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Política

Quem está ganhando o jogo
eleitoral com o Coronavírus?

DANIEL LIMA - 24/03/2020

Há algo contraditório às potenciais consequências eleitorais na disseminação do Coronavírus no Grande ABC, independentemente de as disputas se confirmarem em outubro ou se postergarem por alguns meses. Afinal, perdem ou ganham os prefeitos na boca do caixa de reclamações como pontos terminais de atendimento das expectativas?

Elos mais fracos na cadeia de visibilidade midiática em situação como a que se apresenta e que tende a agravar-se, os prefeitos estão expostos aos resultados finais dos usuários do sistema de saúde público porque os doentes moram nos municípios.

Resta saber se por conta da centralização da mídia em figuras do Estado e da União os prefeitos terão aliviadas cargas de cobranças que já estão aí e deverão se avolumar porque a tempestade nem começou para valer. Governadores, secretários de saúde, presidente da República e ministro da saúde ocupam palcos de emissoras de rádio e de televisão, além dos principais veículos impressos. Em geral aparecem como salvadores da pátria. Se a pátria não for salva, os prefeitos vão ser os primeiros rumo ao brejo da descrença.

Falta de sincronismo

Não vou incorrer no vício comum da crítica pela crítica de muita gente que sai ao encalço de potenciais responsáveis pelos desdobramentos do Caronavírus. Não seria justo atribuir pesos e medidas desde já à atuação dos prefeitos dos sete municípios do Grande ABC.

Insisto nesse ponto mesmo com a ressalva de que os sete prefeitos poderiam dar muito mais do que eventualmente estejam dando se o Clube dos Prefeitos exprimisse relação de integração coordenada de ações, não um ancoradouro eventual como o foi no caso de proibição à circulação da frota de ônibus reprovada pelo governador João Doria. Aliás, ao que parece essa foi a única medida substancial em forma de regionalismo. O municipalismo de salve-se-quem puder do prefeito de plantão prevalece. Uma coisa não deveria suprimir a outra.

A compensação parcial à falta de regionalismo de verdade, dessas coisas de sentarem à mesa e definir políticas para mitigar os efeitos do vírus chinês, está no noticiário farto sobre as iniciativas do Poder Público diante do que está aí em forma de ameaça e de prática.

Mais que criar, os prefeitos reproduzem decisões individuais inclusive fora da geografia municipal. O mundo municipal vive de similaridades nestes dias tenebrosas. Cortam-se custos de planejamento pelo atalho da mimetização.

Mandetta, maior estrela

Por enquanto, quem tem faturado com os desdobramentos do Coronavírus é o governador João Doria. Especializado em marketing, em subjetividades, em ilusionismo, mas também bom de discurso e bem assessorado na definição de ações pragmáticas, o tucano possivelmente sairá maior do que entrou nessa crise sanitária. Diferentemente, portanto, do presidente Jair Bolsonaro, por exemplo. Mas, também, muito aquém do ministro Luiz Henrique Mandetta.

O que coloca Mandetta acima de João Doria como fonte de credibilidade e oportunidade é que não se deixou seduzir por outro vírus, o vírus da espetacularização da crise de saúde. Mandetta é um técnico que não deixou escapar entre os dedos da sensibilidade a franqueza diplomática de pintar o quadro nacional com pinceis de realidade sem rebuscamento. Entendeu mais que nenhum homem público a gravidade do caso, sem tornar as medidas salvacionistas e tampouco espetaculosas.

Monitoramento complexo

É muito difícil captar a essência de representação de cada prefeito do Grande ABC metido na tarefa de dar conta do recado que a situação de pandemia impõe. Acompanhá-los individualmente em manifestações exigiria tempo e disposição que a demanda por informações gerais não permitem.

O que se vê aqui e ali em algumas intervenções nas redes sociais e mesmo em declarações a jornais impressos e digitais é uma associação de solidariedade, empenho, dedicação e também de certo salvacionismo perigoso.

Não temos ainda uma ideia precisa do que virá pela frente, mesmo com certa dose de alarmismo bem-vindo de Henrique Mandetta, criticado por gente que prefere a hipocrisia da doce mentira. É melhor um Mandetta alarmista na mão do que um Bolsonaro piadista solto na praça.

Ora, sem um horizonte confiável, tudo que as autoridades públicas devem fazer é observar o ministro Henrique Mandetta e procurar segui-lo, adaptando as questões às especificidades locais. A sociedade tem o direito de encontrar âncora de confiança em situação tão crítica. Dourar a pílula seria o fim da picada tanto quando negar que a pílula existe.

Panelaços inoportunos

A própria TV Globo deve ter-se arrependido muito por, em meio ao turbilhão de notícias aterradoras sobre o vírus, promover ou alimentar a produção de uma disputa falsamente democrática, porque estúpida, de panelaços entre apoiadores e críticos ao governo Jair Bolsonaro.

O extremismo de direita e de esquerda leva a eventos como aquele, mas é claro que no caso específico o que há por trás de tudo é o inconformismo de opositores ao ver governo federal seguir no cargo supostamente porque não teria postura que o cargo existe.

Em várias situações essa interpretação exagerada, embora alertadora do perfil presidencial, não obscurece a outra metade da laranja de interesses inconfessos: Bolsonaro quebrou para valer a cadeia de produção de roubalheiras institucionalizadas e de constitucionalidades violadas pelo poderio bélico de quem sempre mamou nas tetas do Estado.

Menos mal que após inoportunos panelaços televisivos, a TV Globo tenha dado sinais de lucidez e arrependimento ao mostrar mesmo que por menos tempo sacadas barulhentas e luzes em frenesi do panelaço em favor dos profissionais da área de saúde. As redes sociais pautam A TV Globo para o bem e para o mal.

Jogo indefinido

Já tive mais certeza do que dúvida sobre o desenlace do vírus no campo eleitoral municipal. Uma semana atrás apostaria francamente numa grande oportunidade de oposicionistas se colocarem em vantagem no tabuleiro de votos. Agora estou recuando alguns passos e não pretendo arredar pé quanto a isso nos próximos tempos. Há prefeitos se virando nos trinta para se aproximarem fisicamente do eleitorado. Saúde mexe com as massas.

Como o que vem por aí ainda é indecifrável em impactos sociais e econômicos, e também em eventuais estilhaços no campo do comportamento humano, prefiro esperar para tentar decifrar.

Talvez os prefeitos da região já tenham ganhado muito até agora com o Coronavírus. Eles foram obrigados a sair do quadradismo dos versos burocráticos de gestões conservadoras. A sirene de alerta foi acionada justamente na boca do lobo das eleições. Com isso, e premidos também por sentimento humanitarista que jamais devemos negar serem portadores num quadro de tamanha comoção, estão se dedicando à redução das perdas e danos.



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