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Imprensa

“Gata Borralheira” digital para
quem quer conhecer a região

DANIEL LIMA - 01/02/2019

Decidi e está decidido. Tanto que minha assessoria já recolheu no acervo os originais que viraram livro físico, lançado em abril de 2002. “Complexo de Gata Borralheira”,” a mais ousada explicação sociológica para o sentimento de inferioridade do Grande ABC em relação a São Paulo”, vai constar do cardápio desta revista digital. Já deveria tê-lo feito. A tiragem de 10 mil exemplares esgotou-se rapidamente logo após o lançamento em noite de gala e leitura dinâmica no Teatro Municipal de Santo André, em 16 de abril de 2002 -- dois meses após o assassinato do então prefeito de Santo André, Celso Daniel. 

Resolvi dar prioridade à transferência do conteúdo de Complexo de Gata Borralheira depois de constatar ao longo dos tempos que a maioria dos moradores da região e, principalmente, quem não tem intimidade com a região, desconhece determinadas peculiaridades culturais que me motivaram a começar a produzir aquela obra algumas horas antes de Celso Daniel ser sequestrado em 18 de janeiro de 2002. 

Nem sei se deveria repassar esse detalhe porque não poderia faltar detrator a me incluir como suspeito do crime. Se tantos outros o foram, porque mais um seria exagero?

Vejam parte do que escrevi na apresentação daquela obra levada durante vários meses a múltiplos endereços educacionais da região, em peregrinação que me deixa saudade: 

 Quando decidi escrever Complexo de Gata Borralheira na manhã de sexta-feira, 18 de janeiro de 2002, anunciei a proposta a milhares de emeiados de CapitalSocial, boletim eletrônico que produzo e que alcança diretamente mais de cinco mil pessoas no Grande ABC, além de centenas espalhadas pelo Brasil. No mesmo horário, o prefeito Celso Daniel estava atribulado no Paço Municipal de Santo André. Quando o prefeito recebeu uma cópia do CapitalSocial, já havia produzido 20 mil caracteres. À noite, numa emboscada do destino, Celso Daniel foi sequestrado. O cronograma de produção editorial que havia anunciado aos emeiados sofreu remanejamento por força dos desdobramentos do sequestro. Tive de me dividir entre Complexo de Gata Borralheira e o trabalho de equipe da revista LivreMercado. Nenhum jornalista o entrevistou durante mais tempo e conheceu mais proximamente seus ideários. Não fomos amigos em vida como poderíamos ter sido porque sempre foi difícil conciliar os atropelos de um editor que trabalha pelo menos 16 horas por dia e de um prefeito incansável e múltiplo como acadêmico, esportista e administrador público.

Apresentação resumida

Querem mais da apresentação do livro? Esperem a transferência completa, garantidíssima, do acervo de LivreMercado. Como também estarão os prefácios de Gilberto Carvalho, então Chefe de Gabinete da Prefeitura de Santo André; de Euclydes Rocco, arquiteto e teatrólogo responsável pelo espetáculo de leitura dinâmica da festa de lançamento; de Josué Catharino Ferreira, geógrafo e professor; de Nívio Roque, então Diretor Industrial da Polietilenos S/A, no Polo Petroquímico da região; e do saudoso jornalista Rafael Guelta, cujo parágrafo final me comoveu demais: “A obra de Daniel Lima cutuca velhas feridas e indica direções. Tem consistência para ser o agente transformador de que o ABC tanto necessita. É ler ou morrer”. E imaginar que Rafael Guelta não só leu como a prefaciou e morreu 15 anos depois, vítima de diabetes. Um grande cara. 

Talvez também faça parte da versão digital de Complexo de Gata Borralheira o que chamaria de apresentação resumida da obra, produzida pela jornalista Malu Marcoccia. Ela escreveu o que no jargão editorial se chama “orelha”. Vou procurar sabe se o material foi salvo. Acho que vale a pena reproduzir agora o que escreveu a jornalista. Tenho certeza que definirá muito melhor do que a apresentação formal que fiz o que se passariam naquelas mais de 150 páginas:

 Quem não se lembra da estória da bela jovem submetida ao despreza e até à humilhação pela malvada madrasta e as duas filhas invejosas? Ambição, falsas amizades, traições, rupturas e indiferença não são, entretanto, alegorias apenas do clássico infantil Cinderela. Compõem também uma ficção chamada integração regional e, mais do que isso, tonifica o sentimento de inferioridade que os sete municípios do Grande ABC têm relação à vizinha Capital. Dizem que o ofício dos escritores é contar a verdade por meio de mentiras. Daniel Lima não precisou recorrer a inverdades para projetar um tema de tamanha importância. Mais do que divertido, Complexo de Gata Borralheira é uma inteligente provocação aos administradores públicos e agentes sociais que não conseguem pôr de pé uma alma regional com identidade forte. Dividido e com mobilização frouxa, não há mesmo como o Grande ABC resistir à força institucional da Capital. Ao acompanhar cada frase dos personagens aqui recriados, o leitor vai se deparar não apenas com refinadas ironias, mas com uma realidade histórica inapelável. Os diálogos se desenvolvem como uma cascata, crescendo na medida em que cada personagem desfila concordâncias, desavenças, arrogância e submissão. As dificuldades costumam ser oportunidade à paisana para quem tem desejo de transformação. Na literatura infantil Cinderela contou com a sorte do destino, que lhe pôs à frente um príncipe rico para resgatar-lhe a vida embotada pela situação de inferioridade. O Grande ABC até que teve seu momento de Cinderela, com o período áureo da industrialização. O tempo passou, as indústrias envelheceram ou foram embora e o jeito de administrar a coisa pública ficou ultrapassado. Complexo de Gata Borralheira é, pois, um irrecusável convite à catarse regional – escreveu a jornalista.

Leitura obrigatória 

Sem falsa modéstia, Complexo de Gata Borralheira é leitura obrigatória principalmente a agentes que pretendam contribuir para erigir não só a cara, mas a alma da região. Uma região de araque, como todos sabem. Somos a exposição tácita do individualismo dividido em sete partes desiguais em tudo, ou quase tudo. Um bicho de sete cabeças sempre disponível à exumação sociológica. 

Complexo de Gata Borralheira é e possivelmente permanecerá atualíssima como obra perscrutadora da realidade histórica da região. Só não o seria, ou não o seria tão intensamente, se houvesse um cavalo de pau nas relações sociais deste subúrbio da Capital. 

Quem se surpreende, nestes dias de pesquisas anunciadas, com a disparidade comportamental dos moradores de Mauá em relação aos de São Caetano, deveria ter lido alguns trechos de Complexo de Gata Borralheira, produzido em forma de diálogos, de uma reunião num hotel-fazenda. Mais que isso: toda a idiossincrasia interna está lá, em cada página.

Primeiros diálogos 

Querem mais alguns condimentos desse tempero de convite a uma leitura irrecusável que teremos a partir da semana que vem?  Leiam os primeiros diálogos que abrem a obra. A obra que mais me emociona entre tudo que escrevi. Leiam: 

 Meus amigos, é uma grande satisfação encontrá-los neste hotel-fazenda do Interior. Acho que vocês receberam o mesmo telegrama secreto convocando para esse encontro, porque o que vejo é que estamos nessa mesa retangular para 10 pessoas. Estou aqui na cabeceira inferior porque quem nos convocou vai ficar na cabeceira superior. O que não estou entendendo é por que ainda não estão ocupadas a cadeira de cabeceira superior e também uma das laterais, já que vocês, sete, meus vizinhos, estão rigorosamente em seus lugares.

 Está certa, formosa São Paulo. O telegrama que você recebeu acho que todos nós recebemos. Estou do seu lado direito, coladinho em você, porque sou a maior potência econômica do ABC. Quem fala em ABC fala em São Bernardo. 

 E estou também coladinho em você, do lado esquerdo, porque é impossível falar em ABC sem levar em conta a tradição econômica, cultura, política e social de Santo André.

 Só não me incomodei em ficar na segunda fila lateral, do seu lado direito, São Paulo, porque na prática geográfica até as águas do Rio Tamanduateí sabem que São Caetano é a mais vizinha das vizinhas de São Paulo. Não quis criar polêmica com meus vizinhos porque eles poderiam arguir o alfabeto latino como critério de definição, em vez de potencial econômico, e aí me daria mal. Agora, se fosse pela qualidade de vida, e acho que isso vale ouro hoje, eu não estaria nem na lateral, tomaria seu lugar, São Paulo, ah! Se tomaria! Até porque, convenhamos, cavalheirismo não caberia nessas horas.



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