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Economia

Quem chefiava a economia
de Santo André há 20 anos?

DANIEL LIMA - 19/12/2019

Para responder à pergunta do título é indispensável saber quem era o prefeito de Santo André em dezembro de 1999. A geração que veio depois e que ocupa posições prevalecentes nas redes sociais talvez não tenha a resposta. Era Celso Daniel, maior prefeito regional da história. 

A quem Celso Daniel delegou o comando da Economia de Santo André num projeto de profunda reestruturação? É claro que a ele mesmo, porque de economia entendia muito. Era brilhante. Viés ideológico à parte, claro. Nada, a bem da verdade, que resvalava em qualquer tentativa de interditar as relações de interesse público com o setor produtivo. Longe disso. 

Celso Daniel não era como prefeito nada que lembrasse os chatos extremistas da direita e da esquerda nestes tempos de redes sociais. Mas esses chatos, contraditoriamente, ajudam a moldar a democracia que virá. A democracia que tínhamos, e ainda temos, é de araque, porque perpetua a desigualdade social na cadeia de improdutividades do Estado balofo, corporativista e desumano.  

Ainda perguntam por que tenho por Celso Daniel, no campo administrativo, uma montanha de respeito e admiração. Ele enxergou a saída municipal há mais de 20 anos. Seus sucessores, em todos os municípios locais, jamais enxergaram o óbvio. 

Decidi que cada vez mais vou associar meus textos atuais aos textos meus e de meus companheiros de trabalho da revista LivreMercado, melhor publicação regional que o País já conheceu e que circulou na região entre março de 1990 a dezembro de 2008. CapitalSocial é legítima sucessora. Até porque conta com o mesmo comandante. Isso quer dizer que conta com a mesma memória e conceitos. O que não é pouca coisa no mundo fastfoodianos que vivemos. 

Vinte anos antes 

Mas vamos ao que mais interessa. Vale a pena puxar um trecho daquela matéria-análise que assinei há exatamente 20 anos e que trata diretamente da atuação de Celso Daniel. Leiam: 

 A importância que o prefeito atribui à Conferência da Cidade está explicitada no fato de comandar pessoalmente o principal grupo temático do projeto -- Desenvolvimento Econômico. Outros grupos têm como coordenadores secretários municipais ou executivos públicos próximos do gabinete do Paço Municipal. São os casos de Irineu Bagnariolli Júnior (Desenvolvimento Urbano), Maurício Mindrisz (Qualidade Ambiental), Pedro Pontual (Inclusão Social), Altair Moreira (Identidade Cultural), Selma Rocha (Educação) e Miriam Belchior (Reforma do Estado). A Conferência da Cidade faz parte do projeto Santo André Cidade Futuro, lançado em 1997. A expectativa do prefeito está impressa no boletim de lançamento do programa. Ao se referir aos problemas que atingem Santo André, escreveu: "Muitas das soluções precisam ser construídas regionalmente. O Poder Público e entidades da sociedade andreense têm investido, nesse sentido, no Consórcio Intermunicipal e na Câmara Regional. Mas o desenvolvimento regional também exige respostas próprias de cada Município. Se nossa comunidade assumir as responsabilidades e desafios do presente, Santo André terá meios para liderar processo alternativo de desenvolvimento que, somado ao desempenho alternativo de outros núcleos dinâmicos da Região Metropolitana de São Paulo, pode impulsionar a retomada de seu crescimento econômico". 

Vinte anos depois 

Sei que o leitor pegou o bonde andando. Pincei trechos daquele trabalho jornalístico muito além da abertura, o que poderia gerar dúvidas sobre do que se tratava. Então, voltando há 20 anos, vamos apresentar os primeiros trechos da matéria, que tira qualquer dúvida sobre a que nos referimos. Antes disso, lembramos que o título utilizado na edição de LivreMercado era emblemático: “Santo André corre atrás do prejuízo”. Se já era prejuízo há 20 anos, o que seria hoje depois de, ao longo deste século, Santo André ficar entre os últimos colocados no ranking de crescimento do PIB na Região Metropolitana de São Paulo? Leiam, então, a abertura da análise de 20 anos atrás: 

Vinte anos antes 

 O aniversário de Santo André em abril de 2000 será muito mais que a possibilidade de publicitários prepararem mensagens especiais diante do simbolismo dos números. Representantes da administração Celso Daniel e da comunidade estão se reunindo há três meses para elaborar e aprovar naquela data documento que reunirá diretrizes e propostas para a Santo André dos próximos 20 anos. Batizado de Conferência da Cidade, o trabalho terá neste mês um encontro de sistematização produzido pelos sete grupos temáticos. É a chamada Pré-Conferência, dia 11 de dezembro, sábado, a partir das 8h no Clube de Portugal, Bairro Paraíso. A Pré-Conferência também indicará a comissão que definirá o texto-síntese, além de estabelecer calendário dos trabalhos até a Conferência da Cidade. Segundo Teresa Santos, coordenadora dos trabalhos, vão participar da Pré-Conferência, como delegados, todos os integrantes do grupo coordenador, dos grupos temáticos e representantes eleitos nas 95 reuniões agendas pela comunidade nos mais diferentes pontos do Município. No total, perto de 600 pessoas. Será relatada, também, a contribuição de sete mil moradores que preencheram cupons anexos aos quebra-cabeças distribuídos em Santo André. 

Vinte anos depois 

Mais abaixo vou retirar do passado mais trechos da revista LivreMercado. É preciso recuperar o passado para que os leitores entendam como regredimos em tudo em matéria de organizações coletivas e lideranças regionais. O Grande ABC é improdutivo por excelência neste novo século. Segue a ver a banda passar e todos acham muito natural, enquanto o esfacelamento econômico e social, sistematicamente revelados aqui, torna tudo materialmente mais evidente. 

Vinte anos antes 

Vejam um novo trecho daquele texto de exatos 20 anos e comparem com o que temos atualmente na região: 

 O formato da Conferência da Cidade é inédito no Grande ABC e tem significado só aparentemente contraditório: embora seja um dos mais assíduos defensores da integração regional e tenha contribuído intensamente para ressuscitar o Consórcio Intermunicipal de Prefeitos, além de estimular a formação da Câmara Regional, Celso Daniel não abdicou dos problemas específicos de Santo André. Para um Município que perdeu dois terços de receitas da redistribuição do ICMS (Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) nos últimos 23 anos, não resta alternativa senão botar a mão na massa. Em resumo, sem esquecer que a sinergia com as demais administrações municipais é condição mínima para a tentativa de superação do esvaziamento econômico, Celso Daniel decidiu salvar a pele de Santo André, tosquiada ao longo dos anos. 

Vinte anos depois 

A recuperação dos preceitos administrativos de Celso Daniel é uma covardia que cometo porque aquele que foi o Jesus Jorge da Administração Municipal no Grande ABC era um ponto fora da curva de mediocridades em geral como o treinador português que bagunçou a preguiça dos treinadores brasileiros ao simplesmente massacrar os adversários com inovações (aplicadas aqui, mas exaustivamente vistas nos principais times europeus) técnicas e táticas que não deixaram pedra sobre pedra. Trazer Celso Daniel ao presente também é uma forma de mandar um recado aos extremistas: não confundam a obra dele com as irregularidades na Prefeitura de Santo André. São corpos distintos. Como o de tantos gestores públicos, com a diferença de que poucos poderiam ser trazidos ao debate com os contrapontos que Celso Daniel naturalmente evoca. 

Vinte anos antes 

Vamos a mais um trecho de 20 anos atrás de LivreMercado. Que os prefeitos atuais e os próximos se inspirem em Celso Daniel: 

 Evidentemente, Celso Daniel procura amenizar o estado de alerta que a evasão industrial provocou nos cofres públicos. Na introdução do projeto da Conferência da Cidade, o prefeito revela a importância de Santo André cuidar das demandas da cidade dentro do processo de regionalização institucional. O primeiro passo do trabalho que terá em abril o ponto mais marcante foi chamar para compor o grupo coordenador personalidades de diversas áreas, desde profissionais liberais e empresários até sindicalistas, além de representantes dos legislativos municipal, estadual e federal com base em Santo André. O grupo coordenador tem o papel de dirigir, acompanhar, articular e dar unidade ao processo, incluindo a discussão dos grupos temáticos. No primeiro boletim-balanço preparado pela coordenadora Teresa Santos e enviado a todos os membros do grupo coordenador da Conferência da Cidade, o grupo de Desenvolvimento Econômico comandado pelo prefeito destaca quatro pontos para alcançar modelo alternativo que seja ao mesmo tempo dinâmico, moderno e solidário. 

Vinte anos depois 

 O primeiro ponto trata de viabilizar a permanência da grande indústria em Santo André e garantir condições de expansão. O projeto de lei enviado à Câmara e que trata da LDI (Lei de Desenvolvimento Industrial) é prova de que Celso Daniel não quer ficar apenas na retórica. O segundo ponto trata da implantação de setores de comércio e serviços avançados. Cita como exemplo as áreas de informática e de consultoria especializada, muito aquém da potencialidade regional.  A LDI também se expande nessa direção, tratando esses setores como conexões da indústria. O terceiro ponto de propostas iniciais do grupo de Desenvolvimento Econômico procura estimular a formação de ambientes favoráveis à implantação de micro, pequeno e médio negócios que fortaleçam o relacionamento entre si. Trata-se de antiga fissura nas relações entre as empresas de Santo André e da região, que desconhecem o que pode ser chamado de competição cooperativa. O quarto ponto visa a estimular novas formas de produção, como por exemplo, cooperativas. Essa é uma das alternativas para minimizar as sequelas cada vez mais complexas do desemprego industrial da região e da saturação de empregos nos setores comercial e de serviços. 

Vinte anos depois 

 O grupo de Desenvolvimento Urbano comandado pelo secretário municipal Irineu Bagnariolli listou preliminarmente dois pontos básicos: a consolidação do Eixo Tamanduatehy e a construção de vários centros dinâmicos em Santo André, com espaços públicos de qualidade, bem distribuídos territorialmente e que sejam apropriados pela comunidade. O Eixo Tamanduatehy consta da exposição da Bienal Internacional de Arquitetura, em São Paulo, e incorporou como produtos de transformações dos 10 quilômetros da Avenida dos Estados que cortam o Município obras já realizadas (ABC Plaza Shopping e o Extra) ou em fase final (UniABC), na Avenida Industrial, além dos projetos da nova rodoviária e do Globalshopping na Avenida dos Estados e da Cidade Pirelli, complexo de comércio, serviços e lazer que ocupará área ociosa da Pirelli Cabos e também espaços desapropriados. 

Vinte anos depois 

 O grupo Qualidade Ambiental selecionou inicialmente duas frentes: o desenvolvimento de política de qualidade ambiental no território urbanizado de Santo André e a elaboração de política de conservação e desenvolvimento sustentável na área de proteção de mananciais. (...). Pedro Pontual coordena o grupo Inclusão Social, que coloca dois vetores como base do texto-síntese das primeiras reuniões: identificar territorialmente as diferentes condições de vida da população, que expressam os níveis de exclusão/inclusão social, e gestão integrada das políticas e ações públicas e privadas voltadas para a inclusão social. 

Vinte anos depois 

 Já o grupo Identidade Cultural, liderado por Altair Moreira Vitorino, listou como principais pontos o estímulo a manifestações comunitárias que revelem a diversidade cultural característica da identidade local, institui marcos de identidade urbana que signifiquem nova etapa na vida da cidade, fortalece e amplia a democratização da cultura. (...). Sob o conceito de que uma cidade voltada à construção da cidadania deve ser uma cidade educadora, o grupo Educação liderado pela secretária municipal Selma Rocha alçou três pontos como destaques no balanço inicial da Conferência da Cidade: investimento para consolidar a educação como alicerce da cidadania, investimento na qualidade e na abrangência do ensino para criar condições de atendimento à geração de empregos de qualidade e investimento no Ensino Superior para que ofereça formação especializada, pesquisa tecnológica e extensão.

Mais 20 anos passados

 Completando o quadro, a secretária Miriam Belchior, que dirige o Grupo Reforma do Estado, afirma que o ambiente empreendedor em Santo André exige mudanças no funcionamento do Poder Público municipal em três dimensões sistêmicas: a superação da crise fiscal da Prefeitura, a reforma da Administração Pública e a mudança no padrão de relação entre Estado e sociedade.



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