Nosso Século XXI (1ª Ed.)

Como enfrentar o
avanço tecnológico?

  ANGELO GAIARSA NETO - 15/07/2001

Lembro-me perfeitamente do final da década de 40, dois ou três anos após o fim da Segunda Guerra Mundial. Morávamos na Rua Senador Flaquer, esquina com a Francisco Amaro, no casarão onde vivi os primeiros 20 anos de vida. Hoje lá está uma agência bancária sobre a qual falarei mais adiante. Bem perto, na Rua Gertrudes de Lima, também esquina com a Francisco Amaro, ficava o Armazém Capochin, do seu Miguel, próspero comerciante de secos e molhados. Balcões de madeira, prateleiras também, tudo bem organizado e limpo. Estoque de quase todo o tipo de consumíveis, mas com baixa diversidade.

No balcão, uma balança mecânica e um cortador de frios, da marca Filizola. O óleo comestível era comercializado em garrafas envasadas a partir de um tambor enorme com cerca de 200 quilos. Grandes baias de madeira expunham arroz, feijão e farelo em sacos caprichosamente fechados com uma fita colante rudimentar à base de goma arábica. A fita Durex ainda não era conhecida.

Intrigava-me a precisão com a qual seu Miguel calculava o peso das coisas pedidas no balcão pelas freguesas. Na época, o termo cliente só era utilizado para designar pacientes dos médicos. Um quilo de café moído na hora, dois quilos de feijão, quatro quilos de arroz; enfim, lá ia ele separando, embalando. Na hora da balança as diferenças eram mínimas. Além de um empregado, seu Miguel era regularmente ajudado pela esposa e eventualmente pelas filhas mais velhas, Ivani e Regina, e pelo filho varão, Toninho. A filha caçula, Liliana, só olhava. Tudo era colocado em caixotes para as entregas em domicílio. Anotem: antes da era dos supermercados, o hoje tão popular delivery já era praticado pelo seu Miguel.

Contas penduradas 

São dessa época algumas marcas anunciadas no rádio, casos do sabonete Lifeboy (dava um automóvel de prêmio para quem achasse uma estrela dentro) e do café Jardim (promovia saquinhos com figuras de artistas da época, como Emilinha Borba, uma das Rainhas do Rádio).

Consequência do então recente pós-guerra, dinheiro era artigo raro e, em geral, as contas eram penduradas e acertadas ao final do mês, quando a maioria da freguesia recebia o salário. Tudo pago em dinheiro. Aí é que seu Miguel era craque no registro e controle das compras. Utilizava uma caderneta na qual as compras eram anotadas, somadas, conferidas e, pasmem, devolvidas para a freguesa. Na capa, o nome do cliente — melhor dizendo, freguês. Não existia o apoio de nenhuma máquina de calcular. Os registros eram todos feitos a lápis e as contas (somas de páginas) totalmente à mão. Erros? Raros de acontecer. Calotes? Apesar de a Acisa existir desde 1938, fundada por um grupo de comerciantes, entre os quais um tio meu — Dino Zanarolli — filho de seu Valentim, uma rua acima e concorrente de seu Miguel –, nem se sonhava com o SPC. O crédito era concedido na base da confiança, da palavra, do olho no olho. Para os potenciais canistas, seu Miguel tinha o cuidado de anotar o total da compra do dia em um livro à parte, para evitar que o mau freguês arrancasse páginas da caderneta a fim de diminuir o saldo devedor ao final do mês.

Com certeza o sistema primitivo e rudimentar do saudoso Miguel Capochin era bom. Apesar do grande volume de fiado, ele prosperou e deu bom padrão de vida aos filhos. Dos armazéns existentes no Centro de Santo André, foi um dos últimos a fechar.

Jumbo em Santo André 

Mais de 20 anos depois, lembro-me da pompa com a qual foi inaugurado o primeiro supermercado de Santo André, o Jumbo do Grupo Pão de Açúcar. Carrinhos para colocar as compras, gôndolas com famílias de produtos, displays das mercadorias mais vendidas; enfim, tudo era novidade, diferente, grandioso. Impressionou-me no dia da inauguração a frota de automóveis Mercedes-Benz dos Diniz, liderados pelo patriarca Valentim. A variedade de artigos era muito maior do que a do armazém do seu Miguel. Os frios já eram pré-cortados e embalados. Não se via mais artigos à granel como arroz, feijão etc, também pré-embalados. Check-outs também eram novidades — caixas registradoras modernas (elétricas) com máquinas de somar para apoio. Praticamente não havia crédito, a ponto de os supermercados prosperarem comprando a prazo e vendendo à vista, ganhando mais na aplicação do giro financeiro do que na comercialização propriamente dita.

Mas o delivery deu um tempo, fez nascer a indústria das Kombis que se postavam nas imediações para transportar mercadorias dos clientes que não tinham carro. Naquela época surgiram também as primeiras cooperativas de consumo (entre as quais a Cooperhodia, pioneira que incorporaria mais tarde a Cooperativa do ABC). Começava o consumo de massa, em que todos passam a ter um número, um código, uma avaliação; enfim um status diferenciado, regido pelas posses de cada um. A caderneta sumiu, a confiança do olho no olho deixou de existir e o freguês de caderneta passou a levar o dinheiro recebido no fim do mês para pagar a compra ou despesa.

Gradativamente, face ao progresso dos bancos, popularizou-se o uso dos cheques (ainda não pré-datados), dos cartões de crédito e dos vales fornecidos por empresas para desconto em folha. Nos últimos 10 anos, as cadeias globais de supermercados, em que poucas empresas com grande poder de fogo (capital, marketing, tecnologia) dominam o mercado, praticamente extinguiram os mercadinhos de bairro, sucessores dos saudosos armazéns. Faz menos de cinco anos que timidamente se iniciou a experiência pioneira do Pão de Açúcar no Guarujá, onde garotas uniformizadas e em peruas nas praias transmitiam pedidos por telefone e davam início à efetiva era do delivery.

Aumentam as opções 

A partir daí, o ponto-de-venda passou a se deslocar. Está hoje no terminal do computador do comprador. Existem inúmeras modalidades de pedidos e formas de pagamento. A disponibilidade de produtos, a rapidez do check-out e as entregas em domicílio passaram a pesar significativamente na decisão da modalidade de compra e na forma de pagamento.

Tudo isso reúne naturalmente grande retaguarda de processos informatizados, que envolve contínua e crescentemente o uso da melhor tecnologia. As grandes redes de supermercados apresentam constante evolução. A nossa Coop, entre os nove maiores grupos da atividade no Brasil, mantém o espírito de cooperativismo sem descuidar do uso da melhor tecnologia. Exemplo recente foi visto quando da inauguração da nova loja da Coop em Mauá. Além de logística, foram alocados recursos de ponta nos terminais de caixa, com visual, funcionalidade e eficiência de Primeiro Mundo.

Com o crescente uso da Internet e a popularização do delivery, novo ciclo de profundas mudanças se iniciou. Gradativa, contínua e crescentemente, consumidores passam a fazer suas compras sem sair de casa, premidos por circunstâncias de custo, tempo de locomoção, segurança e comodidade. Além do uso de computador, telefone e Internet, outros eletrodomésticos estarão se incorporando aos hábitos de consumidor higt tech.

Tempos atrás, em uma das feiras de tecnologia de informação foram vistos os primeiros modelos de geladeiras inteligentes, um híbrido entre refrigerador e computador. Com isso, o trabalho da dona de casa para prever e realizar compras estará muito facilitado. Será avisada, por exemplo, de que alguns artigos armazenados estão com data de validade estourando. Os estoques da casa serão atualizados e as necessidades de reposição estarão no vídeo da geladeira! Bastará um toque no botãozinho que tem um envelope (e-mail) e a encomenda poderá ser feita sem abrir a geladeira, sem tirar o telefone do gancho, sem ligar o computador e, principalmente, sem sair de casa. Acoplada a outros eletrodomésticos que também se tornarão inteligentes e integrados entre si e aos demais itens de soluções inteligentes para o lar, essas facilidades possibilitarão mais tempo de lazer e menos tempo despendido com compras domésticas.

Monitoramento de compras 

Podemos também prever que, além das donas da casa (que terão senhas de acesso seletivo ao fornecedor de consumíveis domésticos), os filhos e a empregada terão liberados os níveis de compras, tudo monitorado pelo chefe da família. O consumo de cada membro da família será registrado e controlado pela frequência da abertura da porta da geladeira. Aqui em casa, por exemplo, dona Lúcia saberá que o suprimento de iogurte de morango, previsto para uma semana, foi consumido em duas noites pelo autor destas linhas e seu filho, inveterados ratos de geladeira. A empregada, até então a vítima preferida, será (na maioria das vezes) inocentada.

A consequência inevitável é que também mudará radicalmente o perfil dos supermercados e de toda a cadeia de suprimentos. Assim, os grandes supermercados, que fizeram desaparecer pequenos estabelecimentos como o armazém do seu Miguel, também mudarão ou desaparecerão. Em seu lugar surgirão enormes estruturas de logística integrada, onde qualquer artigo de consumo será pesquisado, selecionado, pedido, sortido, comprado, pago e entregue com velocidade e qualidade crescentes e menores preços. Quase tudo poderá ser adquirido diretamente das fontes produtoras, aparelhadas para oferecer diversidade e qualidade, conforme o perfil de cada consumidor.

Hoje existem CDs, livros e outros artigos de consumo comercializados diretamente entre a fonte produtora e o consumo. A Blockbuster já iniciou a entrega de filmes sob encomenda através de computadores ou mesmo de televisores de clientes alimentados por linhas telefônicas de alta velocidade.

Os sites das montadoras de veículos e de grupos de revendedores iniciaram programas em que o consumidor monta virtualmente o veículo de sua preferência, faz o pedido, escolhe a modalidade de financiamento ou a forma de pagamento, licencia-o e recebe-o no local, dia e hora a escolher. Tudo sem sair de casa, sem ter de aguardar a liberação do crédito na financiadora ou no banco, que estarão integrados ao fabricante ou revendedor.

Consumidor em contato imediato 

As formas de pagamento evoluirão igualmente para um meio padronizado de processamento remoto (imagine um celular na forma e tamanho parecido com algo como um relógio de pulso de hoje) que, por comunicação sem fio (wireless ou rádio), colocará o consumidor diretamente em contato com qualquer tipo de fornecedor, inclusive dos meios de pagamento. Nessas condições, se investidor fosse, fugiria de qualquer atividade de intermediação entre o fabricante de um bem qualquer e o consumidor, exceto as de logística e de pagamento do bem.

Recordo-me de um senhor simpático, mas sério, comunicativo sem ser muito falante, afável sem ser bajulador e, acima de tudo, conhecedor profundo do seu metier — gerente de banco das décadas de 50 e 60. Refiro-me ao senhor Carneiro, gerente da agência do Banco Mercantil de São Paulo, na Rua Coronel Oliveira Lima.

Fazer depósito ou sacar cheque constituía-se ritual semanal de que meu pai me incumbia porque a atividade de médico de família (clínico-geral) com 10 a 12 horas de atendimento não lhe permitia. As grades da porta do banco continham o brasão BMSP (Banco Mercantil de São Paulo) de letras entrelaçadas em dourado com fundo preto. O mesmo logotipo estava estampado nas vistosas e grandes fichas de metal — as senhas de atendimento dos clientes — com furos e números, entregues no balcão logo que chegávamos à agência. Os balcões eram austeros, em madeira escura entalhada, de acordo com o mobiliário da época.

Processo de pagamento 

Sentado em um dos bancos destinados à espera dos clientes, meu espírito de observação juvenil me fazia acompanhar atentamente o processo de pagamento de um cheque. Primeiramente era protocolado (bilhete afixado com o mesmo número da senha de metal) e passado pela balconista para a encarregada de verificação de assinaturas. Ela pesquisava um arquivo de gavetas com milhares de fichas de assinatura, liberando (desde que a assinatura do cheque fosse razoavelmente semelhante à contida no cartão) para o encarregado da conta corrente. Ao encarregado competia localizar a ficha de conta corrente do titular do cheque, conferir os dados e lançar o cheque a débito da conta mediante enorme equipamento, misto de máquina de calcular e escrever, muito em voga na época. A ficha de conta corrente (igualmente enorme) era preenchida em duas vias (carbonadas) e encaminhada em seguida ao subcontador junto com o cheque. O subcontador era incumbido de conferir tudo novamente. Vistava o cheque, a ficha de assinatura e o folhão da conta corrente. Daí, finalmente, liberava então o cheque para pagamento, enquanto guardava a ficha de assinatura e o folhão da conta corrente. Como o número de caixas era restrito, um ou dois por agência, havia a espera pelo fluxo de outros clientes. Em geral eram depositantes e pagadores de pequenas e grandes contas, feitas geralmente em dinheiro. Finalmente, mediante o chamado verbal do caixa, entregava-se a ficha da senha e, após o ritual de conferência do cheque e do valor a ser pago, o funcionário nos entregava a quantia correspondente. A operação levava normalmente entre 20 minutos e meia hora, tempo considerado bom para os padrões da época. Fora a função do gerente (o seu Carneiro, sempre gentil e solícito!), a do caixa era a de maior importância do banco, dada a responsabilidade implícita.

Os processos bancários foram evoluindo. No Grande ABC, como em todo o Brasil, foram criados mecanismos (câmara de compensação, gravadores e leitores de caracteres magnéticos nos cheques, Conselho Nacional de Automação Bancária) que, juntamente com os centros de computação em constante evolução em tamanho e tecnologia, tornaram o pagamento de cheque operação rápida, segura e corriqueira. O Brasil pode se orgulhar de possuir um dos melhores sistemas de automação bancária do planeta.

Testemunha dos fatos 

Fui testemunha dessa evolução deflagrada no final da década de 70, quando dois dos maiores bancos do País começaram a investir maciçamente na modernização. Surgiram agências pioneiras que aliaram o uso on-line de sistemas de computação com os caixas.

As companhias públicas de água, energia, telefone e luz acompanharam a evolução ao simplificar e integrar os processos de pagamento de contas à evolução da automação bancária. No início da década de 80, a CTBC (onde atuamos como responsáveis pela atividade de informática) foi pioneira na implantação nacional do débito automático das contas de telefone nos bancos. Desde então estuda-se a unificação de contas (luz, água, gás e telefone), o que certamente será conseguido com a privatização completa dessas atividades.

Pioneiro em automação bancária, o Brasil tem exportado a tecnologia. Bancos nacionais fazem sucesso no Mercosul, suplantando rapidamente os estabelecimentos locais e mesmo filiais europeus. Contrariamente a grande número de atividades em que importamos know-how, em automação comercial e bancária servimos de paradigma à maioria das nações, desenvolvidas ou não. Qualquer banco que queira sobreviver tem de oferecer tecnologia de ponta que possibilite ao cliente praticamente todas as operações sem sair de casa ou da empresa.

As agências gradativamente desaparecerão. Serão distribuídas por todos os pontos-de-vendas e pelos equipamentos portáteis de cada cliente. As transações com cheques e os cartões de crédito desaparecerão. Em qualquer ponto-de-venda existirão terminais inteligentes operados pelos consumidores. Minúsculo chip ou smart card acoplado em aparelho de comunicação individual (resultante de fusão de TV, micro, celular e palmtop), e através de recursos wap ou rádio, transmitirá valores de transação sem a emissão de qualquer documento. Os comprovantes virtuais de transações financeiras bancárias e fiscais do vendedor e do comprador serão transmitidos em tempo real a bancos e a órgãos arrecadadores. Resumo das transações estará disponível em grandes bancos de dados de uso público. Sonegar impostos e operar por fora serão atos impossíveis. O dinheiro em espécie (papel moeda) tende a ser substituído por moeda escritural ou virtual.

Operações mais seguras 

Os códigos de acesso ou senhas hoje muito difundidas (números e letras) serão substituídos por senhas ligadas à gene do portador (impressões digitais, voz ou a leitura da iris), tornando as operações mais seguras.

No mesmo período dos episódios anteriores, meu pai, médico clínico-geral, pioneiro no final da década de 30, conhecido como médico de família e um dos decanos da medicina de Santo André, ainda vivo, tinha jornada de 10 a 12 horas de trabalho diário. Atendia em seu consultório 10 a 15 pacientes em média por dia, particulares e operários da Tecelagem A Textil, já extinta e mais conhecida como Fábrica do Ipiranguinha, área ocupada hoje pelo Extra, do Grupo Pão de Açúcar.

Lembro-me do registro que papai tinha de seus pacientes: fichas de cartolina cor-de-rosa, pautadas e escritas à mão. Diferentemente da maioria dos colegas médicos, o doutor Octaviano tinha boa letra, daquelas que se aprendiam na escola do professor Di Franco, representado no Grande ABC por um dos pioneiros da educação, seu amigo professor Waldemar Mattei. Dados de cada paciente (número da ficha, nome completo, endereço, dados clínicos e prescrições dos medicamentos) eram anotados nas fichas. Valores da consulta eram registrados num grosso livro preto, parecido com o dos maus pagadores do seu Miguel. Curiosamente, algumas famílias pagavam consultas por mês e anualmente. Por vezes, sempre à noite, observava papai anotando detalhes e compilando dados nas fichas dos pacientes do dia. Por volta de 1945 (final da Segunda Guerra Mundial) já eram cerca de seis mil entre pacientes ativos (doentes) e inativos (curados). Os óbitos (raros, apesar da precariedade de recursos hospitalares da época) eram deixados em envelope separado que, felizmente, pouco engrossou. Mensalmente ou semestralmente, observava papai tabulando grupos dessas fichas e anotando estatísticas que incluíam condições de saúde de grupos diferenciados e também informações sociais básicas dos pacientes.

Estudos médicos 

Essas experiências lhe serviram de base para inúmeros estudos de natureza médica que publicou em sua longa vida profissional (mais de 40 anos). O mais famoso foi um tratado denominado Sindromologia — Síndromes e Moléstias Eponímicas, publicado no início da década de 90. Impressionava-me a maneira como informações dos pacientes eram registradas e tabuladas: tudo manuscrito e com cálculos manuais. Eventualmente os resumos eram datilografados. Não me lembro de ter visto meu pai utilizar qualquer máquina de calcular, mesmo as mais rudimentares. Somente nas décadas seguintes, quando responsável pelo Serviço Social da Prefeitura, o doutor Octaviano desenvolveu e oficializou o registro e o controle de pacientes utilizando o sistema Mac Bee (nome do norte-americano inventor do processo). Tratava-se de fichas perfuradas que, por meio de estiletes, separavam e classificavam pacientes por grupos diferenciados. Esse foi o sistema precursor dos cartões de computadores, mais tarde popularizados e hoje extintos.

Na década de 70, participei do desenvolvimento e da implantação do primeiro sistema de registro e controle de fichas de pacientes do Serviço Médico da Volkswagen do Brasil, onde trabalhei durante alguns anos. As fichas cor-de-rosa do doutor Octaviano (de 20 anos ou mais) transformaram-se em folhas de codificação, cujas informações eram perfuradas em cartões e listadas no computador central. Eram mais de 40 mil fichas/cadastros. Alguns médicos admiravam-se com a familiaridade do analista de então (o autor destas linhas) com os registros médicos. Minha escola foram as fichas (as cor-de-rosa e as Mac Bee) de meu velho pai. A única coisa que havia evoluído era a tecnologia utilizada, então nos primeiros mainframes.

Informatização hospitalar 

Duas décadas mais tarde, já como consultor, pude contribuir para o processo de informatização do maior e mais atualizado hospital da região, o Hospital e Maternidade Brasil, de Santo André. Cartões e folhas de gabarito do tempo do ambulatório da Volkswagen evoluíram para uma memória central em banco de dados, coletados em modernos microcomputadores interligados por rede corporativa. As informações de mais de 600 mil prontuários (100 vezes mais que as fichas cor-de-rosa do doutor Octaviano) contêm registros estruturados que facilitam e racionalizam atendimento, internação e administração de milhares de pacientes diariamente.

A caligrafia de alguns colegas do doutor Octaviano continua a mesma, mas a tecnologia evoluiu a ponto de já se utilizarem palmtops que identificam a letra do médico e a transforma em caracteres uniformes e absolutamente legíveis. Os laboratórios de análises clínicas já oferecem resultados de exames pela Internet. Técnicas cirúrgicas são transmitidas para qualquer lugar por meio de circuitos fechados de TV ou pela própria Internet.

O futuro? Bem, o futuro na aplicação da tecnologia da informação na medicina parece ser o mais fascinante. Os prontuários atuais, em papel ou meio magnético, serão substituídos por grandes bancos de dados com informações de cada paciente. Os atuais e ainda pioneiros cartões magnéticos com informações básicas dos pacientes (tipo de sangue, pressão, doenças passadas, alergias etc) evoluirão para um microchip de material não agressivo ao organismo humano, inserido no corpo logo após o nascimento e atualizado a cada evento, como um dente ou uma unha, por exemplo. Esse microchip será substituído periodicamente e incorporará toda a história genética e clínica do portador. Cópias das informações dos microchips serão periodicamente transmitidas por coletores de informações dos pacientes (os hospitais) para megabancos de saúde. Assim, ao ser atendido em qualquer local e por qualquer médico ou instituição, o paciente terá informações clínicas imediatamente identificadas, o que facilitará a prescrição do tratamento.

Diagnósticos aperfeiçoados 

O cruzamento de informações clínicas desses megabancos possibilitará o aperfeiçoamento dos diagnósticos e o acerto da prescrição de medicamentos. As receitas ilegíveis dos colegas do doutor Octaviano deixarão de existir. A prescrição será gravada numa parte do arquivo temporal no chip do paciente ou transmitida a uma central de acesso a qualquer farmácia (se é que ainda existirão) ou centrais de medicamentos. O desdobramento lógico desse fantástico mecanismo de informações tornaria possível um sistema acelerado da cadeia de suprimentos de remédios essenciais à vida humana de tal sorte que, a exemplo de outros bens de consumo, o paciente se supriria diretamente dos fabricantes, laboratórios públicos ou privados. Também nessa área, eu não investiria um real na atividade de intermediação.

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