como antes. As eleições de outubro geraram desconfianças mútuas.

Por isso, ou o Clube dos Prefeitos recupera o formato antigo em representação e passe para uma ação inédita, de profissionalização, contratando especialistas para sintonizá-lo com as demandas nacionais e internacionais de competitividade, ou fecha as portas de vez. E entregue o destino regional às baratas do salve-se-quem-puder oficial.

Contasse esse jornalista com a possibilidade de dirigir uma mensagem que estabeleceria prioridade absoluta de atenção a um número de lideranças sociais independentes na formulação de medidas corretivas sugeriria a massificação nas mídias sociais de pontos cruciais. Com que sentido? Para que o eleitorado da região entendesse que a vida municipal não é mais importante que a vida regional e, portanto, que a agenda dos candidatos às prefeituras em 2020 fosse centralizada em pontos cruciais da qualidade de quem vive e diariamente entre as divisas dos sete municípios.

Para se ter ideia dessa flutuação ocupacional, o caso de Santo André é o mais impressionante porque metade da População Economicamente Ativa trabalha fora da cidade. Nos demais municípios a incidência é levemente inferior. São Paulo é o endereço de quase um quarto de deslocamentos diários dos trabalhadores da região. Quem acredita que exista cidadão exclusivamente municipal numa área metropolitana tão peculiar quanto a de São Paulo precisa rever os conceitos.

Agenda regional

Por isso, garanto que a iniciativa alteraria completamente a rotina regional, que consiste em olhar o umbigo do municipalismo improdutivo. Afinal, por mais que seja mobilizador de decisões, cuidar das próprias divisas não dá conta das contrariedades às forças de complicações que o ambiente regional requere.

Mal comparando, esse grupo de formadores de opinião, que poderia estar reunido numa entidade independente, promoveria uma revolução pelo menos quanto ao impacto na classe política. Os prefeitos fazedores de obras varejistas que são quase que um enxugar contínuo de gelo seriam instados a soluções macrorregionais.

Mobilidade urbana e segurança pública, além da redução do impacto do Custo ABC e da dependência excessiva do setor automotivo, bombardeariam a mesmice de inauguração de praças, asfaltamento de ruas, reforma de unidades de saúde e outros varejismos que são parte da agenda obrigatória dos prefeitos, não carros-chefes de novos tempos gerenciais. Quando essas informações periféricas dominam as manchetes de jornais, não há indicativo mais apropriado do quanto falta de macroplanejamento regional.

Obviedade maltratada

A obviedade de que a região exercita diariamente, queiram ou não os atávicos, uma desgastante fórmula de relações pessoais e profissionais que ultrapassam os traçados municipais, deveria ser regra número um dos gestores públicos e da sociedade em geral.

O problema é que nem tudo que é obvio assim é visto e analisado.

Está na cara a impossibilidade de encontrar saídas econômicas e sociais sem colocar na mesa e botar em operação políticas públicas regionais. Entretanto, é preciso martelar diariamente essa condicionante para que a metástase do municipalismo não só deixe de se espalhar em períodos como o atual, de refluxo mais comprometedor do Clube dos Prefeitos, como também para encetar uma reviravolta.

CapitalSocial encerra mais uma temporada de jornalismo comprometido com informação de valor agregado. Confesso que a decepção é companheira persistente ao longo dos anos. Desde os tempos da revista LivreMercado, antecessora desta publicação digital.

Costumo afirmar que a vantagem de dirigir CapitalSocial cada vez mais como plataforma de valores autorais em relação aos tempos coletivos de LivreMercado é que não tenho mais o direito ou o salvo-conduto de errar ao confiar em terceiros que movem o destino da região.

A percepção de fracassos anunciados, embora metabolizados como supostas novidades a alcançar êxito, é necessariamente uma obrigação deste jornalista. Daí o ceticismo como espécie de marca registrada de CapitalSocial. Aprendemos com os erros, poucos é verdade, do passado de LivreMercado. Não caímos mais em arapucas de marqueteiros de plantão.

Redes sociais

Sentimos no ar o cheio da brilhantina da safadeza travestida de gestão pública. Provavelmente o caso mais emblemático desta temporada foi a lambança do prefeito de Santo André ao anunciar aumento exorbitante do IPTU. Paulinho Serra cometeu uma barbaridade, inclusive com o apoio da Imprensa. Somente mais tarde, com série de mais de 40 textos deste jornalista, e com a pressão das redes sociais, o tucano voltou atrás. A sensatez sempre é resgatável quando o desespero fecha as portas à teimosia.

O caso IPTU de Santo André é paradigmático do que pode acontecer no futuro próximo se as redes sociais não forem aparelhadas exclusivamente em defesa de preferencias eleitorais. Se houver cidadania nas manifestações, fenômenos eleitorais passarão a tirar o sono dos mandachuvas e mandachuvinhas da política regional.

Preparar esse prato indigesto exige muita habilidade. E desprendimento. Vamos observar atentamente o que se passará longe das mídias tradicionais nos próximos meses. Favas contadas às eleições de daqui a menos de dois anos podem virar frustrações. Tomara que a regionalidade atropele o municipalismo em porção suficiente para que se entenda o quando perdemos de tempo, de produtividade, de qualidade de vida e de desenvolvimento econômico porque estamos enjaulados nos respectivos quadradismos territoriais.

Um 2019 bem diferente, portanto, de 2018 e de tantos anos anteriores, é o mínimo que poderíamos desejar. Mas que se respira naftalina mais uma vez, não tenho dúvida.



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