Economia

Emprego industrial: do fundo do
poço ao fim de feira em 14 anos

  DANIEL LIMA - 25/05/2016

Nem mesmo o saldo de 25.859 postos de trabalho com carteira assinada entre janeiro de 2003 e março deste ano, durante os governos federais petistas, alivia a barra da perda de vitalidade da Província do Grande ABC nesse indicador de qualidade de vida. Sim, emprego industrial formal é um dos pilares de desenvolvimento econômico e de mobilidade social. A região não caiu na ribanceira de potencial de consumo em termos absolutos e relativos por obra do acaso. É a desindustrialização em suas várias nuances.

O resultado ainda positivo quando se pega o fundo do poço do último ano do governo Fernando Henrique Cardoso e o fim de feira dos últimos anos do governo Dilma Rousseff não esconde dura realidade: somos relativamente cada vez menos importantes no emprego do setor no País. A descentralização industrial que marca o território nacional nos últimos 20 anos, combinada com a deserção produtiva da região, ajuda a explicar os dados.

Nada mais lógico, portanto. A desindustrialização segue firme e forte enquanto autoridades públicas e a maioria dos agentes privados de representação de classe olham para os lados como se não tivessem nada a ver com a situação. E os sindicalistas, então, esses podem esquecer, porque eles só vivem no mundo dos empregados – e mesmo assim dos empregados das grandes e médias corporações, sempre habilitadas a usufruírem de benesses governamentais.

Não fossem os anos anabolizadamente dourados da presidência de Lula da Silva, bafejado pelo incremento da valorização de commodities, a situação da Província do Grande ABC seria ainda mais perversa no emprego indústria com carteira assinada.

Lula no meio do caminho

Lula da Silva e sua política de financiamentos a perder de vista de bens materiais, principalmente automóveis, criaram 81.060 empregos do setor na região. Uma evolução e tanto. Quando assumiu a presidência a região contava com 185.854 empregos formais no setor. Quase 85 mil a menos do total encontrado por Fernando Henrique Cardoso em janeiro de 1995, quando assumiu a presidência da República.

Lula da Silva deixou o comando oficial do País em dezembro de 2010 contabilizando estoque de 266.914 trabalhadores com carteira assinada no setor industrial da região. No mês passado, março, Dilma Rousseff e suas trapalhadas fiscais, entre tantas, reduziu o estoque a 211.713. Ou seja: a cada mês dos oito anos de mandato, Lula da Silva incrementou avanço de 844 empregos industriais na região, enquanto Dilma, nos 63 meses já contabilizados, eliminou a cada 30 dias 876 postos de trabalho. Uma façanha e tanto. Não fosse abatida em pleno voo de incompetências, provavelmente zeraria o saldo positivo deixado por Lula da Silva em menos de um ano -- tal a velocidade de abates.

Dilma versus FHC

A quebra média mensal de emprego industrial com carteira assinada na região registrada pela então presidente Dilma Rousseff se rivaliza com os números de Fernando Henrique Cardoso. Os 85 mil empregos destruídos pelo tucano significaram média de 885 a cada 30 dias. Uma disputa acirradíssima com Dilma Rousseff. O tucano seria superado pela petista caso não houvesse o impeachment. Talvez Michel Temer, presidente interino que pode se tornar presidente efetivo, amenize o quadro -- a julgar pelas medidas econômicas anunciadas ontem. A principal parece inquestionável: não se deve gastar mais do que se arrecada, sob pena de o Brasil virar casa da sogra em matéria fiscal, com repercussões negativas nas mais diferentes áreas econômicas e sociais.

Se os 13,3 anos já medidos do emprego industrial com carteira assinada na região deixaram estoque positivo de 25.859 trabalhadores contratados pelos petistas em relação ao último ano do governo Fernando Henrique Cardoso, por que a Província saiu do que chamo de fundo do poço para um quadro de fim de feira?

A resposta é simples: somos muito menos importantes hoje como fomentadores de mão de obra industrial do que em dezembro de 2002, último ano de FHC. Naquele momento, a Província contava com estoque de 185.854 trabalhadores, os quais representavam 3,564% do total do País no setor, de 5.214.210 milhões. Com Lula da Silva e novos 81.060 trabalhadores industriais, a participação relativa da região caiu discretamente para 3,353%. Entretanto, com os desfalques produzidos por Dilma Rousseff, sobretudo nos últimos anos, apenas 2,800% dos trabalhadores brasileiros estão na região. Uma perda de 21,44% sobre o nível de participação relativa do fundo do poço do presidente Fernando Henrique Cardoso.

Queda de participação

Para que a Província do Grande ABC chegasse a março deste ano – os números de abril ainda não saíram – com a mesma relevância no estoque de emprego industrial com carteira assinada no Brasil, o saldo de 13,3 anos já contabilizados dos governos petistas teria de somar outras 57.363 contratações. Os 3,564% de participação relativa da região ao final de 2002 correspondiam a 5.214.210 milhões de empregados formais da indústria de transformação. Os 2,800% registrados em março último equivalem aos 211.713 de estoque ante o total geral de 7.549.833 milhões de trabalhadores.

O resumo dessa ópera nada agradável para quem espera por reestruturação econômica da Província do Grande ABC, em substituição às perdas contínuas, é que mesmo quando vivemos bons momentos, como os anos Lula da Silva de incremento enlouquecido do setor automotivo, hoje na pindaíba, não acompanhamos o ritmo do País na produção de empregos industriais de qualidade.

Nos oito anos de Lula da Silva crescemos 43,61% no estoque de emprego do setor, sempre comparando com o último ano de Fernando Henrique Cardoso. A média brasileira foi superior, de 52,67%. Já no sofrível período Dilma Rousseff, perdemos 20,68% do estoque deixado por Lula da Silva, enquanto o País, como um todo, caiu 5,16%.

Para ser mais didático ainda: quando a maré está boa na área industrial, crescemos abaixo da média nacional que não é lá essas coisas. Já quando do refluxo, desabamos inexoravelmente.

Quem acha que não temos mais nada a acrescentar sobre o comportamento do emprego industrial com carteira assinada na região a partir de janeiro de 2003 está redondamente enganado. Vamos voltar ao assunto. E torcer para que os números de abril que o Ministério do Trabalho deve estar preparando para divulgar antes do final do mês não sejam ainda mais comprometedores ao governo Dilma Rousseff. Infelizmente, não o serão.

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