Nosso Século XXI (1ª Ed.)

Identidade em xeque
exige ações diversas

  CLÁUDIO RUBENS PEREIRA - 20/07/2001

A primeira ocupação humana moderna no Grande ABC teve a função de proteger os grupos que demandavam o Planalto Paulista. Ao vencer o paredão da Serra do Mar, cada excursão chegava a um planalto ocupado por índios que recebiam com reservas o invasor europeu. O trabalho pesado nessas viagens era feito por mulas. Em todo o deslocamento havia paradas para descanso. Na Serra, no máximo a cada légua (6,6 quilômetros). No Planalto, a necessidade de parada para descanso a cada duas léguas determinava a distância a ser percorrida entre dois acampamentos, alguns tornados permanentes. Apaziguados os índios da região, necessários para a consolidação do novo núcleo que surgira no planalto, as forças foram removidas para as cercanias do Colégio dos Jesuítas.

O fim da escravatura e o forte ciclo econômico do café em pleno pico produtivo, mais a necessidade de trazer mão-de-obra com boa formação cultural e familiar e disposição para trabalhar, trouxeram muitos estrangeiros para São Paulo e fortaleceram a importante posição do Porto de Santos. Começa novo surto de desenvolvimento para o Grande ABC.

Levar ou trazer coisas da Baixada Santista para o Planalto era algo artesanal e precário, sujeito a constantes interrupções pelas condições climáticas. Era fundamental a melhoria das condições de transporte do Interior paulista para o porto — do produtor para o navio, garantindo o embarque contínuo. Definido que o melhor meio seria a ferrovia, aproveitando a imigração acentuada de boa e dedicada mão-de-obra, o Grande ABC passou a ser área de interesse acentuado para consolidar essa ligação.

Muita gente foi empregada na construção da ferrovia, outros no plantio de imensas áreas para alimentar as fornalhas das máquinas a vapor. Um menor número dedicou-se à manutenção da rede ferroviária. Todos foram alojados ao longo das regiões onde trabalhavam. Até então o Grande ABC tinha interesse quase exclusivamente agrícola, com início de atividade industrial voltada para apoio à ação principal ou de reforço às necessidades do núcleo maior, São Paulo. Com a boa argila passou-se a fabricar excelentes tijolos e teve início a produção cerâmica, hoje feita na região.

Devido às condições climáticas, o Grande ABC era bem adequado aos estrangeiros originários de regiões montanhosas do Sul da Europa e, como a maioria deles vinha da Itália, foi natural essa supremacia, ao lado dos portugueses. Aproveitando o clima úmido favorável, as primeiras fábricas de grande porte se dedicaram à produção de tecidos, principalmente algodão. Ainda há alguma produção desse tipo na região.

Na Capital, a produção de verduras e hortaliças começou no hoje Parque D. Pedro II. Com o passar do tempo e a ocupação pela cidade, os produtores deslocaram-se para a Várzea do Glicério e, a seguir, para o Ipiranga. Chegaram à baixada do Tamanduateí em São Caetano. Moradores mais antigos de Santo André ainda se lembram das inúmeras chácaras ao longo do rio até o início da década de 70, quando esse tipo de produção passava para Ribeirão Pires e chegava a Suzano.

Na primeira metade do século XX todo o Grande ABC tinha forte imagem agrícola, com chácaras e sítios produtivos, onde se compravam leite, queijo, aves, ovos, frutas, etc. A estrada de ferro estabeleceu alguns horários para trens ligando São Paulo e Santo André. Esse meio de transporte confiável, que também nos ligava ao Litoral, mais os preços dos terrenos se elevando na Capital e a facilidade para ir à praia, estimulou a venda de loteamentos para trabalhadores que optavam por vir morar na região. Com isso, começou a exigência de melhores condições de infra-estrutura, mais escolas, ruas calçadas e iluminadas. Políticos de então, vendo que a tradicional vida na região não suportaria o crescimento da população, preocuparam-se em criar condições para o envolvimento dos moradores em trabalho nas suas cidades.

Durante a Segunda Guerra Mundial, ficou patente a necessidade de bons e rápidos meios de transporte para o fluxo de produtos. Enormes recursos, muitas dificuldades e, anos depois, conseguimos excelente estrada ligando São Paulo a Santos, o maior porto da América Latina. A essa altura, graças ao potencial produtivo paulista que também contribuiu para a nacionalização de produtos durante a guerra, já tínhamos reforçado as linhas de alimentação de energia elétrica.

Com esses insumos básicos regionais disponíveis no início da década de 50, estávamos prontos para crescer. A grande oportunidade veio quando a indústria automobilística começou a chegar ao Brasil. Eram indispensáveis grandes áreas, linhas de abastecimento de energia, boas estradas para facilitar a chegada de matérias-primas, o escoamento da produção e o transporte dos trabalhadores.

Desde o início a briga foi dura. A principal e forte oponente foi a Usina de Aço de Volta Redonda. A nosso favor, a excelente rede de rodovias, a proximidade do Porto de Santos, bem aparelhado e indispensável para receber os primeiros componentes automobilísticos e para embarcar veículos a outras regiões brasileiras e outros países. A sociedade regional, unida e ciente da necessidade de esforços conjuntos, contribuía intensamente, inclusive criando a CTBC (Companhia Telefônica da Borda do Campo), em março de 1954, para superar as enormes dificuldades de falar com outras cidades. Além disso, as melhores escolas técnicas e de engenharia industrial estavam em São Paulo, a cerca de 20 quilômetros.

O Grande ABC oferecia essas condições amplamente divulgadas e enaltecidas pelos políticos regionais de então que, com intenso corpo-a-corpo com o governo federal e apoio do estadual, conseguiu vencer a concorrência. Preferencialmente ao longo da Via Anchieta começavam a se estabelecer as primeiras indústrias produtoras de veículos. Era o início da segunda metade do século XX e o começo da explosão demográfica e econômica no Grande ABC. Começaram a ser insistentemente procuradas inúmeras oficinas mecânicas, pequenas tornearias, produtores têxteis, fabricantes de carroças, produtores de implementos agrícolas, materiais elétricos etc. Eram técnicos das indústrias de veículos, cheios de desenhos, procurando quem pudesse fabricar peças. Estava começando a indústria de autopeças e nascendo o nome montadora.

Começávamos um novo método de produção: pela primeira vez víamos entrar em funcionamento sistema produtivo descentralizado — uma cadeia produtiva. Foi um período de difícil adaptação. As empresas locais experimentavam produzir pela primeira vez alguma coisa que seria usada por outra empresa. Para muitas significava deixar de ter um produto de sua marca para fazer uma peça que iria desaparecer no produto maior. Além disso, passava a haver a necessidade de fabricar e entregar peças numa data determinada, sem atrasos, dentro da qualidade exigida pelo comprador.

Para as compradoras era uma experiência difícil, que exigia adaptação, treinamento de fornecedores, criação de regras de fabricação, de qualidade e de treinamento dos empregados. Havia também a questão do pagamento num regime ao qual as empresas fornecedoras não estavam acostumadas. Para poder produzir, as montadoras necessitavam de trabalhadores aptos e faziam o treinamento necessário em suas próprias instalações. Para ter condições de iniciar ou ampliar rapidamente a produção foram recrutar trabalhadores com alguma experiência em todas as cidades da região e também na Capital. Os novos contratados recebiam treinamento especial nas máquinas das próprias empresas de veículos.

As dificuldades de relacionamento entre montadoras e fornecedores foram sendo vencidas. A melhoria constante e a demanda por trabalhadores aptos pelas empresas maiores desencadearam processo de busca acelerada por mão-de-obra treinada. Empresas com maior poder aquisitivo ou necessidade mais premente contratavam trabalhadores das menores. A busca constante num mercado com pouca oferta de mão-de-obra especializada começou a distanciar os salários.

Na primeira década, a concentração de esforços foi claramente na capacitação das empresas montadoras e seus fornecedores. Na segunda década, o centro das atenções foi a consolidação do parque industrial automobilístico visando condições para o domínio regional (sul-americano?) e a competição internacional. No início da terceira década, a necessidade de consolidar e aglutinar as três vertentes (capital das montadoras, capital das autopeças e força de trabalho) deu vez ao trabalhador, que conseguiu se unir e reivindicar o reconhecimento de sua parcela de contribuição para a cadeia produtiva automobilística.

Ao longo das quatro primeiras décadas após o fim da Segunda Guerra Mundial um enorme conglomerado de empresas complementares instalou-se no Grande ABC: petróleo e seus derivados, tintas, pneus, indústria do plástico, da construção civil, de serviços de manutenção etc. Outras, como a indústria moveleira, viu seu espaço ampliar-se e consolidar-se, embora tenha sempre se mantido primordialmente regional. Quanto mais e melhor infra-estrutura tínhamos, mais atraíamos outras empresas ávidas para se instalar em locais favoráveis à sua produção, à distribuição e ao consumo.

Mas as coisas iam mudar na segunda metade da quarta década. Com a abertura da economia brasileira no início dos anos 90, o que significou repentinamente o fim da reserva de mercado para muitos produtos (inclusive automóveis, eletroeletrônicos, eletrodomésticos, computadores etc), novos ventos soprariam a necessidade de mudanças. Precisávamos nos adaptar repentinamente à competição internacional que tem preço, prazo e qualidade. O governo federal alardeara que no início dos anos 90 o mercado nacional seria aberto, mas poucos acreditaram, pois a política econômica mudava muito e muitas promessas não eram cumpridas. Além disso, um novo governante assumiria e havia esperanças de política econômica equilibrada e voltada para o desenvolvimento.

Fazer com competência hoje significa também produzir com preços que possam concorrer nos mercados internacionais. Isso leva a especialização cada vez maior visando o máximo aproveitamento dos recursos. Graças a isso apareceram as empresas de logística substituindo com eficiência e menor custo os antigos departamentos de follow up (seguidores de produtos), encarregados de garantir que o fornecedor entregasse a mercadoria na data certa, na quantidade correta, com a qualidade exigida, mas nem sempre com muito sucesso.

Manter o crescimento regional — ou simplesmente manter a capacidade do parque industrial (produção e geração de empregos) — parece não ser mais possível pela implementação de grandes atores, como a indústria automobilística ou mesmo a de derivados de petróleo. Espaços estão sendo deixados por empresas que buscam otimização de recursos e trocam o metro quadrado caro por outro mais barato, a mão-de-obra elevada por outra menos custosa, as antigas instalações por outras mais modernas e adequadas. Muitas vezes também consideram incentivos que diminuem os custos de construção e de instalação. Muitas procuram ainda reduzir o desgaste das pessoas pela insegurança no trânsito caótico e querem diminuir as incontáveis horas perdidas nos deslocamentos de cargas. Outras também buscam regiões onde existam entidades de ensino que atuem em suas áreas, capazes de dar-lhes suporte técnico e treinamento, além de facilidade para o acesso a crédito.

Já não basta mais o empresário empreendedor e dedicado juntar-se com o trabalhador esforçado e, com uma boa idéia e produto, vencer. Cada vez mais o empresário tem de se preparar com boa formação variada e completa, dirigida à administração da empresa e do mercado. Cada vez mais é necessário um trabalhador bem preparado e com conhecimentos especializados avançados, versátil no trabalho e disposto a aprender.

Estamos em plena crise de identidade na atividade industrial e periférica, cujo anúncio havia sido feito no início da década de 90. Muitos esforços têm sido feitos para encontrar um caminho, dentre os quais:

a) Criação de incentivos: salvo raras exceções, os incentivos municipais têm a tendência de privilegiar grandes grupos empreendedores, não necessariamente empregadores. Além disso, costumam ser individuais, prevalecendo quem tenha melhor poder de barganha. Foi notada uma tendência dos poderes executivos em premiar os maiores contribuintes potenciais. Não se tem notado sólida política de incentivos eventualmente direcionada ao desenvolvimento de novo segmento como eletrônica embarcada, softwares para computadores, telecomunicações etc.

b) Cooperativas de produtos: para minimizar o desemprego tem-se estimulado a criação de microempresas e cooperativas de produtos como doces, pães, costura, reforma de casas, manutenção predial etc. Como muitas têm sido fortemente assistidas pelas administrações públicas locais e apoiadas nas dificuldades, vêm conseguindo sobreviver. Ainda não se deu a devida atenção ao risco de mortalidade nem ao fato de o setor ser de expansão limitada.

c) Cooperativas de serviços: têm o mesmo objetivo das cooperativas de produtos, mas voltadas à prestação de serviço, manutenção de máquinas, manutenção e reforma de casas, manutenção predial etc. Têm sido indevidamente usadas para reduzir os custos sociais dos mais variados empregadores. A não contribuição obrigatória para a Previdência faz nascer um problema social que irá se agravar ao longo do tempo. E que só terá solução às custas dos contribuintes.

d) Mudança de legislação: cidades vêm apresentando propostas de modificação de leis para facilitar a instalação de atividades diferentes daquelas para as quais os imóveis foram construídos e em endereços para os quais antes haviam outras regras de utilização. Corremos o risco de descaracterização progressiva e irreversível ou irreparável, mudando-se completamente as características comerciais, industriais e residenciais.

e) Banco do Povo: instituição de fomento voltada a facilitar o acesso ao crédito de microempresários e trabalhadores com potencial para montar o próprio negócio. Tem sido o mais válido dos esforços, mas a estrutura não consegue atingir volume significativo do universo a que se destina.

Longe de ser uma novidade passageira, a tendência à prestação de serviços é cada vez mais verdadeira e inevitável. Mas não há porque nos preocuparmos muito, pois já temos convivido com diversas formas de prestação de serviço na área industrial. Desde o começo do crescimento industrial do Grande ABC, muitas empresas foram convidadas a trabalhar com ferramentas feitas por seus clientes, algumas vezes instaladas em máquinas também cedidas, trabalho conhecido pelos industriais como prestação de serviço, podendo ser com matéria-prima ou sem matéria-prima, indicando origem do prestador do serviço ou cedida pelo cliente para ser beneficiada.

Parece estar consolidada a idéia de que a cadeia produtiva como sistema dá boa garantia de continuidade, rendimento e aplicação equilibrada de capital e trabalho. Além disso, tem a virtude de reduzir a tendência de quebra da cadeia. Com isso, minimiza-se o risco de morte empresarial, pois eventuais elos enfraquecidos podem ser socorridos individualmente ou substituídos nos piores casos.

A tendência de formar cadeias produtivas atende à necessidade de otimizar o uso do capital, pois a concentração produtiva — conhecida como verticalização industrial — exige grandes aportes financeiros e enormes parques produtivos de uma só organização. Esses investimentos tendem a ser cada vez mais raros e concentrados em número cada vez menor de empresas. A tendência é de haver apenas alguns grandes grupos industriais e número cada vez maior de empresas para o atendimento. Claro que esse efeito é menor nas empresas do setor primário, como extrativas, processadoras de petróleo, siderúrgicas, geração de energia elétrica etc, onde o porte, o volume e o tempo de maturação de um investimento é de 10, 15 anos ou mais.

Não há mais uma vertente preferencial para desenvolvimento industrial na região, pelo menos por enquanto. Isso representa perda significativa da personalidade e da imagem — local, nacional e mundial — vivida ao longo dos últimos 50 anos.

O número de impostos, a soma de todas as alíquotas, a carga tributária e a própria burocracia para calcular e recolher cada imposto são fatores determinantes sobre os quais cada empresa em geral pouco pode fazer, mas que, no nosso caso, atuam como uma das grandes dificuldades a serem superadas para vencer a crise. A busca de solução séria tem de incluir fatores que influem decisivamente na instalação de empresas. Isso significa — entre outras providências — a aproximação às escolas técnicas e superiores existentes na região que tenham atuação explícita em pesquisa de produtos e processos e que possam dar suporte e treinamento às empresas aqui instaladas.

As administrações municipais precisam identificar e realizar programa permanente e eficaz de divulgação da imagem do Grande ABC em outras regiões potencialmente clientes. Indispensável será a co-participação do Poder Público e empresários para:

a) Organizar e realizar feiras de produtos e serviços locais trabalhando intensamente a divulgação, a fim de atrair turistas e possíveis clientes de micro, pequenas e médias empresas da cidade e de nossa região;

b) Articular e executar programa de apoio à participação em feiras estaduais e nacionais de fabricantes de produtos locais e de prestadores de serviço de porte adequado à abrangência da feira;

c) Atuar fortemente para se fazer conhecida em outras regiões como fabricante de bons produtos.

É necessário ir ainda mais longe, pois historicamente sempre fomos identificados como Grande ABC. Portanto, também é necessária a ênfase ao esforço regional conjunto e dirigido. A profunda e progressiva interação de nossas cidades já demonstra que as soluções locais e individuais de cada município interferem nos demais, o que recomenda a busca coletiva de soluções.

A criação do Consórcio Intermunicipal de Prefeitos do Grande ABC poderia ter sido o primeiro e tímido passo na direção das decisões integradas se não se mantivesse no limbo a maior parte do tempo. E isoladamente não será suficiente. É importante que a comunidade regional volte a se unir para encontrar soluções para alcançar um futuro estável com boa qualidade de vida para morar e trabalhar.

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