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Esportes

Quem vai seguir Ramalhão no
uso do Whatsapp para crescer?

DANIEL LIMA - 18/01/2019

Se o sem-horário-eleitoral Jair Bolsonaro (e tantos outros candidatos a outros postos) ganhou a eleição presidencial do ano passado contando principalmente com a força popular do aplicativo Whatsapp, como se comprovou em inúmeros estudos, por que o futebol da região, tão relegado a terceiro plano pela mídia tradicional, rádio, televisão e jornais, não poderia seguir os mesmos passos? 

Apelar ao sentimento esportivo-municipalista é uma senhora alternativa para quem está oprimido pela mídia tradicional. Uma disputa desigual demais cujos efeitos deletérios se acentuam a cada temporada. Os grandes clubes, sempre privilegiados pela mídia que corre atrás de audiência e faturamento, seguem cada vez maiores.  

É contra a acentuada gravidade da situação que o Santo André vai empreender como ponto de partida para uma reviravolta que tarda. E a Série B (também conhecida como Série A-2) do Campeonato Paulista deste ano será um campo de experimentação. O dirigente Celso Luiz de Almeida já deflagrou projeto cujo escopo ainda está em fase de detalhamento. 

Certo mesmo é que o Santo André vai organizar listas de torcedores para fortalecer a marca, o entranhamento na sociedade e sobretudo como ferramenta para dar suporte aos planos de resistir ao calendário do futebol brasileiro profundamente rigoroso com equipes que não estão em uma das divisões nacionais. 

Num estágio do capitalismo em que nada é como no período de romantismo esportivo, a situação é cruel para as agremiações que vivem à sombra da grande mídia.

Aliado estratégico

A expectativa de quem torce pelas equipes da região (São Bernardo e Água Santa de Diadema também disputam a Série B Paulista, que leva os dois primeiros colocados à Série A, na qual consta apenas o São Caetano como representante da região) é que a descoberta de um filão tão óbvio como o nascer do sol no verão espalhe-se e acrescente série de ações. 

Considerando-se que o Whatsapp é uma mídia social de fato, não apenas um aplicativo, as possibilidades de virar aliada estratégica do futebol dos clubes cada vez mais alijados do estrelato nacional são bastante palpáveis. Por conta disso, tudo que se criar para aproximar-se dos torcedores e simpatizantes das equipes da região será bem-vindo. 

Desprezar essa ferramenta é desconhecimento inaceitável. Cada vez mais massificado, o Whatsapp já deu mostras de que pode produzir estrondos. Querem um exemplo: o prefeito de Santo André, Paulinho Serra, foi obrigado a abandonar a ideia de aumentar o IPTU às alturas. Ele não resistiu à campanha que começou tímida e se alastrou nas redes sociais, sobretudo entre os usuários do Whatsapp. Outras ações menos retumbantes também já juntaram contribuintes e eleitores. E tudo indica que as próximas eleições municipais passarão necessariamente pelos efeitos das mídias sociais. 

Revolução esportiva 

O Santo André dá o tiro inicial numa disputa mais que saudável que pode levar as demais equipes profissionais da região a acordarem para uma cruzada que a tecnologia oferece como possível grande revolução esportiva para quem já se sentia fora de qualquer perspectiva de adensamento popular. 

A primeira empreitada do Santo André no uso do aplicativo que conta com mais de 100 milhões de usuários no País começa na quarta-feira da semana que vem, quando a equipe estreia em casa na Série B diante do Penapolense. 

Uma equipe de recepcionistas está sendo preparada para abordar torcedores que forem ao Estádio Bruno Daniel. “Coloque o Santo André no seu Whatsapp” será o pontapé inicial para preparar o banco de dados. Em todos os jogos da equipe no Bruno Daniel será repetida a operação. Desdobramentos virão, com os torcedores listados compartilhando interlocutores. A bola de neve proporcionada pelo Whatsapp é incontrolável.  

Acredita a direção do Santo André que milhares de torcedores e simpatizantes constarão da lista nos três meses de disputa da Série B. Mas a campanha não se limitará ao Campeonato Paulista. A meta da temporada é bastante ambiciosa, mas indispensável. 

O Santo André quer ter interlocução permanente com seus torcedores ao longo da temporada. Não faltariam promoções especiais para tornar a audiência cada vez maior. E a incrementar a audiência do site do clube. 

A iniciativa do Santo André pode reduzir o distanciamento autofágico da torcida, a maior entre os clubes da região. A perspectiva de que o futebol da região estaria fadado ao desaparecimento, ou a frequentar cada vez mais divisões inferiores no futebol paulista, sem horizonte de sucesso no calendário nacional, poderá ser revertida. 

Há possibilidades de uma série de medidas que dependem de apoio popular ocupar a programação do Santo André a cada temporada. São Caetano, São Bernardo e Água Santa podem seguir o mesmo ritual, cada qual utilizando especificidades que detêm.

Efeitos multiplicadores 

Fidelizar a audiência e valorizar os torcedores que constarão da lista de destinatários do Whatsapp são vantagens explícitas da iniciativa do Santo André e dos clubes que seguirem iniciativa semelhante. Mas há muito mais a usufruir caso essa mídia social seja bem explorada. 

Alimentar os torcedores com informações frequentes e relevantes é um passo certeiro para engrossar a lista de patrocinadores sempre escassos por conta do baixo retorno atual, de cobertura minúscula da mídia tradicional. 

São infinitas as possibilidades de crescimento de apoio popular ao Santo André (e aos demais times da região) com o uso do Whatsapp. Imaginem uma campanha nas escolas de Ensino Fundamental (com apoio de empresa do setor) para levar mais meninos e meninas ao Estádio Bruno Daniel? 

A iniciativa seria pioneira com o uso de aplicativo, mas não a primeira na história do Santo André. O que foi feito há quatro décadas de forma inédita com estudantes, num processo que impulsionou o contingente de torcedores do Ramalhão, seria potencialmente mais abrangente e receptivo nestes tempos de tecnologia na palma da mão. 

Levar estudantes mirins ao Estádio Bruno Daniel, como há 40 anos, não é um bicho de sete cabeças nestes tempos em que a mídia dá preferência massacrante aos grandes clubes da Capital. Há sempre o componente de local de nascimento a pesar em favor do clube da cidade. É melhor o Santo André (e as demais equipes da região) dividir o coração dos torcedores mirins com equipes da Capital do que perder a batalha por omissão. O Whatsapp cada vez mais disseminado é uma fonte de catequização. Basta saber usar. Reinaldo Toledo e Milton Saguia, diretores do Ramalhão à época da iniciativa nas escolas, deixaram legado jamais renovado. Agora há muito mais facilidades. 

Fortalecer vínculos 

Poderia preparar pelo menos 10 modelos de ações que fariam do Santo André (e, por consequência, dos demais clubes da região) uma equipe que passaria a frequentar com mais assiduidade o interesse individual e coletivo de quem tem relações sociais com o Município. Fortalecer os vínculos municipais tendo o futebol como amálgama é o caminho mais curto entre a tentativa e o sucesso. 

Os administradores públicos poderiam se juntar à iniciativa, sem politização ou partidarização. Afinal, quem representa com mais clareza e ganhos a imagem de Santo André, São Bernardo, São Caetano e Diadema? Os clubes profissionais, claro. Quanto é, por exemplo, o valor suplementar para São Caetano com a transmissão do jogo deste domingo entre o Azulão e o Corinthians, que será transmitido pela TV Globo? 

Quero dizer com isso (e repito sempre que tudo é possível de adaptação aos demais clubes da região) que o Santo André passaria a contar com público potencialmente mais sensível aos projetos. A força político-institucional da agremiação seria exponencialmente elevada. Como no passado em que, por exemplo, as autoridades públicas jamais ousaram lhe criar problemas.  

Unidos os pedaços 

Também não se pode deixar de lado um outro desdobramento que o Whatsapp proporcionaria: finalmente o Santo André do futebol poderia passar a ter mais relações produtivas com o Santo André social. O Parque Poliesportivo Jairo Livolis, no Parque Jaçatuba, 2º Subdistrito de Santo André, deveria ser espécie de irmão siamês da agremiação, caminhando juntos. A distinção entre o futebol que tem o Estádio Bruno Daniel no 1º Distrito e o Santo André do Poliesportivo poderia sofrer sérios abalos em favor do conjunto da instituição. 

Parece incrível, mas o que poderia ter significado uma complementação de extraordinário valor social e econômico não se efetivou na prática. 

O então presidente Jairo Livolis, morto em setembro de 2017, jamais escondeu a decepção de não ter aproximado os associados do clube, concentrados “do lado de lá da linha do trem”, no entorno do Parque Jaçatuba, e os torcedores, fortemente adensados do chamado “do lado de cá da linha do trem”, porque a origem do Santo André está no futebol e o futebol criou raízes populares nas áreas mais próximas da Vila América, onde está o Estádio Bruno Daniel, e também em outros bairros “do lado de cá da linha do trem”. 

Com o Whatsapp não tem lado nenhum da linha do trem. O que existe é um dispositivo de aparelho celular que aproxima (e também distancia) as pessoas. Tudo depende das mensagens. O Santo André quer fazer do “Coloque o Ramalhão no seu Whatsapp” uma louvação de marketing de rumo exclusivamente convergente. Tanto que a opção por lista de participantes, em vez de grupos, é uma das medidas já definidas. O Departamento de Marketing estabeleceria política de relacionamento com os torcedores que aderirem ao projeto. 



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