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Regionalidade

Grande Provincianopla toma
lugar do Grande ABC. Entenda

DANIEL LIMA - 06/02/2020

Quem parte e reparte e fica com a menor parte, é bobo ou não entende da arte. Essa máxima do mundo político pode ser ajustada à situação histórica do Grande ABC, ficção que insistimos em tornar realidade. O fatiamento do território regional no século passado gerou um bicho de sete cabeças que explica a situação em que nos encontramos. 

Tudo seria diferente (mas não um paraíso, claro) se o Grande ABC fosse, como antes, apenas um único Município. Ficaríamos entre os cinco maiores endereços populacionais do País. Mas, diferentemente da quantidade, teríamos sinergia, entre tantos atributos de competitividade econômica, eficiência pública e ganhos sociais. 

Posso estar enganado, mas não apareceu na praça regional ou municipal nenhum maluco que ousou colocar na berlinda o processo de emancipação político-administrativa que tomou conta do Grande ABC e o transformou em sete municípios. Talvez seja porque uma coisa poderia levar à outra. Explico: os estragos de hora poderiam ser relacionados aos líderes emancipacionistas. 

Apenas Celso Daniel 

Os emancipacionistas tinham razões de sobra para repartirem o bolo, mas as gerações de políticos que os sucederam não honraram as calças da regionalidade indispensável para que o todo-repartido não fosse o todo-partido. Exceto, claro e em larga escala, Celso Daniel. Estou cansado de escrever sobre isso. 

O Grande ABC partido e repartido em sete partes é menor, muito menor, que o Grande ABC único do século passado. Como em qualquer patamar de governo o Estado é incapaz de administrar com competência (está aí o Brasil que não me deixa mentir com o acúmulo secular de barbaridades), o resultado geral do Grande ABC ao longo de décadas é desastroso. 

Há pelo menos quatro décadas estamos em gradual decadência. Perdemos musculatura econômica e social. Mas mandachuvas e mandachuvinhas seguem a dar as cartas. Eles repassam péssimos exemplos a substitutos que se renovam apenas na arte do aperfeiçoamento de malandragens.  

Não mais que uma casta de 300 personagens locais dá as cartas e joga de mão no conjunto dos sete municípios do Grande ABC. Eles não têm interesse em ver o jogo do integracionismo prevalecer. Dividem para reinar durante o tempo que for possível. São charlatães metidos a salvadores da pátria. Teatralizam emoções para vender humanismo ao distinto público. 

Sete a zero no placar 

A verdade indelevelmente verdadeira é que o Grande ABC perdeu o jogo da regionalidade por sete a zero. Pior que os brasileiros na Copa do Mundo diante dos alemães. Sete a zero em forma de sete municípios que fingem dialogarem com o futuro, mas vivem presos ao passado de improvisos e amadorismos. 

Sete municípios que, como tantos outros no País, são catedráticos em aumentar a carga tributária e em contratar fantasmas para assessoramento inclusive em apoio à guerrilha nas redes sociais. Sete municípios que trocam cotoveladas por manchetes de jornais. Sete municípios amorfos no comprometimento com a sociedade. 

Fosse o Grande ABC um único Município, teríamos ganhos potenciais inquestionáveis. Rapidamente fiz uma relação de 10 questões viscerais que teriam sido muito mais bem-resolvidas caso não houvesse o fatiamento do território regional. Vejam os pontos nos quais teríamos acumulado vantagens e que poderiam fazer a diferença nesta altura do campeonato. 

 Planejamento Econômico.

 Racionalidade na Gestão Pública.

 Competitividade tributária.

 Logística compartilhada.

 Gestão Legislativa uniforme.

 Políticas Públicas compatíveis. 

 Institucionalidade geral.

 Marketing Institucional.

 Efetividade na Político-partidária.

 Relações externas vistosas. 

Desta vez não vou destrinchar ponto por ponto -- como tenho feito quando se trata de temas mais complexos. Talvez o faça devagar, mesmo que de forma indireta. Até porque, convenhamos, tenho batido em todas essas teclas sem cerimônia desde que me deparei com a liberdade de expressão no verdadeiro sentido da premissa. 

Ou seja: quando pude atuar sem estar preso aos desígnios de terceiros nos veículos nos quais trabalhei. E olhem que mesmo assim cansei de furar o bloqueio, embora os custos tenham sido sempre salgados. Menos à consciência.

Briga entre tucanos 

De fato, ao relacionar os pontos mais suscetíveis à depreciação dos valores regionais desde que inventaram os sete municípios, estimulo os leitores mais críticos e comprometidos com as futuras gerações a especularem sobre cada um dos apontamentos. 

Há algumas questões que jamais serão instaladas num compartimento de sensatez e efetividade prática porque o municipalismo por si só coloca restrições insanáveis. 

Querem um exemplo claro? Trata-se de “Efetividade na Política-Partidária”. Se nem no bojo dos tucanos os prefeitos de Santo André, São Bernardo e São Caetano se entendem (Orlando Morando é inimigo íntimo de José Auricchio Júnior tanto quanto Paulinho Serra quer ver o diabo, mas não gosta de ouvir falar em Orlando Morando), como imaginar confluência de projetos no campo externo (governo estadual e governo federal) em nome do Grande ABC? Sem contar que há outros quatro municípios com os quais é preciso avançar debates na busca por soluções integradas. 

Mandachuvas e mandachuvinhas

Fosse uma Prefeitura apenas, não sete desperdícios, o Grande ABC teria sintonia fina no sentido de definir base sustentável de propostas regionais que deveriam contar com o aporte institucional e econômico do governo do Estado e do governo federal. 

Como somos um saco de gatos de vaidades, egocentrismos, mandonismos e personalismos, quem perde é a sociedade. 

Sou teimosamente um regionalista com os olhos postos no mundo, caso contrário me transformaria num provinciano típico destas terras. Isso mesmo: a maioria dos formadores de opinião e de tomadores de decisões no Grande ABC é formada por provincianos que tomaram conta do barraco. Eles usam e abusam da irresponsabilidade individual, grupal e corporativa para asfixiar as forças que lhes opõem resistência. 

Em contraposição aos 300 mandachuvas e mandachuvinhas que deterioram o ambiente regional, temos algumas dezenas de opositores silenciosos que temem represálias. Essa turma não se expõe porque sabe que vem chumbo grosso de retaliações. 

O divisionismo territorial do Grande ABC exacerbou práticas daninhas. Perdemos o fio da meada da recuperação porque não existe ambiente à insurreição libertadora. 

O emancipacionismo territorial e administrativo do Grande ABC deixou legado que os próprios líderes daqueles movimentos provavelmente abominariam. Viramos uma casa da sogra institucional. Perdemos a massa transformadora que a unicidade poderia gerar. Ficamos à deriva de um municipalismo arraigado à própria mediocridade territorial. 

Erguemos muros intransponíveis que nem mesmo as inovações tecnológicas no mundo das comunicações explodem. Pior que isso: só os fortalece. Viraram muralhas impenetráveis. Constantinopla é fichinha perto de cada uma das sete Provincianoplas. Viramos um arremedo de Constantinopla. Viramos a Grande Provincianopla. 



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