Nosso Século XXI (1ª Ed.)

É a vez da cultura
na agenda regional

  DALILA TELES VERAS - 19/07/2001

Em uma curta história de pouco mais de um século, o Grande ABC passou de mero subúrbio rural de São Paulo a expressivo pólo da economia nacional, transformando-se em região geograficamente metropolitana. Inserida no tempo e no espaço da moderna tecnologia, paradoxalmente, a região não soube (ou não pôde) tratar os assuntos da cultura no mesmo nível dessa pujança econômica e tecnológica.

Na primeira metade do século XX, a classe política, pequena elite aliada ao que havia de mais conservador na Capital e no restante do País, tratou de imprimir à cultura regional o tratamento de adorno dispensável, substituindo as políticas públicas do setor pelo clientelismo, ou seja, doação de benesses e favores. Pelo lado da sociedade civil, aqueles que tiveram acesso à educação formal — os filhos dessa e de outra elite pequeno burguesa — limitaram-se comodamente a reproduzir essas mesmas idéias da arte e da cultura como perfumaria.

É assim que a comunidade aceita o legado e prefere deitar por mais um longo período no berço cultural conformista, preocupando-se apenas em dar respostas imediatas (e até necessárias, admita-se) ao vertiginoso crescimento populacional e econômico, que transformava rapidamente o subúrbio rural em espaço urbano e industrial.

Resultante da mistura de migrantes e imigrantes que aqui se fixaram em busca de trabalho, o indiscutível sincretismo de hábitos e costumes não se refletiu na arte local, muito menos os conflitos sociais decorrentes de uma sociedade em permanente transformação. Aqui e ali um poema, uma pintura denunciadora, apenas ecos, indícios do mundo real em estado de ebulição, mas nada que demonstrasse qualquer ousadia estética. Longe de seus locais de origem, desenraizadas e aclimatadas à nova realidade do trabalho em ritmo alucinante de construção de cidade, essas vozes anônimas não se fizeram representar através da arte. Se o fizeram, como acreditamos, não lhes foi dada a oportunidade de registrá-lo.

O imaginário do mundo do trabalho acabou por não representar o trabalho e quando ocasionalmente o fez, foi de forma idealizada e piegas, visão de quem, com toda a certeza, não fazia parte da massa trabalhadora e tampouco possuía sensibilidade e capacidade artística suficiente para representá-la. A arte era refúgio onírico, jamais reflexo, questionamento ou participação.

O modernismo que sacudiu a Capital nos anos 20, insurgindo-se justamente contra os velhos valores passadistas, já passara por outra fase distinta, a de 28 e 30, mas no Grande ABC reinavam a indiferença e o silêncio. Artisticamente, a região continuava a reverenciar a Capital de forma provinciana e servil, sem, contudo, assimilar nenhum dos novos conceitos estéticos. Predominavam a reprodução e a imitação do que já era passado. Os precários meios de comunicação locais também pouco privilegiavam a informação artística de vanguarda.

Por todas essas razões, as manifestações artísticas dentro do espaço geográfico que viria a ser o Grande ABC de hoje não formaram, pelo menos na primeira metade do século XX, nenhum conjunto visível, nenhuma marca identificável. A construção do mito, que na maioria das vezes funda as culturas locais e é utilizada na construção do real, aqui teve sua ordem invertida. A região primeiro construiu o real, ou seja, o trabalho sem trégua, para só depois construir o mito que, queiramos ou não, está indelevelmente ligado ao mundo do trabalho.

É somente a partir dos anos 50, coincidindo com a vinda da indústria automobilística e a instalação dos primeiros cursos universitários, que a região assiste à formação de grupos e associações que promovem e discutem cultura (Câmera Clube, 1951; Clube de Poesia, 1952; Sociedade de Cultura Artística — SCASA, 1952; Centro Popular de Cultura — CPC, 1961; Ausa, Associação dos Universitários de Santo André, bem como a criação dos Salões de Arte de Santo André, São Bernardo e, posteriormente, São Caetano).

A modernidade tecnológica passa, nesse período, a ser motivo de ufanismo regional. Em contrapartida, a produção artística continua sem nenhum compromisso com a inovação ou ousadia estética, apenas reiterando as fórmulas já cristalizadas. Nem a polêmica nem a crítica foram por aqui instauradas. Um manifesto da Ausa (Associação dos Universitários de Santo André), repudiando certos programas de uma emissora da cidade considerados ofensivos aos princípios da moral, publicado no News Seller de 14 de junho de 1959 com cópia ao presidente da República, dá conta do pensamento conservador vigente.

Os diversos estabelecimentos de Ensino Superior, por sua vez, davam solenemente as costas à pesquisa local, pouco ou nada se envolvendo com a região onde acabavam de instalar seus campi, cumprindo apenas a demanda do emergente mercado voltado para a educação formal superior. A escassa discussão e algum eventual fomento cultural davam-se (e em grande parte ainda se dá) fora da academia e desvinculada das administrações municipais, de forma espontânea e autodidata.

Uma preocupação com as questões e rigores estéticos na produção artística da região somente é notada a partir dos anos 80 e os seus resultados visíveis só viriam com a entrada dos anos 90. Após uma década de vertiginosa transformação, a comunidade local, hoje, surpreende pelo incontável número de revelações na área cultural, muitas delas rivalizando com o que de melhor se faz no restante do País. Gigantesco tabuleiro de multifacetados quadros, que vão das bandas de garagem ao canto lírico, do hip-hop ao jazz, dos fanzines às revistas literárias, do poema em xerox ao livro de sofisticação formal e gráfica, do pequeno grupo de dança de catira ou folia de reis, à companhia estável de dança com sua coreografia de vanguarda, da pintura em pano de prato à mais sofisticada técnica abstrata e concretista, do jornal de bairro mensal ao grande jornal diário, do teatro ensaiado nas horas de folga em abandonados galpões à montagem profissional de espetáculos de ópera, do compositor e intérprete que se apresenta nos bares noturnos aos concertistas eruditos, há um sedutor caleidoscópio, sincretismo herdado e maturado na longa hibernação.

Compreensivelmente, nem tudo isso é amplamente conhecido do grande público dadas as sabidas dificuldades em passar pelos meios de comunicação de massa onde, obrigatoriamente, todas essas informações são filtradas. As políticas públicas fragmentadas, que nem sempre contemplam a manifestação artística com a dignidade que merece, são outro entrave à difusão. No entanto, esse já é um conjunto perfeitamente identificável e a frequência com a qual jornais de abrangência nacional passaram a inserir algumas dessas manifestações em seu noticiário prova que a antiga prática de reverência Subúrbio-Capital pode ser invertida.

O dado mais revelador dessa trajetória é o de que a cultura, numa região em constante processo de (trans)formação, acabou sobrepondo-se às mudanças, revelando-se mecanismo indispensável para nos tornar capazes de, finalmente, mirarmos no espelho de nossa história, transformando-nos, assim, em testemunhas de nossa própria origem, como já bem o disse o escritor Carlos Fuentes referindo-se à América Hispânica. Isso, certamente, já faz parte do processo para a conquista de uma possível identidade cultural.

Mas, para além de buscar essa possível identidade — terminologia hoje já colocada em questão, uma vez que só se fala em identidade quando esta está em crise — é preciso também levantar identificações com as heranças avós, raízes atávicas que migrantes e imigrantes nos legaram e que, aparentemente adormecidas, permanecem. Serão essas identificações e experiências acumuladas (identidades), mais o levantamento das formas com as quais essas heranças, hoje, se manifestam e dialogam com o universal, que nos mostrarão nossas verdadeiras vocações, jamais os marcos plantados por propósitos de resultados imediatos e interesses oportunistas outros.

Um bom caminho nessa direção poderia começar pelo ensino sistemático da história local em todas as escolas, separando a história da fundação da Vila de Santo André da Borda do Campo da história contemporânea, a partir da vinda da Estrada de Ferro em meados do século passado. Apesar desse tema ser abordado insistentemente por historiadores, continuamos a comemorar o nosso aniversário levando em conta apenas a data da fundação da Vila de João Ramalho, sem colocar nada entre os três séculos em que ficamos adormecidos, como já apontou Octaviano Gaiarsa.

Também o estudo da literatura e das artes locais no currículo das instituições de ensino, inclusive nos exames vestibulares, contribuiria para as identificações com esse espelho da história. Saber que a arte morou ou mora ao lado, conhecer e ouvir o escultor que plantou na praça do bairro um monumento, o arquiteto que projetou os principais marcos arquitetônicos da cidade, o escritor que construiu sua ficção utilizando-se dos fatos cotidianos da mesma cidade onde vive, o dramaturgo que leva ao palco o drama recriado a partir de personagens reais, o poeta que registra seu olhar sobre os homens, a urbe como matéria de poesia e de ficção, ali de corpo presente, palavra viva a dialogar com o leitor, tudo isso significará acréscimo de conhecimento e de cidadania. Conhecer para gostar e compreender é receita simples e viável.

Se antes, no auge da indústria, o poder pertencia aos donos da produção, hoje está com aqueles que detêm a capacidade da criação. Vivemos um grande paradoxo: empobrecemos economicamente, mas crescemos culturalmente e é pelas vias da cultura e da educação que poderemos voltar a crescer.

Para nossa sorte, a memória dessa nossa fragmentada história suburbana há algum tempo vem sendo recolhida por um verdadeiro batalhão de memorialistas e pesquisadores espontâneos, fato comprovado nos congressos de história já realizados, bem como contemplada pelo pensamento acadêmico, através de incontáveis dissertações, teses de mestrado e doutorado. Conceituados pesquisadores residentes na região, como os professores José de Souza Martins e Luiz Roberto Alves, para citar apenas dois intelectuais do mundo acadêmico que há muito voltam o foco do olhar para a história local, juntam o seu a outros olhares de além fronteiras. O resultado é uma surpreendente bibliografia já disponível aos pesquisadores.

Nos últimos 10 anos, algumas ações já foram encetadas rumo à gigantesca tarefa de projetar e construir um futuro desejável no qual, entre outras, a questão da regionalidade seja transformada em realidade concreta, não só através da organização da própria sociedade como da classe política. A criação do Consórcio Intermunicipal de Prefeitos, a instalação da Câmara Regional do ABC e do Fórum da Cidadania, além da expectativa de retomada do progresso econômico, também contribuíram para sinalizar na própria comunidade o reconhecimento dessas marcas regionais, os espelhos de que falamos. Foi exatamente com a criação dessas instituições que a idéia de região deixou de ser uma abstração e começou a ser discutida de forma concreta.

Ações pioneiras como o Raio X das Câmaras, liderado pelo Diário do Grande ABC e constituído por um conselho formado por representantes da sociedade civil, representam significativos avanços. O programa do Raio X em quatro anos de atuação, fiscalizou os Legislativos no seu dia-a-dia, apontando velhíssimos vezos políticos, como o clientelismo, e contribuiu para instrumentalizar o eleitorado com informações precisas acerca do mandato de todos os vereadores das sete Câmaras Municipais. Ainda que lentamente, começa a surgir uma nova classe de políticos que, em consequência da fiscalização e da cobrança da sociedade, vem assumindo novas tarefas, raspando o ranço dos antigos vícios, colado durante anos às paredes do poder municipal. Esses poucos já perceberam que a história excluirá todo aquele que não esteja inserido, através de políticas articuladas, nessa nova ordem de pensamento e ação, que tem, entre outras, a missão de derrubar os muros invisíveis que foram cercando as cidades do Grande ABC na mesma medida em que foram se metropolizando e transformando-se em uma só.

Jeroen Klink, autor de tese de doutorado que analisa o novo regionalismo e o papel das cidades-regiões, reconhece, em entrevista à Imprensa, que o regionalismo não é remédio para todos o males, mas admite também não ser menos verdadeiro que ações regionais conjuntas reduzem o impacto da globalização. Ele e outros estudiosos apontam os difíceis aspectos técnicos e estruturais a serem ultrapassados, como a dependência de estâncias estaduais e federais, além da própria reformulação de parte da legislação e criação de leis que contemplem e facilitem o integracionismo.

Os conflitos em direção a esse novo regionalismo já se mostraram evidentes em momentos cruciais. A negociação política deverá ser exaustiva e, compreensivelmente, nem sempre harmoniosa, mesmo porque, apesar de algumas ações conjuntas já realizadas, a idéia de região, surpreendentemente, ainda não está posta para a maioria das lideranças políticas, muito menos o espírito do regionalismo. Importante ressaltar que algum consenso alcançado, bem como eventual vontade política no que diz respeito a ações conjuntas na área econômica, raramente acontece em relação à cultura que, diga-se, ainda não foi contemplada nas instâncias mencionadas.

Numa sociedade pós-industrial, onde o produto é substituído pelo serviço, mais do que nunca a questão da cultura deve ser pensada, a curto e a médio prazos, também como um segmento importante no desenvolvimento econômico regional. Um de seus vetores está também representado no desenvolvimento do lazer e do turismo. Nada mais oportuno, portanto, num momento em que a cidade de Ribeirão Pires passou a ser qualificada como estância turística e já com algumas ações em andamento, passar a encarar de forma mais efetiva e regionalizada essa questão que, necessariamente, passa pelo âmbito cultural.

Luiz Otávio de Lima Camargo, doutor especialista em lazer pela Sorbonne, quando de sua participação no emblemático Seminário Transmutações Culturais da Região, promovido por Sesc, Imes e Fórum da Cidadania com parceria do Diário do Grande ABC, em fins de 1997, apontou a cultura regional como resistência ao impacto da globalização e dos seus muitos efeitos sociais negativos. Diz ele: “Nenhuma cultura local tende a desaparecer sob o rolo compressor da globalização. O que está desaparecendo — continua ele — é o conceito de Nação. Ao mesmo tempo que se liga à universalidade, o mundo contemporâneo se liga ao local porque o que temos de diferente dos outros é exatamente aquilo que temos de mais próximo, onde se incluem as relações pessoais e de lazer”.

Tudo leva a crer que o início do século XXI confirmará o vaticínio: o fortalecimento da cultura regional a reforçar e a expressar as nossas múltiplas identidades, propiciando, dessa forma, meios de fuga à imposta ditadura do gosto massificado e a consequente valorização das diferenças. A formação de uma geração de criadores que, acima da estética, estão compromissados com a ética.

Ainda assim, necessária se faz a releitura dessa nossa trajetória, a fim de que possa ser dada uma resposta contemporânea de excelência a esse novo momento. Essa resposta talvez possa ser obtida através da proposta de Luiz Roberto Alves em seu livro Culturas do Trabalho — Comunicação para a Cidadania (Edições Alpharrabio, 1999), ou seja: “Buscar interpretar o modo como são tratadas a educação e a cultura em espaços ao mesmo tempo opulentos economicamente e periféricos em sua ação cultural, mas também encarar a imprescindibilidade de educação e cultura serem motores do novo ciclo de vida social (e jamais irem a reboque!)”.

Dessa forma, conhecer e prestigiar a produção cultural local e estabelecer ambientes educativo-culturais propícios e de fácil acesso darão maiores oportunidades à sociedade de se organizar melhor, criando, inclusive, mecanismos para pressionar o Poder Público a cumprir sua parte e privilegiar, através de políticas públicas claras e canais adequados, a formação, o fomento e a divulgação da produção local. Assim, formados, fortalecidos e orientados, os produtores culturais estarão também instrumentalizados para, inclusive, sensibilizar o empresariado para o cumprimento da obrigação social para com a comunidade, usando institucionalmente sua imagem no patrocínio aos empreendimentos culturais regionais.

Esse fortalecimento também se dará na relação com a Imprensa, pressionando-a a oferecer maiores espaços para a vida cultural local, tirando-a da cômoda posição de divulgar apenas o que já é notícia.

Da energia inicial, voltada apenas para o trabalho e a própria sobrevivência, estaremos próximos de chegar à cultura também como núcleo de eficiência, resultado de acúmulo e jamais de realização pontual como simples preenchimento de agenda de administrações públicas ou das chamadas demandas imediatistas. Próximos da cultura que não cumpra comodamente a lógica do mercado, mas realize-se enquanto expressão de uma sociedade, priorize a solidariedade, aceite as diferenças e cultive a utopia.

Por mais paradoxal que possa parecer, o cultivo da utopia também deverá fazer parte da pauta de discussões deste novo século, não mais como conjunto de idéias ideológicas legitimadoras de todas as mazelas sociais, mas como dimensão permanente da condição humana, que inclui também o cultivo do desejo, do sonho e da paixão, da capacidade ilimitada do imaginário em transcender o real, da poesia olhada como história. Que não se tome aqui o sonho no sentido de alienação, como equivocadamente passou a ser interpretado. Mas o sonho como revelação e acesso ao inconsciente coletivo, que revela o passado e projeta vontades (Freud).

O pensador francês Edgar Morin vem insistindo que, numa nova perspectiva de educação e formação do ser humano, o conhecimento racional, empírico e técnico deve conviver com o simbólico, o mítico e o poético. A cultura, o turismo, o lazer (e a utopia) não podem e não devem, portanto, ficar de fora do grande debate regional neste século XXI. São questões irrenunciáveis que deverão obrigatoriamente fazer parte de um grande projeto político, uma revolução que deve passar pelo intelecto e pela vontade. Assim, ao (re)inventarmo-nos, (re)construíremo-nos.

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