Economia

PT faz Província sentir saudade
de FHC. Explicamos tudo (1)

  DANIEL LIMA - 23/05/2016

Análise proposta, análise iniciada. Esse é o primeiro capítulo – o qual identifico de “individualismo oportunista” -- da exumação regional do PT durante os 13,5 anos de presidência da República. Foram dois mandatos completos do ex-sindicalista Lula da Silva e um mandato completo seguido de um segundo mandato de apenas um ano e cinco meses de Dilma Rousseff. Ou seja: 149 meses de controle da máquina pública federal. Tempo suficiente para mudar muita coisa na região. Pena que tenha mudado mesmo -- mas para pior. De quem se espera mais se deve cobrar mais. Por isso o PT deixou a região de calças arriadas, entregue à própria sorte econômica e social. E no domínio institucional, regredimos além do imaginado.

Como explicitei em texto anterior, de exposição desse projeto de encontro das águas petistas com a realidade regional, o partido que emergiu na Província a partir do movimento sindical do final dos anos 1970 alcançou a proeza de superar em deficiências e prejuízos locais os oito anos do tucano Fernando Henrique Cardoso. Se FHC perdeu feio o jogo na região, à qual deu pouca importância, ao menos em termos nacionais deixou a casa bem encaminhada em arrumação macroeconômica da qual Lula da Silva soube capitalizar prestígio com política social que se esvaiu em parte com a sucessora escolhida a dedo.

O PT de Lula e de Dilma ludibriou quem imaginou que esse território de sete municípios e 2,7 milhões de habitantes finalmente teria um governo federal vocacionado ao combate dos estragos das três décadas anteriores à conquista presidencial do partido em 2002. Estragos que contaram com a colaboração do próprio PT, na forma de um sindicalismo que não soube entender até que ponto e como poderia esticar a corda de reivindicações e conquistas trabalhistas.

Frustração inquestionável

O PT frustrou todas as expectativas da região, exceto daqueles que se locupletaram durante vários anos de fartura, principalmente nos dois mandatos de Lula da Silva. No período, as receitas cresceram muito mais que o PIB por conta da valorização das commodities minerais e agrícolas.

A Província vive calamidade econômica e social em nível muito mais grave e dramático do que o Brasil como um todo. A Doença Holandesa da Indústria Automobilística passou por sessões de anabolizantes de incentivos ao consumo que já não respondem mais às necessidades. A inadimplência, a inflação, o desemprego e o fim da farra fiscal prevalecem. Nem a outra Doença Holandesa da região, que impacta principalmente Santo André e Mauá, o setor petroquímico, está a salvo de transformações dolorosas ante o quadro internacional. As cadeias produtivas da região estão seriamente avariadas.

Faltaram à Província lideranças esquerdistas capazes de entender o jogo do desenvolvimento econômico. E as lideranças de centro-direita não fizeram nada, na maioria dos casos municipais e regionais, senão bajular os novos poderosos do poder. Mais que bajular, em muitos casos se lambuzaram nos lençóis petistas.

Coalizões partidárias, sindicais e empresariais que deram sustentação aos governos petistas em Brasília se reproduziram na Província. Antes avesso aos representantes do capital, o PT nadou de braçadas nas águas ditas conservadoras de representantes da classe endinheirada. A recíproca foi mais que verdadeira. Institucionalizou-se uma suruba de conveniências sem precedentes na história. Gatos e ratos deram-se as mãos.

Desperdícios demais

É por isso que ao primeiro capítulo dessa breve jornada optamos pela abordagem do “Individualismo oportunista”. O que significa essa marca que vai ficar definitivamente registrada como um dos pontos de fraquezas dos petistas e aliados de ocasião na região? Simples: eles, petistas de longas jornadas regionais, fizeram muito pouco para internalizar na região as vantagens de contar com um governo federal tão íntimo. E os adversários do passado que se juntaram aos petistas trataram de cuidar dos próprios interesses.

Será alguém capaz de contrariar o consenso de que com Lula da Silva na presidência por oito anos e por trás dos panos da presidência de Dilma Rousseff por mais 65 meses a Província não poderia ter dado um salto triplo na reestruturação econômica de que tanto precisa?

Se nada disso ocorreu ou se muito pouco do possível ocorreu, deve-se sobretudo à fome pantagruélica de ocupação de cargos públicos federais como plataforma de embarque a novas jornadas. Os petistas de primeiro escalão que durante os anos 1990 e início dos anos 2000, sob a liderança do então prefeito Celso Daniel, deram as cartas na região, viraram pó. Todos se escafederam em busca de mobilidade social. A região não passou de trampolim.  Estava escrito na estrela vermelha que chegaria o dia da conquista do poder federal. Bastou investir no futuro para que o presente chegasse.

Prioridade a Marinho

Aqueles que optaram por priorizar a região, como Luiz Marinho, o fizeram com ambições às alturas. Marinho virou prefeito de São Bernardo com o suporte de Lula da Silva e de muito dinheiro de financiadores que constam de ramificações da Lava Jato. O ex-sindicalista pretendia fertilizar caminho rumo ao Palácio dos Bandeirantes. Faltou combinar com os russos das equipes econômicas petistas que arrumaram a maior crise econômica da história do País – e também com os federais da Operação Lava Jato, em Curitiba.

Pretendesse o PT dar cores coletivistas e apartidárias à gestão pública na Província do Grande ABC, a prioridade deveria fixar-se num plano de desenvolvimento econômico que balizasse política regional integracionista.

Sob a liderança de Luiz Marinho desde 2009, quando se elegeu prefeito, o PT deslocou a São Bernardo todas as baterias de potencialização da economia. A individualização em favor de Luiz Marinho provocou estragos no próprio PT. Os destroços sempre foram amenizados publicamente, mas não faltaram críticas de quem se sentiu preterido nesse jogo de cartas marcadas.

A República de São Bernardo, protegidíssima por Lula da Silva, transformou-se na joia da coroa dos investimentos petistas. Era indispensável alavancar a carreira de Luiz Marinho, duas vezes ministro do governo Lula da Silva antes de desembarcar em São Bernardo numa campanha eleitoral riquíssima. O ritmo declinante da economia, com estouro da patifaria fiscal travestida de nacional-desenvolvimentismo, sabotou a perspectiva estadual de Luiz Marinho. O vexaminoso cronograma de obras é o retrato dos estragos da Lava Jato. São Bernardo é uma sucessão de canteiros de obras inacabadas.

Universidade isolada

O único legado digno dessa configuração que o PT poderia ter deixado de positivo à Província do Grande ABC depois de 13,5 anos de mandatos federais seria a Universidade Federal do Grande ABC (UFABC). Mas nem essa instituição que tem Santo André como sede e São Bernardo como unidade complementar escapa a criticas.

Fruto de viés ideológico típico das universidades públicas brasileiras, a UFABC não tem compromisso com a regionalidade. Dirigentes e professores em larga escala alheios à realidade regional, porque egressos dos mais diferentes pontos do País, e também os alunos, maciçamente de municípios distantes da região, estão concentrados no mantra de que o mundo espera por seus cérebros.

A Universidade Federal do Grande ABC com base curricular divorciada dos interesses da região foi caçapa cantada por este jornalista e por alguns poucos profissionais da área educacional que ousaram discordar do projeto de internacionalização dos cursos. O peso preponderantemente acadêmico, em detrimento do suporte ao desenvolvimento econômico, transformou a UFABC no que bem definiu o especialista Valmor Bolan: trata-se de uma barriga de aluguel. Também cai bem à UFABC a designação de estranho no ninho.

A esperança de que uma escola de alto nível pudesse movimentar uma ciranda de regionalidade que abrangesse muitos outros estabelecimentos de ensino foi congelada pela vocação a manequim internacional. O centroavante fazedor de gols nem entrou em campo. Falharam coletivamente tanto a direita quando a esquerda, ou seja, tantos os políticos e sindicalistas que atuam há décadas em nome do PT e da CUT (Central Única dos Trabalhadores) como a direita e a centro-direita, de entidades empresariais e sociais em outros tempos avessas ao petismo e ao cutismo e que, agora, depois de longas jornadas de beijos e abraços, com exceções de praxe, estão retomando, com muito cuidado, é verdade, o rumo oposicionista.

Individualismo abrangente

O individualismo oportunista de que trata esse primeiro capítulo, portanto, foi abrangente, embora mais pecaminoso entre petistas e cutistas. Eles tiveram à mão condições especiais de agirem com pragmatismo em busca de reforço aos cofres públicos, sem a dependência exagerada do setor automotivo e também, no caso de Santo André e de Mauá, da outra Doença Holandesa regional, o setor petroquímico.

A frustração com a Universidade Federal do Grande ABC não é pouca coisa. Em vez de se tornar um centro agregador de forças de conhecimentos irradiadores, com amplas repercussões nos negócios e na mobilidade social que se esvai continuamente, virou paradigma de mobilizações ideológicas e partidárias.

De fato, para valer mesmo, a UFABC não passa de UFAPT. Como tantas outras universidades federais espalhadas pelo País. Não à toa mais de cinco dezenas de reitores acorreram ao Palácio do Planalto para prestar solidariedade a então presidente Dilma Rousseff durante o período de avanço do movimento pró-impeachment.

Quem pretender entender o que se passou na Província durante os três mandatos e cinco meses dos presidentes Lula da Silva e Dilma Rousseff sem olhar atentamente para a síndrome do umbigo dos petistas locais, não alcançará a precisão necessária.

O que a Província do Grande ABC viveu durante esse período foi um paradoxo corrosivo: embora estivesse de fato e para valer no comando do País, sobretudo porque contava com o chefe supremo de origem regional, os sete municípios locais sofreram com a ausência de algo que ousasse lembrar uma ação coletiva acima de cores partidárias.

O individualismo prevaleceu no sentido de pessoalidade de interesses tanto entre os avermelhados como dos adversários do passado de embates políticos e também sindicais entre capital e trabalho. Deixaram que passasse mais de uma década para darem-se conta de que, inapelavelmente, a vaca das amplas possibilidades de mudar a geoeconomia regional foi para o brejo do desalojamento de postos avançados na estrutura do governo federal. A impiedosa subordinação do futuro da região a ações individuais interesseiras asfixiou lenta e duramente as vozes pró-regionalidade sem mistificações.

Os ensinamentos de Celso Daniel, o maior prefeito regional com que a Província do Grande ABC já contou, viraram sucata. A força do vício sindicalista, de divisão entre capital e trabalho, entre chão de fábrica e quadros gerenciais, prevaleceu. Mas isso é assunto para outro capítulo.

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