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Regionalidade

Paulinho Serra vai ouvir hino
do maior rival no Fantástico

DANIEL LIMA - 08/02/2019

O prefeito Paulinho Serra começou a jornada de um ano como prefeito dos prefeitos do Clube dos Prefeitos. O titular do Paço de Santo André escolheu o engenheiro Edgard Brandão para comandar a secretaria-executiva dessa entidade que historicamente pouco produziu, mas que nos dois últimos anos superou-se em ineficiência. Edgard Brandão é o homem errado no lugar errado no momento errado. Ou seja: Paulinho Serra errou triplamente. Houvesse um castigo, teria de ouvir no Fantástico o hino do maior rival do seu time de coração. Justo castigo, portanto.  

Brincadeira à parte, vamos às explicações. Edgard Brandão é um engenheiro com experiência em entes públicos. O Clube dos Prefeitos carece de uma visão tática e estratégica liberal, de economia de mercado, de desenvolvimento econômico pautado pela visão empresarial, de gente que olha para o horizonte regional e sabe reconhecer nossos grandes gargalos concorrenciais. O Trecho Sul do Rodoanel, por exemplo. O distanciamento diplomático das montadoras de veículos, igualmente. 

A indicação do novo xerife do Clube dos Prefeitos, portanto, é um tiro no escuro. Não acertará o alvo jamais. Não é do perfil de Edgard Brandão qualquer coisa que lembre empreendedorismo. É um estatista por natureza. Com flutuações interpartidárias. Seu mundo é a gestão pública sobejamente ineficiente. O Clube dos Prefeitos é um fracasso porque sempre deu mais peso à avaliação da regionalidade como centro de operações públicas. Raramente foi observado algo diferente. Edgard Brandão, até prova em contrário, jamais escreveu alguma proposta relacionada à regionalidade. E Paulinho Serra prometeu concurso público para escolher o novo xerife. 

Testemunho de xerife 

Não vou recorrer a meus próprios textos e análises do Clube dos Prefeitos, que vêm de longe, porque parecerá um jogo de cartas marcadas para desclassificar a nomeação de Edgard Brandão. Não ligo para pressões, mas vou aos arquivos para pinçar algumas declarações de um dos xerifes que passaram pelo Clube dos Prefeitos. Um xerife de viés liberal, empreendedor privado. No caso, Fausto Cestari, então braço direito do prefeito José Auricchio Júnior na Prefeitura de São Caetano. Ele sabe o pão que comeu no Clube dos Prefeitos. 

A entrevista foi concedida ao jornal ABCD Maior, em 10 de março de 2010 – portanto há nove anos. Fausto Cestari aborda questões que estamos cansados de repetir e que caracterizam o novo desarranjo gerencial do Clube dos Prefeitos em relação às necessidades da região. Leiam alguns trechos das declarações de Fausto Cestari, logo após deixar o cargo: 

 O que eu não consegui resolver é o fato do Consórcio não ter memória, pelo simples fato de que o aprendizado é fruto de vivência de experiências que convivem no próprio Consórcio. Com a eleição que se renova, abre a possibilidade de mudar também o quadro de funcionários. A cada ano começa tudo da estaca zero no sentido de dizer que as pessoas que entram não viveram as experiências anteriores, reproduzem os mesmos erros e às vezes interrompem processos por não perceber a importância que eles teriam se tivesse tido continuidade.

Mais declarações 

 As autoridades do Consórcio precisam mobilizar o ABCD para realização do primeiro planejamento regional estratégico e ajudar a desenhar o que queremos para 2020. A partir de um planejamento bem feito, as demais ações vão emergir normalmente, partindo de uma base bem estruturada. Dessa maneira, o Consórcio se apropriará junto à sociedade civil da gestão de planejamento estratégico.

Há centenas de textos deste jornalista nesta publicação que tratam do Clube dos Prefeitos. Há por força da incapacidade dos gestores públicos da região a repetição de aspectos que precisam constar do plano de voo da entidade. Entra ano, sai ano, a ladainha se repete. A escalação de Edgard Brandão é tão equivocada quanto as primeiras declarações dele, hoje no Diário do Grande ABC. Leiam:

 Vejo como prioridade aporte em saneamento básico, combate às enchentes, transporte público, saúde e habitação.

Está aí a prova cabal de que o Clube dos Prefeitos contará com o homem errado no lugar errado na hora errada. O grande nó que impede impulso à regionalidade do Grande ABC chama-se falta de planejamento estratégico. E ninguém melhor para a execução da proposta do que consultoria especializada com foco nos aspectos que determinam a competitividade de um território. 

Jogo de sustentabilidade 

Seguiremos em marcha batida rumo ao desencanto caso os gestores públicos da região (e seus escolhidos a dedo por razões partidárias) sigam a não entender o nome do jogo da sustentabilidade mínima de orçamentos públicos. Para minimizar os estragos na infraestrutura física e na infraestrutura social de uma região em longo e rigoroso processo de esvaziamento industrial a saída é a Economia.  

Esperar que o prefeito Paulinho Serra desse um cavalo de pau na centralidade por assim dizer programática do Clube dos Prefeitos em direção ao empreendedorismo seria flertar com a fantasia. 

Tanto quanto Edgard Brandão, Paulinho Serra é resultado do estatismo nas relações sociais. Ex-vereador, não tem o lastro de quem entende do riscado econômico no sentido mais amplo da expressão. É muito mais um agente arrecadador do que promotor de riqueza. 

O pouco caso com o empreendedorismo na Prefeitura, a ponto de não dar prioridade alguma à Secretaria de Desenvolvimento Econômico, só teria mesmo de espalhar-se ao Clube dos Prefeitos. Se nem o antecessor, Orlando Morando, com dupla militância profissional, na política e supermercadista, enxergou o Clube dos Prefeitos como braço essencialmente estratégico, de inteligência, o que esperar de Paulinho Serra?

Fanfarronices no caminho 

Até dezembro deste ano o que deveremos ter nas praças da região será uma pregação de mudanças no Clube dos Prefeitos porque há uma conversão incontida da mídia à bajulação dos poderosos de plantão. Mas o tempo há de confirmar o que tem sido mais que uma tendência histórica, uma constatação irrefutável: falta à região ambiente prospectivo de intervenção vigorosa da livre iniciativa no comando de medidas que, pela primeira vez na história, dariam um rumo de clarividência ao Desenvolvimento Econômico. 

Sim, pela primeira vez porque neste século e no século passado, não tivemos outro fenômeno senão a improvisação. Não houve preparação interna para recepcionar a industrialização a bordo do setor automotivo e o que se desdobrou disso foi um crescimento errático, autofágico, criando-se monstros de trabalhadores privilegiados e discriminados, de empresas familiares massacradas pelo capital internacional e muito mais, muito mais. 

Desempenho pífio

O desempenho econômico do Grande ABC neste século, já esmiuçado neste espaço em muitas análises e em novas que virão, é uma sequência tenebrosa dos últimos 20 anos do século passado. 

Quando um novo xerife do Clube dos Prefeitos ocupa página de jornal para dizer que a prioridade será a infraestrutura pública, sem se dar conta de que a deterioração é consequência da fragilidade econômica que estiola os cofres públicos, o mínimo que se pode esperar é que teremos mais perda de tempo pela frente. 

Um novo secretário-executivo do Clube dos Prefeitos que não coloque como primeira, segunda e terceira prioridades uma pregação em favor da competitividade econômica da região não é exatamente um xerife de que se precisa. É apenas mais um agente público a olhar para o próprio espelho enquanto a sociedade que sofre duramente as dores dos prélios seguirá ignorada no que mais lhe interessa para valer: a condição de enxergar o futuro com algum grau de esperança. 

A mobilidade social, como também já mostramos, foi para a cucuia na região desde que a desindustrialização manchou o currículo de terra prometida. 



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