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Sociedade

Falta de Avenida Paulista
escancara municipalismo

DANIEL LIMA - 06/02/2019

O Instituto ABC Dados ofereceu à região resultados interessantíssimos na rodada de pesquisas realizada neste começo do ano, quando apresentou credenciais de ineditismo. Por isso, temos muito a esmiuçar. Afinal, é a oportunidade de extrair o máximo de nossas entranhas culturais. A fundamentação técnica dos dados é vereda que possibilita mais afirmativas que desvios interpretativos, como é comum quando a chutometria baseada em percepções nem sempre bem alimentadas entra em campo.

Observando os resultados aqui e acolá em páginas que fiz questão de tornar impressas para decantar os dados há uma constatação inviolável, nada novidadeira mas nem por isso descartável: falta à região o que os acadêmicos costumam chamar de pertencimento, ou algo semelhante.

A tradução popular seria mais ou menos a seguinte: nossa gente não tem ideia do que é importante para valer no espaço em que vive. Somos regionalistas apenas como consumidores. Nossos templos de consumo, os shoppings, obtiveram apontamentos de preferência que os colocaram distantes de uma maioria que optou por “não soube responder” em outras questões.

Querem um exemplo prático, explicativo, do que nos diferenciam e muito da Cinderelesca Capital, nosso referencial para tantas coisas não apenas porque cultivamos superficialmente o Complexo de Gata Borralheira, mas porque o Complexo de Gata Borralheira está na alma regional?

Vou responder. O que acham os leitores se o Instituto ABC Dados perguntasse aos moradores da Capital sobre a avenida que melhor os representaria? Já fizeram essa pergunta e os paulistanos em larga maioria escolheram a Avenida Paulista, claro.

Na região, o Instituto ABC Dados descobriu que 32% de entrevistados não souberam responder. Mais que isso: nenhum dos endereços chegou a registrar 10% de preferência.

O endereço mais mencionada pelos entrevistados (e até agora me pergunto a razão, se razão houver, exceto o fato de que ali o que rola é muita garota de programa) foi a Avenida D. Pedro II,  com 9% das indicações. A Rua Marechal Deodoro, em São Bernardo, ficou em segundo lugar com 7% e a Avenida Goiás em terceiro com 8%. Muitas ruas e avenidas se seguiram, cada vez mais desmilinguidas em preferência.

Talvez esteja sendo injusto ao associar à prostituição o domínio da Avenida D. Pedro II, embora parte dessa eleição como point regional esteja provavelmente mesmo vinculada ao sexo, inclusive das casas de massagem que proliferam naquele endereço e entorno.

Não vou colocar os travestis como referência da Avenida D. Pedro II porque especialistas das noitadas regionais asseguram que eles que também podem ser chamados de elas espalham-se por ruas do entorno, tendo a Avenida Industrial como centro nervoso de amores ocasionais. Travestis e garotas de programa não conviveriam amistosamente na Avenida D. Pedro II. Há quem chame isso de direito adquirido. Quem chegou primeiro, no caso as mulheres, assumiram os postos. Ou postes.

Triângulo do prazer

Parte do sucesso indicativo da D. Pedro II possivelmente desdobre-se de contar também, além das meninas de vida difícil, com o Parque Celso Daniel, que já foi Parque da GE e mais tarde Parque Duque de Caxias. Afinal, nada menos que 27% dos entrevistados (foram mil no total nos sete municípios) sugeriram nas entrelinhas que o Parque Celso Daniel seria algo como o Ibirapuera da região.

Vinte e sete por cento não é pouca coisa, convenhamos, mas também o Parque Chico Mendes, em São Caetano, com 10% de preferência (São Caetano contou com 6% dos entrevistados) entra na lista com destaque. Os demais, com 5% ou menos, não podem ser catalogados como preferência regional mesmo que escassa. Nada menos que 27% optaram por não apontar nenhum endereço de lazer e entretenimento.

Para os leitores entenderem o quanto de representatividade mesmo que relativa do Parque Celso Daniel foi detectado na pesquisa (repetimos, com 27% de apontamentos), basta dizer que somente o  Grand Plaza, em Santo André, o superou  como detentor de maior apontamento dos entrevistados, agora na condição de melhor shopping regional. Foram 33%.

Aliás, para provar que regionalidade no Grande ABC é exclusivamente consumista, ou seja, os moradores não encontram barreiras visíveis a separar os municípios, apenas 10% não souberam responder à questão relativa aos shoppings. O Grande Plaza, na Avenida Industrial, formaria com os vizinhos Parque Celso Daniel e Avenida D. Pedro II o que chamaria de Triângulo do Prazer Regional. Há quem preferiria Triângulo das Bermudas Regional. Depende apenas de ponto de vista ou o bolso pesa? A conotação de “prazer” fica por conta dos fregueses, no caso os leitores.

Baixos indicadores

No quesito Shopping Center, portanto, houve maciça manifestação dos entrevistados e baixíssima abstenção. O Shopping Metrópole contou com 14% de preferência, ficando em segundo lugar, contra 13% do Shopping ABC e 12% do Shopping Mauá Plaza. Os demais também foram citados. Inclusive o Atrium, em Santo André, a quem atribuo, como negócio, um furo nágua devastador. Muitos empreendedores de primeira viagem foram levados a uma arapuca.

Nas demais questões sobre preferência de endereços públicos e privados da região, os resultados foram pífios. No caso de melhor escola, por exemplo, 41% não apresentaram resposta e apenas 3% colocaram o SESI em primeiro lugar. Entre os clubes o afastamento cultural foi devastador: 53% não souberam responder e não mais que 8% apontaram o Aramaçan, primeiro colocado. A Metodista de São Bernardo, com 11%,  ficou na liderança como universidade que melhor representa a região, mas 34% não souberam responder.

O Instituto ABC Dados também procurou saber que hospital melhor representa a região e os 17% de indicações ao Hospital Mário Covas vertiginosamente regional não surpreenderam. Mas 30% não souberam responder. Já quanto ao melhor restaurante regional, avassaladores 56% não souberam responder e aniquilaram o prestígio mesmo do primeiro colocar, o Galeto, que obteve míseros 6%.

Liderança contestável

Para completar, a pesquisa procurou saber também que Município melhor representa a região. Ouso discordar do enquadramento regionalista da indagação, porque os resultados finais tenderiam e se confirmaram municipalistas.

Como São Bernardo representava 36% da amostra de entrevistados, nada menos que 35% optaram pelo Município, instalando-o no primeiro posto. Santo André com 23% de entrevistados, chegou em segundo com 26% de indicações. São Caetano ficou em terceiro lugar com 25% de preferência. Relativamente muito mais que os vizinhos, porque conta com apenas 6% dos moradores entrevistados.

Como se observa, o sentimento de regionalidade dos moradores do Grande ABC é bastante discreto, quando não inexistente. O divisionismo que prevalece em cada um dos sete municípios é impeditivo cultural que impacta diretamente qualquer iniciativa mais abrangente.

Municipalismo forte

Daí a conclusão de que organismo como o Clube dos Prefeitos é espécie de estranho no ninho de um municipalismo arraigado que jamais será superado enquanto houver quem o coloque em primeiro lugar de forma tão avassaladora. O regionalismo precisa ingressar na vida social do Grande ABC de forma efetiva, em várias dimensões, para que se reduza a distância do bairrismo municipal.

Não esqueçam os leitores que, anteriormente, abordamos a pesquisa do Instituto ABC Dados em outros dois quesitos: a preferência dos entrevistados pelos times de futebol e a tentativa de definição de nomes que seriam protagonistas desta região.

Nas duas situações expostas caíram do cavalo do excesso de confiança quem acreditou que pudéssemos registrar resultados que não fossem decepcionantes. Os torcedores dos times locais estão no banco de reservas dos times da Capital e vivemos uma seca inquietante de individualidades que poderiam saltar para o estrelado.

Ou seja: não temos identidade forte nem no campo esportivo e tampouco em manifestações de eventuais ícones. Daí, entre outras constatações, é melhor não levar na brincadeira a possibilidade de Danilo Gentili, nascido em Santo André, ganhar as eleições em 2020.



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