Entrevista Especial

Saldanha também opõe-se à versão
de que Diário desafiou “ditadura”

  DANIEL LIMA - 06/05/2014

O experiente jornalista Milton Saldanha não é leitor crédulo da cartilha que procura colocar o Diário do Grande ABC como oponente do regime militar instaurado no País em 31 de março de 1964. Nesta Entrevista Especial, esse militante de esquerda com vasta carreira em grandes e médios veículos afirma categoricamente que, até prova em contrário, supostamente o período de 10 anos do semanário News Seller, embrião do Diário do Grande ABC, não concorda que o jornal tenha confrontado as forças que depuseram o governo João Goulart.

 

Os jornalistas Ademir Medici e Evaldo Novelini escreveram no Diário do Grande ABC de 20 de abril último, sob o título “Com quase 56 anos, Diário desafiou o regime militar”, breve reportagem sobre o comportamento do jornal mais tradicional da região, instalando-o num pedestal de oposição aos generais que governaram o País durante mais de duas décadas. CapitalSocial reagiu com fundamentação. Nada melhor que entrevistar Milton Saldanha, ouvido pelos jornalistas do Diário.

 

CapitalSocial preparou esta Entrevista Especial assumindo com o entrevistado um compromisso tácito: abandonou nesta apresentação a postura interpretativa das declarações do entrevistado, colocando-se voluntariamente apenas como retransmissor do pensamento de um profissional com larga bagagem contra o regime militar.

 

Preferimos deixar para amanhã não só algumas abordagens sobre as respostas de Milton Saldanha como, também,  os textos impressos pelo Diário do Grande ABC. Mais que isso: decidimos adotar ação editorial preventiva, levando-se em conta eventuais possibilidades de aquela publicação insistir numa melodia completamente fora das paradas de sucesso de resistência ao militarismo implantado no País. Nada que não tenha sustentação: troca de e-mails entre este jornalista e um dos autores da matéria, Ademir Medici, indica resistência a adoção de pelo menos uma medida: a admissão de que não existem elementos históricos sistemáticos que caracterizem a suposta resistência do Diário do Grande ABC ao regime militar, ou então provas jornalísticas que coloquem sem subterfúgios semânticos a publicação no estreitíssimo grupo de oposição àquela nova ordem constitucional.

 

O Diário do Grande ABC completa neste domingo 56 anos de circulação, 10 dos quais como News Seller, e, na tentativa de seguir a navegar em águas turbulentas, poderia repetir, em maior escala, subjetividades, imprecisões e manipulações registradas na reportagem de abril. Espera-se que não amplie com documentação igualmente seletiva e historicamente maltratada o erro já cometido. A emenda da embromação poderá soar pior que o soneto da mistificação.

 

E tudo a troco de nada. Um jornal que amealhou tantas conquistas mensuráveis e incontestáveis ao longo do tempo jamais deveria meter-se atabalhoadamente em seara que pertence a poucos protagonistas do mundo empresarial e a um numeroso contingente pessoal e profissional de inconformados, caso de Milton Saldanha. 

 

CapitalSocial -- O Diário do Grande ABC, desde os tempos de News Seller, se comportou como publicação que ergueu barricadas contra o regime militar ou atuou mais ou menos no recorte dos jornais conservadores?

 

Milton Saldanha – Não sei como era a linha do News Seller, que agora estou curioso em pesquisar depois de conversa informal que tive que o professor Antonio Andrade, da Universidade Metodista. Ele já vem fazendo essa pesquisa há algum tempo. Não vou comentar nada sobre as conclusões dele porque não estou autorizado para isso. Quero apenas saber melhor sobre aquele período, que talvez tenha sido diferente das outras fases do jornal, a conferir.

 

Para o leitor entender, esclareço que trabalhei no Diário em três períodos completamente diferentes, tanto do porte do jornal, como da situação política que se vivia em cada momento. A visão de cada pessoa sobre o jornal pode ser bem diferente. Ora, militei contra a ditadura, fui contra ela desde o dia do golpe em 1964, quando iniciava no jornalismo; meu jornal foi fechado e tive que me esconder, em Porto Alegre; atuei na política estudantil de esquerda; fiz jornais estudantis, de oposição; colaborei com a imprensa alternativa como associado, pagante, do Coojornal, de Porto Alegre; militei em trabalho político clandestino durante a ditadura; fui preso político no DOI-Codi. Logo, não posso concordar, do que acompanhei do Diário, que o jornal tenha confrontado a ditadura.

 

O que se tinha eram brechas, usadas por alguns editores, como eu, para plantar o que fosse possível, com prudência, sem avançar demais o sinal. E isso fazia toda a diferença quando se comparava com os jornais da Capital: o Estadão e Jornal da Tarde sob severa censura, e a Folha de S.Paulo tão aliada com a ditadura que sequer precisou de censor.

 

Além disso, o Diário era pequeno, como qualquer jornal de interior, mesmo sendo regional. Não chamava a atenção da censura, que nunca nos incomodou. Ela se dedicava a tentar destruir os pequenos jornais, alternativos, que faziam o verdadeiro combate ao regime. A Folha de S.Paulo, quando falar mal da ditadura já era chutar cachorro morto, com hiperinflação e muita corrupção, adotou uma sensacional estratégia de marketing e liderou a campanha das Diretas Já, nos anos 1980. Hoje, tenta passar a mentira de que foi sempre assim. Todavia, isso foi oportuno e muito bom para a retomada do processo democrático.

 

A linha editorial do Diário mudou na campanha das Diretas Já, pegando carona na jogada da Folha. Eu era editor-chefe e tive a felicidade de convencer o Fausto Polesi, o diretor de redação, da necessidade de inserir o jornal na campanha. Só vai entender que isso foi verdade quem perceber que o Fausto Polesi, que era um ótimo sujeito e meu amigo, inclusive tentou nos ajudar no episódio da prisão, era um jornalista-patrão, capitalista, com os anseios e ambições normais de qualquer patrão. A luta ideológica para ele não era uma prioridade. Seus editoriais eram moralistas, o que é diferente de ser engajado.

 

Eu, ao contrário, era um editor altamente politizado, com essa história de vida e profissional que resumi acima. Os primeiros anos da minha carreira, mal saindo da adolescência, foram num jornal de esquerda, que apoiava João Goulart e Leonel Brizola, na contramão da mídia inteira, exceto a Última Hora, no Rio Grande do Sul. Sofremos a violência do golpe, Santa Maria é um poderoso centro militar, o dono do jornal foi preso, eu me escondi, com apoio da minha família. Havia prisões por toda a parte. No dia do golpe, 1º de abril, falei no rádio, pela Rede da Legalidade, ao lado do meu amigo Tarso Genro, atual governador gaúcho. Poucas horas depois, o Exército ocupou a cidade e calou a Rede. Mesmo sendo garotos, éramos figuras públicas na cidade. O jornal, “A Cidade”, tinha só o dono, Clarimundo Flôres, e eu, além de meia dúzia de gráficos.

 

Nas Diretas Já a ditadura já definhava, desgastada pela grave crise econômica, com hiperinflação, e muita corrupção. Assim que sai da reunião com o Fausto Polesi, reuni a redação e outras áreas sob minha responsabilidade e fiz o anúncio, com estas palavras mesmo, de que o jornal a partir daquele momento estava engajado pelas Diretas Já. Considero isso um grande momento da minha carreira de 50 anos no jornalismo. Estou com 68 anos. Depois deixei o Diário e fui trabalhar na chefia de reportagem da Rede Globo, em São Paulo. Lá o papo era outro, como conto no meu livro de memórias, em detalhes.

 

CapitalSocial – O senhor era chefe da Sucursal do Estadão quando Lula começou a emergir no noticiário. O Diário do Grande ABC insiste em propagar que a grande imprensa foi omissa naquele período, que só descobriu Lula bem depois. O senhor admite que, trabalhando na região, não percebeu o movimento sindical desabrochar ou o Diário do Grande ABC constrói um enredo que lhe favorece certo exclusivismo?

 

Milton Saldanha – Primeiro, é preciso entender como funciona uma sucursal. A gente produzia matérias, previstas num roteiro da manhã, mais as imprevistas ao longo do dia, e jogava tudo no telex, para o Estadão, Jornal da Tarde, Agência Estado e Rádio Eldorado. O aproveitamento fugia do nosso controle, era critério de cada editor das diferentes áreas. A agência resumia tudo e distribuía, sempre, usando telex e teletipos.

 

Prova do meu interesse pelo setor sindical é que “roubei” do Diário uma repórter da área, que chamava minha atenção, a Valdir dos Santos. Tornou-se a setorista da sucursal. Quando o sindicalismo abeceano explodiu como assunto nacional e internacional, eu já tinha uma repórter lá dentro, com ótimas fontes. E olha que minha equipe não passava de seis jornalistas, portanto não podia me dar ao luxo de ter setorista em algo que não fosse realmente importante. Ela foi a única repórter que entrou na Scania, com o delegado do Trabalho, na eclosão da primeira greve, que começou lá, em 1978. Foi essa greve que projetou Lula.

 

O Diário tem razão. Era um parto, no Estadão, conseguir aproveitamento das nossas matérias sindicais. Mas a Agência Estado distribuía para cerca de 170 veículos do país, seus assinantes. Entre eles o Diário, que deu muitas das nossas matérias, e sem elas teria sido furado. Naquele espírito competitivo normal, das redações, isso nos deixava furiosos. Porque saia no Diário e não em nosso próprio jornal, o Estadão.

 

Eu tinha trabalhado na Agência, era amigo de todos lá, e certo dia pedi que cortassem do Diário o fornecimento desse tipo de matéria, que tornava as coisas fáceis para eles. Pô, a turma do Diário tinha que trabalhar! O Diário custou um pouco para perceber, levou vários furos enquanto isso, até que reclamou e foi religado. Afinal, era um cliente, pagante. Foi uma besteirinha, coisa da competição, éramos todos jovens.

 

Essa resistência do Estadão à cobertura sindical, e que a Sucursal não seguia, continuava mandando matérias todos os dias, só mudou a partir dessa greve de 1978, porque aí se tratava de notícia obrigatória e qualidade do jornalismo. O ABC era notícia, e mais do que isso, manchete todo dia. E, modéstia a parte, a Sucursal, só com seis repórteres, e dois reforços que pedi à matriz, deu show de cobertura. Tenho até hoje guardados os elogios, por escrito, dos editores, principalmente do Miguel Jorge, que era o editor-chefe.   

 

CapitalSocial – Qual a sua avaliação histórica sobre a direção empresarial do Diário do Grande ABC, levando-se em conta os três períodos nos quais trabalhou na redação?

 

Milton Saldanha – O Diário começou micro, dizem que Édison Danilo Dotto entregava o jornal de casa em casa, com carrinho de mão. Fausto Polesi foi empalhador de cadeiras. Eram muito jovens, e só puderam pagar a gráfica, na primeira edição do News Seller, graças a um anúncio, acho que de um banco. O jornalista e pesquisador Ademir Medici é quem conhece bem essas histórias. A transição para uma empresa de grande sucesso financeiro e comercial foi muito rápida. A grande receita vinha dos Classificados. Isso, pelo menos na teoria, dá independência ao jornal, que não fica exposto às pressões dos grandes anunciantes, entre eles órgãos públicos.

 

Em 30 anos, o jornal já era uma potência e tinha seu nome conhecido também fora do ABC. Trabalhar no jornal, na primeira fase, recém-diário, final dos anos 1960, foi uma delícia. Um dos melhores períodos de toda a minha carreira. Tínhamos pouca experiência, mas uma vibração incrível. Cheguei a dormir na redação, sobre papel jornal, para sair na madrugada com Pedro Martinelli, o Pedrão, para reportagens de aventuras, nas matas da Billings. A equipe era muito unida. Foi maravilhoso!

 

Dos quatro sócios, o único jornalista era Fausto Polesi, mas sem experiência de reportagem, nem de jornal anterior. Aprendeu tudo na marra, de forma empírica. Quando meu irmão, Rubem Mauro, e eu, assumimos a redação, tivemos que treinar todo o pessoal, principalmente em texto, porque ninguém conhecia regras básicas. O jornalista Renato Campos é desse tempo, que ele chamava como “escolinha”, é testemunha disso. Dirceu Pio e Hildebrando Pafundi, também.

 

Os donos tinham objetivos empresariais e muita ambição. Eram, antes de tudo, empresários, com um olho no custo e outro no lucro. Mas não nos pagavam tão mal, comparando com a média salarial dos jornais da Capital. Nos meus empregos anteriores, Diário Popular e Shopping  News, como repórter, eu ganhava menos. Se tivessem ficado unidos, teriam construído um império de comunicação, até com TV, como é hoje a RBS, no Sul, que começou de forma parecida. Naqueles primeiros anos a gente previa isso, principalmente quando compraram a Rádio Independência, em São Bernardo, que virou Rádio Diário do Grande ABC. Mas não aconteceu.

 

Os conflitos deles e os problemas sucessórios estancaram o crescimento empresarial. Um detalhe interessante: essa Rádio Independência certo dia foi tomada por Carlos Marighella, que deixou um gravador repetindo um manifesto contra a ditadura. O Diário da Noite, dos Associados, reproduziu o manifesto, como manchete, e isso custou a cabeça do seu diretor de redação, o Hermínio Sachetta, um comunista histórico e que foi meu chefe.

 

CapitalSocial – Como interpreta o meã-cupa da TV Globo por conta das Diretas Já?

 

Milton Saldanha – Não foi por conta das Diretas Já e sim da ditadura. A Globo apoiou a ditadura e foi apoiada por ela. Serviu como instrumentos dos militares no poder para fazer a apologia do Brasil potência, fase do chamado milagre e outros quetais. Todo mundo sabe disso, não estou dizendo nenhuma novidade. Nas Diretas Já, demorou muito para fazer uma cobertura com qualidade. No meu livro conto sobre essa parte e das pressões que nossa redação, em São Paulo, fez sobre o comando, no Rio.

 

Não se pode apagar a História, nem reinventá-la. Isso vale para a Globo, Diário, Folha, Estadão e outros. Mas do ponto de vista político acho excelente que a Globo tenha feito esse pedido de desculpa. Isso quebrou sua tradicional imagem de arrogância e agrega uma notável contribuição ao processo democrático, porque é uma atitude pedagógica. Os jovens devem perceber: se a Globo pede desculpa, é porque a ditadura foi um grande erro, lesivo ao país. Ruim seria se ela insistisse em justificar o injustificável.

 

CapitalSocial – Se o senhor fosse diretor de redação do Diário do Grande ABC durante mais de quatro décadas, como Fausto Polesi, e decidisse lançar um livro que reunisse os editoriais mais importantes da trajetória da publicação, todos feitos por você, o período do regime militar seria mais que minimizado, substancialmente omitido como época de constrangimentos legais? O livro que o senhor escreveu é um retrato de sua vida profissional. Por que o livro de Fausto Polesi não seria e, portanto, não anularia qualquer tentativa de transformar o Diário do Grande ABC, numa linha histórica, não circunstancial, em paladino antimilitares?

 

Milton Saldanha – Não tenho como falar pelo Fausto Polesi. A vida dele, e a minha, tiveram trajetórias completamente diferentes, só unidas circunstancialmente pelo fato de eu ter sido empregado na empresa dele em alguns momentos. Fui na missa de sétimo dia do Fausto, em Santo André. No final não me contive e chorei, sem conseguir falar, abraçado a seu filho e meu amigo Alexandre Polesi, hoje dono de jornal em Guarulhos.

 

Eu gostava do Fausto. Ele sempre foi afetivo comigo, e me respeitava muito profissionalmente. Não teria me confiado tanta autoridade na redação se não fosse assim. Foi me buscar em outro emprego, onde eu estava bem, com um projeto de melhorar a edição. Ficamos três meses negociando, em sigilo, com encontros no Terraço Itália, regados a vinho. Mas éramos cabeças diferentes. E cada vida, a seu modo, teve emoções, e também frustrações, diferentes. Sempre vi o Fausto como uma pessoa de direita moderada, mais liberal. Em hipótese alguma um homem de enfrentamento contra a ditadura. Mesmo que tenha feito alguma eventual crítica ao regime, de forma velada ou ostensiva.

 

Como já comentei, seus editoriais eram moralistas, o que nada tem a ver com contestação ao regime. O moralismo não é ideológico, pode estar tanto na direita, como na esquerda. Eu, ao contrário, sempre vislumbrei o jornalismo como uma trincheira para a luta política. No Estadão? Na Globo? será lícito questionar. Sim, porque todas as empresas são iguais, capitalistas. Em todas, sem ser tolo nem louco, eu tinha família para sustentar, procurei ocupar os espaços possíveis, sem perder o senso da realidade.

 

Muitas vezes, espaços que só um jornalista de esquerda tinha olho crítico para perceber. Isso explica, por exemplo, porque remei contra a postura interna do Estadão na questão sindical. Só eu sei o trabalhão que me deu, na coordenação da cobertura das grandes greves dos metalúrgicos, lidar com um editor que era reconhecido por todos como de direita e patronal, o Itaborai Martins, já falecido. Ele foi colocado lá justamente para frear nossos eventuais arroubos. Havia cordialidade e respeito no diálogo, mas era difícil. Tudo, na cabeça dele, parecia perigoso. O pior jornalismo é o medroso. Mesmo assim a cobertura do Estadão foi impecável, e ganhava de lavada da concorrente Folha.

 

O Fausto Polesi não me passava a imagem de ter esse medo, mas também não era arrojado. Não sei como foi com outros editores, mas no meu caso ele respeitava minha bagagem profissional. O Estadão tinha sido minha tremenda escola, e levei para o Diário tudo que tinha aprendido com grandes feras do jornalismo, a começar pelo rigor da apuração. Assumi o Diário no auge de uma briga infernal com um prefeito de Santo André, o Lincoln Grillo. Havia matérias sem critério, tolices até para falar de buracos de ruas, e aquilo desmoralizava o jornal. Dei um basta: denúncias, só fortes, documentadas e bem apuradas. Se o Fausto me desautorizasse, juro que pediria a conta. Emprego bom não me faltaria, como nunca faltou.

 

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