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Política

Paulinho Serra conta até com
Esquerdão para evitar returno

DANIEL LIMA - 20/07/2020

O prefeito Paulinho Serra desencadeou uma tática que espera resultar em estratégia vencedora à reeleição no primeiro turno em Santo André. Ele sabe que essa projeção é bastante improvável, mas insistirá. E sabe também que deixar escapar uma vitória no primeiro turno pode significar derrota na etapa complementar, o returno de uma disputa encardida.  

Tem sido assim o enredo eleitoral em Santo André desde que Celso Daniel se reelegeu em 2000 contra o aventureiro Celso Russomano. Desde então, prefeito não se reelege em Santo André porque não mata o jogo no primeiro turno. E é essa a maior preocupação do tucano. Ele quer compactar a concorrência na tentativa de dar ares de turno único à competição.

Ainda sobre a eleição de 2000, Celso Daniel ganhou em primeiro turno com 70% dos votos válidos. Um resultado que jamais Paulinho Serra ou qualquer concorrente alcançará diante de vários concorrentes. Celso Russomano ficou em segundo com 22%. Não havia uma terceira candidatura com força suficiente para levar a disputa ao segundo turno.

Celso Daniel, o maior

Paulinho Serra avoca ser o maior vencedor eleitoral em Santo André com 78% dos votos válidos há quatro anos. Não tem sentido. Valem muito mais os 70% de Celso Daniel no primeiro turno do que os 78% de Paulinho Serra em 2016. Aliás, não tem comparação.

Também valeram mais os 52% de Celso Daniel em 1996 contra o empresário Duílio Pisaneschi, com 25%, em turno único.

Paulinho Serra tem a mania do autoenaltecimento. Descontextualiza situações diversas. Faz parte do jogo político. O que não faz parte do jogo político é jornalista aceitar declarações de quem quer que seja e deixar de levar a verdade aos leitores.

Matar o jogo no primeiro turno é o melhor antídoto a eventuais contratempos do destino, sabe bem o prefeito Paulinho Serra. O exemplo do petista Vanderlei Siraque é emblemático. E também traumático. Com desdobramentos temporais que Paulinho Serra explicita na organização de força-tarefa para evitar muitas candidaturas opositoras.

Aparato de convencimento

Há um aparato de coturnos graduados da política estadual e mesmo federal nesse sentido. E de gente da mídia também. Paulinho Serra tem pesadelos com o segundo turno.

Em 2008, Vanderlei Siraque ficou a menos de dois pontos percentuais da vitória no turno inicial e, no returno, viu a zebra de branco chamada Aidan Ravin tomar conta do terreiro do Paço Municipal. Eram outros tempos midiáticos. As mídias sociais inexistiam como força popular.

Foi assim com Aidan Ravin e Carlos Grana. O petista João Avamileno não concorreu à reeleição, em 2004, após complementar o mandato de Celso Daniel, assassinado em 2002. Embora concorresse como vice-prefeito na chapa de Celso Daniel em 2002, Avamileno encontrou barreiras legais para ao fim de 2008 tentar manter-se no cargo.

Por isso, quem perdeu mesmo buscando a reeleição foram Aidan Ravin e Carlos Grana, em 2012 e 2016. Reeleito para valer mesmo desde que o segundo turno foi implantado, apenas Celso Daniel em 2000.  

Thiago tucanista?

Nos bastidores se dá conta de que o ex-vereador petista e influente agente partidário Thiago Nogueira está a serviço do prefeito Paulinho Serra. Thiago Nogueira defendeu domingo no Diário do Grande ABC uma espécie de Operação Tabajara. Sugeriu que a esquerda de Santo André, representada por PT, PCdoB e PSOL, se junte já no primeiro turno, em candidatura única, abrindo-se espaço a um representante de um dos dois partidos ideologicamente complementares do PT como vice da chapa liderada por Bete Siraque.

Thiago Nogueira parece ser adepto da teoria de que quem parte e reparte e fica com a menor parte não passaria de otário.

A proposta de Thiago Nogueira foi considerada acintosa tanto entre os comunistas quanto psolistas. Inferem que o petista quer resguardar interesses individuais e grupais de petistas aboletados na gestão de Paulinho Serra. Comissionados petistas infestam a Administração do tucano em Santo André.

Esquerdão em campo?

Cálculos mais contidas relacionam duas centenas de nomes ligados ao PT, todos beneficiados com o acordo pós-eleição entre o então prefeito derrotado Carlos Grana e o vencedor Paulinho Serra.

Independentemente das ramificações petistas na gestão tucana em Santo André (uma versão Esquerdão do Centrão federal, por assim dizer, com reflexos no Legislativo dissimulador de oposição entre os petistas), Thiago Nogueira não teria sido levado a sério.

Mais que isso: lideranças menos suscetíveis ao canto da sereia do Paço Municipal reservaram-lhe desdém, quando não alguns adjetivos que não ficariam bem reproduzir nem mesmo numa casa de massagem mais que suspeita.

No fundo, Thiago Nogueira pretenderia facilitar a vitória de Paulinho Serra e garantir a fatia de comissionados na nova gestão. O PT já teria jogado a toalha. 

Operação Tabajara

A explicação que caracteriza a Operação Tabajara é simples: a união entre as esquerdas em Santo André resultaria em contabilidade negativa, enquanto a individualização das candidaturas de esquerda teria potencial matemático maior. Thiago Nogueira possivelmente despreza mentes ajuizadas quando investe na propositura camicase das esquerdas.

Quantos votos teriam as esquerdas em Santo André em novembro próximo quando observadas pela fragmentação positiva e quanto teriam com a unificação redundantemente negativa?

Se nos piores momentos municipais do PT em Santo André (o segundo turno das eleições de 2016, com Carlos Grana disputando a reeleição com Paulinho Serra num ambiente de desqualificação do partido por conta da Operação Lava Jato e do impeachment de Dilma Rousseff) alcançou 21,79% dos votos válidos, é de se esperar que agora, federais menos emergenciais na construção da moralidade pública, a marca seria repetida no primeiro turno de novembro. Ou seria elevada, já que o PT já não é foco único de escândalos. Os tucanos paulistas estão enredados com os metrôs da vida.

Para não dizerem que estou extraindo um dado supostamente favorável ao PT, porque apenas duas candidaturas disputaram o segundo turno de 2016, desloco o apontamento ao resultado do primeiro turno de quatro anos atrás: Carlos Grana, ante tantos outros adversários, obteve 20,28% dos votos. Ou seja: O PT de Santo André pós-Lava Jato parte de um estoque garantido de 20% dos votos válidos. Historicamente, o patamar sempre foi superior. Ultrapassava um terço. Com Celso Daniel estava muito acima disso.

Contando os votos

Sem levar em conta o candidato do PCdoB, mas lembrando que entrará na disputa Bruno Daniel como representante do PSOL, é de se esperar que as esquerdas em Santo André somem pelo menos 30% dos votos. Bruno Daniel tem sobrenome e consanguinidade do maior prefeito regional da história e um dos titulares do Paço Municipal que mais enxergou o futuro desafiador deste século (para dizer a verdade, o único).

Com Bete Siraque de um lado petista e Bruno Daniel de um lado psolista, sobrariam 70% dos votos válidos para os demais candidatos.

No primeiro turno das eleições de 2016 o então ex-secretário petista Paulinho Serra chegou em primeiro lugar com 35% dos votos válidos. Qual seria a capacidade elástica de melhor o desempenho no primeiro turno deste ano, agora com a máquina do Paço Municipal à disposição (só não está à disposição para botar nas ruas, próxima à comunidade, para combater o vírus chinês)?

Paulinho com 40%

Coloquem generosamente ou não algo próximo de 40% dos votos válidos. Restariam, portanto, 35% dos votos de mais de 600 mil eleitores de Santo André. Aí é que entra o ex-vereador e ex-secretário de Paulinho Serra, Ailton Lima e candidaturas de menor expressão, mas sempre incômodas.

Ailton Lima é um peso decisivo para o jogo ir para o segundo turno. Ele conta com a probabilidade de que não supere a soma das candidaturas de esquerda, mas individualmente arrume espaço para se colocar em segundo lugar e ir ao turno decisivo.

Recuperando os dados em forma de complementação de análise, o que quero dizer é que se Paulinho Serra tem lugar garantido no segundo turno, o mesmo Paulinho Serra dificilmente matará o jogo no primeiro turno. Precisará de uma compactação improvável das esquerdas e também da fragilização de Ailton Lima.

Nessa equação nominativa de concorrentes ao Paço Municipal de Santo André, talvez a medida crucial para os apoiadores, patrocinadores, dominadores e o escambau da candidatura de Paulinho Serra seja mesmo fazer das tripas coração para materializar o que flutua no mundo político em forma de especulação: contar com a desistência de Ailton Lima, aliado do segundo turno de Paulinho Serra em 2016.

Unificação e cooptação

A unificação das esquerdas e a cooptação em primeiro turno de Ailton Lima, portanto, são iniciativas de bastidores de estrategistas de Paulinho Serra. Trabalha-se, entretanto, com cenário inquietante, ou seja, de que não haveria a menor possibilidade tanto de uma coisa quanto de outra.

Uma coisa desmoralizaria de vez o PT como agremiação resiliente. Outra coisa enterraria de vez as perspectivas de Ailton Lima para o futuro pós-Paulinho Serra, sabendo-se, como se sabe, que a decisão de levar a candidatura adiante decorreu, entre outros fatores, de Paulinho Serra já ter definido quem pretende apoiar nas eleições de 2024. Há vários candidatos e nenhum deles se chama Ailton e muito menos tem o sobrenome Lima.

Trabalhando no escuro? 

Não se pode desconsiderar jamais que os meus textos quando compartimentados na seção de “Política” têm forte carregamento de subjetividades, de percepções. Não são rigorosamente nada semelhantes a outras esferas das atividades humanas.

Não tenho a menor pretensão de ser um sábio onde reina o imponderável no curto prazo, o indecifrável no médio-prazo e o extraordinariamente problemático no longo prazo.

Discorrer sobre perspectivas eleitorais é um exercício fortemente especulativo. Ainda mais nestes tempos em que pesquisas sistemáticas e independentes são raríssimas.

Não chego a dizer que tudo que você leu acima é um tiro no escuro. Não é isso, claro. Até porque recorro a alguns alicerces sustentáveis: as informações do momento e o comportamento do eleitorado tanto no ambiente de redes sociais como na produção histórica de resultados já efetivados.

Ou alguém entende que estou absurdamente equivocado quando coloco para a candidatura petista em Santo André um patamar mínimo de 20% dos votos válidos no primeiro turno quando foi exatamente isso que Carlos Grana obteve há quatro anos quando a atmosfera favorável a votar no PT flertava com um convite a mergulhar e beber as águas do Rio Tamanduateí?



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