Economia

Telefônica faz em dois anos
o que a CTBC levou quase 50

  DANIEL LIMA - 05/01/2000

Nem o capitalismo privado corajosamente idealista mas escasso, nem o capitalismo estatal da ditadura militar, nem o capitalismo estatal abusadamente político-partidário. O setor de telecomunicações que atende o Grande ABC e a Grande Mogi das Cruzes, regiões com 3,2 milhões de habitantes, é comandado há 18 meses por um capitalismo de risco típico dos novos tempos de globalização. Por isso, a espanhola Telefônica de São Paulo, sucessora da CTBC (Companhia Telefônica da Borda do Campo), prepara-se para alcançar em julho deste ano a marca de um milhão de acessos telefônicos. A meta está programada para comemorar dois anos de privatização da Telesp, a megaestatal paulista que controlava a CTBC, empresa fundada em Santo André na década de 50.

Para se ter a dimensão da diferença desse modelo privatista em relação aos três momentos de capitalismo fulminado pela globalização — o voluntarismo dos pioneiros da companhia erguida com suor e lágrimas a partir de meados dos anos 50, o estatismo militar com todo o ranço de uma ditadura política e o partidarismo político de um Estado traquina e malversador –, o total de terminais telefônicos instalados em 24 meses de privatização que se completarão em julho será praticamente o mesmo dos 44 anos de história da CTBC. Eram 590 mil acessos para os 18 municípios abrangidos pela agora extinta CTBC até julho de 1997.

Os pioneirosA idéia-força de que a CTBC simbolizava o empreendedorismo regional teve lá suas razões históricas porque foi o resultado do esforço conjunto de lideranças locais ligadas ao Rotary Clube de Santo André que, no distante 1954, não suportavam mais as limitações de atendimento da Companhia Telefônica Brasileira, empresa canadense que detinha a concessão da área.

Afinal, o parque industrial da região começava a viver período dourado com a inauguração da Via Anchieta poucos anos antes. O novo corredor viário somava-se à Avenida dos Estados e ao transporte ferroviário que cortavam São Caetano e Santo André como pontos-chave de atratividade econômica.

O controle acionário da CTBC trocou de mãos em 1973, quando o governo militar apostou muitas de suas fichas estratégicas no setor de telecomunicações. Foram 12 anos de administração profissional sob o comando do executivo Arno Traeger, a quem se atribui não só competência administrativa como invulnerabilidade política. Em 1985, com a Nova República, que redemocratizou politicamente o País, a CTBC virou moeda de troca eleitoral que se desvalorizou tanto quanto o dinheiro brasileiro golpeado por 30 anos de inflação endêmica.

Nei Marques de Fontes, primeiro indicado à presidência da CTBC pela Nova República, era sintomaticamente cunhado do então líder político Ulysses Guimarães e tão boa-praça e fazedor de amigos quanto pouco versado no setor. Horácio Grobman mal esquentou a cadeira. Ex-executivo da Cofap, mas estranho à realidade regional, ele deixou o cargo sob suspeitas de desvios prontamente abafados. Entre um e outro, uma desastrosa intervenção da Telesp, que eliminou a diretoria regional numa primeira etapa e, em seguida, introduziu o cargo de superintendente.

Max Hamers de Aragão Lisboa, Vitor Fioravante e Luiz Carlos Emmendoefer ocuparam o posto em ritmo de rodízio de churrascaria, num vapt-vupt próprio de quem, como a Telesp, não cultivava muito interesse em fortalecer o cargo. Tanto que não tiveram qualquer influência nos planos estratégicos da empresa. Entre os três, apenas Emmendoefer tinha história na CTBC como funcionário de carreira. Entretanto, acabou demitido no dia seguinte à posse dos novos dirigentes.

A queda do presidente Ademir Spadafora em abril de 1997 marcou o estágio derradeiro da transferência da CTBC para o acervo da Telesp e ao qual se seguiu o arremate pela Telefônica. Executivo com 35 anos de carreira, Spadafora personalizava a cultura da empresa e o chamado orgulho do Grande ABC à frente da companhia. Caíram ele e três dos quatro técnicos que ocupavam postos diretivos, por causa da recomposição de forças políticas de sustentação do governo Fernando Henrique Cardoso.

Uma ladainha gerencial própria do estatismo tupiniquim que não leva em conta a eficiência administrativa e muito menos a representatividade política da região. A abstenção do deputado petebista Duílio Pisaneschi, de Santo André, na votação para aprovar a emenda da reeleição de Fernando Henrique Cardoso teria sido a gota d’água que transbordou o copo de paciência do então ministro das Comunicações, Sérgio Motta.

Tragédia anunciadaEssa rápida incursão cronológica sobre a recentemente extinta CTBC mais se parece com a crônica de uma tragédia anunciada. Ou não era uma tragédia a baixa densidade de terminais telefônicos numa das regiões econômicas mais prósperas do País? A CTBC era a única empresa regional de telecomunicações a integrar o feixe de controle estatal no setor. Sua importância econômica, que a Telefônica está sabendo perscrutar, muitas vezes foi subestimada pelo prevalecimento de picuinhas político-partidárias no período de redemocratização e por distanciamento de Brasília, durante a ditadura militar.

O choro de saudosismo de dinossáuricos estatistas, que ainda escrevem para jornais contra a privatização das telecomunicações no Brasil, não encontra a menor sustentação. Principalmente no Grande ABC, onde três vetores oxigenam negócios na área: demografia, geografia e economia. Traduzindo: a região é suficientemente populosa (o Grande ABC soma 2,3 milhões de moradores e concentra 80% dos terminais telefônicos da região abrangida pela antiga CTBC), atraentemente pequena em território (o Grande ABC tem apenas 814 quilômetros quadrados de área) e ainda fortemente rica (11% do PIB estadual e 3% do PIB brasileiro) para ser desprezada como negócio.

Mas o que se pode fazer se o Estado, por natureza, entende de empreendedorismo como os argentinos de samba?

Para o usuário de telecomunicações, pessoa física ou jurídica, pouco interessa a cor do gato da empresa que detém o negócio. O que importa é que pegue o rato da competência. Adesconfiança regional de que a privatização da CTBC agravaria o déficit de terminais telefônicos e de qualidade de atendimento, comprometido historicamente pela subordinação à estatal Telesp, transformou-se em folclore.

Grande ABC e Grande Mogi, segundo dois executivos da Telefônica, Eduardo Pitol e Mitsuo Shibata, representaram em 1999 perto de 10% dos US$ 2,4 bilhões de investimentos da empresa, presente com telefonia fixa em 620 dos 670 municípios do Estado de São Paulo.

MacrorregiãoO investimento financeiro para praticamente duplicar a planta da antiga CTBC em apenas dois anos seria obra do acaso político se o Brasil ainda vivesse os tempos de telecomunicações estatais. Como são tempos de competitividade, a Telefônica coloca um destacado círculo na área que envolve os sete municípios do Grande ABC e os 11 da Grande Mogi das Cruzes porque sabe, em última instância, que o investimento terá retorno em forma de lucratividade. Por isso, uma das sete macrorregiões em que a Telefônica dividiu o Estado para a centralização de planejamento e operações técnicas está ancorada na antiga sede da CTBC em Santo André. Santos, Campinas, Bauru, Rio Preto e Capital (duas sedes) completam o organograma.

Numericamente, explica Mitsuo Shibata, diretor de Marketing-Grandes Clientes, a central que atua no Grande ABC e na Grande Mogi é a que apresenta a menor quantidade de municípios. “Isso prova o respeito e a atenção que dedicamos a essas duas regiões” — explica.

Sediar uma das sete macrorregiões significa que se está em contato permanente com a diretoria executiva da Telefônica, abrigada nas antigas instalações da Telesp, na Capital. A macrorregião do Grande ABC conta com superintendências de manutenção e operação de rede, projetos e implantação, comerciais para empresas e residências e manutenção de uso público.

O modelo é semelhante nas outras sedes macrorregionais porque oferece vantagens administrativas e operacionais que a multinacional espanhola não costuma desprezar: mantém-se o mais próxima possível dos usuários e interage com as necessidades específicas de cada área geoeconômica.

Mitsuo Shibata e Eduardo Pitol são exemplos da flexibilidade diretiva da Telefônica. A base de cada um é a Capital, mas estão permanentemente nas unidades macrorregionais. Administrador de empresas, desde 1982 Eduardo Pitol atuava na CTBC. Com a privatização, em julho de 1998, foi transferido para São Paulo. Seu caso não é único. Pelo contrário, faz parte do modelo de RH da Telefônica, que reúne técnicos e executivos das antigas Telesp e CTBC e também profissionais estrangeiros trazidos pela empresa espanhola. “É uma mistura de conhecimento e de cultura que acaba por agregar novos valores a cada profissional” — afirma Pitol. Mitsuo Shibata, engenheiro eletrônico, fazia parte dos quadros da Telesp.

As diretorias sob responsabilidade de Pitol e Shibata representam 50% do universo de resultados operacionais da Telefônica. Shibata trata das grandes empresas, que formam universo de 1,7 mil unidades entre as 70 mil maiores corporações do Estado. As demais são de responsabilidade de Pitol. A estrutura de negócios da Telefônica completa-se com outros dois vértices, um voltado para 1,2 milhão de pequenas empresas e de profissionais liberais, inclusive com escritórios em residências, e outra para quatro milhões de domicílios no Estado.

Cérebro e motorAs transformações decorrentes da tecnologia da informação estão na raiz da privatização do Sistema Telebrás e integraram o Paste (Programa de Recuperação e Ampliação do Sistema de Telecomunicações e do Sistema Postal), formulado pelo ex-ministro Sérgio Motta e anunciado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso em novembro de 1995.

Sem a privatização, provavelmente o Brasil teria repetido o equívoco histórico do setor de informática, cuja reserva de mercado em nome de estúpido conceito de segurança nacional desencadeou evidente atraso nas relações tecnológicas, com consequências econômicas fáceis de imaginar.

Basta citar o caso das carroças brasileiras, como foram definidos pelo ex-presidente Fernando Collor de Mello os veículos produzidos até o início dos anos 90 no Brasil. A ausência de agregados tecnológicos de eletrônica embarcada, por exemplo, ajudava a separar as montadoras do País do time do Primeiro Mundo. Os efeitos danosos à dinâmica de planejamento, gerenciamento de processos e de execução de projetos em empresas industriais, em primeiro plano, mas também de comércio e de serviços, dispensam maiores detalhes.

Basta uma olhada ao redor e observar o quanto de informática, automação e robotização foi acrescentado ao parque produtivo, ao comércio e aos serviços do Grande ABC e do País.

O que se está vendo hoje no Grande ABC por meio da Telefônica é um extrato da nova realidade nacional, cujas regiões foram igualmente beneficiadas pela chegada do capital privado observado atentamente pela Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações), espécie de xerife que controla a obediência dos competidores às regras da privatização.

O Paste de Sérgio Motta é um documento de rara independência analítica, levando-se em conta a tradição de executivos públicos brasileiros de primeiro escalão acovardarem-se, acomodarem-se ou, principalmente, juntarem-se ao corporativismo estatal. É o jogo de cena improdutivo de reformas feitas só da boca para fora para iludir a platéia de contribuintes e privilegiar os mesmos bolsões de beneficiários, sempre de olho nas próximas eleições.

Destacava o documento elaborado pela equipe de Sérgio Motta a importância da ciência e da tecnologia, nas últimas décadas, a conduzir a civilização a significativas mudanças. A sofisticação de microprocessadores e os progressos verificados nas técnicas de transmissão por fibras ópticas e via satélite colocaram a sociedade diante de novo paradigma: a era da informação.

Seria estupidez demais manter sob as asas de um Estado nacional absolutamente incompetente na gestão da infra-estrutura social, e exaurido financeiramente depois de longos períodos de saques, a responsabilidade de cuidar da infra-estrutura material de um setor que exige volumes crescentes de investimentos. Isso porque é um setor que estabelece a diferença entre viver nas trevas do autarquismo ou sob as luzes feéricas da internacionalização.

Basta compararQuem tem dúvida sobre os efeitos positivos da privatização e dos resultados permanentes da Telefônica no Grande ABC, basta comparar o período estatal de privilégios dos apaniguados do rei e o atual, em que os usuários é que orientam os investimentos: o acesso a telefone fixo deixou de ser brincadeira de ficção que exigia paciência de espera sempre prolongada e prorrogada dos planos de expansão ou a fartura do bolso para se submeter ao mercado paralelo.

Esse mercado chegou a cotar, para determinadas regiões e num período de altíssima especulação financeira, cerca de US$ 5 mil por um objeto não de desejo, mas de pura necessidade. O mercado paralelo de dinheiro fácil para os empreendedores que trafegam nas crateras de demanda de um Estado paquidérmico acabou por desabar sob a força da competência de quem jamais repetiria o desastre de desprezar um setor potencialmente de alta rentabilidade. O mercado paralelo vivia da hipocrisia estatal do telefone como instrumento social que, contraditoriamente, só estava ao alcance de bolsos privilegiados da classe média.

Basta recorrer aos dados históricos para se ter essa confirmação. O retrato do atendimento do serviço de telefone no Grande ABC era semelhante ao verificado no restante do País, assim como o comportamento de avestruz dos nacionalistas de plantão, que até os 45 minutos do segundo tempo da exaustão do estatismo do setor brigavam pela manutenção do quadro protecionista. Afinal, e esses são dados oficiais que constam do Paste, o atendimento do serviço telefônico residencial em 1995 estava concentrado nas classes de alta renda, já que mais de 90% das famílias com rendimento mensal superior a R$ 1 mil eram atendidas, contra cobertura puramente residual de famílias que recebiam menos de R$ 300.

Todo o discurso oposicionista que se ouviu contra a privatização do Sistema Telebrás, que encheu colunas de jornais e o telejornalismo, não passava de desesperada e bem orquestrada campanha para iludir o distinto público. O que os empedernidos estatistas chamavam de empresa pública, referindo-se ao Sistema Telebrás, não passava de empresa dos funcionários públicos e dos sindicatos do setor. E, principalmente, dos magnatas políticos que partilharam demagogicamente as concessionárias estaduais com empenho semelhante ao do açougueiro. Separavam as peças de acordo com pressupostos puramente eleitoreiros, num processo de toma-lá-dá-cá que remonta às estranhas da colonização do País.

TransformaçõesA expectativa de que a tecnologia da informação provocará sobre as nações impacto igual ou mesmo maior do que provocou, no passado, a revolução industrial justificava-se quando do anúncio do Paste no final de 1995. Hoje, quatro anos depois, não se tem dúvidas sobre a profundidade transformadora dessa tecnologia da informação. Isso é muito mais que simples perspectiva.

A revolução, evidenciada na rapidez com que a Internet, a rede mundial de computadores, participa efetivamente da mundialização dos negócios financeiros assemelha-se ao impacto da invenção da Imprensa na Idade Média. Informação e globalização são irmãos siameses. Por isso, o sistema de telecomunicações não permite amadorismo disfarçado de nacionalismo.

E tampouco acomodação de quem é permanentemente vigiado, até mesmo com certo exagero nas cobranças, para administrar esse negócio que afeta a dinâmica social e econômica de todo mundo. Tanto que o mercado brasileiro de telecomunicações, repartido em várias fatias inter-regionais quando da privatização, já está em plena competição que, nos próximos tempos, vai-se intensificar.

O caso da Telefônica é exemplar: a empresa perdeu para a também privatizada Embratel o monopólio temporário como sucessora da estatal Telesp nas ligações à distância feitas no Estado de São Paulo. A alternativa provocou leve choque no faturamento da Telefônica, conforme balanço do terceiro trimestre do ano passado: caiu apenas 3,5%. Não faltou à companhia espanhola tática de contra-ataque para assegurar a fidelidade da clientela: ofereceu descontos de 5% a 25%.

O modelo que dominou o cenário de telecomunicações até julho de 1997 seria simplesmente retalhado pela concorrência privada se o mercado livre concorresse com empresas do Estado. O governo francês, que optou por esse modelo de competição porque é mais competente na gestão pública, está sofrendo para perder o menos possível e o que se tem no horizonte é que essa é apenas uma etapa em direção à privatização completa.

Uma outra empresa concorrente está chegando ao mercado paulista para fustigar a Telefônica. A Vesper São Paulo, empresa-espelho prevista no processo de privatização, já está pronta para começar a operar no Estado de São Paulo, da mesma forma que a Vesper Norte-Nordeste concorrerá com a Telemar (Tele Norte-Nordeste), a Global Village com a Tele Centro Sul, e a Intelig com a Embratel.

Meta antecipadaO outro lado da moeda da competição é que a Telefônica, segundo os executivos Eduardo Pitol e Mitsuo Shibata, vai se antecipar às metas acordadas com a Anatel — que exigem série de indicadores de desempenho e qualidade — e se habilitará a participar das ligações em todo o território nacional e também internacional, prerrogativa desfrutada temporariamente apenas pela Embratel e pela Intelig.

Para quem não consegue entender como é possível mais de uma empresa oferecer serviços de telecomunicações numa mesma região, a explicação é simples: a remuneração das empresas é proporcional ao uso de instalações. Uma ligação feita de São Paulo para o Rio de Janeiro depende das redes da Telefônica ou Telemar e passa pela interconexão da Embratel.

O desempenho do mercado de telecomunicações explodiu depois da privatização e explica mais que qualquer outro argumento a debilidade do mercado paralelo. O número de terminais fixos instalados passará de 18,8 milhões em 1997 para mais de 26 milhões neste janeiro e vai chegar a 33 milhões na virada do ano que vem. A telefonia celular saiu de uma planta nacional de 800 mil aparelhos para 13 milhões. A Telefônica recebeu da estatal Telesp uma herança de seis milhões de terminais fixos e contabilizou no final de 1999 — portanto, 18 meses depois da privatização — total de 8,3 milhões.

Shibata e Pitol explicam que a instalação de novos terminais é apenas parte da história de mudanças. Outros 1,5 milhão de aparelhos trocaram de endereço, grande parte em consequência da atuação do mercado paralelo e seu ritmo agora bastante declinante de tira daqui, leva para lá. Tantas transferências, explica Pitol, exigem operação redobrada em relação aos novos terminais, porque significam a retirada da linha de um endereço e a transferência para outro.

O conceito de que telefone era ativo com valor comercial e que a disponibilidade de locação flutuava ao sabor da demanda aquecida está virando a última página da literatura de descalabros do Estado. A previsão dos dois executivos da Telefônica é de que até o final de 2000 não haverá mais quem se interesse por telefone e não encontre acesso disponível: “Em várias regiões geográficas do Grande ABC, por exemplo, temos oferta de terminais a R$ 69, que é o preço da ligação. Telefone virou serviço público como energia elétrica, água e esgoto” — exemplifica Shibata. “Como é nos Estados Unidos e na Europa” — completa Pitol.

Mudança radicalA Telefónica de España, império de telecomunicações da Espanha, já investiu mais de US$ 11 bilhões na América Latina nos últimos anos e controla perto de 40% da região. No Brasil, além de assumir a disputadíssima telefonia fixa da Telesp, é líder da telefonia celular no Rio de Janeiro e a principal operadora do Rio Grande do Sul. Na Argentina, controla 51% da operadora que detém o monopólio da região mais ao sul daquele país, que inclui o concorrido distrito financeiro de Buenos Aires. No Chile, a empresa é a maior acionista da mais antiga estatal de telecomunicações. Entre o México e a Terra do Fogo, a Telefónica alterna o primeiro e o segundo lugar no mercado da América Latina.

A Telefónica está passando pela mais radical reestruturação da história. Tudo começou em 1997, quando o governo espanhol vendeu o que lhe restava de participação na empresa — 21% de ações ordinárias — e o presidente Juan Villalonga foi requisitado no conselho do Bankers Trust para reduzir a folha de pagamentos da companhia telefônica espanhola, reformular sua estrutura administrativa e obrigar a gerência média da empresa — de um conservadorismo notório — a seguir o evangelho americano de valorização do investidor, segundo reportagem publicada recentemente pela Fortune Americas. No ranking da publicação, a Telefónica ocupa a 193ª posição entre as 500 maiores empresas do mundo e é uma das cinco maiores companhias de telecomunicações do planeta.

Cada vez mais o bolo do faturamento da Telefónica vem do Exterior, Brasil no meio. Números consolidados de 1998 registraram que, da receita bruta de US$ 18,2 bilhões, 26% foram arrecadados fora da Espanha. Mais de 50% do total de 37 milhões de linhas telefônicas convencionais da empresa estão fora do país ibérico. Entre os 14,4 milhões de assinantes de telefonia celular e 2,3 milhões de clientes de TV paga da empresa, 14,2 milhões também são do estrangeiro.

A América Latina também tem peso respeitável para a Telefónica na prestação de serviços de Internet, por meio da Interactiva, braço da empresa na atividade. Praticamente 80% das receitas vêm da região, assim como dois terços do faturamento do portal. A explicação é simples: a Interactiva fez uma varredura do México à Argentina na compra de líderes no mercado de Internet. A Telefónica está de olho na prevista explosão do comércio eletrônico na América Latina, que saltaria para US$ 8 bilhões até 2003, contra US$ 167 milhões no ano passado. A multiplicação desses números se justifica pela escala geométrica de outros numerais: os usuários latinos de Internet saltariam para 19,1 milhões no mesmo período, mais que o dobro do número atual.

O presidente Villalonga costuma dizer, para resumir a grandeza da empresa, que a Telefónica é líder mundial das telecomunicações no mundo de língua espanhola e portuguesa. As ramificações internacionais da empresa ampliam, na realidade, a estrutura de telecomunicações que detém na Espanha. Da telefonia convencional ao ciberespaço, a empresa conecta toda a Espanha. Mas o império da Telefónica na Europa não é tão amplo, exceto na Espanha e em Portugal, já que se limita à terceira maior operadora da Áustria e a uma joint-venture em telecomunicações em Roma. Na América do Norte, lançou recentemente serviço de Internet para a população de origem latina.

Como sumiuA extinção da CTBC foi anunciada em novembro como resultado da unificação das ações da Telesp. A reestruturação societária e fiscal obedeceu etapas aparentemente complexas: a CTBC foi absorvida pela Telesp S/A, operadora dos serviços de telefonia de São Paulo. Em seguida, a Telesp Participações absorveu a Telesp S/A e a Telesp Participações absorveu a SPT Participações S/A, holding que foi montada pela Telefónica de España para participar da privatização das telecomunicações. No final do processo, ficou apenas uma companhia, a Telesp Participações, que passou a se chamar Telecomunicações de São Paulo, empresa de capital aberto com ações negociadas na Bolsa de Nova York. Seu único ativo são as ações da Telesp S/A (Telecomunicações de São Paulo S/A).

O resumo de toda a operação é que havia quatro empresas na história (duas holdings e duas operadoras). As holdings eram a SPT (constituída para a privatização) e a Telesp Participações (que detinha o controle da Telesp). As operadoras eram a Telesp e a CTBC.

O presidente do Grupo Telefônica no Brasil, Fernando Xavier Ferreira, explicou a operação como o surgimento de uma companhia com maior capitalização de mercado e com gestão de ativos mais eficientes. O Grupo Telefônica passou a deter 25,7% do capital total e 54,14% do capital votante da nova Telesp, empresa que nasceu com valor de mercado de R$ 13 bilhões.

No final de dezembro o Grupo Telefônica anunciou que vai investir R$ 8,4 bilhões em suas empresas no Brasil nos próximos 24 meses. O presidente Fernando Xavier Ferreira assegurou que a antiga Telesp vai ficar com R$ 3,2 bilhões desses investimentos. A CRT (Companhia Riograndense de Telecomunicações) ficará com R$ 500 milhões e os restantes R$ 800 milhões serão aplicados nas empresas celulares que atuam nos Estados do Rio de Janeiro, Espírito Santo, Bahia e Sergipe. A proposta da Telefônica é colocar mais dois milhões de novas linhas em serviço, ultrapassando a marca de 10 milhões de linhas em operação.

Lance de mestreO Grande ABC do salto de quantidade e de qualidade das telecomunicações ganhou carona na privatização em bloco do Sistema Telebrás, ocorrida nos terminais da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro. Foram arrecadados R$ 22 bilhões, com ágio de 63,7% sobre o preço mínimo estipulado para as 12 empresas colocadas à venda. Muito acima da previsão do governo federal, que estimava em no máximo R$ 18 bilhões o total de lances.

Afinal, a quebra financeira da Ásia e da Rússia tornou praticamente unânime a projeção de corte de investimentos nos países emergentes. Com a privatização, o governo criou a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações), que passou a desempenhar o papel de xerife na regulação e na fiscalização do setor.

O ambiente que cercou o leilão das 12 companhias nem de longe lembrou o processo de privatização da siderúrgica Vale do Rio Doce. Contra a esperada enxurrada de ações que deixou o governo atônito no leilão da Vale, desta vez a estratégia foi concentrar os pedidos de liminares em Brasília para derrubar todas as ações dos antiprivatistas para suspender a venda da Telebrás. Não faltou, também, forte esquema de segurança. Os manifestantes ficaram bem longe da Bolsa do Rio.

A Telefónica de España foi uma das 23 empresas que se associaram em 10 consórcios para os arremates na Bolsa. Por R$ 5,7 bilhões, 64% acima do preço mínimo, os espanhóis comandados pelo presidente Juan Villalonga ficaram com o que ele chamou de jóia da coroa das telecomunicações brasileiras. A Telefónica deixou para trás o consórcio formado por Bradesco, Globopar e Telecom Itália numa estratégia que se consagrou como jogada de mestre: os espanhóis divulgaram nos bastidores do leilão que estavam interessados apenas na Tele Centro Sul.

Todos acreditaram, porque a Tele Centro Sul ampliaria os alicerces da Telefónica no Mercosul, já que a companhia é dona de empresas de telefone na Argentina, Chile e Peru, além de ter participação na CRT, companhia telefônica do Rio Grande do Sul, privatizada no início de 1998.

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