Metamorfose Econômica

Metamorfose econômica (31)

  DANIEL LIMA - 20/08/2009

Completamos com este capítulo a análise da proletarização do mercado de trabalho no Grande ABC durante os oito anos do governo Fernando Henrique Cardoso. Foi o período mais devastador da economia da região, com efeitos deletérios no ambiente social. A criminalidade — e isso veremos em capítulos específicos — guardou íntima cumplicidade com os buracos econômicos do rebaixamento salarial e a superação do emprego de carteira assinada no setor industrial pelas demais atividades.

A compartimentação dos números do emprego formal da indústria de transformação dos sete municípios da região no período FHC revela baixas acentuadas em Diadema, Ribeirão Pires, São Bernardo, Rio Grande da Serra e São Caetano.

Em 1994, Ribeirão Pires contava com 62,7% dos empregos no setor industrial, contra apenas 43,7% no extremo de 2002, último ano de mandado do governo FHC. Já Diadema reunia 73,2% de carteiras assinadas no setor de produção, contra 59,7% oito anos depois. São Caetano caiu de 40,8% para 13,2%, num autêntico choque térmico. São Bernardo mergulhou no esvaziamento do emprego industrial, passando de 61,4% para 42,8% no período. Nos casos de São Bernardo, Ribeirão Pires e Diadema, o que pesou no declínio do emprego industrial foi mesmo a redução de trabalhadores do setor, enquanto as demais atividades mantinham estabilidade. Já a situação de São Caetano e Rio Grande da Serra é diferente: além de emprego industrial declinante, o setor de serviços, embalado pela guerra fiscal local, cresceu muito acima da normalidade e também da naturalidade. Foi anabolizado pelos empregos documentais.

Santo André teve queda de 10 pontos percentuais na relação entre emprego industrial e das demais atividades econômicas, mas o choque de demissões de trabalhadores do setor de produção foi menos impactante que os registrados por Diadema, Ribeirão Pires e São Caetano. Mauá foi o único Município do Grande ABC a explicitar estabilidade de participação do emprego industrial no conjunto de ocupações formais: em 1994 registrava 48,7% contra 46,6% de 2002. Tanto num caso (empregos industriais) quanto no outro (demais empregos) os números variaram levemente. O que parecia uma boa notícia, notícia ruim era de fato: Mauá precisa acrescentar por ano pelo menos 4,2 mil empregos.

Se o Grande ABC perdeu no período da pesquisa 34,2% de participação do emprego industrial no conjunto das ocupações, o conglomerado formado por São Paulo, Guarulhos e Osasco chegou a 30,5%: caiu de 23,6% (897.526 carteiras assinadas de um total de 3.796.698) registrados em 1994 para 16,4% em 2002 (601.635 empregos industriais de um total de 3.666.093). Individualmente, São Paulo perdeu participação relativa do emprego industrial de 22% para 14,6%. Guarulhos de 51,6% para 40,4% e Osasco de 31% para 26,1%.

O emprego industrial é uma das múltiplas faces da desindustrialização. Há exceções que não podem comprometer a regra. São situações em que, apesar da perda de emprego, a produção industrial avança em proporção maior. Não foi o caso do Grande ABC no período analisado, embora alguns espertalhões com títulos acadêmicos tentassem dourar a pílula com manipulações semânticas e estatísticas.

O golpe que acertou em cheio o emprego industrial no Estado de São Paulo durante os anos FHC, com média de 23,3%, foi menos destrutivo no G-3, formado por Campinas, Sorocaba e São José dos Campos. Esses municípios contavam em 1994 com 32,2% dos empregos formais alocados no setor industrial, contra 25,6% na ponta da pesquisa. A queda de 20% está muito abaixo também dos efeitos registrados no Grande ABC e no círculo de São Paulo, Osasco e Guarulhos.

Enquanto a perda do emprego industrial frente às demais atividades atingiu 23% no Estado de São Paulo, no âmbito nacional o índice foi um pouco menos desgastante: 21,6%. Os paulistas contavam com 2.354.426 empregos industriais em 1994, contra 5.599.884 apontados no Brasil. Já o estoque geral de empregos paulistas naquele ano atingia 7.837.396 carteiras assinadas, contra 22.317.334 no Brasil. Em 2002 os números se alteraram significativamente: os paulistas contavam com 1.973.231 empregos industriais de um total de 8.608.048, enquanto o País contabilizava 5.642.941 ocupações industriais de um total de 28.683.913. Em 1994, de cada 100 empregos industriais no Brasil, 42 contavam com a marca do Estado de São Paulo. Já em 2002, a relação caiu para 35 — 16,6% de queda. Do total de empregos paulistas, independentemente de setores, a proporção em 1994 era de 35 para cada grupo de 100 carteiras assinadas. Em 2002, a relação caiu para 30 — ou menos 14,8%.

O desempenho do Grande ABC foi mais comprometedor do que o do Estado de São Paulo. Se confrontado com números gerais, a situação é a seguinte: no emprego industrial, de cada 100 carteiras assinadas em 1994, 11,7 estavam na região quando o confronto é com o Estado de São Paulo. Já no embate com o Brasil, chegava a 4,9. Oito anos depois, a participação estadual caiu para 9,9% (queda de 15,3%) e de 3,4% do Brasil (queda de 30%).

Já no emprego geral, em todas as atividades, o Grande ABC representava 6,5% das ocupações no Estado de São Paulo e 2,4% no Brasil em 1994, contra 6,4% entre os paulistas e 1,9% do Brasil em 2002.

Não há dúvidas de que somos cada vez menos importante para o conjunto da economia brasileira. Nem os anos dourados do governo Lula da Silva — cujos números deverão surgir na tela de computadores provavelmente dois anos após o encerramento do segundo mandato — conseguiram amenizar o quadro. Apesar da exuberância da indústria automotiva em quase todo esse trajeto lulista.

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