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Política

Idosos e jovens fogem das
urnas eleitorais na região

DANIEL LIMA - 19/01/2021

As eleições municipais foram um fracasso da democracia no Grande ABC. Democracia é força de expressão e se limita, quando se pretende ser otimista, à disputa eleitoral. Idosos e jovens, macrofaixas opostas no conjunto de eleitores, fugiram escandalosamente das urnas. O crescimento de jovens que desprezaram os candidatos a prefeito e a vereador foi elevadíssimo em comparação às eleições de 2016. Já os idosos, pressionados também pela pandemia do Coronavírus, estabeleceram marca estonteante de fuga das urnas.  

Os dados eleitorais no Grande ABC dinamitam a ideia de que a sociedade está satisfeita com a democracia no sentido mais amplo da expressão e dos conceitos. A democracia é quase uma abstração na região e no Brasil como um todo. Grupelhos dominam as atividades públicas. Raramente prestam contas à sociedade. Pior que isso: usam a mídia para vender ilusões e mentiras. 

A classe política é, de modo geral e cordialmente, escorraçada pela população. Tanto é verdade que os atuais prefeitos da região só reuniram 38% dos votos disponíveis. E nenhum deles chegou a 50% de aprovação nas urnas.  

Quase metade fugidia  

Em novembro do ano passado, em plena pandemia do vírus chinês, os idosos (60 anos em diante) foram expressivamente menos interessados em votar. De cada 100 eleitores dessa faixa etária, nada menos que 46,67% ficaram em casa ou foram viajar. A média regional, incluindo-se todas as macrofaixas etárias, registrou 33,16% de abstenções.  

Já entre os jovens, da macrofaixa etária de 16 a 20 anos, o índice de abstenção alcançou 23,60% do total dos eleitores, ante 18,06% da macrofaixa de 21 a 39 anos e de 30,56% da macrofaixa de 40 a 59 anos.  

Os jovens de até 20 anos cadastrados no Grande ABC ocupam o topo da recusa em deslocamento às urnas na temporada passada quando se comparam os dados gerais e específicos com quatro anos antes, nas eleições municipais de 2016.  

Jovens dão salto  

Naquela temporada, 14,62% dos jovens deixaram de lado a ida aos locais de votação. Agora, em 2020, foram 23,60%. O crescimento de inadimplentes eleitorais subiu relativamente 61,42% entre as duas eleições. Já na macrofaixa de 21 a 39 anos a abstenção avançou relativamente 33,16% e entre 40 e 59 anos, 21,54%. Muito mais que os 24,12% registrados entre 60 anos ou mais.  

Trocando em miúdos, sempre comparando os índices de ausências registradas nas eleições de 2016 e 2020 para prefeitos e vereadores no Grande ABC: a desistência dos jovens avançou quase o dobro em relação à macrofaixa de 21 a 39 anos (61,42% contra 33,16%0, praticamente o triplo em relação aos eleitores de 40 a 59 anos (61,42% a 21,54%) e mais que o dobro em relação aos idosos (61,42% a 24,12%.  

Entretanto, os jovens entre 16 e 20 anos com direito a votar ainda formam a macrofaixa menos suscetível à desistência do que chamam de democracia. O preocupante é que o viés é de alta elevadíssima. Situação que, ao longo dos anos, poderia contaminar todas as demais macrofaixas etárias. Não seria exagero afirmar que a democracia mesmo que mambembe do Brasil corre riscos. Ou melhoraria, ou desabaria de vez.  

Líderes absolutos em falta de oportunidade de emprego, frequentadores de escolas públicas de baixíssimo nível e instigados diariamente a participar de um mundo de novidades fora do alcance de quem ocupa os últimos postos da desigualdade social, os jovens do Grande ABC e do País como um todo parecem ter abandonado a ilusão de que votar significaria mudar perspectivas pessoais e sociais.  

Alerta para o futuro  

O crescimento superior a 60% de inadimplência entre eleições municipais nos últimos quatro anos é um sinal de alerta principalmente aos políticos que flertam diariamente com baboseiras. Sempre incentivados pela incapacidade geral da mídia em promover pautas que redirecionem a região e o País a grandes transformações.  

De maneira geral, a mídia se ocupa de frivolidades políticas e de interesses específicos de apoio a grupos partidários. Tanto que deixou passar o elefante das falcatruas que movimentaram a roda do Mensalão e do Petrolão. A mídia é reativa na maioria dos casos, e mesmo assim com condicionantes às vezes constrangedoras. Mas isso é outra história. 

Quase 20% do eleitorado 

Os idosos com 60 anos ou mais, habilitados a votar em novembro do ano passado, compunham um exército de 388.303, ante 369.170 de 2016. Deixaram de comparecer às urnas 181.222, o que equivale a 46,67% dos habilitados. Um crescimento de 24,12% entre as duas disputas. Os inadimplentes eram 138.821 idosos em 2016, ou 37,60% dos eleitores dessa macrofaixa. Os idosos representam 18,61% dos eleitores cadastrados no Grande ABC.  

Os jovens (entre 16 e 20 anos) totalizavam 129.394 eleitores em 2016 e passaram para 162.280 em novembro passado. O nível de abstenção de 2016 chegou a 14,62% (18.924 inscritos), e saltou para 23,60% em novembro último (38.293 cadastrados). Essa macrofaixa representa 7,78% do eleitorado do Grande ABC.  

Já os eleitores da macrofaixa de 21 a 39 anos representavam 719.515 eleitores em 2016. Passou para 808.397 em novembro último. O índice de inadimplência nas urnas passou de 151.760 eleitores em 2016 para 201.318 em 2020. Resultado? Subiu de 26,73% para 33,16% do total dos votos.  Um crescimento relativo de 18,06%. Os eleitores dessa macrofaixa etária representam 38,75% do eleitorado regional.  

Completando as macrofaixas no Grande ABC, entre 40 a 59 anos, o total de 729.521 eleitores em 2016 foi reduzido para 727.265 mil em 2020. As abstenções de 103.291 em 2016 saltaram para 128.875 quatro anos depois. Os 16,49% de inadimplentes em 2016, sempre em relação ao total de habilitados a votar, passaram para 21,53% no ano passado. Um crescimento do déficit democrático-eleitoral de 30,56%. Os eleitores dessa macrofaixa etária representam 34,86% do eleitorado regional.  

Dados metabolizados  

Os dados brutos que permitiram a produção dessa breve análise sobre o comportamento do eleitorado no Grande ABC nos dois períodos foram publicados na edição de domingo do Diário do Grande ABC. O jornal publicou como manchetíssima da edição (manchete das manchetes de primeira página) um texto incompleto e impreciso. Mas os dados foram metabolizados para esta edição em forma de interpretação fundamentada. O espírito da matéria original ganhou a forma de chave de ignição ao uso dos dados. Daí à entrada em campo de um ombudsman não-autorizado, como em tantas outras vezes, foi um pulinho.  

O Diário do Grande ABC errou por pouco nas contas sobre o índice de inadimplência dos jovens e ignorou alarmantemente as demais macrofaixas em material jornalístico limitado à informação básica. Errou nas contas dos jovens que deixaram de comparecer às urnas porque desconsiderou os valores absolutos de cadastramento e abstenção relativamente aos dois períodos eleitorais. Foram apenas dois pontos percentuais de diferença, para baixo.  

O ponto central da abordagem que diferencia o noticiário do Diário do Grande ABC inspirador desta análise é que o recorte do jornal se fixou na microfaixa etária de 18 e 19 anos, enquanto CapitalSocial optou pela macrofaixa de 16 a 20 anos. E também pelas demais macrofaixas, descartadas pelo jornal e consideradas, nesta análise, essenciais à avaliação do comportamento do eleitorado registrado e as respectivas inadimplências.  

Desencanto e medo 

A principal constatação, que está na manchetíssima desta edição e que poderia ser uma manchetíssima muito mais abrangente do Diário do Grande ABC, conecta a explosão do eleitorado jovem de repulsa às urnas aos efeitos emocionais do vírus chinês na população idosa.  

São duas situações distintas, mas complementares: o desencanto da juventude que mal chegou aos 20 anos com o sistema político-partidário nacional e os estragos do Coronavírus numa região que está entre as primeiras colocadas no ranking de letalidade no País. São Caetano puxa a fila com o dobro de casos fatais em relação à média nacional, quando a conta correta de óbitos por 100 mil habitantes é obedecida.  

Para que esta análise fosse ainda mais completa estão faltando dados agregados por macrofaixas etárias do País. O Diário do Grande ABC não me forneceu essa escadinha analítica. Não farei especulação comparativa, mas parece lógico sugerir que o quadro nacional não difere substancialmente do movimento dos números do Grande ABC.  

Nossa classe política, o desencanto econômico com um País que patina ao longo de décadas e os estragos do vírus chinês sufocam qualquer grito de triunfalismo em defesa de eventuais ilhas de competência e prosperidade.



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