Entrevista Especial

Tarcísio prepara-se discretamente
para a sucessão de Luiz Marinho

  DANIEL LIMA - 26/06/2013

Perderá tempo quem espera do supersecretário da Prefeitura de São Bernardo, Tarcísio Secoli, alguma brecha de entusiasmo público para inflar a bolsa de apostas de que será o indicado do PT à sucessão de Luiz Marinho em 2016. Tarcísio Secoli já tem percorrido universidades e instituições sociais para discorrer sobre políticas públicas. A pauta principal é a inovadora e polêmica usina de incineração de lixo projetada para ocupar a mesma área do antigo Lixão do Alvarenga. Mas Tarcísio Secoli não se trai por conta das perspectivas. Age com a naturalidade de quem nem se dá conta de que é um poderoso secretário.

 

Nesta Entrevista Especial a CapitalSocial, Tarcísio Secoli condensa à perfeição o estilo fechado de ser. É um dirigente público de poucas palavras. Reduz as frases ao essencial. Mesmo que o essencial tenha significado indefinido como conteúdo explicativo. Tarcísio Secoli transmite a sensação de que está à beira de um precipício nas respostas que se seguem.

 

Possivelmente com Tarcísio Secoli o melhor caminho para arrancar mais que frases curtas seria uma entrevista pessoal, cara a cara. Mas nem assim haveria garantia de que abriria os flancos. Tarcísio Secoli é mais expansivo ao falar do que ao escrever, mas essa constatação não quer dizer muita coisa. A discrição o catapulta à liderança interna como candidato petista em São Bernardo. Discrição sempre acompanhada de ponderação e reflexão. 

 

É claro que Tarcísio Secoli não fala sobre eventuais concorrentes internos que teria de bater nas instâncias deliberativas do PT, porque nem admite candidatura formalmente. Se admitisse e se resolvesse falar, provavelmente citaria o nome de Rafael Marques, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, de onde saíram Lula da Silva para a Presidência da República e Luiz Marinho para a Prefeitura de São Bernardo. Rafael Marques também é presidente da Agência de Desenvolvimento Econômico do Grande ABC, incentivado e apoiado por Luiz Marinho. Aliás, esse suporte embalaria a candidatura de Rafael Marques, segundo observadores que desaconselham favoritismo concentrado em Tarcísio Secoli.

 

Não é bem assim: o que se pretenderia mesmo é, com a ascensão de Rafael Marques, evitar excessiva exposição de Tarcísio Secoli durante um período muito mais amplo do que o desejável. Prefere-se que se mantenha poderoso como é, mas menos visível. Até que dê uma grande arrancada com o suporte da máquina partidária e da maquinaria administrativa. Nada disso, entretanto, se extrai desta Entrevista Especial. Muito pelo contrário. Frustração? Não, a confirmação de um perfil pouco sujeito a escorregadelas verbais.

 

O que mais se fala em São Bernardo é que o senhor será o candidato à sucessão de Luiz Marinho em 2016, razão pela qual deixou o centro do poder político explícito, no Paço Municipal, como secretário dos secretários, e se deslocou ao centro do poder de votos, que é a Secretaria de Serviços Urbanos. Essa operação estratégica foi concebida exatamente por conta do esticamento da proposta de massificar seu nome?

 

Tarcísio Secoli – Minha ida para a Secretaria de Serviços Urbanos se deu em outro contexto. Temos dois projetos grandes que precisavam ser tocados, os dois me atraiam demais. Um é sobre resíduos sólidos, que vai desde a varrição de ruas até a incineração do lixo, passando pelo aumento da reciclagem e recuperação do antigo lixão do Alvarenga.  Além disso, temos as obras de drenagem que de fato acabaram com a s enchentes da cidade.

 

Também é natural que as pessoas comecem a especular sobre sucessão, na medida em que o prefeito não pode mais ser candidato. Eu, até pela minha história e proximidade com o prefeito, tenho o nome colocado em diversas rodas. Quero deixar claro que agora é momento de trabalhar e muito para que o prefeito Luiz Marinho faça um segundo mandato melhor ainda que o primeiro. No momento adequado o PT e o prefeito terão a sapiência necessária para escolher o melhor candidato para sucedê-lo.

 

Até que ponto as entranhas sindicais de um Município forjado nas lides trabalhistas influencia os resultados eleitorais à Prefeitura de São Bernardo? O senhor acha possível ganhar uma eleição apenas com as ramificações sociais dos trabalhadores ou a classe média de profissionais liberais e executivos de diversos setores tem peso que precisa ser bem avaliado?

 

Tarcísio Secoli – Para ganhar uma eleição é necessário um conjunto de forças sociais que englobem todos os que querem fazer o melhor pela cidade. Nesse sentido, os sindicatos de trabalhadores são e serão bem vindos, mas insuficientes a vitorias eleitorais de executivos. Precisaremos ter apoio de todos os setores, como o prefeito Luiz Marinho teve em 2008 e 2012.

 

O senhor é considerado um agente público muito centrado em projetos e metas, com capacidade de articulação e de convencimento em pequenos grupos de colaboradores. Por isso o colocam sob suspeição como industrializador de votos populares, já que não é visto como alguém com empatia popular, porque é econômico em gestos e palavras. Mesmo sem levar em conta a possibilidade de concorrer, mas apenas para sentir o pulso de eventual candidatura, que tipo de avaliação o senhor produz sobre suposta distinção de personalidade?

 

Tarcísio Secoli – De fato, meu trabalho é mais em pequenos grupos, ouvindo mais e falando menos, procurando consensos onde é possível. Não tenho interesse em sentir o pulso de eventual candidatura. Sou do jeito que sou, e acredito que assim posso ajudar nossa cidade.

 

Até que ponto o quadro macroeconômico nacional, que tem sempre relação muita próxima com o quadro macropolítico regional, interferirá nas eleições para a Prefeitura de São Bernardo em 2016? O senhor acredita em maiores riscos se eventualmente o PT não reeleger Dilma Rousseff à presidência da República ou entende que eleições locais são uma coisa e eleições gerais outra?

 

Tarcísio Secoli – Primeiro não vejo condições de nossa presidenta Dilma não ser eleita. Não existe nesse momento oposição com força para isso. Óbvio que condições econômicas boas, de forma geral, ajudam o candidato à reeleição. Nas cidades ocorrem outros fenômenos interessantes. A questão econômica não e o único fenômeno. Já ganhamos eleição em cidades quando o governo FHC ia bem, e perdemos quando ele ia mal. As pessoas querem saber as propostas para terem uma vida melhor e ponto.

 

Um candidato com histórico sindicalista jamais conseguiria ser governador do Estado de São Paulo? Estaria o prefeito Luiz Marinho marcado para morrer na praia se pretender mesmo um dia concorrer ao Palácio dos Bandeirantes?

 

Tarcísio Secoli – Não vejo nexo nessa relação. Até uns anos atrás seria possível dizer que alguém com histórico sindicalista jamais seria presidente da República. O Lula desmentiu isso. Nada impede que Luiz Marinho seja governador de São Paulo. Até porque o movimento sindical ajuda a entender muita coisa. Como negociar, por exemplo. E um bom gestor deve acima de tudo ser um bom negociador.

 

Qual sua avaliação sobre o contexto esportivo, social e político-partidário de um representante de São Bernardo no futebol de São Paulo, caso do São Bernardo Futebol Clube? Não lhe parece que houve politização partidária demais no gerenciamento de um projeto de fortalecimento da equipe da cidade que disputa a Série A do Campeonato Paulista, quando o recomendável, levando-se em conta que futebol também é mercado consumidor é minimizar possível a conotação petista do projeto?

 

Tarcísio Secoli -- Me parece que você esta falando do começo do São Bernardo, em 2005, quando Orlando Morando e Admir Silvestre começaram o time. Ali vi muita politização sim. Já com Luiz Fernando vi o contrário. Ele conseguiu fazer do time um fenômeno de público, com torcidas organizadas que encheram os estádios e levaram o time para a Primeira Divisão. Inclusive criando um mercado consumidor de produtos do time, como camisetas, por exemplo.

 

Se o senhor tivesse que citar três destaques temáticos dos quatro anos e meio da Administração Luiz Marinho, sempre considerando aspectos que confluam em direção ao atendimento da sociedade combinado com as naturais pretensões de o partido seguir no poder, quais programas ou projetos citaria?

 

Tarcísio Secoli – Primeiro, as mudanças na saúde. UPAs, reformas e ampliações das UBSs, construção do hospital de clinicas. Habitação, com a construção de 5000 moradias e urbanização de vários núcleos, com regularização fundiária de milhares de moradias. Mobilidade urbana, com metrô, construção de corredores de ônibus, fim das enchentes. Assim se melhora a vida do cidadão e credencia a continuidade da Administração.

 

A usina de incineração de lixo que está prestes a ocupar antigo lixão do Alvarenga, sob sua coordenação, supostamente não representaria qualquer risco ao meio ambiente? O senhor garante essa segurança sem que a afirmativa pareça algo adequado a quem está no centro do poder decisório em São Bernardo e observa que a obra seria um grande chamariz votos?

 

Tarcísio Secoli – Precisamos olhar outras experiências de fato. Em todos os locais em que foram montadas essas usinas não há evidência alguma de problemas com a saúde pública. Vi usinas no centro de Paris, de Lisboa e nas proximidades de várias cidades. Estudos foram feitos e em nenhum caso houve variações das doenças, da população circunvizinha, com cidades que não tem usina. Por isso estamos tranquilos nesse aspecto.

 

Seria a citada usina, que poderia ser inaugurada às vésperas das eleições de 2016, o porta-estandarte impactante de sua eventual candidatura à sucessão de Luiz Marinho?

 

Tarcísio Secoli -- A usina é mais uma obra inovadora do prefeito Luiz Marinho, dentro de varias outras obras, como o combate a enchente e a mobilidade urbana. O conjunto da obra do prefeito nos credencia a continuar no governo da cidade.

 

Qual sua avaliação sobre o eixo à composição de um secretariado municipal, seja qual for o vencedor de uma disputa eleitoral? O senhor é favorável a um grupo prevalecentemente formado por gente de São Bernardo, entende que uma maioria de fora sempre é capaz de oxigenar o ambiente estratégico de atuação, acredita que o melhor mesmo é associar os dois princípios, ou não tem dúvidas de que o que deve pesar sempre e sempre, independentemente de qualquer outro fator, inclusive de pressões políticas, é a capacidade de exercer a função?

 

Tarcísio Secoli – Creio que são Bernardo está formando várias pessoas nestas duas gestões do prefeito Luiz Marinho. Pessoas que estarão aptas a governar tocando um conjunto de obras de continuidade. O debate do local de moradia é falso. Se alguém vem de fora e passa a morar em São Bernardo na próxima gestão é considerado da cidade? Local de moradia não é condição de qualidade para administrar nada. Imagina a Mercedes Benz só aceitar em sua fabrica moradores de São Bernardo, ou a Embraer só aceitar moradores de São José dos Campos para fazer aviões.

 

O senhor tem um entendimento diferenciado, a separar o lado de cidadão comum e o lado de autoridade municipal, numa análise sobre a mobilidade viária em São Bernardo e na Região Metropolitana de São Paulo, ou entende que não há como distinguir uma realidade da outra? E qual é, seja qual for a resposta, sua avaliação sobre o caos metropolitano que trecho sul do Rodoanel nenhum conseguiu amenizar?

 

Tarcísio Secoli – Mobilidade urbana é problema regional sempre. Nenhuma cidade resolve isso sozinha. Transporte coletivo de qualidade deve ser sempre priorizado.

 

O senhor também entende que o mercado imobiliário é um macaco de interesses nem sempre republicanos na cristaleira de preservação da qualidade de vida, porque atua com liberdade demais, principalmente no açodamento que se cristaliza com verticalização indomável? Acha que é possível apenas com investimentos em transporte coletivo público amenizar os dramas diários de deslocamento mais que viciado em direção a determinadas regiões detentoras do maior contingente de empregos ou que é indispensável disciplinar com rigidez o uso e a ocupação do solo?

 

Tarcísio Secoli -- O prefeito Luiz Marinho enfrentou o lobby das imobiliárias, quando modificou o plano diretor da cidade, e fez alterações no sentido de acabar com a farra do boi que havia aqui. Aqui tudo se podia. Limitamos a altura dos prédios, aumentamos o IPTU de áreas vazias, especulativas, criamos Zeis com o aumento de áreas de interesse social. Agora existem situações já consolidadas com as quais é preciso conviver. Quem veio de São Paulo para cá não tem culpa de precisar voltar a São Paulo para trabalhar todos os dias, parando a Via Anchieta. Achar soluções e dever dos governantes.

Leia mais matérias desta seção: