Nosso Século XXI (1ª Ed.)

Só ousadia pode
forjar novo modelo

  ALEKSANDAR JOVANOVICK - 26/07/2001

Palco da ocupação do território pelos portugueses no século XVI, caminho do mar, passagem de tropeiros, sede de núcleos coloniais e leito da lenta industrialização suburbana do início do século XX, pólo de desenvolvimento da indústria automobilística nacional e palco das grandes lutas sociais das últimas décadas, resta ao Grande ABC escolher sua nova vocação no século que iniciamos. A tarefa é difícil e complexa, se se levar em consideração o fato de que os quase 2,5 milhões de habitantes ocupam sete municípios distintos inseridos na gigantesca mancha urbana da Região Metropolitana de São Paulo, com a qual dividem mais obstáculos do que soluções.

Para sobreviver com qualidade e dignidade, torna-se fundamental forjar uma identidade de contornos claros. Caso contrário, a região corre o risco de tornar-se o antônimo exato da imagem de prosperidade e modernização que vendia havia três décadas e fundir-se, em definitivo, no cenário fantasmagórico de luxuosos shoppings e grandes indústrias ilhados por favelas e problemas sociais. Simples miniaturização das enormes contradições do próprio País. E debuxar as linhas identificadoras, ainda que esfumaçadas, representa múltiplo desafio num mundo onde, cada vez mais e cada vez em velocidade maior, fenômenos políticos, econômicos, sociais e culturais deixam de estar vinculados de forma explícita a um território para difundir-se em toda parte, simultânea e concomitantemente.

Pensar o futuro do Grande ABC implica digerir-lhe o passado, recente e remoto, e projetar caminhos que permitam inseri-lo de modo adequado dentro da moldura das profundas transformações que o mundo atravessa. A chamada Sociedade da Informação começou tímida nos anos 50/60 e vive seu auge agora: traduz-se em império da informática e automação industrial. Mas também solidifica-se no fato de que geração, armazenamento e reelaboração da informação representam a mais importante atividade do momento. Em menos de 20 anos, a nova onda dominante será a Sociedade da Biotecnologia, fundada nos acrobáticos saltos da Engenharia Genética.

Aqueles que estiverem excluídos dos avanços mais significativos desses dois gigantescos saltos qualitativos correm o risco de se tornar simples consumidores dependentes da tecnologia alheia. Aduza-se a isso uma forte pitada do molho denominado globalização e o resultado será palpável sob as lentes da teoria de Darwin: apenas os mais aptos têm sobrevivido. E, nesse caso, aptidão deve ser entendida como qualificação profissional, resultado, por seu turno, de educação formal, de grandes investimentos em escolarização. Outra adição necessária: segundo todos os analistas, turismo e entretenimento em geral fazem parte dos negócios promissores do novo século.

Estamos assistindo a uma tríplice revolução tecnológica no mundo — na área das comunicações, transportes e inteligência artificial — que resulta em mobilidade de pessoas, serviços e bens. Mais ainda: trata-se de uma ruptura da organização socioeconômica iniciada nos séculos XVII e XVIII, com a superação das dicotomias entre agricultura e serviços e manufatura e serviços. As chamadas novas tecnologias de informação combinam-se com as telecomunicações e o transporte rápido. Tudo novo, célere e, a exemplo de tantos outros inventos da espécie humana, encerra em si, de modo simultâneo, os germes do positivo e do negativo, dos usos adequado e inadequado. Aquilo que se chama de pós-industrialismo escancarou diante de nossos olhos uma transformação rápida e sem voltas da primeira para a segunda metade do século XX: na primeira metade, ciência e tecnologia representavam as fontes da produtividade; na outra, conhecimento e informação vêm gerando riqueza e poder social no mundo. Basicamente tudo está centrado, em termos de atividades e recursos, no processamento da informação. A revolução tecnológica de que falamos representa inovação contínua de produtos, centrada em processos, e nisso tudo a informação tem sido matéria-prima fundamental para gerar conhecimento novo. Pergunta elementar, mas essencial: estamos, enquanto conjunto de cidades ou como sociedade, preparados para absorver isso? Ou continuaremos combinando, a exemplo do enorme País onde estamos inseridos, modos de produção pré-capitalista com outros, pós-industriais?

As utopias têm sido motoras da humanidade. Para o bem ou para o mal. As chamadas utopias regressivas sempre tenderam a contrapor o presente negativo a um passado idealizado e perfeito, criando a tensão entre o aqui problemático e o lá identificado com uma espécie de Idade do Ouro. Já as utopias prospectivas e redentoras costumam opor um tempo presente povoado de dificuldades e sombras e um futuro, a ser construído, quase-paradisíaco, meio caminho trilhado para a provável salvação dos homens. Sabemos, por experiência histórica, que conquistas consideráveis no conhecimento, as grandes descobertas marítimas ou os mais execráveis projetos ideológicos do século XX foram movidos pelo combustível das utopias para levar adiante seus propósitos. Ainda assim, é preciso opor um aqui a um lá hipotético e imaginário, a fim de pensar (e construir) o tempo futuro.

Nos dias atuais, verifica-se que um dos sonhos (e uma das quase certezas) da espécie humana apresenta tantos furos quanto um bom e gigantesco queijo suíço: a idéia de que o progresso é algo objetivamente pensável e palpável cede espaço a questionamentos. Nem o mundo paradisíaco e bíblico — imagem com a qual o Novo Mundo era apresentado na Baixa Idade Média — existe em dimensão especial ou temporal, nem o mundo edificado pelos homens, segundo projetos de qualquer espécie, foi capaz de gerar e prover justiça, igualdade e bem-estar para todos. É fundamental, contudo, ir em busca de certos objetivos que possam projetar um lá (catapultado para o tempo e espaço futuro) melhor do que o aqui vivido no dia-a-dia de megacidades povoadas de problemas sociais, econômicos, ecológicos e uma profunda crise de valores.

Ao mesmo tempo, é preciso lembrar que, há pouco tempo, recursos naturais eram sinônimo de prosperidade. Novas formas de acumulação de capital deixaram fora da órbita do desenvolvimento os países fornecedores de matérias-primas. Hoje, o que realmente diferencia os países avançados dos demais é a acumulação de conhecimento: o saber foi elevado à categoria de bem cujo valor pode ser convertido em moeda. O mundo presencia alterações brutais nos meios e modos de produção e, assim, nos países mais adiantados, indústria e agricultura começam a absorver percentuais quase ínfimos da força de trabalho disponível. O Grande ABC beneficiou-se, nos anos 50, do projeto de implantação da indústria automobilística no País. Quase tudo foi erigido em torno dessa idéia, fato que se mostrou problemático a partir dos momentos de crise aguda: migrações sucessivas vincaram a face dos municípios, engrossando a fila dos que chegaram em busca de novas oportunidades de vida e trabalho, e as cidades cresceram muito depressa, sem condições de absorver a população de maneira adequada e condigna. De maneira irônica e não menos trágica, o que era uma área periférica de São Paulo com meio ambiente ainda preservado há seis décadas tornou-se enorme parque industrial 30 anos mais tarde, coalhado, porém, de contradições. Hoje, com o fenômeno contínuo da chamada desindustrialização, ficam à mostra as diversas fissuras (e por que não fraturas?) do modelo socioeconômico tupiniquim, legando-nos longa e intrincada lista de indagações a respeito do papel a ser desempenhado pela sociedade civil, pelas entidades de classe, pelo Poder Público, pela cidadania em geral, para que haja reversão definitiva na crescente onda de problemas e dificuldades com que se defrontam as cidades da região.

Torna-se impossível pensar o Grande ABC sem incrustá-lo nos arranques, solavancos e tropeços das políticas socioeconômicas que orientaram o País nos últimos decênios. Os imigrantes europeus trouxeram braços para a lavoura brasileira no final do século XIX. Mas também vieram na bagagem valores socioculturais e políticos novos e diferentes, capazes de temperar — por vezes, de modo picante, como foi o caso dos anarquistas do início do século XX — reivindicações, alterar meios de produção e diagramar uma nova realidade. Em espaço curto de tempo, as migrações internas deslocaram enormes massas de população do Interior para cidades da orla atlântica do Brasil, expondo-as muitas vezes a desconhecidos meios de produção e a uma competição canibalesca.

O capital acumulado pelos produtores cafeeiros financiou a industrialização paulista das primeiras décadas do século XX, criou uma incipiente classe operária que conseguiu, nos anos 60, transitar para as bordas da classe média. Mas, em poucas décadas, a base do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC — emblema de confrontos e conquistas nos anos 70 e 80 — encolheu de 250 mil para 100 mil trabalhadores. Sinal de que a combinação de fatores diversos, e até mesmo contraditórios, pode conduzir o País à situação em que se encontram nações muito avançadas, ou seja, emprego de 3% da força de trabalho na indústria e significativas massas flutuantes fora do mercado de trabalho. Faltam-nos, contudo, o colchão social capaz de amortecer o choque do desemprego em massa e o grau homogêneo e elevado de escolarização que permite a requalificação profissional segura. No beco sem saída da perda de renda fixa, a pista da contramão apresenta a economia informal e uma escala de empobrecimento gradual. Sem reverter essa espécie de quadro, não há sonho futuro que não derreta sob a escaldante temperatura dos conflitos sociais.

Os ingredientes que fiam a complexa tessitura da realidade dos sete municípios alternam, de modo desigual e por baixo dos meandros das curvas estatísticas, ilhas de prosperidade econômica e vários padrões de excelência tecnológica, massas de deserdados que habitam favelas, gente sem renda mínima, ondas de crescente violência urbana. Se o passado não muito distante conferia certo e aparente tom de uniformidade aos núcleos urbanos formados na antiga Borda do Campo, o presente parece sulcar a trilha do futuro com candentes pontos de interrogação referentes às eventuais soluções para os problemas socioeconômicos e ao perfil a ser diagramado nos próximos decênios, a várias mãos. De modo objetivo, as oportunidades de êxito profissional futuro de uma criança de escola fundamental hoje são muito distintas em Rio Grande da Serra — carente de perspectivas de aumento da renda local e consequente evolução econômica — e cidades como Santo André ou São Caetano. É esse tipo de distância que precisa ser reduzida, homogeneizada por cima, a fim de que todos tenham possibilidades estatisticamente similares e para que os bolsões de bem-estar deixem de ser minúsculos arquipélagos no oceano revolto das crescentes dificuldades de acesso a direitos básicos da cidadania.

Uma agenda para o século XXI certamente mistura poções distintas de utopias. Talvez muitas sejam factíveis. A primeira pergunta, no entanto, diz respeito a uma questão básica, digamos elementar mesmo, a fim de que se saiba que espécie de identidade o Grande ABC pretende ter ou adquirir para alicerçar o futuro sobre bases mais sólidas. A vocação puramente industrial foi ultrapassada. O setor de serviços, que abocanha grandes fatias das atividades econômicas, não pode, contudo, responder à demanda da mão-de-obra em velocidade similar à da indústria. Operários especializados para a linha de montagem automobilística sem posto de trabalho enfrentam dificuldades para requalificar-se profissionalmente e obter novo emprego e rendimentos equivalentes ao que foi perdido. É claro, a região compartilha seus males com as grandes distorções produzidas no País ao longo de décadas. Mas a identidade a ser desenhada precisa emergir mesmo das diferenças internas e de um grande projeto da sociedade civil, em torno do qual as forças se aglutinem para redirecionar as dimensões perdidas e equacionar as ainda não projetadas.

Além dos milhares de postos de trabalho que se evaporaram em menos de duas décadas, legando a formidável e assustadora área de 1,5 milhão de metros quadrados de galpões-fantasmas, a região perdeu várias outras coisas importantes no eixo do tempo. Viu desmoronar, por exemplo, a ferrovia, os mananciais de água e parte expressiva do meio ambiente. Três elementos que poderiam (e talvez ainda possam) gerar bem-estar e renda contínua, através do ecoturismo e do transporte barato na ligação do Interior com o Litoral.

Mudanças cosméticas, e portanto superficiais, pouco ou nada acrescentarão às necessidades de transformação profunda da região para que possa competir com o seleto grupo de áreas desenvolvidas do mundo. Uma lista inicial de deficiências a serem sanadas pode causar insônia a qualquer noctívago de plantão: transporte coletivo, saneamento básico, destinação final dos resíduos sólidos, abastecimento de água. Tudo indica que ao Poder Público local incumbirá, nesta década, servir de pólo aglutinador dos debates referentes às transformações, sob pena de omissão e descaso. Sem que se possam esquecer as questões estruturais que vêm sendo debatidas no vazio há dezenas de anos. É o caso da coleta de lixo e das (sempre previsíveis) enchentes. Sem poder deixar de lado pontos essenciais como o investimento agressivo em educação e saúde.

Está claro, de outro lado, que a solução de muitos dos problemas que infernizam o cotidiano dos moradores está além do alcance da instância municipal. E, assim, a receita do bolo precisa ser fermentada com a dose certa da representatividade política, a fim de que eventuais reivindicações coletivas das sete cidades possam ecoar e ser atendidas. Pensar o futuro das sete cidades implica construir condições concretas de melhoria de vida para os 150/ 200 mil favelados de São Bernardo (aparentemente, um problema local) e, ao mesmo tempo, bater-se pelas questões regionais não resolvidas. Um paradoxo do qual não há como escapar. Marchetar o perfil imaginário do Grande ABC para este novo século implica lidar, o tempo todo, com o granito das contradições que escorrega sob o cinzel das idéias e o martelo das intenções.

Recortar o equacionamento das dificuldades sobre o pano de fundo de uma desejada identidade regional é o desafio incisivo, que somente poderá ser executado com uma agenda articulada em torno de alguns pontos centrais. Não seria ruim, por exemplo, debruçar-se sobre a experiência das cidades do Vêneto italiano, que nos anos 50/60 exportavam gente, ou seja, no pós-guerra europeu, a região sofria (pela segunda vez, em menos de 100 anos) o impacto da falta de perspectivas econômicas e sociais. A idéia de criar os chamados clusters (colmeias) de empresas permitiu que uma área de pouco mais de 700 mil habitantes tenha hoje cerca de 75 mil empresas, de todos os portes, ocupando-se fundamentalmente da exportação de produtos, o que a transformou no pólo mais rico da Europa em termos de renda per capita. Não resta dúvida quanto ao fato de que existem grandes diferenças separando as duas realidades — a peninsular e a nossa. Ainda assim, aprender com os acertos alheios é um bom começo. A inserção das sete cidades em áreas competitivas, salvo as poucas exceções, tem ocorrido por causa e por conta das megacorporações aqui sediadas. Portanto, não se trata de resultado de um projeto arquitetado pelas várias instâncias do poder local.

Não existe caminho de retorno em direção àquilo que já foi perdido. É preciso construir sobre as bases de areia movediça de dificuldades que têm varrido a sociedade brasileira nas últimas décadas. Desemprego estrutural é uma realidade mundial, em função das profundas transformações econômicas que estamos presenciando. Meio ambiente degradado é fato consumado e que também nos coloca na fila dos países menos desenvolvidos. Os antigos pousos de tropas do Brasil-Colônia transformaram-se em pontos fixos de agricultura de subsistência e cultura artesanal, valorizados com a industrialização incipiente na fronteira entre os séculos XIX e XX; aí reside a origem do Grande ABC. O grande parque fabril em que se metamorfoseou contempla no espelho das horas que soam ríspidas, mas certas, o tropel constante da robotização. Ousar muito, como fizeram os colonizadores que subiram a Serra em meio ao nevoeiro e à hostilidade do ambiente; ousar bastante, como fizeram migrantes e imigrantes; ousar sempre, como tem ocorrido com os atores das lutas sociais que difundiram a imagem da região sobretudo nos anos 80, será a única utopia capaz de fundir anseios e necessidades dentro de um novo modelo. Que, seguramente, deverá combinar os diversos ingredientes de um projeto que permita ao Grande ABC aglutinar, ao menos, três elementos: criar um centro de excelência educacional , tornar-se pólo de tecnologia avançada e investir na recuperação do meio ambiente, a fim de explorar o ecoturismo.

É interessante lembrar que há seis anos um projeto da Câmara de Comércio Brasil-Alemanha visava injetar US$ 20 milhões numa escola superior de mecatrônica e robótica na região, com intercâmbio constante de professores e alunos e renovação dos equipamentos a cada cinco anos. A contrapartida local seria apenas a construção de um prédio de US$ 2 milhões. O intento naufragou por absoluta falta de vontade política e uma evidente miopia administrativa dos que deveriam tomar a decisão no âmbito municipal. Os principais argumentos apresentados pela equipe germânica eram a localização estratégica entre aeroportos e portos, no coração do enorme conglomerado empresarial da área metropolitana de São Paulo, e outras tantas facilidades que são evidentes para quem conhece o Grande ABC. Se já se vislumbrou esse tipo de investimento é porque seja possível harmonizar trinados de pássaros de uma área de ambiente revitalizado com o burburinho dos estudantes (de cursos competentes, capazes de concorrer de igual a igual no mercado) e com a produção de elementos de microeletrônica, e seus sucessores. Talvez, por isso mesmo, a conclusão seja a de que sonhar é preciso, viver não é preciso.

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