Nosso Século XXI (1ª Ed.)

Vida cotidiana e o
imaginário coletivo

  ALEXANDRE TAKARA - 19/07/2001

A vida cotidiana é a vida dos mesmos gestos, dos mesmos ritos e das mesmas regularidades. Caracteriza-se pela rotina e monotonia. Não há problemas e, se houver, são de soluções previsíveis, portanto, sem criatividade. Acordar, levantar, banhar-se, vestir-se, tomar o café da manhã, dirigir-se ao trabalho, trabalhar, almoçar, trabalhar, encerrar o expediente, voltar para casa, banhar-se, jantar, ver TV ou ler o jornal e dormir. Acontecem pequenas variações. São poucos os que conseguem elevar-se dessa vida chã.

É o sistema de produção que condiciona esse estilo de vida, pois é a estrutura básica da sociedade. Tudo gravita em torno disso: a família, a escola, o lazer, os partidos políticos… Só tem valor quem produz e consome. Técnicas publicitárias introduzem utensílios domésticos e bens de consumo que seduzem e criam necessidades tanto nos ricos como nos pobres — uma ilusão de reduzir distâncias entre as classes sociais. E o Estado, com aparatos institucionais, gere a vida cotidiana através de leis, regulamentos, fiscalização, intervenções e programas educacionais. A sociedade organiza-se monoliticamente para preservar a estrutura de poder. Assim, o cotidiano é um espaço modelado pelo Estado e pelo sistema de produção. O homem se erige como robô, alimentado pelo consumo voraz, o que lhe dá a sensação de liberdade. Na verdade, abdica-se da condição de sujeito e de cidadão.

O Grande ABC caracteriza-se por ser eminentemente industrializado, complexo e urbanizado. Por isso, seus moradores vivem o fenômeno da compressão do tempo. Todos têm a impressão de estarem sempre atrasados. Têm pressa, estão correndo, tensos. As coisas têm de ser feitas com precisão para evitar a correção. Afinal, tempo é dinheiro. Acelera o ritmo de vida. E isso provoca ansiedade, estresse. A adrenalina é o combustível que movimenta a sociedade. Os tecnocratas transformaram-se em microsservos, presos à computação e às tecnologias adjacentes. Como fazer mais coisas em menos tempo? — é o desafio.

Com tanta pressa, as coisas agradáveis da vida ficam comprometidas. O sexo, por exemplo. As práticas tradicionais do gozo são morosas — uns três, quatro ou cinco minutos. É muito tempo! Eliminem-se os preâmbulos, instaure-se o sexo cibernético, pratique-se a masturbação eletrônica! Há nos Estados Unidos 200 mil dependentes desse tipo de comportamento sexual — afirma o Conselho Nacional sobre a Dependência e a Compulsividade Sexual. E, no Grande ABC, quantos há? Ignora-se. Ainda não se realizou pesquisa, mas é a conversa cada vez mais frequente entre os jovens.

O uso do tempo merece um parágrafo. Antes da Revolução Industrial, era o bimbalhar dos sinos da igreja que regulava a vida. Hora de despertar, trabalhar, alimentar-se, rezar, dormir. Com a Revolução Industrial, o tempo tornou-se mercadoria preciosa. Por isso, era preciso inventar um aparelho que contasse os minutos de forma precisa e confiável. Surgiu o relógio, que estabeleceu a regularidade. Interligou pessoas e planejamentos. Os apitos das fábricas substituíram os sinos das igrejas. A manufatura, no lugar do trabalho artesanal que permitia movimentos individualizados, impôs regularidades nos processos de produção e obrigou os operários a se sincronizarem com as máquinas. Karl Marx, observador arguto do seu tempo, escreveu em 1863: “O relógio é o primeiro engenho automático aplicado a fins práticos; toda a teoria da geração do movimento regular desenvolveu-se por meio dele”. Geração de movimento regular. É esse movimento regular dos moradores em direção ao trabalho que determina os fluxos: de gente, de veículos e de mercadorias. Tudo praticamente no mesmo instante. Daí os congestionamentos e a perda de tempo. E o estresse. Resultado: o desenraizamento. E o desenraizamento, conforme Simone Weil, “é a doença mais perigosa das sociedades humanas porque se multiplica a si própria”. Nos casos extremos, equivale à morte e nos casos mais brandos, à alienação.

No primeiro caso, aponta-se o exemplo dos negros africanos acometidos de banzo — uma estranha enfermidade provocada pela loucura nostálgica da África. Suas vítimas, no dizer de Gilberto Freyre em Casa Grande e Senzala, “suicidavam-se comendo terra, enforcando-se, envenenando-se (…) ou masturbando-se compulsivamente como uma tentativa de recuperar um sentimento perdido de si mesmos”. Um desenraizamento total, produto da violência impetrada pelos colonizadores.

No segundo caso, a alienação. Aqui, o desenraizamento significa desatar-se da comunidade, da memória coletiva e da história. É isolar-se, indiferente ao destino comum, apenas preocupado com a própria vida, de familiares e de alguns companheiros. A cidade nada lhe significa, se não como apoio recebido, e nada devolve. Um bom exemplo, e próximo, são muitos (nem todos) moradores do Grande ABC. Vivem sob o signo do pragmatismo, indiferentes à verdade, e disso resulta a fragmentação. São frágeis individualmente, ignorando que é a comunidade que lhes proporciona a sinergia necessária. O que sustenta uma árvore é a floresta da qual faz parte. Uma árvore isolada e sem raízes enfraquece-se e pode cair. Essa comparação vale para qualquer indivíduo e para qualquer nação. Trabalham, compram, inclusive bens duráveis, e, mesmo que não tenham recursos para tanto, apelam ao crediário — um instrumento facilitador de aquisição. Atolam-se em dívidas, trabalham ainda mais e, se possível, fazem horas extras para honrar o compromisso assumido. E rezam para não ser demitidos. Se o trabalho é necessário e dignificante, nesse caso é alienante.

Ao desenraizar-se, fechando-se no seu mundinho particular, os moradores do Grande ABC colaboram com a decadência de suas cidades. A decadência atual não é apenas produto da crise econômica, decorrente da fuga de indústrias para outras regiões, mas também da alienação de seus habitantes que não se envolvem na defesa dos bens públicos, crentes de que não lhes pertencem. Abandonam ruas e praças, entregues à bandidagem, da qual se protegem isolando-se em suas casas cercadas por grades com lanças pontiagudas. Os espaços públicos deixam de ser espaços públicos para tornarem-se espaços perdidos. Resultado: decadência. E a decadência é visível, sobretudo, nos centros das cidades. Resulta da inércia do Poder Público, há décadas. E os espaços públicos tornam-se privativos com a utilização das calçadas pelos comerciantes, com a invasão de ambulantes e marreteiros e com a instalação de barraquinhas que tudo vendem. O Centro tornou-se o reino de narcotráficos. E feio. Para agravar a fealdade, muitos negociantes aumentam a poluição visual com placas de propaganda. A fealdade oprime, desenraíza ainda mais os moradores, que deixam de se identificar com suas cidades, perdem os vínculos afetivos. Isso no plano coletivo.

E no plano individual? A crise da subjetividade, cuja característica básica é a fragmentação da personalidade. Muitos moradores do Grande ABC, se não são esquizofrênicos, são esquizóides: vivem o drama da solidão, do tédio e da incomunicabilidade. Um psicanalista relata. Tem um cliente, executivo de uma grande empresa, que lhe confessou: “Não sei quem sou nem sei onde estou”. É a experiência dramática da desolação, da não-pertinência ao mundo, do desenraizamento — desolação que vem se instalando na região desde a década de 60 com a industrialização. Vivem na comunidade, ao lado de seus concidadãos, mas não os vêem. Tocam, mas não sentem. Têm uma família, mas não têm uma pátria. A vida não tem sentido, vai de um nada a outro nada. É a perda da identidade — “não sei quem sou” — e cada um vive no seu canto, incapaz de empatia, de colocar-se do ponto de vista do outro, visando compreendê-lo. Não é sem razão que o Grande ABC é uma região de violência, não só contra o patrimônio, mas também contra a vida. A vida tornou-se um ato de improbabilidade, está tudo contra ela. Como não é possível viver permanentemente sob o signo da desolação, faz-se de conta que se é alguém, representando uma comédia.

O que fazer? Eis a grande pergunta. Antes de responder, é necessário explicitar a concepção do homem, subjacente neste ensaio.

Viver é preciso. Ao viver, o homem projeta-se em três dimensões: no mundo do trabalho, no mundo da prática social e no mundo das representações simbólicas. Pelo trabalho o homem interfere na natureza, de onde extrai bens materiais para a sobrevivência e para a reprodução da espécie. Mas, ao produzir bens materiais, relaciona-se com seus semelhantes, organizando-se em termos de poder no qual alguns podem mais, outros podem menos. Esse é o domínio da prática social. O homem, ao relacionar-se com a natureza pelo trabalho e ao relacionar-se com a sociedade pela prática social, relaciona-se também consigo mesmo, do que emerge a subjetividade. Ao desenvolver sua subjetividade está desenvolvendo, simultaneamente, sua consciência. E é em nível de consciência que se opera uma mediação: as coisas do mundo real são representadas pelos símbolos — daí as representações simbólicas –, uma vez que essas coisas não podem estar presentes, fisicamente, na consciência. E o faz através da linguagem. Consequentemente, as palavras (e seus cognatos) desempenham papel essencial na aquisição de conhecimentos.

O que fazer? Volta a pergunta. Não é fácil responder, mesmo porque a arte de viver resvala pela filosofia, pela antropologia cultural, pela economia e pela política. E pela estética. Trata-se de erigir um fundamento sobre o qual construir um pensamento e uma prática — no caso, a arte de viver no sentido mais amplo, multirreferencial, fundada numa ética humanista. De onde parte essa arte? De uma crítica: o homem perdeu o sentido de viver como arte. Viver, para ele, é algo simples, não requer esforço nem especialização porque todos vivem de uma forma ou de outra. No entanto, essa convicção é diuturnamente contestada pelas dificuldades de toda ordem. A falta de alegria (para não dizer de felicidade) foi substituída pelo dinheiro, pelo sucesso e pelo status. Ser profissional tornou-se mais importante do que ser ele próprio. Para a ética humanista, nada é superior e mais digno do que a existência humana. O bem-estar do homem passa a ser o grande critério. Claro, esse critério passa pela questão da virtude — virtude no sentido de realização das potencialidades exclusivas do homem.

E o que é exclusivamente do homem? A sua natureza humana, isto é, um conjunto de qualidades que, numa palavra, pode reduzir-se a um conceito, a empatia, a capacidade de colocar-se do ponto de vista do outro, apesar das diferenças culturais, espaciais e temporais. Então, quem é o homem virtuoso? É aquele que expande suas virtudes. E isso pressupõe generosidade. Ser generoso é mais do que ser justo. Ser justo significa dar ao outro o que é dele, enquanto ser generoso significa dar ao outro o que não tem e empenhar-se em colaborar para que o outro consiga. A generosidade é a base da solidariedade. Ser solidário é estar in solido, como diziam os antigos romanos. É apoiar-se no outro. Daí a solidez das relações e da solidez deriva a palavra solidariedade.

A essência da natureza humana é a solidariedade. Solidariedade supõe o outro, é estar em relação. A vida cotidiana, tecida dos mesmos gestos, dos mesmos ritos e das mesmas regularidades, não é suficiente. É preciso mais: criar uma argamassa capaz de cimentar as relações sem massacrar as individualidades e azeitá-las com sentimentos de camaradagem. O que se quer é a polifonia, em que a fala de um se impregna e pressupõe a fala do outro.

Nessa polifonia é possível tecer lembranças, desejos, sonhos, fantasias, mitos, ritos e liturgias que compõem o imaginário coletivo, que se expressa através de representações simbólicas. É nesse reino que se engendram as invenções do espírito, sejam obras de arte, sejam monumentos que se enveredam pelos conteúdos históricos, políticos e urbanísticos. Essas obras de arte e esses monumentos, carregados de significações, são passíveis de interpretações. Portanto, o imaginário coletivo é uma construção singular de um mundo, seja a cidade, seja a região, seja a nação.

Pretende-se uma fissura no monolitismo da vida cotidiana. Uma brecha que se alargue e torne as cidades mais agradáveis e mais humanas. As cidades que compõem o Grande ABC não satisfazem no presente, mas podem satisfazer no futuro. Não basta que as cidades sejam sanadas e saneadas. Seriam apenas assépticas, o que seria muito bom, mas insuficiente. Precisam aureolar-se de um universo simbólico que lhes dê uma dimensão mais humana.

Não é fácil, porque o Grande ABC atual adotou e cultua uma tradição ocidental: o trágico desencontro entre a razão e a paixão, em prejuízo desta. A paixão e suas expressões correlatas — a emoção, o sentimento e o afeto — estão sendo banidas em favor da concorrência e da competição. Resultado: quem pode mais, chora menos; à alegria do vitorioso corresponde a tristeza do derrotado. E os cultores da razão consideram inúteis os cidadãos que pesquisam e buscam representações simbólicas, como cidadãos de segunda categoria. As artes valem enquanto as emoções provocadas durarem. Portanto, uma insignificância se comparada às grandes construções matemáticas. O menosprezo pelas emoções e seus correspondentes — a generosidade e a solidariedade — é a causa de tantas desumanidades. O homem foi esquartejado. Daí a esquizofrenia: em grego, literalmente, mente dividida.

O que fazer? Eis a grande pergunta. Reconstruir e explicitar, através de fissuras no monolitismo da vida cotidiana, o imaginário coletivo, consubstanciado numa ética e numa estética da existência. Ir além da educação formal, ingressando-se nos domínios da educação informal que abrigue o imaginário coletivo, expressa em arte. A arte provoca a educação sentimental, acende a imaginação e fixa uma utopia — um projeto para o futuro. E pode reconstruir-se o imaginário coletivo através do enraizamento, da educação do olhar, da escuta sensível e do retorno à infância.

O ser humano cria e desenvolve suas raízes participando ativamente da vida comunitária. Raízes são memórias. Lembrar, em francês, é souvenir. Este é um verbo significativo. Sous + venir: vir à tona o que está submerso, vir de baixo. A memória é o lado subjetivo das pessoas. E também da coletividade. Porque a memória do indivíduo se deita nas suas relações com a família, o grupo de amigos, a escola, a profissão e a Igreja. Assim, a memória do indivíduo se vincula à memória do grupo e a memória do grupo, a um plano maior, a tradição, que é a memória coletiva de uma sociedade.

Outra forma de excitar o imaginário coletivo é a educação do olhar. Olhar o visível, mas também ir além, imaginar o invisível. Os antigos romanos tinham um verbo preciso que traduzia bem esse olhar: contemplatio, que significa olhar com admiração. O olhar percuciente procura ver além do que é visível, o que está oculto, o que está do outro lado do corpo, coberto pelas sombras. Pesquisas realizadas na França revelam que 83% do aprendizado se realiza através do olhar, conjugado à escuta.

Por falar em escuta, esta deve ser dotada de uma qualidade: a sensibilidade. Através da escuta sensível a pessoa se liga ao mundo, sente o pulsar da vida nos mínimos detalhes. A escuta sensível é uma abertura da qual decorrem a sensibilidade ecológica, a sensibilidade ética e a sensibilidade estética. A escuta sensível é o princípio do despertar humano. Se faz também coadjuvante com outros sentidos do corpo. É uma necessidade primária porque faz emergir a empatia. Daí para a meditação é um passo. Nesse sentido, os orientais são mestres — aqueles ainda não contaminados pelo Ocidente. Jung já demonstrou os benefícios terapêuticos dessa prática.

E se mesmo assim a pessoa revelar-se estéril, ouça a orientação de Rilke, o afável poeta: retorne à infância, um período relacionado com a casa materna, uma espécie de útero, onde se volta nos momentos de dificuldades. Por isso, a infância é uma presença em todas as autobiografias. No dizer de Ecléa Bosi, em Memória e Sociedade, a casa materna “é o centro do mundo, é a partir dela que a cidade cresce em todas as direções”. Consequentemente, a memória da infância se fixa na rua, na praça, na casa, no bairro, na escola e na Igreja.

Sim, o Grande ABC é viável desde que o Poder Público, em parceria com a sociedade civil, crie condições objetivas. Aliás, há bons sinais nesse sentido. Um é o projeto Santo André, Cidade Futuro. O outro é o Planejamento Regional Estratégico para o ABC, iniciativa do Consórcio Intermunicipal de Prefeitos. Afirma-se que não há universo simbólico na região, posto que predomina o mundo do trabalho. Há, sim, e imenso. Basta ter olhos para ver e ouvidos para ouvir. Tome-se o tema do trabalho, por exemplo. Os gestos dos operários nas relações com as máquinas e com os colegas constituem temas para a dança, o teatro, a música, o cinema, as artes plásticas e a literatura. A peça teatral Nossa Cidade, criação coletiva do Núcleo de Dramaturgia coordenado por Luís Alberto de Abreu, anexo à ELT (Escola Livre de Teatro), é bom exemplo. Que bela coreografia a dos operários trabalhando numa indústria têxtil. Outro exemplo são as reportagens ficcionais de Antonio Possidonio Sampaio, consubstanciadas em diversos livros. E as crônicas e os poemas da Dalila Teles Veras.

O mundo do trabalho, o mundo da subjetividade e o mundo das representações simbólicas se integram na vida dos indivíduos e das cidades. Para isso, não basta caminhar pelos espaços das cidades, mas também pelos lugares da memória. Porque a Geografia se faz História. Busque-se nos traçados urbanos o universo simbólico. Crie-se e divulgue-se o conceito de mapa mental e afetivo. (Re)Invente-se a cidade. Liguem-se as três dimensões do tempo: passado, presente e futuro. O universo simbólico é a fonte de criação. Que o escritor mostre e fixe com palavras o invisível, a ser desvelado. Que o músico registre nos pentagramas os sons da cidade. Que o escultor cinzele formas e volumes. Que o corpo de danças expresse gestos e movimentos. Que o artista plástico crie cores, luzes e sombras. Que os atores de teatro representem os moradores com seus anseios, suas dificuldades, seus risos e suas tragédias. Essas práticas estimulam os moradores a gostar e a identificar-se com as cidades, do que se espera se estabeleçam relações de generosidade e de solidariedade entre os concidadãos.

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