Economia

Província tem cada vez mais
a cara de consumo do Brasil

  DANIEL LIMA - 19/05/2016

A riqueza acumulada da Província do Grande ABC disponível como potencial de consumo nesta temporada é maior que a média brasileira mas está um pouco abaixo da vizinha Capital. Os números são da Consultoria IPC Marketing, empresa especializada no assunto. Tanto especializada que o Estadão de domingo deu manchetíssima de primeira página com base nos estudos de Marcos Pazzini e sua equipe. Dizer que o conjunto dos sete municípios da região é relativamente mais poderoso em riqueza acumulada que a média brasileira não é novidade. Tampouco que é inferior a São Paulo. O preocupante é que anos após anos nos aproximamos mais da média nacional. Ficamos, portanto, cada vez mais parecidos com o Brasil. Isso não é nada bom.

Tanto que quando se comparam os dados de 1995 com os de 2016, na série histórica que Marcos Pazzini administra na Consultoria IPC, a massa de dinheiro disponível ao consumo nos sete municípios da região cresceu muito menos que a média brasileira. Em 1995, sem recorrer à atualização monetária, a Província do Grande ABC registrou potencial de consumo de R$ 11,560 bilhões, contra R$ R$ 380,098 bilhões do Brasil. Quando se faz a divisão pelo potencial de consumo médio por família, é que se descobre a diferença. Em 1995 a Província contava com potencial de consumo médio por família 38,70% superior à média brasileira: R$ 20,140 mil ante R$ 12,347 mil -- sempre sem correção monetária pela inflação do período. Já em 2016, a Província contabiliza R$ 73,844 mil por família, contra R$ 67,773 do Brasil. A diferença caiu para 13,55%.

Como os números são absolutos, não relativos, a mensagem é reta e direta: a região ficou mais pobre quando confrontada com o País. Contávamos em 1995 com 573.988 domicílios, contra 30.782.733 do Brasil. Neste 2016 são 905.470 famílias na região e 57.396 milhões no País.  A participação relativa do poder de consumo da região no bolo nacional em 1995 era de 2,90%. Para esta temporada não passará de 1,71%. Uma queda de 41%.

A diferença que nos separa da cidade de São Paulo em várias faixas socioeconômicas é maior do que as vantagens que impomos ao Brasil. Entre as famílias de classe rica a região conta com 3,0%, contra 2,4% do Brasil e 3,8% de São Paulo. São Caetano é a única cidade proporcionalmente com mais ricos do que a cidade de São Paulo: são 5,7% das famílias, ante 3,8% da Capital.

Já entre as famílias de classe média tradicional a região soma 30,3% da população, contra 29,4% de São Paulo e 23,1% do País.  São Caetano volta a constar como melhor desempenho: são 41,4% de moradores dessa faixa social. Rio Grande da Serra é a pior, com apenas 22,5% da população de classe média.

Entre a classe média baixa, a região conta com 47,7% de participação, número semelhante ao do País, com 47,9%. Mais uma vez São Caetano desponta como detentora dos melhores números, com apenas 41,4% de participação. Nesse caso, melhores números são números mais baixos em relação à média regional. A pior média entre os sete municípios é de Rio Grande da Serra, com participação de 53,1% das famílias na composição da classe média baixa. Quem não tem tantos ricos e classe média tradicional acaba elevando o nível da faixa seguinte de renda. A cidade de São Paulo soma 47,7% de classe média. Empata, portanto, com a média desta Província.

Entre os pobres e miseráveis o desempenho da região é bem melhor que a média brasileira: contamos com 18,8% desse espectro social, contra 26,6% do Brasil e 19,1% da cidade de São Paulo. Entre os municípios da região, quem têm menor participação socioeconômica de pobres e miseráveis é São Caetano, com apenas 11,5%. O pior desempenho é de Ribeirão Pires, com 26,6%. Exatamente a média nacional.

Ribeirão é o Brasil menor

Se o leitor ficou atento ao que escrevi acima deve ter notado que há um Município na região que é a cara do Brasil. Saberia o leitor responder sem ter de recuperar a leitura? Não quero incomodá-lo, por isso revelo de imediato: Ribeirão Pires é tão parecida com a média brasileira de distribuição de riqueza por faixa socioeconômica aferida pela Consultoria IPC Marketing, com base em diferentes bancos de dados oficiais do governo federal, que chega a ser intrigante. Vejam: entre os ricos, Ribeirão Pires conta com 2,3% das famílias, ante média nacional de 2,4%.  Na classe média, Ribeirão Pires tem 24,5% das famílias, contra 23,1% do Brasil. A turma de classe média baixa em Ribeirão Pires ocupa 46,6% das famílias, contra 47,9% no Brasil. E entre os pobres e miseráveis, Ribeirão Pires e Brasil empatam de 26,6%.

Isso quer dizer que quem pretende entender a distribuição da riqueza para consumo no Brasil não pode perder a oportunidade de olhar para Ribeirão Pires. Trata-se de microcosmo nacional. A população de Ribeirão Pires é 14.841 vezes inferior a do gigante Brasil. É claro que essa comparação se esgota unicamente no plano socioeconômico.

Quem se aventurar a imaginar que é possível tomar Ribeirão Pires como campo de provas, por exemplo, a pesquisas eleitorais, dará com os burros nágua. Não é porque é o retrato de ocupação econômico-familiar do Brasil em proporção infinitamente menor que Ribeirão Pires é uma sociedade de comportamento semelhante ao do País.

Querem um exemplo? Na última disputa eleitoral para a presidência da República, segundo turno, o tucano Aécio Neves ganhou de lavada em Ribeirão Pires. Foram 61,74% a 38,26%. Já o resultado nacional deu vitória à candidata petista por 51,64% a 48,36%. Os fatores ambientais, sobretudo em uma região metropolitana, constroem diferenças de percepção e comportamento social em relação à média nacional.

Cada pedaço de território esculpe a própria história. Fosse diferente, os institutos de pesquisa poderiam mandar a Ribeirão Pires todos os pesquisadores disponíveis e desprezar o restante do Pais. O resultado nacional sairia a custo bastante modico.

São Caetano diferente

São Caetano é um caso emblemático de endereço radicalmente diferente da média brasileira e de resultados eleitorais igualmente distantes. A proporção de ricos e de classe média de São Caetano em confronto com o quadro nacional é extraordinariamente maior. Entre as duas classes sociais São Caetano conta com 46,1% das famílias. Já no Brasil a soma não ultrapassa a 25,5%. Quase a metade. Um pouco menos que os 33,0% da cidade de São Paulo.

Por ter população fortemente de classe rica e de classe média São Caetano expressou mais uma vez nas urnas eleitorais de outubro de 2014 a ojeriza ao PT que vem do passado de disputas municipais. Aécio Neves superou Dilma Rousseff por 78,29% a 21,71%. O resultado nacional de 51,48% a 48,36% a favor da petista provavelmente jamais se efetivará em São Caetano em qualquer disputa eleitoral que tenha o PT como uma das alternativas. Se a explicação à rejeição do passado é principalmente a atuação sindical na região, no presente prevalecem escândalos federais.

O atual prefeito, Paulo Pinheiro, eleito com dinheiro do PT em larga escala, no projeto de controle da politica regional pelo prefeito de São Bernardo, Luiz Marinho, só superou a candidata situacionista Regina Maura entre outros motivos porque escondeu quem estava a lhe fornecer o aparato financeiro e logístico. Paulo Pinheiro foi o que chamei de Cavalo de Troia do PT em São Caetano. A massificação do descaramento dessa estratégia pode atrapalhar planos de reeleição. Por isso que, para combater a pecha de entregar-se no passado ao petismo, Paulo Pinheiro deverá intensificar a mensagem de que está sob as asas do presidente em exercício Michel Temer e do agora situacionista PMDB.

Os números de potencial de consumo da Província do Grande ABC e também as menções a resultados eleitorais só provam o que muita gente insiste em desprezar como princípio elementar ao entendimento do que é essa geografia incrustrada na Região Metropolitana de São Paulo: somos sete pedaços diferentes com potencial imenso de fusão desde que respeitadas as especificidades municipais. Uma saída nada fácil porque, diferentemente de quando se cotejam os dados locais com os nacionais, na Província as participações relativas das famílias ao entendimento do que é cada fração municipal são reveladoras de nuances diversas.

Traduzindo: a Província do Grande ABC desnuda contrastes internos no campo econômico e social que reverberam na área político-eleitoral. São Caetano é no conjunto mais conservadora que Santo André que é tão conservadora quanto Ribeirão Pires que está muito aquém da rebeldia de Diadema que está um pouco acima abaixo do esquerdismo de São Bernardo que é um superior ao esquerdismo de Mauá que por sua vez é menos assistencialista que Rio Grande da Serra.

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