Nosso Século XXI (1ª Ed.)

Não podemos ficar ao
sabor dos ventos

  JORGE HEREDA - 14/07/2001

O Grande ABC é produto de decisões tomadas fora de seu território. Foi assim quando transferiram a Vila de Santo André da Borda do Campo para criar a atual cidade de São Paulo. Com isso, nossa região passou a ser local de ligação de São Paulo ao Porto de Santos, determinando o lugar que o Grande ABC ocupa hoje na Região Metropolitana. No ciclo do café, com a implantação da ferrovia, o Grande ABC viu surgir as bases de seu tecido urbano, formado no entorno das estações da via férrea. Com o processo de metropolização de São Paulo, o atual aglomerado urbano consolidou-se e a construção da Represa Billings, a Lei Estadual de Proteção aos Mananciais e a implantação das vias Anchieta e Imigrantes moldaram o Grande ABC de hoje.

Os efeitos da globalização que se intensificaram nos anos 90 mergulharam a região, junto com o País, numa crise que teve como principal consequência altos índices de desemprego. Contudo, o Grande ABC reagiu e entrou no século XXI mantendo a posição de maior aglomeração industrial da América Latina, articulando-se através de instituições como o Consórcio Intermunicipal, Fórum da Cidadania, Câmara Regional e Agência de Desenvolvimento Econômico — importantes ferramentas para aumentar o poder de gestão do seu futuro.

A região ainda não superou as causas estruturais de sua crise. Nesse sentido, é necessário vencer dois desafios complementares entre si: manter o desempenho econômico e reverter a condição de periferia urbana. Para isso, entre outros aspectos, é preciso desenvolver o potencial das áreas ambientalmente protegidas e, dessa forma, gerar trabalho e renda para a população. O Grande ABC não é uma ilha perdida num mundo globalizado. Seu futuro depende da capacidade de ir além de suas fronteiras e aumentar a governabilidade sobre decisões que afetam seu destino.

Fatos históricos 

Nos primeiros séculos de colonização, a evolução urbana no Brasil esteve ligada à exploração econômica do seu território. A atual região do Grande ABC era conhecida como Borda do Campo por situar-se entre a Serra do Mar e a região dos campos. Em 1553 foi fundada a Vila de Santo André da Borda do Campo. Sete anos depois, a Vila foi transferida para as vizinhanças do Colégio São Paulo e deu origem à cidade de São Paulo.

O Grande ABC torna-se, então, área de passagem para os que circulavam em direção ao litoral — o caminho do mar, por onde passavam as tropas no lombo de burro que abasteciam a cidade. A Vila de São Paulo e povoações do entorno eram as bases das atividades de penetração no território durante os séculos XVI e XVII. No século XVIII e metade do XIX, o entorno de São Paulo produzia apenas para sua subsistência, além da lavoura canavieira que abastecia a zona da mineração. Como parte desse entorno, a região da Borda do Campo contava com fazendas de produtos agrícolas, pecuária, tijolos e telhas e pequenos povoados formavam-se nos arredores das capelas.

No século XIX, o capital disponível com o fim do tráfico de escravos voltou-se para atividades urbanas industriais. São Paulo, a Metrópole do Café, já possuía cerca de 240 mil habitantes. Enquanto isso, em 1865, a Borda do Campo sofria o impacto da São Paulo Railway (Estrada de Ferro Santos-Jundiaí), construída para escoar a produção cafeeira do Interior de São Paulo. Com o despovoamento dos arredores de São Paulo e a necessidade de incrementar a produção agrícola, o governo imperial implantou em 1877 duas colônias de imigrantes no Grande ABC, em São Caetano e em São Bernardo. Foram assentados principalmente colonos italianos.

Mais fatos históricos 

Em 1886, na Freguesia de São Bernardo, da população de 3.667 habitantes, cerca de 30% eram de colonos. Com a construção da Estação Ribeirão Pires, em 1887, novo núcleo colonial foi criado junto à ferrovia.

Em 1833, a São Paulo Railway inaugurou as estações do Pilar (hoje, Mauá) e a de São Caetano, próximas ao núcleo colonial existente, e a estação Campo Grande, em 1889. O Grande ABC transformou-se em Município em 12 de março de 1899. No final do século XIX, São Paulo recebia indústrias de transformação de produtos agrícolas, principalmente ao longo da linha férrea, no Bairro do Ipiranga e nos subúrbios de São Caetano e São Bernardo. São Paulo entrou no século XX em franco crescimento, atingindo nos anos 20 cerca de 600 mil habitantes. A economia cafeeira apresentava sinais de retração, agravada com a crise da Bolsa de Nova York. Nos anos 30, inaugurou-se a primeira fase da política de substituição de importações (1930-1956) especialmente no Estado de São Paulo. Nos anos 50, com a implementação do Plano de Metas no governo JK, consolida-se essa política. O Brasil recebia indústrias de bens de capital e de consumo duráveis, processo que se intensificou no período do Milagre Brasileiro (pós 1964).

Urbanização acelerada 

São Paulo como metrópole industrial continuou crescendo, a despeito das guerras mundiais e crises econômicas da primeira metade do século. O novo padrão de acumulação produziu consequências marcantes, entre as quais a urbanização acelerada. Em 1950, a cidade de São Paulo tinha mais de dois milhões de habitantes. No Grande ABC de 1938, São Caetano possuía 69 fábricas, Santo André, 72, e São Bernardo, 37. A expansão industrial trouxe população que se instalou em loteamentos nos arredores dos centros urbanos. Nesse mesmo ano, o Grande ABC trocou de nome para Santo André e contava com cinco distritos. A sede em torno da estação São Bernardo (agora Santo André), São Bernardo, Mauá, Ribeirão Pires e Paranapiacaba.

Em 1940, a população de Santo André chegava perto de 90 mil pessoas. Em 1950, já era de aproximadamente 250 mil habitantes. O distrito de Ribeirão Pires funcionava como área de lazer e recreação da região e da população santista. Essa tendência vinha se acentuando desde a formação da Represa Billings, em 1928. A Via Anchieta, implantada na segunda metade da década de 40, impulsionou o desenvolvimento da região onde hoje é São Bernardo.

Desmembramento territorial 

De 1945 a 1963 o Grande ABC se desmembrou em sete municípios: São Bernardo do Campo (1945), São Caetano (1948), Mauá e Ribeirão Pires (1953), Diadema (1958) e Rio Grande da Serra (1963).

Nos anos 70 surgiu no Brasil uma indústria complexa e diversificada e o País aumentou sua participação na economia mundial. O Grande ABC participou de maneira importante desse processo. Foi também nesse momento que se iniciou o movimento de desconcentração industrial (Plano Nacional de Desenvolvimento). Nos anos 80, a cidade de São Paulo firmava-se como metrópole nacional. O Grande ABC reunia, então, 4.277 estabelecimentos industriais.

A dinâmica econômica da Grande São Paulo gerou dinâmica urbana acelerada. O Grande ABC, como parte da metrópole, também se urbanizou. Cresceu durante os anos 60 e 70 a índices superiores aos da Região Metropolitana e do País.

Segundo dados do IBGE, Diadema cresceu mais de 25 vezes durante esse período. Nos anos 60 apresentou expansão de 20,42% ao ano. Santo André e São Caetano acompanharam os índices de crescimento da metrópole. Os demais municípios seguiram a tendência de Diadema, embora de maneira menos acelerada. São Bernardo aumentou em sete vezes a população no período. Mauá, mais de 10 vezes. Rio Grande da Serra, 7,5 vezes, e Ribeirão Pires cinco vezes.

Periferização regional 

O processo de periferização do Grande ABC expandiu-se nos anos 90. Entre 1991 e 1996, com exceção de São Bernardo — que aumentou seu índice de crescimento anual de 2,4% nos anos 80 para 3,15% nos cinco primeiros anos de 90 –, todos os demais municípios mantiveram a tendência de queda demográfica observada desde a década de 80. Contudo, é possível verificar um movimento de pressão populacional em direção das áreas de proteção aos mananciais. Enquanto Rio Grande da Serra (3,1%), Mauá (3,11%), São Bernardo (3,15%) e Ribeirão Pires (2,82%) cresceram a índices em média duas vezes superiores aos observados na Região Metropolitana (1,46%), Diadema (1,16%), Santo André (0,28%) e São Caetano (-1,35%) apresentaram crescimentos inferiores.

Nos anos 90 novas formas de acumulação de capital tornaram-se dominantes. Trata-se da economia global, que funciona em tempo real em escala planetária, possibilitada pelas tecnologias de informação e comunicação. Produzem-se componentes em qualquer parte do mundo e os custos com transporte aumentam apenas de 5% a 10% o preço do produto. Esse processo concentra ainda mais a riqueza. A própria ONU admite que a globalização tem deixado os ricos mais ricos e os pobres mais pobres. Os 447 bilionários que existem no mundo têm renda equivalente à metade mais pobre da população mundial — cerca de 2,8 bilhões de pessoas.

Nesse processo, o Estado-nação se enfraquece, principalmente como regulador de um mercado descontrolado. Em 1997, 50 das 100 maiores economias do mundo eram megaempresas que decidiam o que, onde e como produzir. Por outro lado, o capital volátil globalizado movimenta diariamente de US$ 2 trilhões a US$ 3 trilhões, mais ou menos cinco vezes o PIB do Brasil.

Barreiras alfandegárias 

O relatório de 1997 das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Humano afirma que, devido à globalização, os países menos adiantados podem perder até US$ 600 milhões por ano e a África, ao sul do Saara, US$ 1,2 bilhão. Segundo a ONU, as causas são as barreiras alfandegárias mais restritivas aos produtos exportados pelos países do Terceiro Mundo e a lei de proteção de patentes, que dificulta o acesso dos mais pobres às novas tecnologias. É fácil imaginar que sendo a Grande São Paulo, e em especial o Grande ABC, a região mais industrializada da América Latina, é também a que mais sofre com essa realidade.

O desemprego no Grande ABC chegou a 23% em agosto de 1999 e o emprego formal caiu 28% entre 1990 e 1996. Mais de 100 mil postos foram perdidos na indústria e apenas pouco mais de nove mil foram criados no setor de serviços. A indústria — responsável em 1990 por 54,26% do emprego formal — teve participação reduzida para 45,83% em 1996. Entre 1988 e 1992 a renda média familiar caiu 33% e os pedidos de falência subiram de 213, em 1990, para 1.347 em 1992.

As pessoas vivem nos municípios e esperam respostas para as demandas do dia-a-dia. Mas os municípios também sofrem com as crises econômicas e com os efeitos sociais. Na conjuntura mundial, a política econômica ditada pelo governo central, muitas vezes de forma autoritária, repercute nos municípios e causa diminuição das atividades produtivas e desemprego e, quase sempre, utiliza medidas que concentram recursos nas mãos da União (tipo Fundo de Estabilização Fiscal, entre outros), ferindo o espírito da Constituição de 1988 e o pacto federativo.

Efeito cascata 

O desemprego aumenta a demanda por serviços públicos e inviabiliza o pagamento de impostos municipais. A diminuição da atividade econômica leva à queda da arrecadação, comprometendo a capacidade de investimento e a condição de prestar serviços à comunidade. Para agravar o problema, os municípios vivem às voltas com dívidas acumuladas. No Grande ABC, as prefeituras devem cerca de R$ 1,5 bilhão, o equivalente a 80% de seus orçamentos. Vivem, por isso, sob ameaças de intervenção.

Entretanto, o Grande ABC entra no século XXI inserido numa das maiores metrópoles mundiais. Uma megacidade, policêntrica e complexa. A Grande São Paulo é o que se convencionou chamar de cidade global ou cidade mundial, centros mundiais de comando da nova economia global. A despeito do avanço das telecomunicações e da informática, que caracterizam a nova fase da acumulação capitalista, os assentamentos humanos sempre guardaram relação com as redes básicas de comunicação e transporte. O transporte por tração animal e seus limites determinaram, por muito tempo, a conformação espacial das cidades até a chegada da máquina a vapor, das ferrovias e do automóvel.

O Grande ABC confirma essa regra, mas hoje a noção de tempo e espaço toma outra dimensão, interferindo na economia e na vida nas cidades. O poder de atração de uma metrópole estava vinculado à proximidade espacial. Hoje, quando se fala de metrópoles mundiais (cidades globais), fala-se de núcleos urbanos que podem influenciar todo o planeta. No Brasil, cidades como São Paulo em alguns aspectos já estão inseridas nessa lógica. Em outros aspectos, amargam séculos de atraso. São cidades produzidas pela lógica excludente que permeia a sociedade e que, portanto, não podem refletir outra realidade.

Universo metropolitano 

São Paulo também convive com a cidade real, ilegal, oculta. O Grande ABC, com 2,3 milhões de habitantes, faz parte desse universo. Ninguém vive na periferia de uma metrópole impunemente. Não se pode, apenas por um ato de vontade, considerar-se liberto do seu poder de atração. Sendo assim, o Grande ABC, mesmo sendo região homogênea, não é por si só uma região metropolitana. Vive sob influência da metrópole não só pela economia, mas pelas características urbanas.

A urbanização acelerada é marca da evolução da região. A qualidade do ambiente urbano tem a ver com esse processo. Podemos verificar o que gerou o aspecto de periferia se compararmos o tecido urbano de Santo André e de São Caetano — primeiros núcleos a se urbanizarem e que tiveram crescimento mais lento — com os de Diadema, Mauá ou parte de São Bernardo, que cresceram a índices muitos altos entre as décadas de 60 e 70. As mais de 192 favelas de Diadema, os loteamentos irregulares, inclusive nas áreas protegidas, e até os cortiços de São Caetano confirmam esse modelo.

Esse é o retrato da exclusão social e espacial que caracteriza as cidades brasileiras. Por isso se diz que o Grande ABC ocupa papel de vanguarda econômica da metrópole e, ao mesmo tempo, amarga a posição de periferia urbana. Uma das características do Grande ABC é seu poder de mobilização. A contribuição dos sindicatos da região para o processo de redemocratização do País demonstra isso. 

Articulações múltiplas

Durante a década de 90 surgiram na região articulações de diversos segmentos da sociedade com objetivo de tirar o Grande ABC da crise. Os sete municípios se organizam em 1991 no Consórcio Intermunicipal, em 1995 foi criado o Fórum da Cidadania e, em 1997, a Câmara Regional. Surgiram no vácuo do fracasso do modelo de gestão regional que instituiu as regiões metropolitanas no Brasil, entre as quais a de São Paulo. Na prática, o Grande ABC deixou de ser tratado como região de planejamento e teve que se relacionar isoladamente com cada segmento do governo do Estado. Essas articulações foram a maneira encontrada para encaminhar questões comuns.

Desde a criação da Câmara Regional já foram assinados 43 acordos, que vão desde obras de melhorais de infra-estrutura regional até alfabetização de adultos. Um desses acordos criou a Agência de Desenvolvimento Econômico do Grande ABC.

Em 1999, a Câmara Regional dedicou-se ao planejamento estratégico iniciado em 1997. Com o diagnóstico da região, definiu o cenário de futuro desejado e estabeleceram-se os eixos estruturantes para os quais foram elencadas ações estratégicas. Os eixos apontam caminhos importantes para superar a crise — Educação e tecnologia; Sustentabilidade das áreas de mananciais; Acessibilidade e infra-estrutura; Diversificação e fortalecimento das cadeias produtivas; Ambiente urbano com qualidade; Identidade regional e estruturas institucionais; e Inclusão social.

Começo do reação 

Terceiro mercado potencial de consumo do País, o Grande ABC está reagindo. Nos últimos meses verificou-se maior euforia fundamentada no crescimento recente da produção industrial e na queda do índice de desemprego. Por outro lado, os municípios também foram alvo de boas notícias. Em 1999, a revista Exame estabeleceu ranking dos 100 melhores municípios para receber investimentos no Brasil e o Grande ABC classificou quatro: São Bernardo, São Caetano, Santo André e Ribeirão Pires.

No que se refere à qualidade do espaço urbano, há nova postura de municípios da região que têm feito esforços para requalificar centros e bairros, contribuindo para melhorar o ambiente urbano, mesmo com limites orçamentários. Parte da infra-estrutura regional começa a ser melhorada como fruto dos acordos assinados na Câmara Regional. Com tudo isso, devemos encarar com cautela esses resultados, pois há ainda pouca governabilidade do processo. O câmbio mais favorável à exportação e taxas de juros mais razoáveis, além de certa estabilidade macroeconômica, estão por trás da performance recente da indústria no Grande ABC e no País, contribuindo diretamente para a queda do desemprego.

Esse fato atinge também micro e pequenas empresas e o comércio. Contudo, há de se ter o equilíbrio necessário para evitar comportar-se como aquele doente que parou de tomar remédio ao primeiro sintoma de melhora, tornando a doença crônica e o remédio, inócuo. 

Dois desafios claros 

O diagnóstico produzido na Câmara Regional enfatiza que o desafio é conseguir manter o nível de atividade econômica e reverter a imagem de periferia urbana da região. O que acontece hoje no Grande ABC demonstra a força da indústria que, quando encontra ambiente favorável, consegue reagir. Contudo, crises como a da Argentina podem trazer de volta o transtorno.

As causas dos males que afligem a região são estruturais e têm duas origens. Uma é externa: são decisões tomadas fora, como definição da política macroeconômica do governo federal, decisões de empresas transnacionais ou mesmo impactos de crises como a que a Argentina vive. E causas internas, como as deseconomias de aglomeração (enchentes, congestionamentos de tráfego, saturação da infra-estrutura local) que, em parte, compõem o polêmico Custo ABC. O nível de governabilidade da região sobre essas decisões varia em função da proximidade das esferas de decisão que as originaram. Quanto mais distantes (exógenas) forem, mais articulação política demandarão. Sobre as mais próximas (endógenas) é possível ter-se mais governabilidade, o que não elimina também a necessidade de articulação política.

A Câmara Regional é a melhor ferramenta de que dispomos, pois pode suprir o vazio institucional de gestão metropolitana e construir novo modelo democrático e plural, cuja eficiência dependerá da capacidade de mobilizar a sociedade. Com essa ferramenta se pode construir o caminho de consenso para que possamos navegar com o máximo de tranquilidade possível nesse mar revolto da nova (des) ordem mundial.

Ainda distantes 

O desempenho da Câmara Regional nos últimos três anos a credencia para isso. Contudo, estamos distantes da performance necessária para interferir de maneira decisiva no futuro. É preciso consolidar a participação (pouco uniforme) dos segmentos que a compõem. A Câmara Regional precisa mobilizar ou, no mínimo, dialogar com toda a sociedade. Também deve articular-se com São Paulo e demais municípios da Região Metropolitana, além de se firmar como interlocutora do governo federal, o grande ausente, o que demanda representação parlamentar articulada em todos os níveis.

Outro problema a ser resolvido é a fraca participação das principais empresas da cadeia automotiva, uma das maiores fragilidades da Câmara Regional. As primeiras análises da Paep (Pesquisa da Atividade Econômica Paulista), realizadas por Seade/Dieese/Consórcio, afirmam que as maiores indústrias da região são as que mais empregam e as que mais investiram em inovações nos últimos anos. É evidente que, se esse setor não for partícipe, a governabilidade da Câmara diminui.

Quanto à capacidade operacional, Câmara, Consórcio e Agência de Desenvolvimento Econômico necessitam de recursos e de técnicos em quantidade suficiente para encaminhar as decisões tomadas pelos agentes políticos das diversas instâncias. Essas entidades não podem depender da boa vontade de pessoas extremamente ocupadas que não possuem tempo para tarefas cotidianas.

Essa articulação depende também de recursos financeiros que podem vir de um Fundo de Desenvolvimento Regional. Além disso, a Câmara Regional precisa ter força para redirecionar a capacidade de investimento nas diversas esferas de governo e da iniciativa privada, além de buscar novas fontes de financiamentos para eliminar as deseconomias de aglomeração que começam a comprometer nossas vantagens locacionais.

Planejamento Estratégico 

Tudo isso só será possível com o fortalecimento do processo de Planejamento Estratégico Regional e se conseguir articular não só os acordos possíveis, mas os necessários. É preciso constituir um novo paradigma, inclusive urbano, que mexa com o inconsciente coletivo e que faça a população se identificar com a região e se tornar protagonista das mudanças. A Câmara Regional ainda circula com limitações nos níveis dos formadores de opinião. O Fórum da Cidadania, embora interlocutor importante no processo, não pode ser o único canal de diálogo com a sociedade. Existem movimentos sociais organizados (como os de habitação, saúde e educação, entre outros) ou mesmo os conselhos setoriais que precisam estar contemplados.

Com a Câmara Regional funcionando em todo o seu potencial, é possível enfrentar o primeiro desafio, que é manter a pujança econômica da região. É consenso a necessidade de manter a produção industrial e que o modelo fordista vertical, que está no cerne da nossa estrutura industrial, está em crise. Por isso, é necessário introduzir flexibilidade ao sistema e criar estruturas mais horizontais. Redes de pequenas e médias empresas de base tecnológica devem conviver com as tradicionais, num ambiente de cooperação que as fortaleçam para competir.

Mesmo não sendo possível abandonar completamente o antigo modelo fordista, devemos diversificar nosso perfil. Um modelo flexível poderá reduzir o desemprego que tende a continuar crescendo nas grandes indústrias — a maioria de capital intensivo e que utiliza menos mão-de-obra –, embora ainda sejam as que mais empregam em números absolutos.

Mesmo não sendo possível prescindir dos postos de trabalho que as indústrias oferecem, não é prudente apostar que o crescimento do setor possa automaticamente gerar os empregos de que a região necessita. A criação de postos de trabalho de qualidade é a principal ação de inclusão social. Por isso, o combate ao desemprego deve ser a prioridade, incorporando ações de associativismo e outras iniciativas não convencionais de geração de renda.

Região como um todo 

Também é preciso ampliar e aferir a eficiência dos programas de requalificação profissional. Mesmo sendo de bom nível, a mão-de-obra do Grande ABC precisa aumentar o grau de escolaridade e adaptar-se às inovações tecnológicas e ao setor terciário. O futuro do Grande ABC depende da capacidade de se olhar para a região como um todo e não somente para a parte mais industrializada, densa, onde estão majoritariamente as chaminés das fábricas em 44% do seu território. Mais da metade do Grande ABC (56%) possui potencial de desenvolvimento sustentável ainda não descoberto. Excetuando São Caetano, os demais municípios têm parte ou toda superfície como Área de Proteção aos Mananciais.

Considerando que numa área conurbada como o Grande ABC as pessoas trabalham, moram, estudam e se divertem muitas vezes em municípios diferentes, é possível afirmar que todos têm a ganhar com essa descoberta.

As alternativas são muitas dentro dos princípios da conservação ambiental e da manutenção da qualidade de vida diferenciada que essas áreas oferecem. O turismo em suas diversas variantes (negócios, ecológico, religioso etc.) pode ser uma opção econômica.

Commodities ambientais 

Outras potencialidades da região são as commodities ambientais: água, energia, ar (emissão de poluentes), reciclagem e minério, entre outros, também conhecidos como ecobusiness, ecopapers ou ecosecurity. Já existe proposta de criação da Bolsa Brasileira de Commodities Ambientais.

As restrições de ocupação das áreas protegidas do Grande ABC são para garantir a preservação da água ao consumo humano, principalmente na Bacia da Billings, mas a produção de água potável pode ser atividade rendosa. O Relatório de Regularização da Atividade Mineraria em Ribeirão Pires, realizado pelo IPT para a Prefeitura, comprova esse potencial. Considerando cálculos conservadores e tomando como base as informações do IPT, Ribeirão Pires tem potencial aproximado de mais de R$ 30 milhões/ano só com a comercialização de água mineral, o que pode gerar cerca de 300 empregos.

No Planejamento Estratégico de 1999, já se tem como eixo estruturante a sustentabilidade das áreas de mananciais, além do esforço do Subcomitê de Bacia Billings-Tamanduateí para regulamentar a nova Lei de Proteção aos Mananciais. Entretanto, essas iniciativas ainda não contam com empenho de todo o Grande ABC. Há municípios que não têm essas ações como prioritárias. 

Sociedade participativa 

A sociedade civil também precisa fazer sua parte e o governo do Estado não tem demonstrado interesse nesses temas. Rever a legislação significa preparar a região para realizar seu potencial de desenvolvimento. Ou se encara isso como prioridade ou não adianta fazer discussões intermináveis enquanto mais da metade do território fica impedido de se desenvolver. Desatar esse nó é abrir novas perspectivas para o século XXI. É agregar forças para enfrentar a crise e para ampliar a governabilidade do Grande ABC sobre o seu futuro.

Seria bom ainda se a região tivesse a maturidade necessária para discriminar positivamente as áreas dos mananciais e priorizá-las para receber os investimentos possíveis, mesmo que isso tenha de acontecer em detrimento das demais. Tratar desiguais como iguais é deixar boa parte da região sem perspectivas para o século XXI. O outro desafio é superar a baixa qualidade do espaço produzido pela urbanização acelerada.

A posição de cidades periféricas sob o ponto de vista geográfico não é necessariamente negativa. Desde a segunda metade da década de 80, há tendência de mudança para as cidades médias próximas aos grandes centros na busca de vida mais tranqüila e segura. Essas cidades cresceram a taxas anuais de 4,8% na década de 80, enquanto as metrópoles avançavam a 1,98%. Se a localização geográfica não é determinante, é justamente na área mais periférica que se dá a expansão homogênea da pobreza, normalmente gerada pela expulsão das áreas centrais. O que caracteriza a condição de periferia que o Grande ABC busca superar é a baixa qualidade do ambiente urbano.

Pode-se contrapor a essa lógica oferecendo qualidade de vida a quem busca morar em baixas densidades junto ao verde, o que é uma vantagem locacional importante. Além disso, a região pode se constituir numa nova centralidade na lógica da metrópole. O Projeto Tamanduatehy é exemplo disso, mas para ser legitimado precisa ser construído coletivamente e seus impactos considerados no planejamento regional. Um projeto dessa envergadura deve ter visão includente, onde caibam todos os segmentos da sociedade e não se torne um elemento indutor da expulsão da população mais pobre em direção às áreas protegidas.

As melhorias urbanas já iniciadas pelas prefeituras da região também são importantes. Requalificar os centros, inclusive de bairros e demais áreas públicas, é essencial para desencadear intervenção positiva de cada cidadão no espaço, de forma a garantir também a recuperação dos imóveis privados. Nesse sentido, dar alternativas de moradia à população de baixa renda também contribui para melhoria da qualidade urbanística. A conservação do patrimônio arquitetônico, artístico e cultural é importante nessa empreitada. Tudo isso melhora as condições gerais de segurança.

Gestão regional 

A cidade do Grande ABC que até 1944 era uma só precisa ser entendida como região, sem que cada Município abra mão de sua soberania. Devemos criar condições para que se estabeleçam diretrizes gerais ao desenvolvimento urbano de cada Município sintonizadas com todo o Grande ABC e a Região Metropolitana. Ou seja: criar condições institucionais necessárias à viabilização de uma gestão regional que entenda o Grande ABC como região de planejamento dentro da Grande São Paulo. É possível construir uma estrutura em rede que preserve os interesses e a vocação de cada Município e que consiga superar os limites administrativos.

No século XXI, o Grande ABC tem de aumentar a governabilidade sobre seu destino para não ficar completamente ao sabor dos ventos que por aqui sempre sopraram de fora para dentro. As condições existem. O futuro do Grande ABC é uma ação coletiva. Ou a sociedade local entende isso, ou o futuro a Deus pertence.

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