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Imprensa

Dossiê prova que Datafolha faz
de pesquisa alquimia editorial

DANIEL LIMA - 06/07/2020

O que segue foi publicado na revista digital CapitalSocial. Agora virou dossiê. Todas as edições (e foram oito) estão consolidadas neste documento. O resumo dessa ópera é claro e objetivo: o Instituto Datafolha manipula dados e interpretações. Atua na clandestinidade de enunciados e de encaminhamentos de questionários, matéria-prima das informações. E também se sobrepõe à ciência que supostamente resguardaria como fonte de credibilidade e ponta de lança de avaliações. Uma farsa, como se verá.

O Datafolha é, também, ferramenta sincronizada com os anseios da chamada Grande Mídia para atacar a República. O objetivo é desgastar a presidência de modo a encaminhar o impeachment ou a renúncia, premissa que arrefeceu nas últimas semanas ante a constatação de resistência. Tudo é feito com metodologia. Perniciosa metodologia. 

O Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal não resistiriam à fraude metodológica e aplicativa do Instituto Datafolha. Seriam destroçados pela Grande Mídia se a Grande Mídia os colocasse na mira de caça. A caça que tem outro endereço. O Executivo, com todos os deslizes, tem suportado a carga. Mas se debilita além das próprias pernas de trapalhadas.

O Instituto Datafolha é um imenso guarda-chuva de interesses concentrados na troca da direção presidencial. Por isso, sai da linha de produção sistemática campanha cujo objetivo é fragilizar o Executivo. Tudo em nome da democracia. Um discurso forte.

Chega-se a uma engendrada maquinação que ameniza a atuação do Legislativo e do Judiciário. A finalidade é demonstrar que o Executivo é o grande mal do País. E que, portanto, precisa ser removido. Caça-se o presidente da República em campo aberto.

O Datafolha é muito mais que um instituto de pesquisa. É uma ferramenta político-estatística a serviço de uma empreitada controversa. O Datafolha integra a rede da Grande Mídia liderada pelo conglomerado Globo com participação também da Folha de S. Paulo, Estadão e veículos agregados no campo digital.

O Datafolha é uma usina de fake news que alimenta sincronizadamente a fornalha de convencimento da Grande Mídia.

Quem desdenha do poderio de plantio e colheita do Datafolha subestima uma ordem unida que tem como pressuposto enquadrar a opinião pública ou parte da opinião pública numa determinada direção sustentada pela Grande Mídia.

As redes sociais vieram para atrapalhar esse jogo de cartas marcadas. Por isso são tão odiadas pela Grande Mídia. É verdade que as redes sociais comportam porção de milicianos à direita e à esquerda. Mas são os milicianos à direita os mais combatidos, porque mais numerosos.

Aos incautos sugere-se que a guerra de guerrilhas das fake news é um jogo de um time apenas. E que também as redes sociais inauguraram o placar de manipulação informativa. Como se o jornalismo tradicional fosse um mar de honestidade intelectual.

O Datafolha é fonte inesgotável de manipulação de dados e interpretações nas fases operacionais e também nas etapas seguintes à coleta de dados. Já o fora durante a campanha eleitoral de 2018. Mas agora seus poderes são mais abrangentes e densos. Está mais associado a uma conjugação de esforços para a retomada do poder da oposição derrotada em 2018.

Há duas maneiras de observar o que se segue. Um bloco extremista provavelmente vai vincular o texto à partidarização e a ideologização. Outro bloco verá apenas jornalismo, nada mais que jornalismo.

Não estou preocupado com o tamanho de uma banda ou de outra. O Datafolha é um freguês relativamente assíduo nas páginas desta revista digital. São 78 textos que tratam do instituto, de forma direta ou indireta.

Na campanha presidencial de 2018, CapitalSocial cansou de denunciar distorções encobertas pela chancela da ciência. Nunca esteve tão em voga como nestes dias de pandemia avocar a ciência para tudo. Como se cientistas não fossem, também, um bando de loucos por teses próprias. Basta ver quanta controvérsia existe, por exemplo, no uso de medicamentos, de vegetais e de tantos outras matérias-primas da discórdia.

Desta vez será diferente das anteriores. Fundamento a ação do Datafolha de maneira mais aprofundada e abrangente. Por isso divido a inspeção crítica em capítulos.

Mostro pontos sobre os quais se movem os tentáculos de poder do Instituto ligado à Folha de S. Paulo. Quem comete o equívoco de separar Datafolha de Folha de S. Paulo perde oportunidade de ouro de decifrar mecanismos que os colocam na mesma diagramação estratégica. São irmãos siameses nas conjecturas e decisões específicas de minar o terreno do governo federal.

Não espere que alguém do reino predominante da mídia comprometida com a caça a Jair Bolsonaro faça qualquer tipo de análise crítica ao Datafolha e à Folha de S. Paulo na arquitetura de hostilidades que, com arte, expressam com ares de humanismo, civilidade e comprometimento com a democracia. Será perda de tempo.

A Grande Mídia se protege e também se articula mutuamente. Há um pacto em torno da derrubada do presidente. E isso comporta todo tipo de deslizes éticos, inclusive o deslize ético maior de se autoproclamarem defensores da democracia.

São sete os vetores principais da parceria entre o Datafolha e a Folha de S. Paulo, com ressonância automática nos demais veículos de comunicação da Grande Mídia. Vejam os mecanismos estruturantes do Instituto Datafolha em nome da ciência estatística que não resiste a abordagem mais meticulosa. 

 Baixa transparência metodológica.

 Contextualização fragmentada.

 Margem de erro inconsistente.

 Neutralidade obscura.

 Especificidades regionais parciais.

 Editorialização seletiva.

 Enunciados enviesados.

Esse conjunto de quesitos refere-se em larga escala a atuação do Datafolha nos últimos tempos, mas é sobre os resultados da pesquisa anunciada em três dias diferentes de maio nas páginas da Folha de S. Paulo e nas emissoras de televisão da Grande Mídia que pretendo destrinchar ponto por ponto.

 Baixa Transparência Metodológica

O Datafolha oferece dificuldade enorme ao destacamento de informações que viram estatísticas. Questionários aplicados não têm a transparência recomendável à acessibilidade pública. Quem acha que isso é pouco importante não tem a ideia do quanto uma pergunta feita na abertura do questionário e outra pergunta deixada para mais adiante fazem a diferença. Para contaminar uma pesquisa de cabo a rabo basta manipular a cronologia das questões aos entrevistados. Uma coisa leva à outra. Ou seja: é fácil induzir respostas conforme a rota das questões enunciadas.

 Contextualização fragmentada

Quando se pretende estabelecer comparações entre dois ou mais objetivos e se promove um corte no arrazoado que é fonte de informações e de resultados, o desenlace só poderá mesmo se traduzir em distorção explícita. A maneira mais nebulosamente ética de promover esse tipo de delito é utilizar dois pesos e duas medidas. O que vale para um não vale para o outro. A distância entre excesso de enunciados de um lado a escassez de enunciados do outro cria falsa igualdade pouco perceptível a olhos e mentes menos treinados. O que se esmiúça de um lado se omite de outro. O resultado final só pode mesmo comprometer a análise mais apurada e independente.

 Margem de erro insustentável

Quando a margem de erro vira arma defensiva para preservar os efeitos de perspectivas fraudadas, cria-se a falsa narrativa de margem de acerto. Quanto mais elástica a margem de erro, mais inquietantes os resultados se tornam. Afinal, podem dar lastro a maquinações não caberiam num invólucro com o lacre de seriedade. Não bastasse a margem de erro convencional, que é uma banda estreita a desafiar o potencial de manipulação dos dados, também existe a margem de erro secundária, que é tomar o todo pela parte. O que invariavelmente é uma margem de erro de três pontos percentuais (significa até nove pontos percentuais de diferença, vejam só quanta elasticidade!) pode alcançar intervalo muito maior quando subprodutos de enunciados principais são utilizados como se não houvesse barreira matemática a opor-se à generalização. Margem de erro convencional e margem de manobra dos resultados têm o mesmo significado. Já margem de erro posterior ou estendida é ação desclassificatória dos resultados apresentados. Um puxadinho que não suporta contraditório.

 Neutralidade obscura

Entre duas respostas assertivas em campos antagônicos a existência de um meio-termo em forma de “regular” é espaço que abre a porteira ao frango da especulação. A aprovação e a reprovação a um governo são posições definidas dos entrevistados, mas o campo “regular”, sem qualificação, é deficiência que institutos de pesquisa em geral mantêm porque se sentem mais seguros em trabalhar os resultados futuros, evitando, portanto, supetões que despertariam desconfiança. Tudo estaria resolvido ou minimizado à compreensão das respostas definidas se o conceito de “regular” se desdobrasse para regular-positivo, regular-regular e regular-negativo. De qualquer maneira, e agora como especulação, alguns resultados entrecruzados e, portanto, desgarrados do conceito monolítico de “regular” das pesquisas, podem fornecer indícios do volume de desdobramentos dessa avaliação.

 Especificidades regionais parciais

Essa é outra categoria de inconformidade do Instituto Datafolha, cuja embocadura de desinformação é extrair o máximo de dados do governo Jair Bolsonaro e poupar governadores de Estados durante a pandemia do vírus chinês. A parcialidade remete a uma montanha de desinformação ao criar obstáculo a avaliação completa dos resultados de políticas públicas no Estado brasileiro. E tem agravante que recrudesce o equívoco metodológico: os resultados não são individualizados por governador, mas compactados no bloco de comandantes estaduais. O que, em suma, gera distorções complementares.

 Questionamentos enviesados

A neutralidade de um questionado é requisito básico a respostas sem influência externa dos entrevistados. Quando o enunciado introduz algum tipo de viés, por menos supostamente perceptível, tem-se mancha deformadora do resultado individual e coletivo. Uma pesquisa estará completamente invalidada como base a estudos quando se confere ao formulador do questionário o poder discricionário de arbitrar condicionamentos às respostas. Basta um pequeno deslize semântico para que tudo vá por água abaixo. Quando existe, por outro lado, a ação deliberada de furar o bloqueio do equilíbrio, então nada que decorra das respostas terá valor.

 Editorialização seletiva

A modulação dos resultados de uma pesquisa é o ponto de chegada que configurará o compromisso com os dados registrados. Quando se pretende chegar a uma determinada configuração dos trabalhos de campo e não se alcança o pretendido, entra em ação a substituição de valores a ocupar a linha de frente de informações jornalísticas. Sim, informações jornalísticas, porque é isso que ampara as pesquisas que tomam o pulso do governo federal nestes tempos de crise econômica, sanitária e política. Um determinado objetivo que parecia generosamente escancarado a se transformar em grande notícia da próxima edição nem sempre sai da maquinaria popular entrevistada, mesmo que para tanto muito se fizesse no encaminhamento das respostas ao roteiro pré-estabelecido. Constatada a impossibilidade, a ordem é dar uma guinada e buscar algum outro ponto dos resultados a explorar de forma mais espetaculosa. 

  Baixa transparência metodológica

A lógica matemática de que a soma dos fatores não altera o produto final não poder ser catapultada e adaptada às pesquisas do Instituto Datafolha. A ordem cronológica das perguntas do Datafolha altera e muito e produto final tanto quanto a formulação técnica.

Mandraquismo e subjetividade dão as mãos quando se adulteram as regras do jogo de ouvir a população para supostamente conhecer a realidade dos fatos.

O que se pergunta prioritariamente é qual é ordem cronológica das questões aplicadas. O Datafolha não oferece meios à devassa dos enunciados levados aos entrevistados. Uma curadoria independente resolveria a questão e colocaria mais molho de comprometimento nos trabalhos.

Pontos decisivos

Mesmo a ordem cronológica definida em protocolos não conta com a garantia extensiva de aplicação prática. Pode haver manipulações.  Pontos substantivos que determinam o rumo das respostas seriam deslocados da numeração original.

Esse é seguramente um dos aspectos mais nevrálgicos. Por isso mesmo vamos partir para exercícios práticos que tornem a compreensão mais compatível com o emaranhado das regras do Instituto Datafolha.

Vamos, portanto, a um exemplo que tenha, como antecipei, a mais recente pesquisa do quadro político nacional.

Qual foi a ordem cronológica na aplicação da pesquisa feita por telefone, considerando-se duas das questões apresentadas aos entrevistados?

Primeira pergunta – Avaliação do desempenho de Bolsonaro na pandemia.

Segunda pergunta – Avaliação do presidente Jair Bolsonaro.

Questionamento tóxico

Como a suposta primeira pergunta é mais tóxica para o presidente da República, porque é parte de um contexto de gravidade sanitária generalizada a centralizar as atenções, a segunda automaticamente carregaria sobrepeso desvalorizativo. Tanto é verdade que para 50% dos entrevistados o desempenho do presidente da República no caso do Coronavírus é “ruim/péssimo”, enquanto a avaliação geral do presidente é de 43% de ruim/péssimo. Ou seja: se essa foi a ordem do questionamento, a avaliação do presidente foi sobrecarregada e, portanto, leva peso adicional de negatividade.

O que se pergunta, em contraposição, é se a recíproca seria verdadeira. Ou seja: se o questionamento inicial girasse em torno do desempenho do presidente e em seguida sobre o desempenho do Coronavírus, os resultados seriam afetados igualmente, com menor registro de “ruim/péssimo” no caso da pandemia?

Como se observa, trata-se de bifurcação interpretativa. A ordem dos questionamentos afeta o produto numérico final.  

Cadê os enunciados?

Mas há um ponto muito mais instigante a avaliar: a Folha de S. Paulo não reproduziu integralmente o enunciado de cada uma das duas perguntas. Enunciado é o que o entrevistador diz ao entrevistado ao telefone em busca de resposta. A Folha de S. Paulo sintetizaria a pergunta sem levar em conta a questão formulada integralmente aos entrevistados. Parece bobagem, mas não é. O enunciado é decisivo a determinadas configurações. Dependendo dos termos utilizados, vicia-se o processo. Essa especificidade será tratada no momento adequado. Faz parte do conjunto de sete pecados capitais do Datafolha.

Outro exemplo pode ser rebocado da Folha de S. Paulo (entre tantos outros insumos do Datafolha) para consolidar a relevância da ordem das perguntas.

Imagine se ao invés de questionar a atuação do presidente na pandemia (a primeira pergunta mencionada logo acima), houvesse sido aplicada outra questão:

Pergunta três – sobre a confiança nas declarações do presidente Bolsonaro.

Grau de criticidade

De novo, sonega-se a íntegra do questionamento. A Folha de S. Paulo resumiu a questão adotando o conceito da pergunta, não à pergunta literal. Mesmo assim, não é difícil chegar a nova conclusão: mais que a abordagem sobre o desempenho do presidente na pandemia, resumida na primeira pergunta, a pergunta três torna o entrevistado mais crítico quanto à pergunta dois.

Ou seja: quando se compara a pergunta um com a pergunta dois tem-se menor grau de subjetividade negativa precípua da atuação do presidente da República em relação a quando a comparação envolve a pergunta um e a pergunta três.

Como assim? O simples fato de a pergunta três lançar dúvida sobre a atuação do presidente (“confiança nas declarações”) impregna de restrição à resposta do entrevistado. Induz-se claramente, cristalinamente, a resposta.

Vou tentar ser mais objetivo: quando se coloca em dúvida o aspecto gerencial, quando não moral, de um presidente (“confiança e desconfiança”) ressalta-se o viés arbitrário. É mais que possível, é provável, que entrevistado convicto de que Jair Bolsonaro desperta confiança possa repensar a resposta e bandear-se ao conforto de “às vezes confia” ou deslocar-se de mala e cuia rumo ao “jamais confio”.

Como, então, deveria se comportar o pesquisador do Datafolha? O instituto deveria preservar a limpidez de que não haveria indução à resposta. Que o campo estivesse, portanto, livre ao arbitrariamente exclusivo do entrevistado, não à sujeição do entrevistador.

Quando se soma ao enunciado tóxico para o presidente uma sincronia armadilhesca na ordem cronológica de perguntas, tem-se encaminhada a deterioração científica da proposta de conhecer a realidade.

Perguntas alternativas

Vamos experimentar um modelo de isenção que deveria ser aplicado às três perguntas relatadas acima. Trata-se apenas de exposição preliminar. Serve como exemplo de que tudo poderia ser diferente. Vejam:

Primeira pergunta – Considerando-se o compartilhamento de ações com Estados e Municípios, conforme decisão do STF, como o senhor observa a atuação do governo federal no combate à pandemia?

Segunda pergunta – Como observa o desempenho geral do presidente da República ao se considerarem resultados desde que assumiu?

Terceira pergunta -- Como avalia o desempenho do presidente da República tendo como base o futuro próximo?

Sujeito a mudanças

É possível (e isso precisa ser admitido porque a construção das perguntas passa pela observação de múltiplos ângulos a fim de se evitarem distorções) que as três questões formuladas em substituição às levadas a campo pelo Datafolha provoquem discordâncias. É natural que assim o seja. A diferença é que supostamente haveria menos estridência quando se confrontassem com os enunciados que a Folha de S. Paulo não tornou público, ou se os tornou de fato são excessivamente vagos, quando não direcionados.

O que quero dizer com tudo isso é que o fulcro de uma pesquisa de opinião pública concentra-se em dois pontos vitais à consistência e credibilidade: a formulação de questões propriamente dita e a temporalidade hierárquica da aplicação prática.

O Datafolha lida com essa problemática sem a menor transparência. Faz picadinho de vetores regulamentares que se exigem em nome da tessitura técnica dos trabalhos.

Reiterar o aspecto deletério dos dois fatores que se conectam nesse primeiro pecado capital da pesquisa do Instituto Datafolha ganha contorno e essência de responsabilidade social. 

Abastecendo linhas de produção 

Para completar esse jogo de comparações, se alguém entender que questões acima confrontadas não escancaram para valer o que chamo de contaminação dos resultados, então recorro a um nocaute explicativo. Em que exato momento e quais foram os termos utilizados pelo entrevistador do Datafolha quando dirigiu ao entrevistado o enunciado a respeito do impeachment do presidente nos seguintes termos: “Opinião sobre Congresso abrir ou não processo de impeachment contra Bolsonaro”.

Quanto mais exposta essa pergunta nas primeiras filas de questionamentos, mais se esvazia a legitimidade dos resultados posteriores porque se estabelece juízo de valor reprovador implícito de que o presidente da República está em situação delicada como chefe de Estado.

Mas, em qualquer situação temporal menos agressivamente contaminante que a questão tenha sido levada ao entrevistado, o Datafolha fabrica intencionalmente uma disputa típica de Fla-Flu com objetivo cristalino de abastecer linhas de produção editorial da Folha de S. Paulo e de veículos consorciados.

Propriedade particular

O Instituto Datafolha trata como propriedade particular informações publicamente expostas que, mais que isso, determinam, por força da disseminação midiática, efeitos colaterais na sociedade. Ou alguém tem dúvidas de que Datafolha e apoiadores estratégicos não afetam para o bem ou para o mal atividades do campo econômico, do campo político, quando não financeiro? Convive-se, portanto, com uma penumbra de desconfiança de que se está praticando, por extensão, um jornalismo de equívocos com roupagem cínica de ciência.  

O jornal O Estado de São Paulo, tão cioso em saber se o presidente da República testou positivo ou negativo para o vírus chinês, poderia adotar medida semelhante ao solicitar à Folha de S. Paulo o emaranhado completo de cada pesquisa. O Jornal Nacional, também.  

Quem sabe a Ordem dos Advogados do Brasil, tão voraz em busca de um lugarzinho permanente no Jornal Nacional, não possa requisitar ao Instituto Datafolha alguma coisa nesse sentido?

É claro que estou sendo irônico. Há mais que uma orquestração afinadíssima com a linha estratégica adotada pelo Instituto Datafolha. Há mesmo cumplicidade em deixar como está porque do jeito que está interessa muito às forças de pressão contra adversários políticos do momento. 

  Contextualização fragmentada

Publicou a Folha de S. Paulo na edição de 31 de maio o seguinte título: “Reprovação a Congresso e Supremo despenca na pandemia, diz Datafolha”. Na edição do dia anterior, 30 de maio, a manchete de página interna, em posição mais destacada que a anterior, expressava: “Rejeição a Bolsonaro bate recorde, mas base se mantém”.

Há série de desequilíbrios na interpretação dos números enviesados do Datafolha. Vamos no deter primeiramente na fragmentação da matriz de informações.

O questionário aplicado pelo Datafolha junto a mais de dois mil eleitores concentrou-se na atuação do presidente da República. Uma série de perguntas, muitas arbitrariamente introduzidas para sugestionar respostas, resultou em panorama relativamente amplo da atuação de Jair Bolsonaro.

Muito contra pouco

Muito diferente, para não dizer totalmente contrastante, do que se aplicou no caso do Supremo Tribunal Federal e do Congresso Nacional. O Datafolha só fez um questionamento aos eleitores sobre aquelas duas instituições, poupando-as, portanto, do desgaste deliberado do escrutínio em torno de Jair Bolsonaro.

Transportando a situação para o campo esportivo, basta imaginar um goleiro incomodado o jogo inteiro pelos adversários enquanto o outro goleiro poderia até tirado uma soneca. 

Quando se faz apenas um questionamento sobre qualquer instituição, como foi o caso, o resultado sai do forno de uma alquimia que não suporta o contraditório. Sobretudo quando o que se pretende, no fundo, no fundo, é comparar o STF e o Congresso ao governo federal odiado pela Grande Mídia. Comparação com bases desiguais, fragmentada, não é comparação. É um projeto bem elaborado para alcançar resultados previamente definidos.

Imaginem os leitores se antes de chegar à pergunta fatal sobre o comportamento do Supremo Tribunal Federal e o Congresso Federal o Instituto Datafolha ouvisse a opinião dos eleitores sobre determinadas situações em que se envolveram as duas instituições. Só imagine.

Destituição do STF?

Trocando em miúdos: como seria o resultado final tanto para o STF quando para o Congresso se os eleitores fossem submetidos a questionamentos críticos como o Datafolha fez em relação ao governo federal?

Que resposta final dariam os eleitores ouvidos pelo Datafolha se uma questão sobre a possibilidade de destituição de todos os membros do Supremo Tribunal Federal e do Congresso Nacional fosse interposta, como o Datafolha o fez em relação à renúncia e também ao impeachment do presidente Jair Bolsonaro antes (ou foi depois?) de pretender encontrar a respostas dos entrevistados sobre a rejeição ao presidente. É dispensável dizer que só a formulação da pergunta, ou das perguntas, relativas à renúncia e ao impeachment sabota as bases de defesa presidencial junto aos eleitores aleatoriamente ouvidos pelo Datafolha.

Repararam os leitores que também são eleitores como uma flagrante proteção e uma contumaz perseguição se consumaram no questionário levado a campo pelo Instituto Datafolha? É possível apontar os três resultados decorrentes dessas ações sincrônicas com a realidade do ambiente nacional?

Manchetes distintas

Os enunciados das manchetes das edições da Folha de S. Paulo que trataram da temática de rejeição ao presidente da República, do Supremo Tribunal Federal e do Congresso Nacional são desequilibrantes.

Para dar mais autenticidade à comparação, primeiro reproduzo os principais trechos da matéria sob o título “Rejeição a Bolsonaro bate recorde, mas base se mantém”: 

 A rejeição ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) cresceu ao longo do mês passado, cristalizando uma polarização assimétrica na população em meio à crise sanitária, econômica e política pela qual passa o Brasil. Segundo pesquisa Datafolha feita segunda (25) e terça (26), já sob o impacto da divulgação do vídeo da reunião ministerial de 22 de abril, 43% dos brasileiros consideram o governo ruim ou péssimo. Recorde na gestão, esse número era de 38% no levantamento anterior, de 27 de abril. Foram ouvidos 2.069 adultos, com margem de erro de dois pontos percentuais. A aprovação de Bolsonaro segue estável, os mesmos 33% nas duas aferições. Já aqueles que acham o governo regular, potenciais eleitores-pêndulo numa disputa polarizada, caíram de 26% para 22%.

Levantando a bola

Agora vamos à matéria publicada no dia seguinte, sob o título “Reprovação a Congresso e Supremo despenca na pandemia, diz Datafolha”:

 A reprovação à atuação do Congresso e do STF (Supremo Tribunal Federal) despencou em meio à crise política do governo Jair Bolsonaro, de acordo com pesquisa Datafolha. Em levantamento (...) o instituto detectou forte queda na taxa de avaliação ruim/péssima sobre os trabalhos do Legislativo e do Judiciário em relação à pesquisa anterior com esses questionamentos, feita em dezembro do ano passado. O Congresso e o STF vêm sendo desde março alvos de protestos de militantes bolsonaristas, e o próprio presidente compareceu a alguns desses atos. Ativistas mais radicalizados defendem inclusive o fechamento do tribunal e do legislativo – prerrogativa que o presidente da República, no entanto, não possui. Segundo a pesquisa do Datafolha, 32% consideram o desempenho dos senadores e deputados ruim ou péssimo, ante 45% seis meses atrás. Hoje, 18% acham o trabalho deles ótimos ou bom – eram 14% no levantamento anterior. A avaliação como regular está em 47%. (...). Já em relação ao Judiciário, 30% entendem que o STF tem feito um trabalho ótimo ou bom – eram 19% em dezembro. A taxa de avaliação ruim ou péssima caiu de 39% para 26%. Outros 40% consideram hoje regular o desempenho dos ministros.

Contexto a mudanças 

Outro ponto que vale a pena destacar como fragmentação na coleta de dados para se chegar aos números apresentados pelo Datafolha, não bastasse a disparidade de matérias-primas de informações do presidente da República em relação às duas instituições, é a possibilidade de os enunciados terem provocado a mudança abrupta.

O que os eleitores abordados pelo Datafolha ouviram dos pesquisadores em relação ao desempenho do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal? Até que ponto o questionamento único tanto para uma quanto para outra instituição teria sido formulado no mesmo tom crítico ao governo Bolsonaro que a reportagem da Folha de S. Paulo expôs no texto reproduzido logo acima?

Quem duvida dessa possibilidade provavelmente ganhará o prêmio de ingenuidade do ano. A caça ao governo federal, independentemente de juízo de valor do governo Bolsonaro, é a regra geral e irrestrita da Folha de S. Paulo (e também no mesmo tom da Rede Globo) como se não houvesse uma política qualquer na administração federal que flertasse com o acerto.

Insisto num ponto que faz toda a diferença na avaliação dos dados e consequentemente na formulação de ideias acabadas sobre a pesquisa do Instituto Datafolha: tanto o STF quanto os congressistas foram poupados do assédio crítico dos eleitores no amplo questionário aplicado. E, não se sabe quando, ou seja, em que momento da aplicação das perguntas, os entrevistados foram levados a avaliar numa simples pergunta, de contextualização de transparência zero, a atuação de deputados, senadores e ministros.

Tom catastrófico

Também causou estranheza o tom catastrófico com que a reportagem da Folha de S. Paulo tratou o momento do governo federal. Quando eleva ao título da página “Rejeição a Bolsonaro bate recorde, mas base se mantém”, a primeira impressão é exatamente essa. Mas não é bem assim, conforme os próprios números. Bolsonaro manteve aprovação de 33% e a rejeição subiu de 38% para 43%. São cinco pontos percentuais que também podem ser apenas um se levada em conta a margem de erro de dois pontos percentuais ou elevar-se a nove pontos percentuais caso de aplique dois pontos percentuais acima para a rejeição e, paralelemente, dois pontos percentuais abaixo, também sob o mesmo critério.

Quando se confrontam os números de rejeição a Jair Bolsonaro em relação ao Congresso e ao STF, temos o placar de 43%, 32% e 26%, respectivamente. Quanto à aprovação, o presidente conta com 33%, o STF com 30% e o Congresso com 18%.

Não é difícil de projetar os números provavelmente mais realísticos que contemplariam o trio caso a aplicação do questionário do Datafolha fosse menos desigual em detrimento das ações do presidente da República.

Qual seria o resultado?

Reiterar esse ponto parece exagero, mas é a fonte ética que deve balizar qualquer enfrentamento. Além disso, por mais que o ativismo judicial ganhe corpo no País, as atenções da sociedade estão sempre muito mais voltadas ao Executivo Federal.

O Datafolha usou o confronto entre Executivo, Legislativo e Judiciário pela primeira vez na temporada, justamente num período crítico do Executivo, sobremodo por conta da pandemia do Coronavírus. Mas mesmo assim o resultado teria sido outro, provavelmente, se uma questão preliminar procurasse obter resposta dos eleitores à vinculação da bagunça institucional.

Bastaria que fosse exposta a decisão do STF em retirar da União a coordenação e a articulação nacional de políticas de combate ao vírus chinês. Ao redistribuir a tarefa a Estados e Municípios, que pouco se entendem, o bafafá institucional se instalou. O estrelismo político-partidário passou a ser a regra geral.

Já imaginaram a seguinte pergunta aos eleitores entrevistados pelo Datafolha: “Como avalia a atuação do Supremo Tribunal ao retirar da União a coordenação geral do combate ao vírus, entregando as ações a Estados e Municípios?”. Um enunciado claro, justo e fixado na realidade dos fatos. Ao Instituto Datafolha de cartas marcadas, nada disso interessa. 

  Margem de erro insustentável 

Quando afirmo que a metodologia de pesquisas (sobretudo eleitorais, mas não somente eleitorais) que abarca a chamada margem de erro é um eufemismo para a prática de margem de manobra, provavelmente provoco calafrios nos formuladores de questionários. A maioria dos institutos de pesquisa faz o diabo com a margem de erro convencional e também com a margem de erro estendida. Vou explicar tanto uma quanto outra.

O que importa aos chamados cientistas políticos e seres estranhos que adoram desenhar o presente mais conveniente e o futuro mais apropriado para eles com o uso de pesquisas de opinião pública é que a margem de erro faz parte da estratégia. Quanto maior, melhor. A margem de erro que é margem de manobra permite muitas contravenções que não resistiriam a uma legislação rigorosa sobre o uso da ciência estatística para fins escusos.

Num passado não muito distante e num presente que pode voltar a qualquer momento, na esteira de campanhas eleitorais, especialistas em flexibilizar números decorrentes de entrevistas com eleitores fazem da margem de erro convencional passaporte a suposta eficiência.

Sustentado resultados 

Sustentar resultados parciais em campanhas eleitorais tendo como garantia de ajuste mais adiante o uso da margem de erro é um procedimento comum. O Datafolha sempre fez isso. Outros institutos também.  O ajustamento vai de acordo com o andar da carruagem dos dados divulgados. Os institutos de pesquisa, em geral, se sentem deuses do comportamento do eleitorado.

A margem de erro está intrinsecamente relacionada ao número de entrevistas de cada rodada de pesquisas. Guarde essa informação, porque esse é o ponto central. Quanto mais entrevistas, menor a margem de erro. Pesquisa com mais de três pontos percentuais de margem de erro é pesquisa inconfiável. Como três ou dois pontos percentuais são pesquisas sujeitas a muito cuidado.

O que esperar, então, de pesquisa com margem de erro de dois dígitos de margem de erro? Como assim? É o que veremos mais adiante. Esse é um típico uso e abuso do Instituto Datafolha e também de outras instituições do gênero. Por isso chamo esse modelo de margem de erro estendida, que também pode ser compreendida como margem de erro escondida.

Até nove pontos

Primeiro vamos tratar de margem de erro convencional. Trabalhemos com três pontos percentuais, que é a mais comum. Três pontos percentuais significam flexibilização de nove pontos percentuais de diferença. É um latifúndio numérico quando se objetiva mandraquismos estatísticos.

Trata-se do seguinte o conceito de três pontos percentuais: quem tem 30% de determinada pesquisa ante 26% de outro mais próximo, pode ter mais que os quatro pontos percentuais explícitos da comparação, ou seja, 30% menos 26%. Com a margem de erro de três pontos percentuais para cima e para baixo, o resultado pode ser 33% a 23% (portanto, 10 pontos de diferença) ou 27% a 29%, portanto dois pontos percentuais de distância.

Não é nada difícil imaginar possibilidades que brotam dessa vastidão de pontos percentuais disponíveis a encaixes.

Mesmo com a redução da margem de erro convencional de três para dois pontos percentuais, a distância é relativamente confortável para quem pretende ajustar os ponteiros mais adiante e sustentar a tese de que os resultados seguiram a trilha de acertos do instituto de pesquisa.

Com dois pontos percentuais de margem de erro, os 30% contra 26% do exemplo anterior podem ser respectivamente 32% a 24% (oito pontos percentuais) ou 28% a 28% (empate técnico). Convenhamos que o efeito sanfona se manifesta igualmente com mil possibilidades de arranjos.

Simulação de confrontos

Na pesquisa do Instituto Datafolha não se registra diretamente um confronto entre o governo federal, o Legislativo e o Judiciário em reprovação e aprovação. A disputa é indireta e subliminar. Mas é possível, como especulação didática, mostrar os efeitos de uma margem de erro de três pontos percentuais.

Vamos primeiro invadir a seara de reprovação. Jair Bolsonaro registrou 43% de ruim/péssimo, enquanto o Congresso Nacional marcou 32% e o Supremo Tribunal Federal 26%. Se aplicada a margem de erro de três pontos, o resultado do confronto entre Jair Bolsonaro e Congresso Nacional poderia ser tanto de 46% a 29% como de 40% a 35%. E a disputa entre Jair Bolsonaro e o STF poderia ser tanto 46% a 23% como 40% a 29%.

As equações seguem rigorosamente o conceito de margem de erro: ao mesmo tempo em que se elevam os valores para um, reduzem-se os valores para o outro. Desta forma, a diferença de ruim/péssimo de Jair Bolsonaro em relação ao Congresso Nacional tanto pode ser de 17 pontos percentuais quanto de cinco pontos percentuais. Já no confronto com o STF, Bolsonaro poderia ter no quesito ruim/péssimo tanto 23 pontos percentuais quanto 11 pontos percentuais.

Presença dos militares

O mesmo bloco de questionamentos do Datafolha que resultou em série de matérias na Folha de S. Paulo e em muitos veículos de comunicação abordou a presença de militares no governo federal. A margem de erro de dois pontos percentuais reduz ou aumenta a diferença. Os militares podem ser vistos de duas maneiras distintas.

O resultado primário do Datafolha sobre a presença dos militares apontou uma diferença de nove pontos percentuais de entrevistados contrários à ocupação de cargos: 52% a 43%. Quanto se aplica o critério de margem de erro, o resultado tanto pode ser 50% a 45% como 54% a 41%. Ou seja: sai-se de uma situação de cinco para 13 pontos percentuais.

No terreno da percentagem, que é diferente de pontos percentuais, isso significa sair de uma distância inicial de 17,30% contrária à participação dos militares e passar para o estreitamento de 10% no caso de aplicação da margem de erro favorável aos miliares ou de 24,07% na hipótese de dar elasticidade contrária aos militares.

Não é preciso ser inventivo demais para, ao transpor o conceito e o exemplo em situação de disputa eleitoral, o quanto a maleabilidade da margem de erro pode determinar usos e abusos nas pesquisas de opinião pública.

O resumo da ópera ao se aferir o conceito prático de margem de erro é que em situação de dados históricos reiterados, as análises não podem desconsiderar o imperativo da relativização. No caso específico do nível de aprovação e de rejeição ao presidente Jair Bolsonaro, apenas em situação de descolamento de números além da margem de erro é possível construir premissas favoráveis ou contrárias.

Margem estendida

Quem se surpreende com a gelatinosa equação determinada pela margem de erro convencional, não sabe o estrago causado pelo conceito de margem de erro estendida, modalidade que extrapola a ciência estatística, mas que nem por isso deixa de ser prática usual e abusiva, além de incorreta, do Instituto Datafolha e dos demais que estão na praça.

A margem de erro estendida, também imprecisa, quando não abusiva e deletéria, dá-se quando a estrutura básica de pesquisas que delimita a margem de erro é violentada. No caso da última pesquisa do Datafolha, os dois pontos percentuais de margem de erro correspondiam a aplicação de 2.069 entrevistas. Guardem bem esse número.

A margem de dois pontos percentuais é válida como ferramenta de análise (com condicionantes expostas) somente quando todos os entrevistados respondem ao questionário central e integral. Um exemplo: o Datafolha perguntou sobre a avaliação do presidente Jair Bolsonaro na pandemia (o enunciado, como já escrevi, foi omitido na reportagem). Do total de entrevistados, 50% consideraram a atuação ruim/péssima, 27% de ótimo/bom e 22% de regular. Apenas 1% não soube responder.

Até esse ponto não resta dúvida sobre o resultado. Entretanto, qualquer outra valoração numérica da pesquisa que se consolide como substrato da referida questão foge completamente da margem de erro. Torna-se praticamente incalculável. Vou explicar.

Parte pelo todo

Escreveu a Folha de S. Paulo na edição de 29 de maio que 32% entre os entrevistados que ganham mais de 10 salários mínimos consideram o governo de Jair Bolsonaro ótimo/bom no tratamento ao Coronavírus. E que 62% dos entrevistados que têm Ensino Superior consideram as ações ruim/péssima. Não é bem assim. Ou não é nada assim.

Lembre-se que a margem de erro de dois pontos percentuais está referendada pelo total de 2.906 entrevistas. Só vale para isso, exclusivamente para esse universo de entrevistados.

Quantos por cento dos entrevistados que ganham mais de 10 salários mínimos responderam aos questionários? E quantos entrevistados que contam com Ensino Superior também responderam ao questionamento do Instituto Datafolha? Resposta: nada, absolutamente nada que tenha anteparo estatístico de dois pontos percentuais para mais ou para menos.

Trocando em miúdos: os dados complementares do Datafolha que viraram interpretação da Folha de S. Paulo e de tantos outros veículos de comunicação não oferecem suporte algum de desdobramentos das perguntas-chave.

Extrapolando a margem

Supondo-se que não mais que 20% dos entrevistados representem a população brasileira que recebe mais de 10 salários mínimos e que o mesmo tanto tem Ensino Superior (esses números são aleatórios, mas retratam um País tão desigual), teríamos ao invés de mais de dois mil questionários, não mais que 200 especificamente voltados a esses dois públicos-alvo. Então, em consequência, a margem de erro explodiria. O que é retratado pelo Datafolha como pesquisa não passaria, em última instância, de enquete. Sem valor científico, portanto. Enquete é uma fresta de porta. Pesquisa é o quarto iluminado. Se bem iluminado ou não depende da ética dos formuladores das questões.

Para que houvesse respaldo técnico-cientifico de que 32% dos entrevistados que ganham mais de 10 salários mínimos apoiam a política do governo Jair Bolsonaro na epidemia (contra 27% do resultado aferido) e também para que se desse sustentação à divulgação de que 63% dos portadores de Ensino Superior são contrários ao presidente no tratamento ao Coronavírus (contra 50% do público em geral), deveriam ter sido entrevistados 2.069 eleitores de cada um desses respectivos grupamentos. Eles assegurariam a margem de erro de dois pontos percentuais.

Qualquer iniciativa diferente significa fraude numérica e avaliativa. Não o fosse, os institutos de pesquisa não precisariam contratar mais de duas mil entrevistas. 

  Neutralidade obscura

Para entender o significado de “neutralidade obscura” das pesquisas do Datafolha (e também da imensa maioria de institutos que colhem opinião da sociedade) é preciso levar em conta se a rigidez adotada é proposital ou artimanha que, juntamente com outros condimentos, estimula o apimentado geral que tem por finalidade dar o máximo de versatilidade ao uso de dados. E quando dados viram objetos gelatinosos, tudo pode acontecer.

Para ser direto e reto, quero dizer que neutralidade obscura é espécie de infantaria de dados estatísticos levados ao campo de batalha para, diante de desconforto no placar, ser convocada à luta.  

A neutralidade obscura é tratada na forma de “indecisos” nas pesquisas eleitorais. É pau para toda obra de engenharia maliciosa.

Na pesquisa como a que o Instituto Datafolha publicou na semana passada, a neutralidade obscura, que também pode ser chamada de neutralidade matreira, quando não ardilosa, se constata na forma de “regular”. E é do “regular” que trataremos neste capítulo.

E vamos ter como suporte prático uma das muitas perguntas que o Datafolha fez a 2.069 entrevistados sobre o desempenho do governo de Jair Bolsonaro.  Mais precisamente sobre o nível de rejeição.

Como já observado, a Folha de S. Paulo não transpôs aos leitores e nem o Datafolha assim deu publicidade à íntegra da pergunta dirigida aos eleitores entrevistados.

Na edição de 29 de maio a Folha de S. Paulo (e os muitos veículos de comunicação que repercutiram os dados no mesmo dia e nos dias seguintes) apenas resumiu a questão nos seguintes termos: “Avaliação do presidente Jair Bolsonaro”. O resultado foi de 43% de ruim/péssimo, 33% de ótimo/bom e22% de regular.

Dissecando o regular

É nesse ponto, do “regular”, que estacionamos a bateria de exigências à transparência e também à maior precisão da pesquisa. Primeiro porque “regular” é muito vago e pode estimular interpretações diversas. Segundo porque “regular” tem peso decisivo no resultado final do questionamento específico. Quanto menos “regular”, mais se definem os resultados.

Traduzindo em termos práticos de dimensionamento de quem aprova e de quem reprova a atuação do presidente Jair Bolsonaro: quantos por centos dos 22% dos eleitores que optaram pelo “regular” estariam mais alinhados ao governo federal ou contrários ao governo federal se o conceito de “regular” ganhasse mais tônus? Notaram que a neutralidade é insolvente para quem pretende ir além da simplificação?

Falta, portanto, aplicar metodologia que tiraria de cima do muro os entrevistados que optaram por “regular”. Nem todos, é claro. Mas não é justo que eleitores que responderam “regular” com ímpeto de viés positivo tolhido pela pergunta inflexível não possam expressar mais claramente a posição que ostentam.

A mesma proposta, a mesma fórmula, vale aos eleitores do “regular” com viés de reprovação. Não seria diferente, também, apresentar aos entrevistados outra tipologia de “regular”: o “regular-regular”; ou seja, eleitores que não arredariam pé da neutralidade consciente e, portanto, nada preguiçosa ou castrada.  O regular-regular que sobrevive às possibilidades de virar “regular-positivo” ou “regular-negativo” é muito melhor que o “regular” imposto goela abaixo.

Para onde iria?

Num exercício meramente especulativo, que até poderia deixar de ser enquadrado nesse compartimento supostamente menos nobre ou científico, vou tentar mostrar aos leitores que, caso a neutralidade obscura fosse retirada da pesquisa em favor de três modelos expostos de “regular”, Jair Bolsonaro teria a maioria dos eleitores desse grupamento. Até porque, e isso integra a linha do tempo de pesquisas da atuação do presidente, houve baixa específica de “regular” nessa última sondagem em relação aos números anteriores.

Ou seja: houve migração de eleitores que até então optaram pelo “regular” em direção ao “ruim/péssimo que saiu de 38% para 43%. É pouco provável que o aumento desses cinco pontos percentuais tenha saído do grupo que aprova a atuação do presidente. O núcleo do “regular” de Jair Bolsonaro caiu quatro pontos: eram 26% na pesquisa anterior, em 27 de abril.

Dois questionamentos do Datafolha que poderiam servir de balizamento à afirmativa de que a maioria dos 22% de eleitores que se mantém na posição de “regular” estariam mais sensíveis à aprovação do que à reprovação de Bolsonaro. Para entender essa possiblidade é importante guardar os números de aprovação e reprovação ao governo: 33% e 43%, respectivamente. 

Indo às origens

Afinal, para onde teriam maiores possibilidade de irem os 22% que optaram pelo “regular” caso o Datafolha incluísse no questionário “regular-positivo”, “regular-regular” e regular-negativo”?

Voltemos aos dois referenciais que podem tirar dúvida sobre isso, ou deixar o leitor e eleitor ainda mais desafiado.

A primeira questão incluída no questionário do Datafolha constatou que 50% dos brasileiros são favoráveis à renúncia do presidente, enquanto 48% são contrários. Já em situação de impeachment do presidente, 50% são favoráveis e 46% contrários. Numericamente há empate técnico na primeira alternativa e uma diferença de quatro pontos na segunda.

Tratando os dois pontos sob a ótica numérica, ou seja, sem levar em conta a margem de erro de dois pontos percentuais para cima ou para baixo, não seria despropositada a conclusão de que a maioria dos eleitores que manifestaram a condição de “regular” é favorável a Bolsonaro.  A explicação exige cuidados e muita atenção. O raciocínio é o seguinte:

Se 43% dos eleitores consideraram o governo ruim/péssimo, se 50% querem sua renúncia e outros 50% querem o impeachment, isso significa que houve crescimento de sete pontos percentuais entre os eleitores favoráveis a cada uma das decisões drásticas envolvendo o presidente em relação aos que o reprovam.

Por outro lado, como apenas 33% dos eleitores aprovaram a gestão de Bolsonaro, enquanto 46% são contrários ao impeachment e 48% à renúncia, o crescimento registrado é de 13 e de 15 pontos percentuais.

Os dois acréscimos foram extraídos especulativamente do contingente de 22% dos eleitores que se mantiveram neutros à aprovação ou reprovação ao governo Bolsonaro. Não esqueça que essa conta toda tem como indexador explicativo o desdobramento do conceito de “regular”. 

Exposição cronológica

Parece mais sensato extrair a conclusão que levaria à avaliação de que o maior potencial de migração de eleitores “regular” no questionamento sobre aprovação e reprovação seria favorável a Bolsonaro do que buscar em outra seara, propriamente entre os 43% de ruim/péssimo ou aos 33% de “ótimo/bom” a fonte de inspiração favorável ou contrário ao impeachment e à renúncia do presidente.

Quando eleitores optaram pela aprovação e pela reprovação, acredita-se que armazenaram desejo de salvar ou não o presidente do impeachment ou da renúncia, o que caberia aos neutros em forma de “regular”.

Há, entretanto, um ponto a considerar e que tem tudo a ver com a abordagem anterior: em que situação cronológica de aplicação prática da pesquisa o Datafolha perguntou sobre as três questões, ou seja, de aprovação ou reprovação ao governo, de impeachment e de renúncia.  Conforme a ordem, os resultados estariam viciados.

Se o Datafolha perguntou primeiro sobre a possibilidade de impeachment do presidente e em seguida sobre a renúncia para, somente adiante, sobre a aprovação ou reprovação, os números finais da terceira questão estariam contaminados por viés negativo ao presidente da República.  

Tática progressiva

Se mesmo com essa impropriedade o presidente da República obteve resultados menos impactantes nas questões relativas a impeachment e a renúncia, os números favoráveis seriam muito mais expressivos.

De qualquer forma, a abordagem sobre a ordem numérica das três questões perde importância.  Os eleitores que optaram pelo “regular” à aprovação ou reprovação ao presidente, contingente de 22%, seriam mais propensos a contar com maior peso se houvesse o desmembrando para “regular-positivo” do que para “regular-negativo”.  “Regular” no sentido único a respostas é, portanto, influenciador de baixa expressão quando se vasculham os resultados que impliquem posicionamento crítico além do extremismo de aprovação e reprovação.

Em outras análises da atuação de institutos de pesquisa sem a profundidade e a abrangência de agora, mantive tom pouco satisfatório com a neutralidade do “regular” e, principalmente, com os “indecisos” das pesquisas eleitorais.

A desconfiança maior -- e por que não dizer mais que justificada -- corre no sentido de que o universo de “indecisos” trafega por uma raia própria como reserva de mercado à retórica final, urnas apuradas, de que os institutos acertaram em cheio nos resultados.

Essa é uma tática aceita passivamente, mas não resiste à inquirição mais detalhada e minuciosa. Os “indecisos” integram, com a margem de erro, potencial manipulador estratosférico.

Tenta-se o diabo ao encaminhamento de resultados que cumpram determinados valores durante o período de pesquisas eleitorais. Até que, lentamente, com a proximidade das urnas, lança-se mão dos dois fatores -- margem de erro e indecisos -- para acerto estrutural que não comprometa o enredo final.  Há situações que não aceitam desaforos e abusos.

  Especificidades regionais parciais 

O que o Datafolha preparou em forma de estatísticas foi um mergulho parcial e mal-ajambrado. Com isso, levou aos leitores da Folha de S. Paulo e de outros veículos, sobretudo da Grande Mídia, um incompleto quadro de instâncias nacionais relevantes, enquanto contrapunha retrato pretensamente inteiro do governo federal.

A questão relativa à pandemia do vírus chinês contou com tratamento não só parcial em detrimento do governo federal como, também, fraudulento ao se observar a atuação dos governadores de Estado.

Traduzindo a questão de forma contundente: o Datafolha levou ao público uma simbiose de imprecisão e parcialidade. Objetivamente, com baixa aderência técnica.

Ciência desprezada

A ciência foi jogada na lata do lixo. Prevaleceu, portanto, viés que convergiu para a satanização do governo federal, a mistificação de governos estaduais e o descaso com a metodologia da qual um instituto de pesquisas jamais deveria abrir mão.

Então, por que o fez? Possivelmente porque interesses cruzados e interligados aos tentáculos da Grande Mídia falam mais alto. Esparrama-se aos consumidores de informação sabugos indigestos como fonte de alimentação dos fanáticos.

Sempre com a ressalva de que a ordem cronológica de cada da pergunta apresentada aos entrevistados não aparece em nenhuma situação nas publicações da Folha de S. Paulo e tampouco nos inacessíveis arquivos do Instituto Datafolha, a avaliação do desempenho de Bolsonaro na pandemia segue a trilha da obscuridade.

Como em outros questionamentos, o enunciado exposto pela Folha de S. Paulo é bastante vago e pode esconder a literalidade apresentada a cada um dos entrevistados. E isso faz uma diferença enorme.

Números semelhantes

A Folha publicou apenas, ao se referir à questão: “Avaliação do desempenho de Bolsonaro na pandemia”, com as alternativas de “ruim/péssimo”, “ótimo/bom” e “regular”. O resultado de 50% de ruim/péssimo, 27% de ótimo/bom e de 22% de regular segue praticamente o mesmo ritmo numérico dos entrevistados que se manifestaram sobre aprovação e reprovação do governo federal.

A conclusão parece óbvia: aos eleitores que reprovam a atuação geral do governo, o desempenho na pandemia é ruim/péssimo. Diferentemente dos eleitores que aprovam em forma de ótimo/bom. Os que optaram por desempenho regular são 22%. Exatamente o contingente que se declarou dessa mesma forma à aprovação ou reprovação ao governo.

E onde aparece o buraco das especificidades regionais parciais? Na avaliação do governador do Estado do entrevistado. Ou seja: os 2.069 entrevistados divididos proporcionalmente pelas respectivas populações dos territórios brasileiros, além do Distrito Federal, foram ouvidos pelo Datafolha.

Há dois graves vetores que o Datafolha surrupiou: os dados individuais por Estado (divulgou-se apenas pelo conjunto de Estados de cada região) e a incompatibilidade de sustentar a robustez cientifica dos trabalhos.

Questões viciadas

As duas questões estão, portanto, tecnicamente viciadas. E imprestáveis. Individualmente, nenhum Estado da Federação (e tampouco o Distrito Federal) ganhou musculatura estatística suficiente para expor resultados.

A aplicação de 2.069 entrevistas contemplava a margem de erro de dois pontos percentuais para o conjunto do território nacional. Ora, diante disso, seria necessário que cada pedaço estadual do País, além do Distrito Federal, contasse com quantidade muito maior de entrevistados. Exatamente com peso representativo da margem de dois pontos percentuais dos 2.069 que resultaram em dados primários, ou seja, de aprovação ou reprovação dos governadores como um todo.

Portanto, o resultado da pesquisa que definiu contingente de 50% de entrevistados que optaram pelo “ótimo/bom”, 25% como “ruim/péssimo” e 24% como “regular”, só é válido para o bloco de governadores.

Margens desgarradas

A margem de erro para cada espaço geográfico estadual subiria às alturas porque o total de questionários aplicados individualmente em 27 territórios e no Distrito Federal não suportaria o limite de dois pontos percentuais. Imagine um número extravagante de margem de erro com dois dígitos e encontrará algo parecido à afronta científica.

O que se estranha é o Datafolha repetir na mais recente pesquisa sobre esses tempos de Coronavírus e de estresse institucional no País o que fizera anteriormente, ou seja, omitiu dados relativos a cada governador.

A rota causa desconfiança de que governadores menos suscetíveis a aplausos da população foram preservados. Afinal, anteriormente, ainda contando com ganhos de imagem de Luiz Henrique Mandetta à frente do Ministério da Saúde, todos eles, os governadores, gozavam de alto prestígio. E o Datafolha, com os erros metodológicos e tudo, os retratou em números gerais.

O que não deixa de ser perturbador para quem acompanha lances políticos durante essa pandemia sanitária é a ausência de medição sistemática da atuação dos governadores com o respaldo de margem de erro compatível com as regras utilizadas no caso do governo federal.

Compartilhamento de decisões

Para que isso fosse possível, o número de entrevistados em cada Estado teria de dar salto quântico. O desgaste dos governadores João Doria e Wilson Witzel em São Paulo e no Rio de Janeiro talvez tenha levado o Datafolha a abandonar a empreitada.

Não se pode esquecer que, por determinação do Supremo Tribunal Federal, Estados e Municípios tornaram-se autônomos para lidar com o vírus chinês. Quem sabe o Datafolha fez de tudo para evitar constrangimentos democraticamente mais amplos do desempenho de governos estaduais em relação ao governo federal?

O Datafolha do final de maio também perguntou sobre a responsabilidade de Bolsonaro pelo avanço da epidemia. E dirigiu a mesma pergunta aos entrevistados tendo como alvo o governador do Estado. Enquanto 33% consideraram Bolsonaro “muito responsável”, 20% “um pouco responsável” e 45% “não é responsável”, os governadores foram contemplados, sempre em conjunto e jamais especificamente por cada pedaço da Federação, com 19% de “muito responsável”, 20% “um pouco responsável” e 58% “não é responsável”.

O confronto dos números parece não deixar dúvida quanto à proximidade de distribuição de peso de responsabilidades entre o presidente da República e vários governadores.

E os governadores?

No início da pandemia os dados eram contrastantemente desfavoráveis ao governo federal. Na medida em que as sequelas econômicas passaram a dividir mais espaço com a premência sanitária, observou-se distribuição menos desigual de comprometimento entre o chefe da Nação e a média geral dos comandantes dos governos estaduais.

Não é exagero lembrar mais uma vez e agora com mais substância e impacto que tanto o governador Doria quanto Witzel devem apresentar dados semelhantes ou próximo disso em relação ao governo de Jair Bolsonaro.

Afinal, não se deve esquecer que a média de avaliação dos governadores é fruto do conjunto dos entrevistados que representam todos os espaços territoriais do País. E que a avaliação por região, embora fragilizada também porque não obedece a regras estatísticas de dois pontos percentuais de margem de erro, coloca o Sudeste em situação desfavorável ante os demais territórios.

Fosse, portanto, o Instituto Datafolha mais zeloso com o equilíbrio de tratamento avaliativo, o governo federal e cada um dos Estados seguiriam a mesma cartilha metodológica, respeitando-se os dois pontos percentuais de margem de erro.

Resultados manipulados

A manipulação dos resultados é evidente porque ao tratar o todo (ou seja, os governadores como único bloco) coloca-se em igualdade de condições diferentes ações individuais dos comandantes estaduais. Cria-se, portanto, um desequilíbrio que beneficia os menos produtivos.

Tanto é verdade que a Folha de S. Paulo revela que nada menos de 68% entre os moradores do Sul do País consideraram “ótimo/bom” o desempenho dos governadores daqueles territórios ante a média nacional de 50%, enquanto 31% dos moradores do Sudeste se posicionaram com a resposta “ruim/péssimo”, acima da média nacional dos governadores de 25%. Não custa lembrar que Rio de Janeiro e São Paulo são Estados do Sudeste brasileiro.

Não custa lembrar, também, que esses números despontam de uma impropriedade estatística: o número de entrevistados do Sul do País que participaram da pesquisa nacional não preenche as regras da margem de erro de dois pontos percentuais.

Como se observa, as especificidades regionais são incompletas em relação às exigências de um todo do governo federal e não tem o correspondente peso individual dos governos estaduais e do Distrito Federal. Por isso, qualquer comparação com Bolsonaro e também entre si, não conta com a base técnica sólida alardeada pelo Instituto Datafolha e por todos os veículos de comunicação que fazem de números falsos notícias também falsas. 

  Questionamentos enviesados 

Nas perguntas anteriores houve preocupação do Instituto Datafolha em dar roupagem supostamente límpida às abordagens. Entretanto, nessas duas, publicadas na edição de 30 de maio do jornal Folha de S. Paulo, e multiplicada pela mídia brasileira, o acinte de parcialidade dispensou máscaras de suposto equilíbrio. Entenda-se parcialidade como quiserem. Dolosa ou descuidada, pouco resolve. Apenas explicita.

As duas questões relacionam-se com a proximidade política do governo Jair Bolsonaro com o chamado Centrão, bloco de congressistas que se move entre a direita e a esquerda e atua como fiel da balança em decisões importantes. Inclusive em situação de conflito institucional que sugira a possibilidade de o presidente da República sofrer impeachment.

Foi assim com Collor de Mello e com Dilma Rousseff. Quem não tem o Centrão como suporte a situações de gravidade geralmente se dá muito mal. Há historicamente uma conotação mais que justa, porque repleta de malfeitos, que instalam a expressão “Centrão” no centro do palco da maledicência popular.

Enunciados direcionados

Isto posto, porque verdadeiro, eis que chegamos ao ponto em que se colhe o Datafolha no contrapé da malvadeza de sondagens.

Reparem no enunciado da primeira pergunta a que me refiro. Sempre lembrando que o longo questionário foi aplicado pelo Datafolha com o uso de telefone celular, por causa da pandemia do vírus chinês. Atentem, portanto, para o enunciado viciadíssimo: 

 Bolsonaro está cumprindo a promessa de não negociar cargos e verbas em troca de apoio?

Antes da exumação da sentença de morte levada aos entrevistados, vamos reproduzir os resultados colhidos pelo Datafolha. Menos do terço do eleitorado de Jair Bolsonaro (33% de ótimo/bom quando se tratou de aprovação) respondeu afirmativamente ao questionamento sobre a parceria com o Centrão. Precisamente 29%. Dois terços (64%) dos eleitores ouvidos disseram “não” à estratégia do presidente da República. Muito mais que os 50% que reprovam o governo federal. Outros 8% não souberam responder.

Primeiro questionamento

Agora vamos mostrar por que o enunciado é um caminho obscuro à legitimidade técnica do Datafolha. O conjunto da obra (ou seja, o enunciado em si) é uma falácia de neutralidade ao envolver três pecados capitais que o integram e o torna coercitivo, ou seja, praticamente encaminha resposta desfavorável ao presidente da República. Quais são esses três pontos que atingem em cheio a subjacência negativista?

Primeiro: “cumprindo a promessa”.

Segundo: “de não negociar cargos e verbas”

Terceiro: “em troca de apoio?”.

Por mais que a fragmentação do enunciado revele a facciosidade do questionamento, não custa dissecar os três compartimentos que compõem a integralidade da sentença de morte ao presidente da República.

“Cumprindo a promessa” automatiza direcionamento obrigatório a uma determinada resolução e carrega forte tom moralista.

“De não negociar cargos e verbas” é também uma expressão popular que, quando contraposta a “cumprindo a promessa”, conduz o entrevistado a um senso crítico elevadíssimo, de decepção compulsória. Negociar é um verbete que induz a interpretação de desconfiança quando associado à atividade pública, mais que em qualquer outra área humana. É impossível resistir à leitura depreciativa.

“Em troca de apoio” é o corolário do enunciado pecaminoso quando se entrevista alguém sobre determinado desempenho: explicita método de troca de favores abominável por excelência.

Segundo questionamento

Se alguém ainda tem dúvida sobre o desequilíbrio contido no enunciado exposto, então acompanhe a segunda questão de desfaçatez técnica que, diante de mentes atentas, descarrilha o trem da credibilidade do Datafolha:

 Bolsonaro age bem ou age mal ao negociar cargos e verbas com deputados e senadores?

A frase-pergunta pode ser dividida em duas partes para sacramentar a indução desequilibrante do questionamento do Datafolha.

Primeiro: “Bolsonaro age bem ou age mal” por si só é um estágio de enunciado provocador de dúvida sobre a decisão do presidente da República apresentada aos entrevistados.

Segundo: “ao negociar cargos e verbas com os deputados e senadores” também é um corredor da morte a qualquer tentativa de estabelecer liberdade de posicionamento dos entrevistados. Negociar, como já disse, é um termo pecaminoso quando associado à política e sobretudo a instituições do Legislativo, uma das peças da engenharia política mais agudamente reprovadas pelo eleitorado brasileiro.

Subjetividade dispensada

As duas questões são provas vivas de que nem mesmo a subjetividade foi trabalhada para disfarçar distorções em outros pontos da pesquisa do Datafolha.

Há um strip-tease deliberado de más intenções. Provoca-se acintosamente uma situação gêmea de maus-tratos à ciência. Deteriora-se escandalosamente qualquer pressuposto ético. Rouba-se claramente o resultado do jogo.

O arbitramento não se deu ao luxo de marcar duas penalidades máximas. Os dois lances foram flagrantemente fraudulentos. A arbitragem de campo, detentora de responsabilidade social, fez vistas grossas.  E o VAR simplesmente se omitiu.

Também no caso dessas mesmas duas questões, registraram-se novas fraudes acessórias, que consistem em dar amplitude estatística a questionamentos desdobrados das perguntas-chave.

Vou explicar mais uma vez. Na questão relativa ao que a Folha de S. Paulo identificou com troca-troca com o Centrão (no que está corretamente crítico), publicou-se que 32% dos entrevistados com Ensino Médio, 41% entre empresários e 49% entre quem votou em Bolsonaro no segundo turno de 2018 concordaram com o enunciado. Em contraposição, 68% entre quem tem de 16 a 24 anos, 68% entre quem ganha de cinco a 10 salários mínimos e 77% entre funcionários públicos discordaram.

Fantasias estatísticas

Todos esses números são fantasias. Pela simples razão de que a margem de dois pontos percentuais, centro do trabalho com valor estatístico, foi para o ralo da especificação.

Para que os dois pontos percentuais de margem de erro mantivessem valor, todos os estratos dos entrevistados mencionados como acessórios (empresários, quem votou em Bolsonaro no segundo turno, detentores de Ensino Médio, Jovens de 16 a 24 anos, quem ganha de cinco a 10 salários mínimos e funcionários públicos) teriam de contar, individualmente, com carga gigantesca de questionários. Precisamente 2.069 para cada enunciado.

A mesma deficiência metodológica, recorrentemente utilizada pelo Datafolha e por outros institutos de pesquisa, foi identificada na segunda questão, agora referente à negociação de cargos e verbas com deputados e senadores.

A Folha de S. Paulo publica na mesma edição de 30 de maio série de especificidades com as respectivas aprovações e reprovações. Tanto por faixa etária quanto por escolaridade e atividade profissional. Não há de novo sustentação quantitativa de formulários aplicados que respalde o desfilar de resultados representativos do território nacional. Tampouco dos Estados e do Distrito Federal individualmente.

Vídeo mal-avaliado

Também nesse espectro de questionamentos enviesados, a Folha de S. Paulo publicou na edição de 28 de maio uma das questões da pesquisa de 25 e 26 do mesmo mês. O assunto foi o vídeo do barulho da reunião ministerial de 22 de abril. O título “Maioria que viu vídeo crê que Bolsonaro quis mudar a PF” também é inconsistente, porque decorre da ruptura da margem de erro de dois pontos percentuais, base de cálculos e de sanidade metodológica.

Apontou o Datafolha na página da Folha de S. Paulo que 61% dos entrevistados que viram o vídeo declararam que Jair Bolsonaro quis usar seu cargo para interferir na Polícia Federal, enquanto 32% observaram que Bolsonaro quis apenas melhorar a sua segurança pessoal. Os demais entrevistados apresentaram outras respostas ou não souberam responder.

Afinal, onde está o furo da Folha e do Datafolha? O texto do jornal paulistano entrega a rapadura. Veja um trecho da reportagem:

 Tiveram acesso ao vídeo 55% dos brasileiros, segundo o Instituto. A disparidade de opiniões por regiões segue o padrão de divisão quando o tema é Bolsonaro: Sul e Norte/Centro-Oeste tendem a defendê-lo, enquanto a desconfiança é maior no Nordeste.

Revelando a pegadinha

Onde está a pegadinha estatística que derruba a matéria da Folha de S. Paulo e torna o resultado dessa questão fora de cogitação técnica? Ora, se 55% dos brasileiros entrevistados não viram o vídeo, e, portanto, não responderam à questão, a margem de erro de dois pontos percentuais foi para a cucuia.

Afinal, se foram disponibilizados à aplicação junto aos entrevistados 2.069 questionários para que se obtivesse a sustentação da margem de erro de dois pontos percentuais, a ausência de 55% desse contingente inviabiliza qualquer avaliação. O que seria pesquisa virou enquete.

Basta fazer as contas. Retire do universo de 2.069 questionários 55% não respondentes. A margem de erro de dois pontos percentuais se eleva à estratosfera. E a pesquisa perde valor científico.

Decididamente, o Datafolha rasga todos os manuais de desempenho que um instituto de pesquisas deveria preservar. Mas como exigir tanto se a empresa sob o controle da Folha de S. Paulo integra o batalhão da caça ao presidente da República?

  Editorialização seletiva 

O Instituto Datafolha saiu a campo nas três últimas pesquisas em que decidiu medir o tamanho da institucionalidade da presidência da República usando como ponto-chave duas perspectivas elaboradas para desgastar o governo federal: a renúncia ou o impeachment. Tudo milimetricamente calibrado para chegar a um desenlace que favoreceria o cronograma de avanço consolidado de manifestações.

Quem tem alguma dúvida sobre essa programação insiste em desconsiderar o ambiente de oposição destilado a cada dia pela chamada Grande Mídia. Trata-se de força-tarefa bem azeitada que parece não sossegar enquanto não trocar o chefe do Executivo nacional. Uma caçada jamais vista na história da democracia brasileira.

Folha de S. Paulo, Organizações Globo, Estadão e filhotes digitais e eletrônicos marcham lado a lado. Quem acompanha o jornalismo profissional sabe disso. Há pactuação com o objetivo pré-definido.

Endeusamento e demonização

Da estratégia consta também a demonização das redes sociais, território no qual Bolsonaro reina com poderes que de alguma forma contrabalançam os efeitos da mídia tradicional. Mídias sociais que viraram sinônimos de fake news. Até parece que a Grande Mídia, sempre mais sofisticada, não comete desde sempre derrapagens que poderiam ser sintetizadas na parcimônia com que permitiu usos e abusos de corruptos que fizeram do regime democrático uma meia-sola de arranjos distribuídos entre grupos de interesses e de pressões.

Editorializar as pesquisas do Instituto Datafolha é essencial para extrair dos dados numéricos insumos com suposta sustentação científica. O Datafolha faz de cada questionamento aos eleitores que respondem às pesquisas um concretíssimo avanço que baixa imunidade do governo federal. Como se as trapalhadas de Bolsonaro já não fossem suficientes. Mais que isso: como se a centralização de críticas da Grande Mídia, independentemente do Datafolha, não fosse garantida.

Minando o terreno

Em duas das três vezes em que o Datafolha se embrenhou campo adentro para transformar a renúncia ou o impeachment do presidente em polo de ação junto aos entrevistados, a Folha de S. Paulo levou os dados e as interpretações à manchetíssima. Manchetíssima é a manchete das manchetes da primeira página. Um espaço nobre que doutrina a cobertura das demais mídias tradicionais entrelaçadas no projeto de impeachment ou renúncia.

Nas duas oportunidades o Datafolha encontrou barreira sólida que quebrou a força-motriz de acionar mecanismos de aquecimento de uma guerra suplementar contra o governo federal, ou seja, noticiar que os brasileiros queriam a renúncia ou o impeachment.

Não houve em nenhuma das duas primeiras pesquisas avanço nessa direção. O eleitorado de Bolsonaro manteve-se rigorosamente como obstáculo à maioria relevante contra o governo federal. Nas duas oportunidades houve equilíbrio do eleitorado ouvido pelo Datafolha. Metade a favor e metade contra. O apoio a Bolsonaro, um terço do total dos brasileiros, seguiu incólume.

Na edição de primeiro de maio a Folha de S. Paulo dedicou um texto evocativo ao afastamento de Jair Bolsonaro. Com o título “Apoio a impeachment não está no nível de Collor e Dilma”, o instituto viu nas páginas do jornal da mesma corporação societária o suprimento tático da empreitada. Leia alguns trechos da matéria: 

 A abertura de um processo de impeachment contra Jair Bolsonaro racha o eleitorado brasileiro, mas o presidente ainda está em posição mais confortável do que a de seus dois antecessores impedidos desde a redemocratização de 1985. É o que se depreende da análise de outros momentos de crise política nos quais o Datafolha perguntou à população se era conveniente o movimento por parte da Câmara dos Deputados. Relativizando essa leitura há um fato: a intenção contrária a Bolsonaro é significativa: 45% e ele tem só um ano e quatro meses no cargo. Outros 48%, um empate técnico na margem de erro de três pontos, são contra a abertura do processo. A palavra impeachment ronda conversas políticas há poucos meses, devido a erosão acelerada entre o Planalto e outros Poderes e entes federativos – escreveu a Folha de S. Paulo.

Como no segundo turno

Cabe um reparo numérico-estatístico que dissolve o tom alarmista da Folha de S. Paulo e revela o quando se pretende criar um ambiente de instabilidade ainda maior no País: aqueles 45% que se alistaram pró- derrubada do presidente não são mais que os 44% (seguindo a margem de erro) que votaram no candidato do PT, Fernando Haddad, nas eleições presidenciais em 2018. Num período como o atual em que a polarização entre direita e esquerda chega a níveis elevadíssimos, qualquer variável dentro ou mesmo levemente fora da margem de erro não passa de consequência natural. Longe, portanto, de clamor ao impeachment ou renúncia do presidente. 

Na mais recente e terceira pesquisa, entre 25 e 26 de maio, ante a resiliência do eleitorado contrário ao impeachment e à renúncia, em novo empate técnico ou próximo a isso, a Folha de S. Paulo desistiu de elevar à manchetíssima os resultados do Datafolha. A decisão parece irrelevante, mas não é.

Uma nova edição com dados que confirmassem a dificuldade popular de remover Jair Bolsonaro da presidência, mesmo sob ataque contínuo emitiria sinais subliminares de que a Grande Mídia assinava atestado de óbito como influenciadora das massas e também dos mais letrados.

Questionamentos emblemáticos

Essas avaliações percorreriam os corredores da apelação analítica e seguiriam em frente até desabar no fosso da conspiração doentia não fossem os ingredientes já analisados no conjunto e nas especificidades da mais recente pesquisa Datafolha. Há sim e indiscutivelmente orquestração deliberada para desbasta cada vez mais o prestigio do presidente da República.

Tanto é verdade que não seria necessário nem mesmo a série de provas e argumentos desta série. Bastaria a seguinte reflexão: afinal, por que o braço estatístico da Folha de S. Paulo, inimiga declarada do presidente da República (a recíproca é verdadeira) teria partido determinadamente para incluir na pauta de pesquisas a aferição do desejo popular de retirar Bolsonaro do cargo, quer com impeachment, quer com renúncia?

Afinal, até agora não existe robustez em qualquer ação que conduza Jair Bolsonaro ao mesmo destino de Collor de Mello e Dilma Rousseff.  Nem corrupção, nem gestão fiscal temerária. Há sim uma porção de especulações, como o caso do vídeo do barulho que, por mais contorcionismos que façam os reprovadores daquele encontro, não confere seguramente a ilação de que Bolsonaro infringiu os limites constitucionais de tentar interferir na Polícia Federal.

Esforço da Grande Mídia para caracterizar as frases do presidente da República durante aquele encontro em prova de delito não faltou.

Todos unidos

Para desmontar de vez o palanque de versão unilateral, basta acompanhar o inquérito instaurado e, sobretudo, a peça jurídica assinada pelo ex-ministro Sérgio Moro. Não há uma linha sequer que confirme uma denúncia de invasão do território da Policia Federal por parte de Bolsonaro.  Ou seja, não há materialidade e tampouco testemunhos nesse sentido.

A lógica da estratégia da Grande Mídia pactuada para interromper o mandato de Jair Bolsonaro é investir sempre e sempre não só nos frequentes erros do titular do Palácio do Planalto como também munir-se de poderio bélico próprio, cavoucando tudo que é possível no governo federal e contando sempre com a infantaria do Datafolha.

O ajuntamento da Grande Mídia em torno do objetivo de derrubar Bolsonaro é nítido. A linha editorial dos produtos que esse consórcio midiático oferece a leitores, telespectadores, internautas e ouvintes tem a mesma nota. Há uma ordem unida sem fissuras. Apenas ganha matizes mais ou menos abrasivos ou brandos em determinadas edições.

Papel de integração

Não foram poucas as situações em que jornais como a Folha de S. Paulo e o Estadão praticamente repetiram os termos das mesmas manchetíssimas. Por isso que, ao equívoco do governo federal de lançar mão de restrições à divulgação de informações sobre os danos do vírus chinês no Brasil, a Grande Mídia se reuniu e deu uma resposta imediata, ao montar um comitê de recolhimento de dados que substituísse o Ministério da Saúde.

Há outras evidências e provas de que a Grande Mídia está disposta a tudo para enquadrar o governo Bolsonaro nos rigores do impeachment ou da renúncia. Mas, nesse caso, seria necessário nova série de análises. O que é dispensável.

O Datafolha faz um papel mais integrador nesse sentido. Com uma vantagem que não pode ser subestimada: carrega um caminhão de credibilidade entre os consumidores de dados extraídos de muitas operações distintas da sustentabilidade científica, quer pela metodologia manquitola, quer pela baixa transparência dos questionários aplicados.

O endeusamento do científico em tempos de pandemia do Coronavírus alastra-se a outros setores. O Datafolha corre numa raia de quase intocabilidade entre leigos. E mesmo sob desconfiança ou descredenciamento de especialistas que reconhecem em seus dados muito mais que pretensa consistência técnica, o Datafolha impera porque há convergência tácita na suposta elite intelectual de que o inimigo precisa ser batido de qualquer forma, mesmo com abusos metodológicos e baixíssima transparência de pesquisas estruturalmente inconsistentes.



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